A insegurança musical de Demi Lovato

Desde que me entendo por gente e comecei dar ouvidos para a música pop internacional, lá por volta de 2006 – quando ouvia algumas músicas de Beyoncé e Shakira na “Jovem Pan” -, pude notar que meu gosto musical passou a ficar cada vez mais apurado, seja para a sonoridade dos artistas que conheci nos anos seguintes, seja para a parte visual de todos os seus projetos da área. Porém, antes de me encontrar nessa indústria e fixar aquilo que hoje considero bom em meio a tantos trabalhos duvidosos, precisei passar pela divertida experiência de conhecer “novos” artistas, por vezes baixando suas discografias completas e mergulhando de cabeça em suas carreiras interessantes.

Em meio a tantos cantores, cantoras e bandas, devo confessar (relutantemente) que algumas séries do Disney Channel como “Hannah Montana” foram fundamentais para abrir as portas do que hoje considero sagrado, e que posteriormente se firmou muito importante na formação da minha adolescência, um período não muito fácil na vida de todos nós. Foi nessa época que, por meio do trabalho de Miley Cyrus e Selena Gomez, um amigo meu acabou por baixar algumas músicas de uma novata chamada Demi Lovato, quem até então só havia lançado o seu álbum de estreia.

Amparada pela experiência dos Jonas Brothers, a iniciante não trazia o glamour de Ashley Tisdale ou a desenvoltura de Miley Cyrus, mas, de alguma forma, sua simpatia extravasava todos os obstáculos impostos pela mídia. Ainda muito tímida, desde cedo Demi fez questão de deixar claro que não era só mais um rostinho bonito e que realmente possuía vontade de mostrar a todos do que era capaz. Dona de uma voz limpa e versátil, logo em suas primeiras músicas de trabalho pudemos notar que a garota estava mais para uma discípula de Christina Aguilera do que de Britney Spears, investindo vez ou outra na potência de seus jovens vocais.

Coescrevendo 9 das 11 faixas de “Don’t Forget”, o debut album de Lovato teve uma ótima estreia na “Billboard 200”, quando pegou um #2 e vendeu 89 mil cópias apenas na semana de estreia, em território estadunidense. Inteligentemente, foram lançados como singles do disco as poderosas “Get Back”, “La La Land” e “Don’t Forget”, que apesar de não serem muito diferentes do pop que tocava em 2008, introduziram a artista perfeitamente ao estrelato padrão da última década. “Camp Rock”, o filme que trazia a cantora no elenco, mal havia sido lançado e o resultado foi que todos fizeram questão de abrir bem os olhos para sua estreia brilhante sob os holofotes. A carreira da garota não poderia estar melhor!

Após diversas aparições em programas de TV, rádios e apresentações televisionadas, Demi já contava com uma significante lista de fãs e seguidores pelo mundo, os mais tarde nomeados lovatics. Vivendo momentos de glória e glamour e com seu nome sendo divulgado em praticamente todas as revistas voltadas para o público feminino adolescente, menos de um ano se passa da estreia de “Don’t Forget” quando “Here We Go Again”, o segundo trabalho de estúdio da moça, vê a luz do dia.

Com uma vibe mais madura e afastada do pop teen característico dos outros artistas da “Hollywood Records” (gravadora afiliada à corporação Disney), e principalmente de seu primeiro álbum, este trabalho soa, de alguma maneira, muito mais consistente que o anterior. Lovato parece ter estudado suas antepassadas Kelly Clarkson e Avril Lavigne a finco para, de sua maneira, gravar um álbum pessoal e cheio de músicas agradáveis aos ouvidos alheios. Trabalhando numa voz mais doce, os instrumentais usados também foram suavizados em “Here We Go Again”. Claro que o disco possui o seu momento alto astral, como em “Got Dynamite”, “Remember December” e “Quiet”, mas nem por isso passou a soar artificial ou genérico. É como se Lovato ainda quisesse ser uma rockstar do pop, mas, ao mesmo tempo, exibisse a sua evidente evolução para os críticos musicais.

Dizem que artistas inteligentes inspiram-se em grandes nomes do passado, mas eu acredito que melhor profissional é aquele que possui a capacidade de olhar para a sua própria história e tirar lições a partir daí. Foi exatamente isso que os produtores e a própria Demi pensaram ao incluir “Catch Me” na tracklist do álbum, faixa gravada nos mesmos moldes da também deliciosa “Don’t Forget”. Não muito diferente, o mesmo aconteceu em “Stop The World”, oportunidade em que Demi convidou Nick Jonas para coescrever a faixa e se desligou dos demais integrantes da banda, podendo, finalmente, caminhar com as próprias pernas. Bom, os esforços pareceram valer a pena, já que “Here We Go Again” estreou em #1 na “Billboard 200” e vendeu 108 mil cópias na primeira semana.

Antes de liberar seu terceiro disco de inéditas, “Unbroken”, em 2011, acontece o inevitável e inesperado para todos aqueles que acompanhavam a carreira da garota: Demi resolve vonluntariamente se internar numa clínica de reabilitação. Após passar grande parte do tempo tentando consertar seus problemas de saúde, é revelado que, além do bullying que sofria na escola, quando criança, Lovato era vítima de distúrbios alimentares, automutilação e transtorno bipolar, o qual descobriu dentro da rehab.

Com a sua saída do programa da Disney “Sonny With a Chance”, Demi passa a trabalhar quase que exclusivamente em cima de seu terceiro álbum, que não soa tão bem estruturado como os anteriores, mas que não deixa de simbolizar um ótimo retorno ao mercado fonográfico. Como numa forma de redenção aos problemas de sua vida particular, a cantora libera os singles “Skyscraper” e “Give Your Heart a Break”, bem aceitas pelo público e populares em rádios de todo o mundo.

Apesar de emanar um som mais genérico que “Don’t Forget” ou “Here We Go Again”, “Unbroken” parece ter sido uma escolha inteligente para reintroduzir Demetria aos holofotes, ainda uma sobrevivente dos resquícios de tudo o que era divulgado pelas más línguas dos tabloides. Estreando em #4 na Billboard 200”, o disco vendeu 96 mil cópias na first week, número abaixo do trabalho anterior, mas acima do disco de estreia.

Convidada para integrar a bancada do “X Factor” norte-americano ao lado de Britney Spears, L.A. Reid e Simon Cowell, as coisas pareciam voltar a se reorganizar aos poucos enquanto o nome de Demi era mais uma vez recolocado nas boas manchetes dos jornais. Tudo indicava que o próximo trabalho de Lovato tinha tudo para ser o mais aventureiro de sua carreira prodígia (o que não deixou de ser), e “Demi” é liberado em maio de 2013. Pegando um #3 na “Billboard 200”, “Demi” trouxe à cantora sua melhor estreia nos charts americanos, distribuindo 110 mil cópias na semana de estreia.

Entretanto, algumas observações devem ser postas no papel, e como um bom observador assumirei esse papel de carrasco. Desde a grande estreia da pequena garota de “Get Back” lá atrás, em 2008, até o mulherão dos dias atuais de “Really Don’t Care”, muita coisa aconteceu, e, querendo ou não, “nós não sabemos por tudo o que ela passou”. Brincadeiras a parte, esse é um ponto que não posso deixar de esclarecer antes de fazer algumas críticas aqui. Eu não sei por tudo o que ela passou, não sei a profundidade de todos os problemas vividos na fase mais obscura de Demi, e eu tenho noção disso. Porém, como um ouvinte de música pop que acompanha a cantora desde a sua estreia nessa indústria, tenho a minha opinião formada de todo o material bom e ruim liberado por ela.

Não sei se deveria, mas, eu gosto de dividir a discografia de Demi em dois grandes períodos muito importantes para a sonoridade de seus álbuns: o momento pré-reabilitação e o momento pós-reabilitação. De alguma forma, por mais infeliz e machucada que se encontrasse, não posso esconder minha opinião ao dizer que seus primeiros trabalhos soavam muito mais coesos do que os de hoje em dia. As faixas anteriormente trabalhadas, de sua maneira, encaixavam-se uma nas outras, e isso ajudou a pequena Demi a partir em direção ao seu próprio estilo, a sua própria essência. E infelizmente isso parece ter ficado pendente em “Unbroken” e “Demi”.

Eu não estou dizendo que os últimos trabalhos da cantora foram ruins, de maneira alguma (até porque estaria cuspindo no mesmo prato em que comi, já que ouvi ambos centenas de vezes). Contudo, essa mistura de elementos presentes nesses discos não parece ser o melhor caminho para um artista seguir, a fim de se evitar um som completamente descompassado. Desde que bem amarrados, vários ritmos podem sim fazer parte de um álbum sólido e maduro (como eu pude ver em “Here We Go Again”, por exemplo), e nem por isso parecer uma confusão sonora. A impressão que eu tenho é que Demi, como artista, ainda é alguém inseguro de seu potencial, que ainda possui medo de se desvincular de suas raízes adolescentes.

Por um lado, eu compreendo que a cantora queira celebrar a sua vida da melhor maneira possível, com muitas cores, fogos de artifícios e balões luminosos, já que o seu passado não foi dos mais felizes. Entretanto, é imprescindível que isso aconteça na medida certa, sem extrapolar qualquer limite do lógico ou aceitável. Excesso nunca é bom para a própria imagem e, uma vez que a mídia te escolhe para usar de Judas – como já fizeram com Christina Aguilera, Mariah Carey e Lady Gaga – o caminho de volta ao topo se torna duplamente mais difícil.

A prova da insegurança de Lovato é que estes mesmos álbuns que estou criticando possui seus grandes momentos, como podemos notar em “Shouldn’t Come Back” e “Never Been Hurt”, do álbum “Demi”, e “Together” e “My Love is Like a Star”, do álbum “Unbroken”. São faixas comerciais que, nem por deixarem de seguir o mainstream, trazem aquela identidade da Demi que tivemos a honra de conhecer há distantes sete anos.

Enfim, se eu tivesse a oportunidade de aconselhar a Demi de hoje com seu quinto disco de inéditas, eu apenas diria para seguir seu próprio coração, como, aliás, tem sido feito até aqui. Todavia, sem medo de se arriscar, de seguir um caminho diferente ou alternativo. Os melhores discos do pop foram construídos quando o seu idealizador teve a brilhante ideia de se desvincular do passado e olhar para o futuro, sem medo do insucesso ou da não aceitação do público. Como eu disse mais acima, eu considero um grande artista aquele que é capaz de olhar para trás e tirar lições de sua própria história, desde que siga um novo caminho. Será que Demi tem mesmo seguido um novo caminho ou apenas tem adiado a sua grande estreia camuflando seus novos materiais como se autênticos fossem? Será que Demi contrariou o que dizia no começo de sua carreira em “La La Land” e vendeu-se para a máquina de Los Angeles?

Não sabemos como será o quinto disco da cantora, não sabemos qual caminho será seguido ou quais artifícios Lovato usará a seu favor, mas, tudo o que nos resta é aguardar para ver. E claro, torcer para que essa talentosa cantora arrebente as amarras que a prendem e se liberte do seu próprio passado para encontrar-se novamente em sua brilhante e confusa carreira. E como muito bem disse a própria Demi, há sete anos: “Well, I’m not gonna change in the La La Land machine. I will stay the same in the La La Land machine, machine, machine. I won’t change anything in my life, I’m staying myself tonight”.

ATUALIZAÇÃO

Talvez você goste de ler também: De Demi à Selena: um olhar crítico sobre o amadurecimento pessoal dos álbuns “Confident” e “Revival”.

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2 comentários sobre “A insegurança musical de Demi Lovato

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