O que está acontecendo com a vida e carreira de Miley Cyrus?

Conquistando o mundo como a garotinha divertida que durante o dia levava uma vida comum no colegial e à noite se transformava em uma superestrela da música pop, foi graças a série “Hannah Montana” que Miley Cyrus teve a oportunidade de se lançar no universo do entretenimento em meados de 2006. Moldando uma carreira consagrada com diversos #1s na “Billboard 200” e demais paradas de sucesso, a atração do “Disney Channel” não apenas proporcionou à filha de Billy Ray a oportunidade de ser uma das protagonistas mais adoradas da face da Terra, como também de investir na sua própria trajetória individual.

Desde que lançou três discos e um EP sob o seu próprio nome (“Meet Miley Cyrus”, “Breakout”, “The Time Of Our Lives” e “Can’t Be Tamed”), todos gravados nos estúdios da “Hollywood Records”, Miley teve um bom tempo para se desvincular do papel que a havia feito famosa e correr atrás do que sempre sonhara desde muito cedo: sua liberdade. Contudo, isso não acabou acontecendo e, para sua infelicidade, tudo com o que resolveu trabalhar (tanto filmes quanto álbuns) resultou naquele típico rótulo de “mais um trabalho assinado pela garota por trás de Hannah Montana”.

Quando um artista se envolve em um grande projeto que o torna mundialmente conhecido, é natural que as pessoas o associem costumeiramente ao papel desempenhado, e, por óbvio, o questionem sobre tal personagem em quase todas as entrevistas concedidas para jornais, revistas e programas de TV possíveis. Nos cinemas podemos citar como exemplo o talentoso Daniel Radcliffe, que, por conta de sua dedicação ao interpretar Harry Potter, acabou recebendo o encargo de lidar com a imagem do bruxinho órfão para todos os cantos em que resolvia aparecer. Enquadrando-se no mesmo cenário musical-televisivo de Miley, encontramos ainda a sempre simpática Hilary Duff, atriz e cantora que precisou superar as constantes comparações à Lizzie McGuire para crescer e protagonizar seus próprios projetos paralelos (e que, diga-se de passagem, o fez com total maestria).

Entretanto, por que que com a Srtª Cyrus toda essa transição de imagem se deu em proporções tão gigantescas e aterrorizantes? Para responder este questionamento, nós devemos primeiro voltar 5 anos no tempo e analisarmos a era que sucedeu o extended play “The Time Of Our Lives” e antecedeu o disco “Can’t Be Tamed”. Desde o seu hit “Party In The U.S.A.”, Miley Cyrus veio aos poucos abraçando um gênero musical mais adulto combinado com figurinos mais ousados, sempre se envolvendo em uma polêmica aqui e ali (quem não se lembra do mini pole-dance coreografado no “Teen Choice Awards” de 2009 que causou aquele falatório desnecessário?). Apesar de sua busca por maturidade ter começado por aí, foi somente depois de seu terceiro disco solo, liberado em 2010, que a cantora e atriz escancarou para o mundo que estava cansada de ser usada pela indústria do entretenimento e que ansiava por uma quebra de padrões.

Em uma tentativa de abraçar um novo público, em “Can’t Be Tamed” Cyrus resolveu “se inspirar na música eletrônica de Lady Gaga” e procurou por horizontes totalmente diferentes daqueles em que havia caminhado desde “See You Again”, seu primeiro single fora de “Hannah Montana”. Trazendo diversos desabafos coescritos pela própria Miley ao lado de Antonina Armato, John Shanks e Tim James, a antiga morena anunciou como carro-chefe a faixa-título do trabalho e proclamou que “não poderia ser domada” tão facilmente pelo pessoal por trás de sua imagem pública. Mesmo que não tenha sido tão bem recebido pelo público e pela crítica especializada da época, “Tamed” possui muito da essência que Miley tanto rejeitou após a entrada da era “Bangerz”. Exemplos disso são as faixas “Liberty Walk” e “Robot”, nas quais a cantora deu um chega pra lá em seus antigos patrões e nos contou um pouquinho das atrocidades que somente quem esteve presente nos bastidores teve conhecimento.

“Não viva uma mentira, essa é a sua única vida, você não vai se perder, apenas ande, pois essa é a caminhada pela liberdade, então diga adeus para as pessoas que te amarraram. Sinta seu coração outra vez. Respirando um novo oxigênio, liberte-se e não deixe de respirar nunca mais. Não fique com medo de tomar uma atitude, não vai doer, simplesmente faça o que você nasceu para fazer, tudo funciona assim. Não escute todas as pessoas que tanto odeiam, tudo que eles fazem é te ajudar a cometer os seus erros por você, você não pertence a elas. Eu já te disse, tudo ficará bem, nós vamos conseguir, quando vivermos”: trechos de “Liberty Walk”.

“Tem sido assim desde o começo, um pedaço depois de outro para fazer o meu coração. Mas o barulho do aço, a batida e o ranger gritam para me lembrar quem decide minha vida. Com o tempo tudo morre, nada sobra por dentro, só metal enferrujado que nunca nem foram meus. Vou gritar, mas sou apenas essa casca superficial, esperando aqui, implorando. Por favor, me liberte para que eu possa sentir. Pare de tentar viver minha vida por mim, eu peciso respirar, eu não sou o seu robô. Para de dizer que sou parte dessa grande máquina, estou me libertando, você não vê? Não posso me mover, não posso sentir. Você me deu olhos, então agora eu vejo que não sou seu robô, sou apenas eu. Todo esse tempo eu fui enganada, não havia nada além fios interligados na minha cabeça. Fui ensinada a pensar que o que eu sinto não importa, até você dizer que é real”: trechos de “Robot”.

2013 chegou e uma nova Miley Cyrus totalmente repaginada nos foi reintroduzida ao som de “We Can’t Stop”, o first single da era “Bangerz”. Renegando tudo o que já havia feito até aqui e afirmando que o novo disco era considerado o seu “primeiro álbum de verdade”, Cyrus fez tanta questão de enterrar o passado que apenas duas de suas canções antigas entraram para a setlist da “Bangerz Tour”: “Party In The U.S.A.” e “Can’t Be Tamed”. Todavia, nem tudo mudou tanto assim de um dia para o outro e, diversos indícios de que uma pequena parte da personalidade de Miley já conhecida pelo público ainda existia dentro de si, acabaram sendo demonstrados no decorrer destes últimos dois anos.

Seja por não querer participar do “esquadrão de Taylor Swift” ou por criticar o mimimi de Nicki Minaj ao trazer à tona toda uma luta racial que perdura há séculos apenas por não ter sido indicada a uma categoria do “VMA” por uma música de qualidade duvidosa, Cyrus felizmente ainda acredita que o ódio e a liberdade de expressão não devem perfazer o mesmo caminho juntos. É claro que todo esse furdúncio envolvendo preconceito e exposição da mídia culminou em um grande atrito entre as cantoras no próprio palco do “Video Music Awards” deste ano, mas, mais uma vez sendo fiel aos seus ideais, a loira se saiu bem da situação e respondeu a rapper sem abaixar o nível ou partir para a agressão. Bem semelhante ao “radiate love” espalhado pela artista em 2011 e que se tornou um lema para os fãs, não?

Demonstrando ainda todo o carinho que possui pelos seus smilers e indo em direção contrária à guerra travada por Taylor Swift contra os serviços de streaming, recentemente foi liberado na web pela loira o “Miley Cyrus and her Dead Petz”, álbum completamente gratuito e lançado de forma independente. Não visando qualquer fim lucrativo e nadando contra a maré da industrialização da música atual, a cantora revelou há menos de uma semana que “gosta de fazer a música que tem vontade” e acrescentou não ter gasto nem 50 mil dólares no material em questão.

Pode ser difícil de imaginar, mas, se por um lado temos a Miley V1D4 L0K4 que está pouco se lixando para o que dizem a seu respeito, por outro encontramos também os resquícios de uma criança submetida a uma vida nada fácil carregada de muitas responsabilidades. Contando um pouco sobre o inferno que era ser submetida a toneladas de maquiagem e a uma jornada de trabalho que se resumia a passar 12 horas diárias nos estúdios de gravação, a jovem contou para a “Marie Claire” deste mês que adquiriu sérios problemas de ansiedade desde que estrelou o programa do “Disney Channel”. Dá pra acreditar que a primeira menstruação da menina ocorreu durante uma das filmagens de “Hannah Montana” enquanto usava uma calça branca? Pois é, e essa história não acaba por aqui! De acordo com ela, a pressão era tamanha que equipe do seriado a colocou para “parecer com alguém que não era, o que provavelmente me causou alguma deformidade corporal. Eu tinha sido embelezada todos os dias por tanto tempo, que, de repente, quando estive fora da série, comecei a pensar: ‘quem diabos sou eu?’.”

Se antes as polêmicas se faziam presentes um dia ou outro no cotidiano da musicista, agora elas se tornaram o nome do meio da nascida Destiny Hope Cyrus. Estampando 9 a cada 10 manchetes de tabloides do mundo inteiro em decorrência de suas aparições com roupas inapropriadas, performances sexualizadas e entrevistas carregadíssimas de um linguajar grosseiro, a cantora passou a ser mais conhecida por sua irreverência do que pelo talento que realmente sempre carregou consigo. Tornando-se uma caricatura de si mesma, Miley tem recebido tanta atenção da mídia e do público que transformou-se em uma nova artista completamente diferente de quem já foi um dia. Mas, a questão que não quer calar é: qual é a verdadeira Miley?

Essa é uma pergunta que não cabe a qualquer um responder, mas a própria Miley Cyrus. O tempo é o melhor remédio e eu realmente acredito que vai chegar uma hora em que a Srtª Cyrus se dará conta de tudo o que tem feito para fugir dos seus antecedentes na música e abraçará as prerrogativas de ter interpretado um dos maiores personagens da cultura pop infantil. Nenhum de nós quer ser controlado o tempo todo, Miley, mas, será que não chegou o momento de desacelerar esse ritmo desenfreado e tomar as rédeas da sua própria vida?

5 comentários sobre “O que está acontecendo com a vida e carreira de Miley Cyrus?

  1. Lari Reis 5 de setembro de 2015 / 10:02 PM

    Muito legal esse post, sobretudo a parte final. Escrevi sobre Miley recentemente [http://yellowevershine.com.br/2015/08/19/de-madonna-a-miley/] e tento mesmo acreditar que ela está fazendo algo bom para a sociedade com toda essa irreverência. Sua reflexão, porém, me revelou questões reais e uma nova reflexão: Miley tem potencial para derrubar algumas barreiras desnecessárias que o mundo ainda insiste em erguer. Mas, pode acabar se perdendo em si mesma… Espero que não.

    Beijos

    • Marcelo 6 de setembro de 2015 / 10:38 PM

      Vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos e torcer bastante para que ela consiga nos provar que veio para ficar e revolucionar!

      • Lari Reis 7 de setembro de 2015 / 10:17 AM

        E revolucionar! Quem sabe a própria Miley vai ser a pessoa a quebrar esse “novo padrão da cultura pop” que conversamos sobre…

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