De Demi à Selena: um olhar crítico sobre o amadurecimento pessoal dos álbuns “Confident” e “Revival”

Não é de hoje que o império criado e regido pelo grande Walt Disney tem destacado na indústria do entretenimento alguns trios de artistas que vez ou outra acabam sendo lançados conjuntamente e desafiados a concorrerem ao título de “maior astro da sua geração”. Há cerca de 15 anos isso acontecia com os ex-integrantes do “Clube do Mickey” Britney Spears, Christina Aguilera e Justin Timberlake, e há uma década o mesmo feito foi repetido por ninguém menos que Hilary Duff, Lindsay Lohan e Raven Symoné. Pouco tempo depois, após estes músicos/atores consagrarem-se em uma carreira de sucesso com feitos invejáveis e dignos de nossa admiração, três outras novatas seriam rapidamente recrutadas para dar continuidade à típica tradição do “Disney Channel”: Miley Cyrus, Selena Gomez e Demi Lovato.

Não é nenhuma novidade que faz mais de cinco anos que essas garotas estão por aí no mercado musical liderando um gigantesco grupo de seguidores que faz de tudo para ver seus ídolos no topo da fama, mas, quem diria que em pleno 2015 acompanharíamos um embate tão acirrado em busca pelo #1. Por mais que os fãs ou as próprias cantoras desmintam qualquer rivalidade existente, não há como negar que as condições em que seus recentes projetos se encontram causará, mesmo que indiretamente, uma disputa de opiniões do público que julgará qual o melhor ou pior trabalho lançado por suas criadoras. “Revival”, de Gomez, foi recém lançado há pouco mais de uma semana, no dia 09/10, enquanto “Confident”, de Lovato, viu a luz do dia pela primeira vez há apenas 48 horas (no dia 16/10).

Lançamentos próximos à parte, outra semelhança que une Demi à Selena é que tanto uma quanto a outra acabam de completar em seus catálogos os seus 5ºs discos de inéditas após passarem mais de meia década gravando álbum atrás de álbum. Demi, que começou lá em 2008 com o “Don’t Forget”, já nos oportunizou conhecer “Here We Go Again” (2009), “Unbroken” (2011) e o homônimo “Demi” (2013); ao passo que Selena fez sua estreia em um distante 2009 com o “Kiss & Tell” e, ainda na banda The Scene, liberou “A Year Without Rain” (2010) e “When the Sun Goes Down” (2011). Seu primeiro disco solo (e o quarto da carreira), “Stars Dance”, foi liberado também em 2013.

Força do destino ou não, esta não é a primeira vez que as intérpretes de Alex Russo e Sunny Munroe (dos seriados “Os Feiticeiros de Waverly Place” e “Sunny Entre Estrelas”) “competem” durante o mesmo intervalo de tempo na tão disputada indústria fonográfica. Como podemos observar logo acima pelas datas de lançamento dos materiais produzidos e gravados pelas cantoras, em 2009 “Kiss & Tell” e “Here We Go Again” (mesmo que lançados com uma diferença de dois meses) travaram uma singela batalha pelos charts musicais da década anterior. Quatro anos depois, em 2013, seria a vez de “Demi” e “Stars Dance” (também liberados com uma diferença de dois meses) repetir o embate e marcar o segundo round do combate Lovato x Gomez.

Coincidentemente ou não, até aquele momento as duas garotas pertenciam à mesma gravadora (a “Hollywood Records”), razão que talvez explique a estratégia de não colocar uma de frente com a outra diretamente (e assim prejudicar o faturamento do selo em questão). Mas, agora que Demi assinou um acordo “Island”, a “Safehouse Records” e a sua antiga gravadora, a “Hollywood” – e com Selena na “Interscope Records” e de fora da jogada –, parece que as coisas vão realmente esquentar nesse duelo de divas teen. Uma vez que não mais dividem os mesmos corredores e estúdios de gravação, será que os produtores se atentaram a isso e, enxergando a possibilidade de ver o circo pegar fogo, organizaram o que seria o capítulo mais emocionante e sanguinário deste confronto da década?

Talvez sim, talvez não. Deixando de lado qualquer animosidade que possa vir a surgir por conta de todas as observações acima correlacionadas, as cantoras mostram que são maiores que a fofoca dos tabloides e há mais de um mês registraram no Instagram um momento super fofo que nos remeteu à antiga amizade Semi ou Delena (como os fandoms gostavam de se autoproclamar). Para quem não sabe, Gomez e Lovato são amigas há muitos e muitos anos, desde quando participaram das 7ª e 8ª temporadas do “Barney & Friends” e mais tarde solidificaram seu vínculo no longa “Programa de Proteção para Princesas”, filme estrelado por ambas em 2009. Após sobreviverem a boatos de que o seu relacionamento estaria abalado, as duas fizeram questão de focar nas duas únicas coisas que seriam capazes de não afetar tanto as suas vidas particulares: pararam de dar atenção ao falatório do povo e trabalharam pesado em seus atuais projetos.

Mas, os obstáculos não param por aí! Provando que crescer faz parte da vida de qualquer pessoa, a dupla precisou enfrentar cada qual da sua maneira os riscos de possuírem sérios problemas de saúde que podem facilmente assolar qualquer indivíduo do planeta (como eu ou você). Demi, que há anos passou por distúrbios alimentares e chegou a ser diagnosticada com transtorno bipolar, disse em recente entrevista que ainda luta contra a enfermidade mental, apesar de estar satisfeita com os resultados do tratamento e da atual vida que leva com o namorado, Wilmer Valderrama. Já Selena, que há dois anos chegou a cancelar alguns shows sob a suspeita de estar sendo submetida a uma clínica para tratar uma provável dependência química, revelou neste mês que estava, na verdade, fazendo sessões de quimioterapia por conta de lúpus. Sem Justin Bieber ao seu lado, a morena ganhou apenas mais um motivo para se inspirar e caprichar nas músicas que gravou para seu 5º álbum.

Partindo para um caminho completamente diferente daquele seguido por sua conterrânea ex-Hannah Montana, Gomez e Lovato não parecem (ainda) possuir qualquer interesse em se render às polêmicas da nudez explícita ou do uso liberado de drogas, artifícios que a Srtª Cyrus tanto gosta de exteriorizar em suas apresentações e atuais trabalhos. É claro que isso não quer dizer que Demi ou Selena se neguem de protagonizar ensaios fotográficos provocantes e regados com muita sensualidade, mas seus objetivos são de longe meramente ilustrativos. Seja para dar enfoque ao renascimento artístico que precisaram passar para reinventar sua sonoridade ou à aceitação do próprio corpo como um aliado, e não um arqui-inimigo, dá pra se notar facilmente que polemizar não se mostra logo de cara um objetivo, mas apenas uma consequência daquilo que fazem para levar ao público seu trabalho principal: que é a música. Resposta a essa tese é o material que podemos encontrar em “Confident” e “Revival”, os novíssimos álbuns das ex/atuais-melhores amigas.

Demi, quem decidiu apostar em um som mais urbano que mistura o seu antigo pop-rock de “Don’t Forget” com o atual mainstream de “Demi”, teve a interessante ideia de trazer as influências do gospel e da black music em faixas como “Father” e “Waitin For You”. Chamando as rappers Iggy Azalea e Sirah para fazer uma participação especial e deixar o disco mais diversificado, a cantora foi certeira ao optar pela faixa-título como o segundo single do disco. Apesar de o carro-chefe “Cool for the Summer” ter feito bastante sucesso e sido o responsável por chamar a atenção de todos aqueles que estavam ansiosos por novas músicas da cantora, não há como negar que o forte da cantora é o pop-rock, e não a música mais pendente para as pistas de dança. Acertadamente, “Confident” dá a Lovato a oportunidade de soltar os seus poderosos vocais em cima do palco e nos contagiar com sua energia única e inesgotável (a contragosto de “Summer”, que parecia fazer a moça se conter para reproduzir um timbre mais sussurrado, sensual). Outros pontos altos do disco, com certeza, são “Wildfire”, “Old Ways”, “Yes” e “Mr. Hughes”, canções que nos trazem uma Demi mais espontânea e que realmente fazem jus ao título do 5º álbum da norte-americana.

Se Lovato consegue agradar sem medo sua fiel fã-base de seguidores, Gomez não fica nada atrás ao tentar abraçar um novo público sem decepcionar seu antigo. Gravando as super intimistas faixa-título, “Survivors” e “Nobody”, “Revival” consegue levar até o seu ouvinte diversas facetas da cantora completamente opostas entre si, mas que se completam de maneira milimetricamente adequada. Seja pela dançante “Kill Em with Kindness” (próximo single, por favor), a balada emocional “Camouflage” ou o sangue latino de “Me & My Girls” ou “Outta My Hands (Loco)”, a morena parece finalmente ter encontrado a harmonia no doce timbre de sua voz com sua verdadeira personalidade. Em comparação com seus demais discos, “Revival” é de longe o mais profissional e maduro da iniciante discografia da moça, mostrando a quem o ouve uma honestidade jamais vista desde o grandioso “Dignity”, da Hilary Duff. Citando como suas maiores influências as veteranas Janet Jackson e Christina Aguilera, o álbum “Stripped” da última foi uma das maiores inspirações para o 5º material de Selena.

Se por um lado muitos foram os acertos protagonizados pelas cantoras em seus recentes trabalhos de inéditas, por outro alguns deslizes suscetíveis de acontecer com qualquer pessoa acabaram se mostrando presentes aqui também (ao meu ver mais em “Confident” e menos em “Revival”). Apesar de ter sido muito bem aceito pelos fãs e por quem acompanha de pertinho a carreira de Demetria, o desejo de sempre alcançar notas altas ainda é um problema para a musicista. Começando muito bem e pecando pelo exagero, “Stone Cold” e “Lionheart” tinham tudo para ser as maiores baladas da carreira de Demetria, mas em certo momento os vocais da cantora chegam a incomodar tanto que o ouvinte mais sensível se verá pulando de faixa para não ouvir as constantes mudanças no tom de voz dela. No que se refere à Selena, o único empecilho que consegui enxergar em suas novas músicas é uma pequena dificuldade de se desvincular de vez do pop-teen que a fez tão famosa (e que deixaram alguns vestígios em “Soberfor”, “Rise” e “Cologne”). Contudo, seu gigante amadurecimento em “Good for You”, “Camouflage” e “Perfect” são memoráveis, compensando assim qualquer deslize pouco preocupante.

Sem julgamentos de qual teria sido o melhor ou pior dos últimos lançamentos, “Confident” e “Revival” surgem para pôr um basta nas desnecessárias comparações de que Demi seria melhor que Selena ou vice e versa. É verdade que Lovato possui uma voz muito mais poderosa que Gomez, mas todos os esforços gastos com aulas de canto e em tentar ser uma vocalista melhor desempenhados por esta dão à Selena um crédito que a equipara ao mesmo nível de Demi, ao meu ver (confere só essas apresentações de “Same Old Love” e “Good for You”). Toda a confiança adquirida pela voz de “Cool for the Summer” neste ano é, ainda, um fator que a faz ser digna de possuir um disco denominado “Confident”, ao meu ver um avanço em comparação ao homônimo “Demi”, que pouco inovou e muito chamou a atenção. Demi Lovato e Selena Gomez ainda são jovens, o que as permite, sem qualquer problema, explorar sua pouca idade se divertindo com o som produzido nos estúdios de gravação. Desde que haja progresso, amadurecimento e honestidade, quem somos nós para crucificar alguém?

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7 comentários sobre “De Demi à Selena: um olhar crítico sobre o amadurecimento pessoal dos álbuns “Confident” e “Revival”

  1. Lari Reis 20 de outubro de 2015 / 9:40 AM

    Muito bom esse post! Muito bom mesmo!
    Aliás, seu conteúdo está cada vez melhor 🙂 Isso é digno de revista. Falo isso porque eu adorava a revista da MTV e sinto falta de publicações do tipo.

    Quanto às duas moças, conheço a Selena muito pouco. Na verdade, comecei a acompanhar um poquinho dela depois que ela se desprendeu do Bieber (que não me interessa nem um pouco so far). Estou curiosa para saber como esse novo trabalho vai colocá-la, de fato, no mundo… Quanto à Demi, ela é uma das minhas pessoas preferidas!

    • Marcelo 20 de outubro de 2015 / 9:51 AM

      Aah, que é isso, Lari, obrigado mesmo. Saber que pessoas como você acompanham e gostam dos meus posts faz toda a diferença pra mim (dá aquele gás que todos precisamos pra sempre procurar melhorar trazendo coisas novas). Vamos ver como as garotas vão se sair, né, e torcer pra que de agora em diante só venha progresso. A Demi é mesmo uma pessoa de fibra, todo esse apoio às causas sociais mostra o quão ela se importa com as pessoas e tem um grande coração! 🙂

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