De Justin Bieber a 1D: novos álbuns saem da zona de conforto e vão em busca de autoafirmação

Primeiramente, antes que qualquer um torça o nariz para o título desta matéria, seu conteúdo ou seus destinatários, farei um pedido encarecedor a você, caro leitor, que chegou até aqui por alguma razão: por favor, dê uma segunda oportunidade ao que tenho a dizer adiante. Todo ser humano possui o péssimo hábito de prejulgar aquilo que desconhece (ou que acredita conhecer: sem, na verdade, saber nada sobre o assunto) – e, dessa forma, constrói uma opinião injusta e desprovida de qualquer senso crítico legal. Eu não venho por meio deste artigo defender cantores dos quais nem ao menos sou fã, pois, meu único objetivo sempre foi compartilhar com quem acompanha o Caí da Mudança algumas de minhas diversas ideias sobre a cultura popular em geral. Nenhum discurso de ódio será tolerado, portanto, peço que tenha respeito acima de tudo. Dado o aviso, boa leitura!

One Direction e Justin Bieber são, definitivamente, dois nomes bem diferentes um do outro, mas que conseguiram, durante muito tempo, manter algumas similaridades que até mesmo o mais dedicado dos fãs não poderia negar de maneira alguma. Desde que surgiram no mercado musical há aproximadamente meia década e solidificaram uma legião de seguidores devotos – que são capazes de tudo para agradar a seus ídolos supremos –, tanto o cantor canadense quanto a banda inglesa acabaram, de uma forma ou de outra, sobrevivendo a diversas das consequências de ter o seu dia a dia exposto 24h por dia, 7 dias por semana, ao mundo todo. Vivendo como se fossem candidatos de um “Big Brother” da vida real transmitido a qualquer um com acesso à internet e aos meios de comunicação, estes garotos de 20 e poucos anos não demoraram muito para descobrir que a fama é capaz de trazer ao seu detentor várias sequelas nem sempre reveladas de imediato pelas luzes dos holofotes.

Niall Horan e Harry Styles

A principal delas, sem sombra de dúvidas, é a cobrança do público, e quando digo isso não menciono apenas profissionalmente – em relação ao som produzido pelos caras (taxado pela maioria das pessoas como infantil e sem conteúdo) –, mas também particularmente – quando milhões de pessoas passaram a vê-los com certos olhos de malícia. É fato que, enquanto os membros da banda ou o astro solo não passaram a namorar garotas ou a frequentar academias para ver seus corpos esculpidos pelos moldes exigidos pela sociedade contemporânea, muita da pressão de ser um modelo perfeito para milhares de adolescentes não deu uma folga para ninguém. Com a quase obrigatoriedade de deixar bem claro para a mídia pontos íntimos de suas personalidades (principalmente a sexualidade), não é à toa que muitos destes músicos prodígios optaram, de uns tempos para cá, em levar uma vida de incertezas totalmente desregrada de limites sociais.

O maior exemplo disso é Justin Bieber, o garoto que cresceu diante dos olhos de todo o planeta com o sonho de se tornar cantor e precisou se mostrar indiferente, desde muito jovem, com as críticas recebidas em decorrência do lançamento de seus primeiros singles (“One Time” e “Baby”). Sendo uma das maiores vítimas do bullying cibernético da história da internet (por acaso alguém aí já se esqueceu de toda a perseguição organizada por grupos de pessoas que passavam a maior parte do tempo espalhando o ódio e desejando o pior para o menino lá em 2009 e 2010?), Bieber achou por bem deixar a imagem de bom moço em segundo lugar para aventurar-se em uma nova imagem pública um tanto quanto mal vista não apenas pelos fãs, mas também por quem não sabe nada sobre sua trajetória. Não muito diferente, após uma saída conturbada do grupo ao qual pertencia desde o começo desta década, Zayn Malik é outro que vez ou outra se mete em confusão ao soltar declarações polêmicas sobre o One Direction ou sobre seus atuais membros restantes (mostrando certa “ingratidão” desarrazoada). Juntos eles representam o clássico exemplo do agredido que, com o passar do tempo, passa a adotar a figura de agressor!

Deixando estes aspectos de lado (pois não são o foco desta resenha), ambos os artistas voltaram a possuir mais um elemento em comum em suas carreiras depois que seus novos projetos acabaram por ser agendados e lançados no mesmo dia. Enquanto o One Direction trabalhava com a incerteza de ver seu 5º disco de inéditas (o 1º sem Zayn) bem aceito pelos fãs e pelo público, Justin preparava o terreno para entregar aos beliebers seu 4º álbum após o desempenho mediano da coletânea “Journals” (de 2013). “Purpose”, de Bieber, e “Made in the A.M.”, do 1D, foram liberados para as estantes das lojas norte-americanas no último 13 de novembro (sexta-feira passada) em uma competição tão intensa que rendeu, inclusive, críticas diretas do próprio canadense ao quarteto inglês. As estimativas apontam que Bieber poderá levar a melhor sobre o grupo, mas se engana quem acredita que essa diferença será muito grande (o resultado oficial nós só saberemos no próximo domingo, 22/11).

Liam Payne

Esquecendo esta doentia rivalidade enraizada no conflito Justin Bieber X One Direction, tanto um artista quanto o outro têm se saído muito bem na divulgação de suas atuais músicas de trabalho pelos territórios norte-americano e britânico, seus principais públicos alvo. Enquanto Justin conseguiu emplacar “What Do You Mean?” em #1 nos dois territórios (com direito ao 2º single “Sorry” em #2 nos EUA e #2 no UK), o One Direction segue com “Drag Me Down” em #1 no Reino Unido e #3 na América, e com “Perfect” em #2 na “Terra da Rainha” e em #10 na “Terra do Tio Sam”. Movendo a divulgação de seus projetos a todo vapor, a crítica especializada também têm majoritariamente aprovado “Purpose” e “Made in the A.M.”, como Kenneth Partridge da “Billboard”, quem concedeu a ambos os álbuns a nota 4/5 (confira as reviews em inglês aqui e aqui), e o “Metacritic”, que concedeu ao 1º 66/100 pontos e ao 2º 65/100.

Mais parecido com “Journals” e menos com “Believe”, é inacreditável o quanto a sonoridade de Justin mudou em tão pouco tempo, nos lembrando bastante aquela quebra de estereótipos vivida por Christina Aguilera em 2002 com o seu consagrado “Stripped”. Partindo para uma música mais urbana e menos pop clássica, muito do “Purpose” segue a linha de “What Do You Mean?” e aposta em batidas do R&B harmonicamente encaixadas à dance music. Com seu nome creditado na composição de todas as faixas gravadas para o álbum (muitas das quais foram coescritas também pelo compositor Jason “Poo Bear” Boyd), Ed Sheeran foi apenas mais um dos ilustres convidados que tiveram o mérito de participar do “Purpose” ao contribuir com a balada “Love Yourself”.

Carregando uma canção ou outra mais genérica (“Children”), até mesmo estas se mostram diferentes de tudo que tem tocado nas rádios atuais e acentuam que a criatividade foi um dos principais objetivos buscados por Bieber quanto da criação, produção e masterização de tudo o que compõe seu atual material. Outros destaques do disco são a parceria com o Skrillex (o mesmo de “Where Are Ü Now”), com quem Justin voltou a trabalhar em 6 das inúmeras canções de “Purpose”; o dueto com Ariana Grande no remix para o carro-chefe do trabalho (liberado apenas para quem adquirisse uma cópia do CD na pré-venda do iTunes); a emotiva faixa-título e “I’ll Show You”, “Sorry” e “Get Use To It”, as sucessoras naturais de “What Do You Mean?” (será que só eu notei uma mínima semelhança delas com a trilha sonora de um dos maiores jogos de videogame de todos os tempos? – compare aqui e aqui).

Louis Tomlinson

Confirmado o boato de que a banda passará por um hiato em 2016 para dar aos seus integrantes tempo para trabalharem em suas carreiras solo, “Made in the A.M.” marca o último álbum lançado pelo One Direction antes da pausa que deverá durar ao menos 1 ano. Seguindo o caminho aberto por “Midnight Memories” (2013) e “Four” (2014), “A.M.” definitivamente traz um som mais maduro se o comparamos a todos os outros discos da banda, especialmente “Up All Night” (2011) e “Take Me Home” (2012) – é incrível o quanto a banda cresceu em 5 anos. Acertando ao apostar suas fichas em canções mais acústicas e melodramáticas, o novo material soa menos pretensioso que seus antecessores, os quais foram naturalmente moldados para ser mainstream e redirecionados a um público mais jovem.

Não que este seja o menos cativante entre os já existentes e liberados pela discografia do grupo, mas é inevitável a busca por novos horizontes que seus integrantes têm desejado desde o lançamento do seu 3º disco. Um divisor de águas na carreira do One Direction, “Made in the A.M.” merece nossos cumprimentos por conseguir agradar diferentes gostos sem perder seu foco principal, soando totalmente coeso, coerente e nada confuso (algo fácil de acontecer em um material tão eclético). Trazendo faixas que possuem a já conhecida fórmula de seus últimos trabalhos, especialmente dos dois últimos (“Perfect”, “Olivia”, History”, “Temporary Fix”), o disco ainda consegue brincar com um som mais genérico (“Drag Me Down”) enquanto o harmoniza com uma amostra do som que a banda poderá continuar produzindo em alguns anos (“If I Could Fly”, “Long Way Down”, “What a Feeling”, “Walking in the Wind”).

Crescendo em um ambiente hostil onde o seu único anfitrião receptivo foi o seu próprio público, é admirável que os garotos do One Direction ao lado de Justin Bieber tenham conseguido sobreviver às armadilhas pregadas pela perigosa indústria fonográfica e se mostrem, hoje, verdadeiros nomes de peso. Atualmente, não é nenhuma novidade que um artista com menos de 10 anos de carreira (e que continua a trabalhar arduamente recebendo os bons méritos pelos seus esforços) já possa ser considerado um veterano no meio em que atua (Lady Gaga e Katy Perry que o digam). Da mesma forma, atingir 15 anos passa a se tornar uma missão quase impossível, vez que, cada vez mais, torna-se frequente a prática de “descartar” vozes consideradas antigas à procura de “novos talentos” (os quais, muitas vezes, não possuem talento algum). Felizmente, tanto One Direction quanto Justin Bieber já nos provaram em todos esses anos que talento é algo que possuem de sobra, lhes faltando, apenas, um redirecionamento melhor do som que costumavam produzir nos estúdios de gravação. Agora que este “problema” parece ter sido solucionado e o futuro passa a tomar forma, não me resta mais nenhuma dúvida de que estes trabalhos são apenas os primeiros de muitos que definitivamente honrarão os seus nomes e a sua eficaz competência.

Fortalecendo suas vulnerabilidades expostas ao mundo e transformando sua pele em uma casca espessa como a superfície de uma armadura, no fim das contas parece-me que toda a batalha enfrentada por Harry, Niall, Louis, Liam e Justin se mostrou compensatória!

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6 comentários sobre “De Justin Bieber a 1D: novos álbuns saem da zona de conforto e vão em busca de autoafirmação

  1. Sorry ♋ (@RehJBLS) 19 de novembro de 2015 / 2:03 PM

    Adorei o texto, continue fazendo críticas de Música Pop. realmente Purpose é meio Journals e por isso gosto bastante, o 5º álbum do 1D não me agradou com as músicas lentas do Álbum, mas trouxe umas bem diferentes como History, Olivia. prefiro os 2 álbum anteriores deles. sempre viciava nas músicas deles quando lançavam nesse novo projeto isso não aconteceu.

    • Marcelo 19 de novembro de 2015 / 3:08 PM

      Obrigado pelo carinho. Eu acredito que seja como eu tenha dito mesmo: talvez eles estejam buscando novos públicos com um novo som, mais maduro, diferente. O bom do Made in the A.M. é que ele funciona de uma forma bem eclética, abraçando o público já conhecido deles e tentando agradar um novo. Vamos aguardar pra ver o que teremos pela frente.

    • Marcelo 19 de novembro de 2015 / 3:21 PM

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