Com álbum reanimador, Troye Sivan faz estreia surpreendente (e pra lá de digna) no meio musical

Contrariando uma frustração que tenho vivido há, pelo menos, quatro anos, 2015 surgiu para revirar de cabeça para baixo o amargo sentimento de insatisfação que tenho experimentado (e exteriorizado) em relação aos recentes caminhos seguidos pela música internacional. Desde que os maiores artistas desta gigante indústria decidiram “se vender” ao estabelecer como padrão a aceitação de um som mais genérico (e menos conceitual), confesso que cada vez mais fui ficando sem esperanças para o que o futuro nos reservava. Preocupado com a escolha de 9 a cada 10 cantores que pareciam se importar mais com os seus objetivos financeiros aos artísticos, felizmente muita gente “do bem” surgiu nos últimos 12 meses para revitalizar o que temos ouvido por aí e me tranquilizar quanto às minhas temidas incertezas. Uma dessas pessoas foi o novato Troye Sivan, e é com este post que você e eu saberemos um pouquinho mais sobre a vida e carreira do jovem australiano de apenas 20 anos.

Troye em ensaio fotográfico para a revista Bullett (2015)

Nascido na África do Sul e naturalizado na Austrália, Troye começou cedo a caminhar rumo ao estrelato e consolidar uma carreira de ator juvenil em filmes como “X-Men Origens: Wolverine” (quando interpretou o jovem James Howlett) e como o protagonista da trilogia “Spud”. Ingressando ao YouTube no ano de 2007, época em que compartilhava alguns vídeos musicais, o garoto só foi estourar cinco anos mais tarde, quando começou a publicar vlogs e a chamar a atenção dos milhares de seguidores que conquistou com seu carisma e criatividade. Em maio deste ano, a conta de Troye no website ficou em #3 dentre as mais populares da Austrália, com mais de 3,7 milhões de inscritos e mais de 224 milhões de visualizações. Também trabalhando com teatro e televisão, o menino não demoraria muito, porém, a reabraçar as suas origens e voltar a manter o foco na carreira musical, o seu primeiro e grande amor. Liberando dois extended plays de forma independente e disponibilizando-os para download digital – “Dare to Dream” (de 2007) e “June Haverly” (de 2012) –, os caminhos do cantor só sofreriam uma reviravolta da água para o vinho com o acontecimento que viria a seguir.

Assinando com a “EMI Australia” (filiada da “Universal Music Australia”) em junho de 2013, o contrato com um selo mais poderoso rendeu ao novato a liberação de seu 3º EP, o denominado “TRXYE”, trabalho que só veria a luz do dia em agosto de 2014. Incluindo 5 canções inéditas dentre as quais extraiu-se o primeiro single do cantor (“Happy Little Pill”), o material estreou em #5 nos EUA, fechando o top 5 da “Billboard 200” com vendas de 30 mil cópias na primeira semana. Pegando um #2 não apenas no Canadá como também na Nova Zelândia, o single “Happy Little Pill” não ficou muito atrás ao fazer uma tímida estreia nos charts de todo o mundo, o que inclui um #2 na Nova Zelândia, um #10 na Austrália, um #86 no Reino Unido e um #92 nos EUA. Mais de um ano depois, Sivan ainda manteria o bom nível de seus lançamentos quando da divulgação de “Wild”, o 4º EP de seu jovem catálogo que contou com 6 novas músicas. Debutando em #5 na “Terra do Tio Sam” com vendas de 50 mil cópias na first week norte-americana, e em #1 na “Terra dos Cangurus”, a faixa-título foi a grande responsável por abrir a trilogia de clipes “Blue Neighbourhood”.

Troye em ensaio fotográfico para a revista Bullett (2015)

Contando a história de dois amigos de infância que descobrem em sua longínqua amizade um sentimento muito mais forte, Troye dá vida à trajetória de um garoto que precisa, desde cedo, aprender a lidar com o preconceito da sociedade machista e as consequências por ser “diferente”. Movido pelas canções “Wild”, “Fools” e “Talk Me Down”, o grande projeto não apenas ganhou uma produção bem refinada como também foi primordial para expandir o nome do cantor para os horizontes além da Oceania. Recheado com cenas quentes envolvendo muitos toques, beijos e abraços, o cantor e sua equipe demonstraram grande coragem ao tocar em um assunto tão “polêmico” para o público mais tradicionalista. Contudo, a história do protagonista vivido por Sivan durante o desenrolar de toda a trilogia, no fim das contas, acaba por não ser tão diferente da levada por Troye em seu dia a dia. Assumidamente homossexual, a webcelebridade “saiu do armário” ainda em 2013, quando já gozava do título de youtuber e revelou aos seus seguidores do canal a sua real sexualidade. Defensor das causas LGBT, a união de Sivan a outro youtuber, o amigo Tyler Oakley, rendeu à ambos uma vitória ao “Teen Choice Awards” de 2014, na categoria “Melhor Colaboração na Web” (assista aqui ao resultado da parceria).

Dando-nos uma prévia do que encontraríamos em seu primeiro material de inéditas, todas as faixas do extended play “Wild” foram encaixadas na edição deluxe de “Blue Neighbourhood”, o nome recebido pelo debut album do cantor (a edição standard conta com apenas a metade do EP). Liberado no dia 4 de dezembro deste ano, o disco distribuído originalmente pela “EMI Music Australia” (nos EUA a distribuição ficou com a “Capitol Records”) estreou direto no top 10 dos álbuns mais populares nos EUA, na #7 posição, com vendas de 65 mil cópias nos primeiros sete dias – em sua terra natal, o disco atingiu o #6 lugar. Muito bem aceito pela crítica especializada, “Blue Neighbourhood”, amparado pelos singles “Wild”, “Talk Me Down” e “Youth”, conseguiu 5/5 estrelas do “The Guardian”, 4/5 do “Allmusic”, 4/5 da “Rolling Stone” australiana e 3,5/5 da “Billboard”. Muito elogiado por seus vocais (alguns chegaram a comparar o cantor com outros artistas de peso, como Lana Del Rey e Lorde), Sivan foi apenas elogios para Bernard Zuel, do “Sydney Morning Herald”, crítico que foi categórico ao dizer que o timbre do novato soava leve como “café com creme, sendo capaz de capturar tão bem o intervalo de tempo entre a infância e a fase adulta”.

A tão comentada trilogia de clipes estrelada pelo cantor!

E, de fato, toda essa energia positiva redirecionada para cima de “Blue Neighbourhood” e de Troye pode ser facilmente justificada a partir do momento em que ouvimos o aclamado material pela primeira vez. Contando com parcerias de Broods, Tkay Maidza, Betty Who, Allday e Alex Hope, é interessante que o trabalho fale por si só e funcione tão bem ao reunir tantos artistas talentosos de uma só vez (muitos dos quais são, majoritariamente, desconhecidos pelo grande público). Dando muito de si para a produção, finalização e direção do álbum, todas as faixas do trabalho foram compostas por Sivan ao lado de nomes do meio musical que você dificilmente deve conhecer (a menos, é claro, que acompanhe a música independente). Não espere encontrar em “Neighbourhood” faixas dançantes produzidas por Max Martin, Calvin Harris, Dr. Luke ou Shellback, alguns dos produtores mais disputados da atualidade (e sinceramente, apenas alguns dos mais “desgastados”). Porém, isso não quer dizer que o cantor não tenha as suas próprias cartas na manga: como é o caso de Jack Antonoff e Emile Haynie, produtores e compositores que já trabalharam, respectivamente, com Taylor Swift (no “1989”) e com Lana Del Rey (no “Born to Die”).

Soando naturalmente despretensioso, “Blue Neighbourhood” é eficaz ao tentar passar a mensagem que seu intérprete tem buscado transparecer desde os seus mais remotos EPs: o aviso de que existe um cantor de verdade e com um bom conteúdo querendo nos proporcionar um som de qualidade. Dono de uma voz suave, mas consistente, é estranho que tenha sido necessário para Troye se tornar primeiro uma webcelebridade para, somente depois, se aventurar pelo meio musical (uma vez ser mais comum o uso desta tática pelos chamados pseudoartistas). É verdade que o início de sua aventura como youtuber foi marcada sim pelo compartilhamento de vídeos musicais pela internet, mas a fama e o reconhecimento (mesmo que apenas no ambiente virtual) só cresceram de forma significativa com a publicação de seus vlogs pelo YouTube e a respectiva divulgação pelas redes sociais. O que é preciso para ser um bom cantor nos dias de hoje? Será que apenas o talento (que é o fator fundamental) não basta? Poderia um pseudoartista consolidar uma carreira de sucesso apenas amparando-se na superexposição da mídia e no suporte nas gigantescas bases de fãs? No fim das contas, é justo um popular ocupar a vaga de outras pessoas que realmente têm algo a nos acrescentar? Ou será que há lugar para todos na indústria musical?

Vivendo a melhor fase de sua carreira, Troye Sivan, definitivamente, ainda acrescentará muito para a música internacional nos próximos anos que estão por vir.

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