Beyoncé abraça suas origens e fala sobre racismo, traição e perdão em “Lemonade”, seu novo álbum visual

Existe uma razão para todo lançamento musical da Beyoncé causar o maior estardalhaço entre o público e fazer o planeta Terra parar de girar: e é claro que desta vez não seria diferente com “Lemonade”, o sexto disco de estúdio da cantora norte-americana. Após colocar o dedo na ferida com sua mais recente música de trabalho, a ex-Destiny Child finalmente botou a boca no trombone e não teve pena de soltar os cachorros até mesmo para cima de Jay-Z, a maior influência por trás do recente projeto.

Falando sobre o novo álbum visual da veterana (o segundo de sua carreira) e algumas de suas principais influências, na resenha de hoje faremos uma complexa mistura de música com empoderamento feminino, causas sociais e outros temas que não poderiam faltar em um post sobre a musicista mais multifacetada de todos os tempos. Se interessou? Então segure-se firme, aperte os cintos e venha com a gente:

Precedentes com “Formation” e “Super Bowl”:

Durante o vídeo de “Formation”, a cantora exibe todo o legado deixado pela cultura afro ao longo das décadas

Seguindo o seu já conhecido padrão de lançar material inédito sem qualquer aviso prévio – o qual foi experimentado pela primeira vez há pouco mais de dois anos, quando o álbum “Beyoncé” veio à tona, de surpresa, em dezembro de 2013 –, Queen B decidiu mais uma vez levar o público à loucura ao liberar na internet o lead-single “Formation” em fevereiro deste ano. Porém, foi somente um dia depois, com a sua enérgica apresentação no show do intervalo da 50ª edição do “Super Bowl” (a atração de maior audiência da televisão estadunidense), que o mundo passaria a ver Beyoncé de uma maneira muito, mas muito diferente.

Batendo de frente com a dura hipocrisia política que toma conta dos estados mais conservadores dos EUA, Bey não poupou esforços ao enaltecer toda a grandiosidade de sua descendência afro-americana e, durante toda a performance, ousou ao escancarar a verdade que se esconde por atrás do racismo, da agressão policial e de toda forma de opressão redirecionada contra os negros marginalizados de seu país (teve até referência aos “Panteras Negras” – movimento da década de 60 que lutou arduamente pela igualdade racial).

Ganhando as manchetes de toda a mídia internacional por sua coragem e determinação, é claro que a canção não demoraria para incomodar “a moral e os bons costumes” daqueles que se sentiram ofendidos e, mais cedo ou mais tarde, acabou impulsionando inúmeras ameaças de boicote ao trabalho da musicista (muitas oriundas da própria polícia norte-americana). Bom, não que isso fosse atrapalhar o que estava por vir…

Lançamento e sucesso instantâneo:

Quer saber mais sobre as referências que se escondem atrás de “Formation”? Então não deixe de conferir esta matéria publicada pelo site Don’t Skip

Liberado com exclusividade no Tidal neste último sábado, 23 de abril, “Lemonade” é comandado por “Formation”, o carro-chefe que ganhou vida no começo do ano e que já havia sido responsável por nos dar uma prévia do que estava por vir. Lançado sob os selos da “Columbia Records” e da “Parkwood Entertainment” (a companhia de propriedade da própria Beyoncé), o material foi anunciado pela primeira vez como um especial de televisão que seria transmitido com exclusividade pela HBO na mesma data (e, mais tarde, seria confirmado assim, sem mais nem menos, como o sexto álbum da cantora).

Apesar de seguir, em sua maioria, a influência da black music que dominou o disco homônimo de 2013, este novo não se resume exclusivamente nas batidas do hip-hop combinadas com o rap-sing de “***Flawless” ou “Feeling Myself” e vai muito mais além ao nos provar que os conhecimentos musicais da cantora ultrapassam os limites de qualquer barreira cultural. Flertando com o country  de “Daddy Lessons” ou o gospel de “Pray You Catch Me” e “Sandcastles”“Lemonade” culmina em uma gama de sonoridades que inclui até mesmo o psychedelic rock de “Freedom” ou o pop sessentista de “Hold Up” (conheça todos os samples utilizados aqui).

Montando um time gigantesco e invejável de profissionais de toda a indústria musical, Diplo, James Blake e Mike Will Made It são apenas alguns dos muitos produtores convidados para trabalhar no projeto e que contribuíram para fazer do trabalho o que ele se tornou. Compondo e produzindo cada uma das 12 novas músicas, Beyoncé também é creditada ao lado de Melina Matsoukas (“We Found Love”, Rihanna), Jonas Åkerlund (“Ray Of Light”, Madonna) e diversos outros como uma das diretoras do material visual que foi transmitido pela poderosa emissora de TV a cabo. Com pouco mais de uma hora de duração, o especial reúne não apenas os clipes desta nova era como também diversas cenas que retratam mulheres do povo que já sofreram alguma perda em decorrência da violência racial (como as mães que tiveram seus filhos assassinados e ganharam destaque na gravação). Anunciado como “um projeto conceitual baseado na jornada de autoconhecimento e cura de todas as mulheres”, “Lemonade” ainda enfoca muito da intimidade de Queen B e é recheado de tocantes momentos que capturam o dia a dia do seio familiar dos Carter.

O clipe oficial para o single “Formation”

Saindo do Tidal e ganhando outras plataformas digitais na manhã desta segunda-feira (25/04), o disco já se encontra disponível no iTunes e, em questão de poucas horas, atingiu o #1 em mais de 90 países, incluindo EUA, Brasil e Reino Unido. A edição física só deverá ganhar as prateleiras no dia 6 de maio.

O conceito por trás da limonada:

Prestes a ser estreada, a “The Formation World Tour” deverá percorrer EUA e Europa entre abril a julho deste ano (saiba mais aqui)

Mas, a essa altura do campeonato, muitos de vocês devem estar se questionando o porquê de o novo álbum da musicista ter recebido o nome de “Lemonade” (limonada, em tradução livre). E, para compreendermos a verdadeira mensagem que Queen B quis passar através do seu sexto material inédito, necessário analisarmos dois dos principais pontos levantados até o momento pelos inúmeros meios de comunicação redirecionados à cultura popular.

O primeira deles, de profundo cunho histórico e cultural, está intimamente ligado a uma antiga crença popular na qual negros, se rendendo ao estereótipo de beleza imposto pela própria sociedade contemporânea, usariam limão em uma espécie de tratamento caseiro para clareamento de pele (leia mais). Dermatologistas afirmam que ao entrar em contato com a pele, a fruta (seja a casca ou a limonada) pode causar sérias manchas e irritações de imediato, algo bem parecido com o que nossas mães já diziam ao nos alertar para “não sair debaixo do sol após colocar as mãos em limão”. Para alguns, Beyoncé estaria não só levantando a bandeira do orgulho negro como também fazendo uma árdua crítica a este padrão absurdo criado há séculos pela humanidade que tratou de colocar o homem branco em uma posição de superioridade inexistente (vide o período colonial de todo país que já foi adepto da escravidão).

Para outros, porém, “Lemonade” não para apenas no caráter histórico como entra de cabeça por uma vertente muito mais filosófica: como nos é indicado por “Freedom”, canção lançada em parceria com outro importante ativista na luta contra o racismo: Kendrick Lamar. Na parte final da faixa, é trazido um áudio de Hattie White (avó de Jay-Z) gravado em seu aniversário de 90 anos, no qual ela declara que: [apesar de] ter tido os seus altos e baixos, sempre encontrou a força interior para se reerguer. Lhe foram entregue limões, mas ela fez uma limonada”. A passagem, além de simbolizar um tributo à White, pode ser livremente entendida como uma referência às diversas complicações que a ex-Destiny Child já teve em sua vida e carreira (inclusive ao recente boicote planejado após sua apresentação no show do intervalo do “Super Bowl”). Se a reação de alguns foi tratá-la à base de comentários tão azedos, ela seria capaz de reaproveitar a crítica negativa de alguma maneira. Porém, mesmo dando a volta por cima, ainda havia mais um assunto pendente do qual a loira precisava rasgar o verbo…

Adentrando na intimidade do casal:

Você confere todas as letras e traduções do novo disco acessando este link

Como já dissemos mais acima, a parte visual do novo álbum dá grande destaque aos momentos mais íntimos vividos por Beyoncé e sua família, então é claro que esta temática não ficaria de fora, também, da maioria das composições que integram o “Lemonade”. Contrariando os boatos de que viveria um casamento inteiramente feliz ao lado do marido, todo o novo disco fala sobre as decepções e inconstâncias passadas pelo casal, ponto este que provavelmente culmina em “Don’t Hurt Yourself” e “Sorry”. Nesta última, inclusive, é relatado pela cantora que Jay-Z nem sempre foi tão fiel assim como a maioria de nós chegou a pensar, o que é comprovado pelo trecho final “é melhor ele ligar para aquela Becky do cabelo bom”. Segundo as más línguas, o pivô da infidelidade do rapper seria ninguém menos que a estilista Rachel Roy, uma amiga íntima de Jay-Z que, tomando as dores para si, acabou se comprometendo ao publicar uma imagem suspeita em seu Instagram durante a transmissão do especial na HBO.

Detalhes à parte, não é só dos dramas do passado que a musicista sobrevive em seu novo disco e, apesar de abrir as portas para toda a instabilidade de seu casamento com um dos empresários mais bem sucedidos do planeta, deixa claro que, agora, as coisas parecem caminhar melhores. Nesse sentido estão “Love Drought” e “All Night”, faixas não menos que memoráveis que cumprem muito bem a função de equilibrar a ira de Queen B por todo o disco e deixar claro que o perdão, às vezes, é a melhor opção. Afinal: juntos, eles são mais do que capazes de “mover uma montanha, acalmar uma guerra, fazer chover e parar esta seca de amor” [trecho de “Love Drought”].

A verdadeira Beyoncé vem à tona:

Queen B em ensaio fotográfico para o “Lemonade”: uma clara referência ao período colonial norte-americano

Quem acompanha os passos de Beyoncé desde o início sabe que a cantora é expert em combinar elementos da black music e elaborar alguns dos maiores hinos pop que tivemos o prazer de ouvir desde que sua carreira solo teve início lá atrás, em um longínquo 2003. Após tantos anos, muitos foram os hits que levaram o seu nome adiante e deram-lhe o suporte necessário para lhe transformar em um dos maiores ícones da história da música internacional. Todavia, desde o disco “4” que a eterna intérprete de “Crazy In Love” vem se abstendo de elaborar um som redirecionado para as massas em geral, além, é claro, de ter procurado fazer tudo da sua maneira (em matéria de gravação e divulgação), trilhando um caminho totalmente alternativo e pouco visitado pelas demais vocalistas de sua geração. Tendo como ápice o “Beyoncé”, de 2013 (quando deu a louca na mulher e o trabalho inteiro ganhou um formato audiovisual impecável jamais visto antes), definitivamente a Queen B que um dia conhecemos decidiu tomar as rédeas de sua vida e mostrar uma faceta jamais vista antes.

Aliás, não é de hoje que a musicista é acusada de “se vender” para os estereótipos da sociedade moderna e adotar um visual que, por vezes, é tido pelas pessoas como “exclusivo” da mulher branca europeia (o cabelo liso e loiro combinado às inúmeras sessões de Photoshop realizadas pelas mais populares revistas voltadas ao público feminino). Porém, se um dia Queen B foi acusada de negar as suas origens e fazer clareamento de pele, hoje ela não tem medo de reforçar os ideais de líderes afro-americanos como Malcolm X (o qual, inclusive, possui uma importante participação durante o vídeo de “Lemonade”) – em dado momento, é compilado o seguinte trecho de um discurso cedido por ele, em 1962: “quem te ensinou a odiar a cor da sua pele? Quem te ensinou a odiar a textura do seu cabelo? Quem te ensinou a odiar a forma do seu nariz e dos seus lábios? Quem te ensinou a se odiar do início da cabeça à sola dos pés?”.

Definitivamente, existe uma razão para todo lançamento musical da Beyoncé causar o maior estardalhaço entre o público e fazer o planeta Terra parar de girar. Antes, acreditávamos que tudo isso estava relacionado a como a cantora é altamente talentosa e sempre soube como reinventar sua imagem sem perder a essência que a levou até o estrelato. Hoje, felizmente, sabemos que por trás de uma das maiores estrelas que a indústria fonográfica já viu, esconde-se uma mulher poderosa que não tem medo de arrebentar as correntes da hipocrisia e levar até o resto do mundo uma enxurrada de verdades que a humanidade tanto faz questão de esconder. Se um dia Beyoncé não precisou defender seus direitos como cidadã negra perante o público ou o governo norte-americano, hoje ela não tem mais medo de erguer a sua voz para proteger todos aqueles que continuam, diariamente, sofrendo as consequências de uma sociedade baseada nos princípios escravocratas. Porém, a dúvida que não quer calar é: até quando isso será preciso?

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