“Yu-Gi-Oh! Duel Monsters”: vale a pena assistir?

Há alguns meses escrevemos para o Co-op Geeks um artigo superinteressante onde tivemos a oportunidade de reunir tudo o que você precisa saber sobre “Yu-Gi-Oh!”, uma das franquias mais rentáveis já produzidas pela cultura asiática (relembre). Agora, dando enfoque ao segundo (e mais conhecido) anime lançado sob a marca de Kazuki Takahashi – e aproveitando que no ano passado a animação completou uma década e meia de existência –, na publicação de hoje iremos levar até você bons motivos para tirar a poeira do baú e resgatar esta lenda que marcou a infância de muita gente.

Observação: no Japão, o anime ao qual se refere esta resenha foi lançado sob o título “Yu-Gi-Oh! Duel Monsters” (enquanto, no restante do mundo, foi chamado apenas de “Yu-Gi-Oh!”). Portanto, para evitar qualquer confusão com a franquia, o jogo de cartas, os jogos eletrônicos ou o primeiro desenho animado, frequentemente utilizaremos o nome japonês para nos dirigirmos ao segundo anime da série.

Este artigo é livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o entendimento do texto será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma bem sucinta). Boa leitura!

Precedentes… é hora do duelo:

“Yu-Gi-Oh! Duel Monsters” pode ser acompanhado atualmente pela Netflix; pelo canal de TV a cabo PlayTV (de segunda à sexta, às 10h30min e às 16:30 horas, e aos domingos, a partir das 14h00min); ou pelo bom e velho senhor Google

Antes de entrarmos de cara em “Duel Monsters”, o grande destaque desta resenha exclusiva, importante mencionar que a animação liberada no começo dos anos 2000 não foi o primeiro material assinado sob o nome da multifacetada franquia “Yu-Gi-Oh!”. Inspirada no mangá inicial de 1996 escrito e ilustrado por Kazuki Takahashi, a série já rendeu inúmeras releituras para as mais diferentes mídias dentre as quais não podemos deixar de citar o bem-sucedido jogo de cartas (o “Yu-Gi-Oh! Trading Card Game”, de 1999), diversos jogos eletrônicos (entre eles o queridinho “Forbidden Memories”, para PSOne, também de 1999) e o primeiro (e quase desconhecido do público) anime produzido pelos estúdios da “Toei Animation”. Com apenas 27 episódios que foram ao ar somente no Japão entre abril e outubro de 1998, a produção foi uma fiel adaptação para a realidade televisiva do enredo narrado pelos 7 primeiros volumes do mangá de mesmo nome.

Mudando de estúdio logo depois e investindo pesado em uma nova ambientação, não demorou para que Takahashi cedesse os direitos de seu trabalho para a companhia “NAS” (“Nihon Ad Systems”) – com o apoio do “Studio Gallop” – produzir o que hoje conhecemos como um dos títulos mais marcantes do novo milênio. Era a centelha que faltava para colocar a franquia em profunda combustão internacional…

Espalhando as boas novas para os quatro ventos:

Yami Yugi (esquerda) e Yugi Muto (direita), as duas faces do “Rei dos Jogos”

Tomando por base as histórias do 8º volume em diante do mangá original, o segundo desenho animado inspirado nos já consagrados quadrinhos japoneses foi a primeira grande aposta dos produtores orientais para o mercado ocidental – um público que ainda não estava familiarizado com a popular sensação asiática. Transmitido pela primeira vez em abril de 2000 pela “TV Tokyo” (e encerrada quase quatro anos e meio mais tarde), a nova série totalizou 224 episódios divididos em 5 temporadas.

Recebido nos EUA pela “4Kids Entertainment” em setembro de 2001, incontáveis foram as modificações realizadas pela produtora no intuito de americanizar a produção e torná-la mais “viável” ao público infantil estadunidense – o que incluía desde a alteração dos nomes dos protagonistas à retirada de qualquer termo que vinculasse o enredo pretendido à violência, morte, sexo ou religião. A censura foi tamanha que nem mesmo as cartas do exitoso “Trading Card Game”, os jogos lançados para os mais diversos consoles ou a trilha-sonora oficial saíram imunes deste severo “procedimento restaurativo” (assista a este vídeo para ter uma pequena ideia do que estamos falando).

Chegando ao Brasil em 2002, “Duel Monsters” foi exibido em primeira mão pela “Rede Globo” – e, anos mais tarde, pela “Nickelodeon”. A versão que recebemos por aqui, inclusive, foi a mesma transmitida por todos os EUA (logo, não é de se estranhar que muitos fãs da franquia ainda estranhem a arte original trazida na versão oriental dos famosos cards de duelo).

A chegada do Faraó:

O Enigma do Milênio, uma das sete relíquias milenares

A história do anime ganha forma e vai tomando rumo quando o pequeno Yugi Muto recebe de presente do avô um quebra-cabeças conhecido como Enigma do Milênio: uma misteriosa joia egípcia que contém inúmeros segredos e poderes sobrenaturais. Após montar cada peça em seu devido lugar e solucionar o complicado desafio, Yugi liberta o espírito de um antigo faraó que passa a auxiliá-lo na difícil tarefa de tomar as decisões mais importantes de sua vida.

Dividindo seu corpo e mente com esta segunda personalidade do passado, logo ele perceberá que o novo amigo aumentará consideravelmente sua coragem e perspicácia – o que desperta, como consequência, o interesse de muita gente que está de olho na preciosa relíquia milenar. Porém, o que o garoto não sabe é que, conforme mais se envolve nos problemas que são inevitavelmente inseridos em sua jornada, mais ele descobre que o mundo pode ser um lugar perigoso não apenas para a sua própria segurança, mas também para a de todos aqueles que cruzam o caminho dos “Monstros de Duelo”, o jogo de cartas que é febre em todo o globo terrestre.

A abertura que você jamais esquecerá

As grandes cinco sagas:

Yami Yugi (direita) em duelo contra Marik Ishtar (esquerda), o grande antagonista da “Batalha da Cidade”

Logo que a animação começa, somos apresentados a Yugi e seus três melhores amigos: Joey, Téa e Tristan. Após receber uma fita videocassete de Maximillion Pegasus, o criador do “Monstros de Duelo”, a alma do avô de Yugi é capturada pelo magnata dos negócios e tudo que resta ao garoto é embarcar em uma viagem direto para o Reino dos Duelistas, uma ilha que está sediando o maior campeonato que o jogo já recebeu. Liderado pelo próprio Pegasus (o também presidente das “Ilusões Industriais”), a competição vai aos poucos nos revelando os inúmeros personagens que farão parte das aventuras de Yugi e, mais tarde, também aparecerão nas demais temporadas do anime. Enfrentando cada adversário no intuito de se tornar o grande finalista do torneio para recuperar o espírito de seu avô, o menino não desistirá de concluir o seu objetivo e passar por cima de cada obstáculo criado pelos outros competidores ou ardilosos capangas de Pegasus.

Com 49 episódios, “Reino dos Duelistas” é a primeira temporada de “Duel Monsters” e se divide em três arcos: “Duelist Kingdom”, “Legendary Heroes” e “Dungeon Dice Monsters”. É sucedido por “Batalha da Cidade” (“Rulers of the Duel”), com 48 episódios (do 50 ao 97); “Mundo Virtual” (que se divide em “Noah’s Saga” e “Enter the Shadow Realm”, este último sendo uma sequência direta de “Batalha da Cidade”), com 47 episódios (do 98 ao 144); “Saga de Orichalcos” (“Waking the Dragons”), com 40 episódios (do 145 ao 184); e “Batalha Final” (que se divide em “Grand Championship”, “Dawn of the Duel” e “The Final Duel”), também com 40 episódios (do 185 ao 224).

Qual é o segredo?

Maximillion Pegasus, o grande vilão da primeira temporada de “Duel Monsters”, é definitivamente uma das figuras mais interessantes de toda a trama

Conforme “Duel Monsters” vai se desenrolando, consequentemente o círculo ao redor de Yugi se fecha e o leva diretamente para as intermináveis viagens que se dividem na dupla tarefa de combater o mal e encontrar a verdade por trás da identidade secreta de sua segunda personalidade. Contudo, mesmo que, à primeira vista, “Yu-Gi-Oh!” aparente ser apenas mais um entre os milhares animes que existem por aí, à nossa disposição, vale dizer que este, em particular, acerta em diversos pontos que acabam passando batido no enredo da maioria das demais produções liberadas pela concorrência.

O primeiro destes acertos está no fato de que, por mais que todas as 5 temporadas enfoquem majoritariamente na jornada de Yugi e nos sucessivos duelos que sempre entretêm o telespectador, a narrativa dos demais personagens habitualmente é abordada de uma maneira tão intimista que os torna tão intensos quanto o próprio protagonista do desenho animado. Assim, da mesma forma que é impossível não encontrar ao menos um duelista com o qual você possa se identificar, também é impossível não se deparar com alguns indivíduos que conquistarão o seu ódio gratuito de imediato. Porém, inclusive estes indivíduos (seja movidos por seus profundos interesses egoístas, seja por suas macabras histórias de vida) acabam por ter as suas próprias convicções, o que definitivamente não tira o brilho de genialidade a que lhes é comum. Tudo em “Duel Monsters” é questão de ponto de vista, pois, até o mais cruel dos antagonistas pode, sob a sua perspectiva, atuar acreditando que está fazendo um bem maior – basta a quem assiste saber compreender os dois lados da moeda.

Sempre um passo à frente:

Mai Valentine, amiga de Yugi, representa muito do empoderamento feminino que tanto se tem falado nos dias atuais

A humanização que se esconde por trás de cada personagem é no mínimo deslumbrante, e apesar de a “4Kids Entertainment” nos ter feito o “favor” de peneirar muito da obscuridade que é inerente não apenas aos vilões, mas também aos próprios mocinhos (acreditem: até mesmo os diálogos chegaram a ser alterados para uma versão mais clean), muitas personalidades permanecem fascinantes por sua essência que transborda rios e rios de pura sensibilidade. Levando até o público um pouco do drama cotidiano que faz parte da vida de todos nós, solidão, insegurança, amizade, família e confiança são apenas alguns dos muitos temas que fazem parte de todo o anime e são sempre apresentados em tons que combinam seriedade a bom humor em uma desenvoltura invejável.

Outro ponto positivo que podemos encontrar logo de cara em “Duel Monsters” é a maneira como tecnologia se mistura com o passado e nos faz acompanhar a cada episódio não menos que maravilhados. Com inúmeras referências à cultura egípcia, grega e até nórdica, mesmo após 16 anos a criatividade por trás da produção ultrapassa as barreiras do tempo e nos provam que, quando um trabalho é bem feito, nada pode ser capaz de superá-lo. Não é à toa que o sucesso por trás da franquia teve seu ápice quando o anime ganhou a América e revolucionou os intervalos escolares de todo o continente (ou vai me dizer que nunca desafiou os seus colegas de classe para um duelo?).

Seja por seus personagens carismáticos, seja por seu enredo original que juntos unem emissor a receptor em uma comunicação incrível, mesmo com alguns traços bem mal feitos (que podem ser conferidos somente em pouquíssimos episódios das temporadas finais), “Yu-Gi-Oh! Duel Monsters” continua nos ganhando com uma nostalgia que é única de qualquer criança que viveu a era de ouro das animações japonesas. Infelizmente, não podemos voltar alguns anos no calendário, mas, se tem uma coisa que o tempo jamais será capaz de arruinar é aquela emocionante sensação de ter acreditado no “coração das cartas” e vivido a tão querida “hora do duelo”. Resumindo esta imensa resenha em uma única frase: é claro que vale a pena assistir!


Este artigo fala sobre “Yu-Gi-Oh! Duel Monsters”, o segundo anime que foi ao ar entre os anos de 2000 a 2004. Para saber mais sobre a franquia “Yu-Gi-Oh!”, leia o nosso especial publicado no Co-op Geeks.


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