Despindo-se de todo o glamour, Lady Gaga assume nova persona e irradia autenticidade em “Joanne”

Seria 2016 o grande ano de retorno das mais bem-sucedidas estrelas femininas da música pop da década passada? Depois de Rihanna, Beyoncé, Gwen Stefani e Britney Spears voltarem à ativa após intermináveis hiatos sem novos materiais na estrada, finalmente é chegado o momento da maior hitmaker de 2008 tomar as rédeas do cenário fonográfico atual e protagonizar um comeback recheado com muita originalidade, ousadia e reconhecimento: sim, estamos nos referindo à Lady Gaga. Dividindo a opinião das massas com um primeiro single que parece não ter atendido às expectativas do público majoritário (relembre nossa resenha para “Perfect Illusion”), a incomparável “Mother Monster” preferiu deixar as bizarrices de lado e surge, agora, com o que aparenta ser o trabalho mais cru de seu catálogo tão extravagante. Venha com a gente conhecer um pouco mais sobre o “Joanne”!

Lady Gaga em ensaio fotográfico para o “iHeartRadio” (foto por Katherine Tyler)

Desde que “ARTPOP” (2013) fora anunciado como o “álbum do milênio” e deixara muito a desejar no quesito inovação, Lady Gaga não pensou duas vezes antes de tirar longas férias do mercado mainstream e se aventurar por outros ramos de sua carreira tão multifacetada. Indo para o jazz e apostando como atriz em “American Horror Story: Hotel” (projeto que lhe rendeu uma vitória no “Globo de Ouro” deste ano), a norte-americana só foi revelar planos de voltar para o pop em setembro, quando confirmou a chegada de um novo single que seria lançado no dia 9 daquele mês. Levando seus seguidores à loucura e chocando muitos que não esperavam por uma sonoridade tão distinta, foi após muita espera que a loira pôs um fim ao sofrimento de seus little monsters e liberou, na íntegra, o disco “Joanne” no último 21 de outubro.

Distribuído sob os selos da “Interscope Records” e “Streamline”, o aguardadíssimo “LG5” (como era popularmente chamado o trabalho pelos fãs) não fez feio nos charts e, seguindo “Born This Way” (2011), “ARTPOP” (2013) e “Cheek to Cheek” (2014), estreou diretamente no topo da “Billboard 200”, a principal parada de álbuns dos EUA. Comercializando impressionantes 201 mil cópias apenas na primeira semana, o novo disco saiu-se melhor que o esperado e rendeu à Gaga um novo recorde para a sua imensa lista de feitos incomparáveis: tornar-se a mulher com mais álbuns em #1 nesta década. Atingindo o #1 no iTunes de mais de 60 países, “Joanne” é atualmente promovido por “Million Reasons”, o segundo single oficial escolhido para substituir a agora promocional “A-Yo”. Deixando a EDM para segundo plano e orientando-se predominantemente pelo bom e velho pop, outros gêneros bastante explorados pela musicista nesta nova era têm sido o soft rock, dance-pop, country e folk.

O visual da cantora está bem mais simples e limpo na era “Joanne”

Com 11 faixas na edição standard, 14 na deluxe e 15 na deluxe japonesa, “Joanne” foca muito em sua intérprete e traz apenas uma colaboração especial em sua tracklist: com a Florence Welch, do Florence + the Machine. Abarcando um renomado time de produtores requisitadíssimos, os nomes envolvidos no projeto vão desde o já conhecido Mark Ronson (“Rehab”, Amy Winehouse) e passam por Jeff Bhasker (“Free”, Natalia Kills), BloodPop (“Drum”, MØ), Emile Haynie (“Summmertime Sadness”, Lana Del Rey), Josh Homme (vocalista do Queens of the Stone Age), Kevin Parker (vocalista do Tame Impala) e RedOne (“Poker Face”, “Bad Romance”). Atuando como coprodutora e compositora em todas as canções, Gaga foi auxiliada liricamente não só pelos demais produtores como também pelos bem experientes Hillary Lindsey (“When I Look at You”, Miley Cyrus), Beck (vencedor do “Álbum do Ano” no Grammy de 2015), Joshua Tillman (“Hold Up”, Beyoncé) e Thomas Brenneck (guitarrista do Menahan Street Band).

Já começando com o pé direito ao nos introduzir à brilhante “Diamond Heart”, o lançamento ganha forma de maneira rápida e precisa quando a faixa de abertura resolve nos dar uma pequena prévia do que o “Joanne” soa em sua totalidade. Chegando de mansinho com uma composição bem autoral e explosiva que revela um pouquinho sobre o passado difícil de Gaga, a loira nunca soou tão honesta ao assumir que “não é perfeita”, mas, considerar que “tem um coração de diamante”. Abrindo espaço para “A-Yo”, o country ganha vida da melhor maneira possível enquanto a musicista canta sobre sexo em uma batida levemente inspirada no hit desperdiçado “MANiCURE”. Outras faixas que tomam por referência o gênero sulista e que também se sobressaem por fugir da zona de conforto de Gaga são “Sinner’s Prayer” e “Million Reasons”.

Saindo da zona de conforto, a música eletrônica acabou sendo deixada de lado para que Gaga pudesse explorar novos gêneros como o country, soft rock e disco-rock

Chegando para apaziguar o mix de gêneros e nos preparar para o arco mais alto astral composto por “John Wayne”, “Dancin’ in Circles” e “Perfect Illusion”, a balada que dá nome ao disco é do início ao fim movida por uma simplicidade intangível. Bastante acústica e ressaltando o conceito por trás do sucessor de “Cheek to Cheek” (2014), em recente entrevista concedida à “Rolling Stone” Gaga revelou que sua intenção era “unir pessoas que não se conhecem e que talvez se sintam estranhas, mas que de alguma forma possam se conectar por meio da música”. Dando destaque exclusivo para sua família – principalmente para uma tia de nome Joanne, que faleceu nos anos 70, vítima de lúpus (doença que também assola a cantora) –, em “Joanne” a moça se despe de todas as extravagâncias do passado para enaltecer aquilo que muitos se negaram a ver desde o início da sua carreira: a presença de uma voz muito, muito marcante.

Combinando sonoridades e instrumentos em “John Wayne” (canção que homenageia o ator de mesmo nome), explorando um pouco de dance, reggae e ska na safadinha “Dancin’ in Circles” e trazendo o disco-rock já familiar de “Perfect Illusion”, “Joanne” suaviza consideravelmente enquanto caminha para seu triste fim. Citando inúmeras referências bíblicas na maravilhosa “Come to Mama”, Gaga não poupa esforços em mais uma vez passar sua mensagem de apoio às minorias sociais e reforçar aquilo que todos já devem ter ouvido pelo menos uma vez na vida: “todos temos que amar uns aos outros”. É nessa mesma vibe de afeto e união que “Hey Girl” (o featuring com a Florence Welch) desabrocha instintivamente, certeira por casar tão bem os vocais de duas das melhores cantoras da atualidade e por explorar um verdadeiro hino de empoderamento feminino. Impossível não recordar os velhos tempos de “The Fame” com uma sonoridade dessas (e que também foi experimentada na bônus “Just Another Day”), especialmente por causa de “Brown Eyes”, “Summerboy” e “Again Again”.

Lady Gaga em apresentação de “A-Yo” na “Dive Bar Tour” (série de shows que tem realizado em bares norte-americanos)

De maneira demasiadamente melódica, acústica e tocante, “Angel Down” e “Grigio Girls” dividem nossa opinião e nos deixam ora de braços estendidos, ora apreensivos. Exaltando um poderio vocal que há muito tem sido explorado sabiamente pela vocalista, ambas exploram o melhor do timbre de Gaga sem trazer nenhuma grande inovação, afastando-se um pouco do que foi pretendido pelo restante da tracklist e não soando de todo necessário. Inevitavelmente, este também é o caminho traçado por “Angel Down (Work Tape)”, a aguardadíssima colaboração com o RedOne que, ao final das contas, muito prometeu e nada mais foi do que uma perfeita ilusão (quem esperava por um grande hit mainstream a lá “Bad Romance” com certeza ficou e continua bastante chateado).

Conhecida por construir e desconstruir sua imagem a cada era com uma versatilidade inquestionável, Lady Gaga mais uma vez nos surpreende por aproveitar todas as oportunidades para fugir do mercado comum e estabelecer um padrão imprevisível para seus lançamentos musicais. Depois de conquistar o público com seus hits dançantes, nos impressionar com uma obscuridade nunca vista antes e chocar a todos com figurinos dignos de um autêntico conto de fadas fashionista, a eterna intérprete de “Just Dance” surge em pleno 2016 para renovar os seus votos de artista completa que não se deixa ser vencida tão facilmente. Experimentando de tudo um pouco e dando sua voz e suor para a concretização de trabalhos primorosos que jamais serão esquecidos pelo público, Stefani Joanne Angelina Germanotta é certamente um nome que surgiu para botar ordem na atual indústria fonográfica e revolucionar alguns conceitos que há muito precisavam ser revistos por alguém tão competente. Seja bem-vinda de volta, Joanne, nós sentimos a sua falta!

Para mais conteúdo como este, não deixe de curtir a nossa página no Facebook e nos seguir no Twitter e no Instagram para não perder qualquer novidade.

Anúncios

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s