“Yu-Gi-Oh! Zero” (1998): vale a pena assistir?

O ano de 2016 foi, definitivamente, muito importante para a inclusão de uma temática tão pouco explorada aqui no Caí da Mudança, mas que, de vez em quando, surge para entreter os insaciáveis amantes da cultura oriental: as animações japonesas. E, se você tem o costume esporádico de acompanhar o escasso material que já produzimos para a nossa seção de desenhos animados, então deve saber que “Yu-Gi-Oh!” foi, de longe, o título que mais apareceu entre as nossas publicações voltadas exclusivamente para o público otaku.

Não muito diferente no post de hoje, finalmente chegou o momento de darmos alguns passos em direção às origens do “Monstros de Duelo” e tirar do baú a primeira experiência televisiva que se encarregou de nos apresentar à incrível saga de Yugi Muto. Senhoras e senhores, com vocês… “Yu-Gi-Oh! Zero”.

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Precedentes… o primeiro “Yu-Gi-Oh!”:

As diversas faces de Yami Yugi: as três primeiras retratadas em “Duel Monsters” e a última em “Zero” (autor desconhecido)

Apesar de ter se tornado o trabalho mais popular de toda a exitosa franquia “Yu-Gi-Oh!” (“Rei dos Jogos”, em tradução livre), muitos não sabem que “Duel Monsters” (2000-2004) não foi o primeiro produto inspirado no mangá de mesmo nome a ter os seus capítulos redirecionados para episódios de televisão. Isso porque de abril a outubro de 1998 foi ao ar, pela “TV Asahi”, o autointitulado “Yu-Gi-Oh!”, a promissora animação da “Toei Animation” desenvolvida em apenas 27 episódios que levaram aos telespectadores toda a originalidade da história inicialmente contada e ilustrada por Kazuki Takahashi dois anos antes, em 1996.

Sob a direção de Hiroyuki Kakudou, a simplista produção de olhar visionário não fez feio e tentou, a todo custo, manter-se o mais fiel possível da obra original que anos antes era sucesso moderado entre o público leitor japonês. Narrando-nos a história de Yugi Muto, o anime original afasta-se em muito da proposta intentada por “Duel Monsters” e, apesar de nos apresentar formalmente aos melhores amigos do protagonista que já haviam dado as caras na conhecida e aclamada “sequência”, pouco reproduz do que nos foi ensinado ao longo de 224 episódios.

Produzido pela companhia “NAS” (“Nihon Ad Systems”) com o apoio do “Studio Gallop”, “Duel Monsters” rendeu cinco temporadas que foram subdivididas em inúmeros arcos – dentre os quais se destaca, é claro, o pioneiro “Duelist Kingdom”, da season 1. Já o mangá foi originalmente publicado pela “Weekly Shōnen Jump” (revista semanal de responsabilidade da editora “Shueisha”) e chegou a ser comercializado até o ano de 2004. No Brasil sua veiculação só aconteceu seis anos mais tarde, quando a editora nipo-brasileira “JBC” distribuiu a HQ entre os anos de 2006 a 2010 – quando a franquia já era febre em todo o território nacional.

Como Yin e Yang:

 Enquanto no anime de 2000 as diferenças entre Yugi Muto e Yami Yugi eram bem frágeis e pouco nos convenciam, em “Zero” (1998) desde o início o telespectador possui a certeza de que se encontra diante de duas personalidades completamente opostas
Enquanto no anime de 2000 as diferenças entre Yugi Muto e Yami Yugi eram bem frágeis e pouco nos convenciam, em “Zero” (1998) o telespectador tem a certeza de que se encontra diante de duas personalidades completamente opostas desde o início (autor desconhecido)

Influenciado pelos 7 primeiros volumes do mangá de Kazuki Takahashi, “Zero” (como foi nomeado décadas mais tarde pelos fãs da franquia no intuito exclusivo de diferenciar o primeiro desenho animado do segundo – que a nível mundial também recebeu apenas o título “Yu-Gi-Oh!”, sem o “Duel Monsters”) nos introduz ao nosso popular jovem protagonista de uma maneira jamais vista antes. Isso porque diferente da linha de produção pré-moldada pelos roteiristas da “NAS” e do “Studio Gallop”, a animação de 1998 não se atropela ao “vender o seu produto” e delimita de maneira formidável os contornos que separam Yugi Muto de Yami Yugi.

Dessa forma, “Zero” acerta ao repetir as inseguranças do menino Yugi que já eram de nosso conhecimento (em “Duel Monsters”) e vai além ao retratá-lo como alguém exageradamente sensível, tímido e deveras solitário (características tão pouco exploradas na superprodução de 2000). Vítima de um terrível caso de bullying diário, Muto é extremamente altruísta e sustenta uma bondade sem tamanhos – a qual, por diversas vezes, transcende um estado de inocência que beira a tolice. O garoto sofre tanta dor física e pressão psicológica que é inevitável ao telespectador não passar a maior parte dos episódios revezando-se entre a compaixão e a impunidade daqueles que tentam lhe fazer algum mal.

Todavia, como Yin e Yang, Yami Yugi (o antigo espírito que habita o Enigma do Milênio) também ganha bastante destaque por todo o anime e merece apontamentos a serem tecidos à parte. Exaltando um senso de justiça extremista capaz de rebaixar Maximillion Pegasus para o nível de mero aprendiz, o lado sombrio de Yugi age de maneira fria e desconhece o significado de palavras como racionalidade e piedade. Um verdadeiro justiceiro fora-da-lei, nosso segundo protagonista (por vezes antagonista) possui um senso de humor mórbido e não pensa duas vezes antes de fazer com que os vilões da animação sejam confrontados pessoalmente com o mal que habita em seus corpos. Já dizia o antigo “Código de Hamurabi”: “olho por olho, dente por dente…”

O verdadeiro “Rei dos Jogos”:

Yugi Muto transformando-se em Yami Yugi

Se “Duel Monsters” economizou na quantidade de jogos/desafios e deu preferência ao bom e velho “Monstros de Duelo”, “Zero” também ganha pontos do telespectador ao fugir do característico jogo de cartas e incorpora uma infinidade de outras competições bem inusitadas. Resgatando clássicos como o ioiô e o nostálgico RPG dos anos 80, o anime nos traz episódios em que estratégia, lógica e sorte se revelam ferramentas fundamentais para qualquer um que decida cruzar o caminho do todo poderoso “Rei dos Jogos”. Ah, e ainda tem espaço para o “Monstros dos Dados Masmorra” (que também chegou a ganhar um pequeno destaque no anime de 2000), “Monstros de Cápsula” (este com um spin-off todinho de 12 episódios) e até mesmo um campeonato regional multidisciplinar promovido pelo mauricinho mais detestado/idolatrado de toda a história da franquia: Seto Kaiba.

A abertura de “Yu-Gi-Oh! Zero”

Mais do que meros personagens:

Por ter ido ao ar apenas no Japão, “Zero” acabou se tornando bem menos conhecido que “Duel Monsters” e os demais spin-offs produzidos nos últimos anos

Já iniciando com uma trilha sonora que soa super nostálgica até mesmo para quem jamais assistiu a qualquer episódio da animação, “Zero” desenvolve-se de maneira muito mais intimista que “Duel Monsters” e tem seu enredo focado numa quantidade bem menor de personagens.

Além de Joey, Téa e Tristan (que no anime são apresentados em seus nomes originais: Jonouchi, Anzu e Honda, respectivamente), dos inseparáveis (e bem mais egoístas) irmãos Kaiba e dos recorrentes Shadi e Bakura, o anime da “Toei Animation” resgata a fidelidade do mangá e nos traz a presença da meiga Miho Nosaka: o quinto membro do famoso quarteto que acabou sendo injustificadamente ocultado dois anos mais tarde pela “NAS” e pelo “Studio Gallop”. Responsável por impulsionar o lado mais apaixonado de Tristan (Honda), o “elemento surpresa” em “Zero” equilibra consideravelmente o elenco feminino e concede à Téa (Anzu) a oportunidade de não se sentir tão incompreendida em meio a garotos tão perdidamente bobos e impulsivos.

Nos disponibilizando mais tempo para conhecer o Sr. Muto (o avô do Yugi), podemos acompanhar ainda todo o amadurecimento de Joey (Jonouchi) como melhor amigo do protagonista; o bom-humor de Tristan, que por alguma razão desapareceu na “sequência” de 2000; e a seriedade de Téa, que em “Duel Monsters” deixou muito a desejar no quesito autoestima. Até mesmo os vilões de “Zero” desenvolvem seus propósitos com maior agressividade e sensibilidade, convencendo-nos de que a humanização presente no desenho ultrapassa a mera pretensão de “ser apenas um entre tantos outros projetos de sucesso”.

O “Jogo das Trevas” como você nunca viu:

Obscuro, bem obscuro… (autor desconhecido)

Sustentando uma história de fundo mais singela e livre de muitas extravagâncias, “Zero” foca bastante no relacionamento interpessoal de seus personagens e nos leva para situações comuns ao dia a dia de qualquer pessoa. Assim, não espere que toda a tecnologia de “Duel Monsters” dê as caras por aqui, já que de longe este não foi um objetivo intentado por Hiroyuki Kakudou, o diretor da animação. Em muitos dos episódios, inclusive, o drama e a simplicidade tomam conta da trama e o desfecho segue assim, tentando a todo momento nos emergir para a realidade do que nos está sendo transmitido para nossos olhos. Um simples passeio em um parque de diversões ou o assalto de uma lanchonete são mais do que suficientes para nos entreter por mais de 20 minutos; e esta particularidade, com certeza, é o segredo para nos deixar tão confortáveis e sedentos por mais ao fim de cada narrativa.

(In)Felizmente, como o anime não chegou a ser distribuído para outros países do globo (incluindo o gigante continental do Norte), a versão que assistimos de “Zero” é a original japonesa sem as inúmeras modificações investidas pelas produtoras americanas a fim de se censurar a obscuridade que é inerente das produções orientais. Muito mais cru e bizarro que qualquer outro título da franquia “Yu-Gi-Oh!”, a impressão que temos é a de que a “Toei Animation” não poupou esforços de tentar mexer com o psicológico do telespectador, entregando-nos um trabalho recheado de tabus e de uma forte simbologia que transborda para todos os cantos. Se você detesta a censura, então provavelmente irá adorar a ausência dela neste desenho.

Partindo para uma direção completamente oposta da grande maioria das animações atuais, “Zero” nos traz aquele gostinho de sinceridade que eventualmente é deixado de lado para poupar o público infantil de temas tão pesados como insanidade e violência. Não há dúvidas que essa falta de barreiras, por vezes, pode chocar os telespectadores desavisados – e, certamente, ocasionar um pequeno mal-estar naqueles que não esperam ser confrontados tão diretamente assim. Entretanto, por mais que a obra exceda este conformismo com o qual já estamos acostumados há tanto tempo, é sempre bom conhecer “novas” produções que conseguem quebrar o padrão de maneira tão honesta e autêntica. Mais do que um anime qualquer que nos cativa por sua versatilidade incomparável, “Yu-Gi-Oh! Zero” enxerga muito além de qualquer outro título desta exitosa franquia e coloca em pratos limpos a natureza humana como ela realmente é na maior parte do tempo: fria, calculista, complicada e um bocado injusta.


Este artigo fala sobre “Yu-Gi-Oh! Zero”, o primeiro anime que foi ao ar em 1998. Para saber mais sobre a franquia “Yu-Gi-Oh!”, leia o nosso especial publicado no Co-op Geeks. Caso esteja procurando pelo segundo anime produzido pela “NAS” e que foi ao ar entre os anos de 2000 a 2004, fique com o “Vale a pena assistir” de “Yu-Gi-Oh! Duel Monsters”.


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