Porque Serena van der Woodsen é a melhor personagem da série de TV Gossip Girl

Quem se liga em séries de TV provavelmente já ouviu falar do fenômeno adolescente Gossip Girl: programa inspirado na coletânea de livros escrita por Cecily von Ziegesar e que foi ao ar entre os anos de 2007 a 2012, pela The CW. Comandada pelos já experientes Josh Schwartz e Stephanie Savage (os mesmos criadores de “The O.C.”), a superprodução fez bastante sucesso por onde passou e não falhou ao alavancar a carreira de jovens talentos como Blake Lively, Leighton Meester e até mesmo Taylor Momsen, a ex-atriz e atual vocalista do The Pretty Reckless.

Comemorando o fato de que seu episódio piloto foi exibido pela primeira vez há quase 10 anos, em um já longínquo 19 de setembro de 2007, resolvemos tirar a poeira da prateleira e preparamos este artigo especial para relembrar o império de uma das mais amadas (e detestadas) personalidades da cultura pop moderna. Antes, entretanto, vale a pena puxar na memória a fascinante história que sustenta este show.

Este texto contém spoilers: siga por sua conta e risco. Boa leitura!

Gossip Girl here…

…your one and only source into the scandalous lives of Manhattan’s elite

Passando-se em uma Nova Iorque dos tempos atuais, Gossip Girl (“A Garota do Blog”, no Brasil) nos apresenta à vida de dramas e excessos protagonizada por seis adolescentes frequentadores do Upper East Side, um dos bairros mais nobres e badalados de Manhattan. Tudo se inicia quando Serena van der Woodsen (Blake Lively) retorna para sua cidade natal decidida a solucionar os problemas que a levaram a passar um longo período afastada dos amigos e dos familiares. Devendo lidar com as consequências de sua drástica escolha – principalmente com as desavenças compartilhadas com sua até então melhor amiga Blair Waldorf (Leighton Meester) e com sua mãe, Lily (Kelly Rutherford) –, a moça vai aos poucos se reintroduzindo à costumeira rotina de outrora enquanto tenta não cometer os mesmos erros que assombram seu passado.

Evitando, a princípio, seu antigo círculo de amigos – do qual fazem parte os populares Nate Archibald e Chuck Bass (Chace Crawford e Ed Westwick, respectivamente) –, S, como é chamada pelos mais íntimos, acaba por conhecer e se apaixonar pelo sistemático aspirante a escritor Dan Humphrey (Penn Badgley): um garoto comum de classe média que vive no Brooklyn juntamente com o pai, Rufus (Matthew Settle), e a irmã caçula, Jenny (Taylor Momsen). Como se já não bastasse familiarizar-se com toda a pressão imposta pela alta sociedade local, Serena e seus colegas precisam lidar ainda com os conflitos criados pela sempre problemática Gossip Girl: uma blogueira anônima que se ocupa em publicar toda e qualquer fofoca que se esconde por detrás da escandalosa vida da elite de Manhattan. Assim, é dada a largada para uma complexa trama desenvolvida ao longo de 121 episódios organizados em 6 distintas temporadas.

Uma estrela dando vida à outra:

Quem interpreta Serena é a encantadora Blake Lively, também conhecida por seu trabalho nos filmes “A Incrível História de Adaline” (2015) e “Águas Rasas” (2016)

Escalada para estrelar Gossip Girl (até porque não é coincidência seu nome ser o primeiro a aparecer durante os créditos de apresentação), Blake Lively é quem personifica a nossa it girl Serena van der Woodsen. Entretanto, não é segredo para ninguém que, com o desenrolar das temporadas, foi o casal inédito no universo literário Blair Waldorf e Chuck Bass (Meester e Westwick) que conquistou a devoção de todos aqueles que acompanharam a série desde a sua estreia. Seja pela química impressionante partilhada entre a dupla, seja pelo descaso dos roteiristas em dar um desfecho decente para sua principal protagonista, a verdade é que, mesmo em seus piores momentos, Lively conseguiu fazer muito com o pouco que lhe foi entregue para aprimorar. Ofuscada, esporadicamente, pelas tramas vivenciadas por seus colegas de trabalho (as quais, diga-se de passagem, eram bem mais espontâneas e interessantes), a loira permaneceu determinada do início ao fim e nos entregou o que é, ao nosso ver, uma das personas mais intrigantes da história televisiva contemporânea. E isso tudo não teria funcionado, é claro, se a própria Blake não tivesse nos emprestado todo o brilho e empatia que seu semblante transmite com tanta naturalidade.

Problemas, problemas e mais problemas:

Álcool, drogas e garotos são apenas algumas das muitas válvulas de escape utilizadas por Serena para fugir de seus problemas domésticos

Sem muitos rodeios, é inevitável dizer que Serena é a típica colegial bonita, rica e popular que consegue tudo o que quer sem o mínimo de esforço (este é, a propósito, um dos pontos mais reiterados ao longo de todo o programa). Com fama de festeira e bastante namoradeira, a menina desconta na bebida e nos garotos todas as frustrações que encontra diariamente dentro de casa. Crescida em uma família desajustada graças ao divórcio de seus pais que resultou na agitada vida amorosa de sua mãe e no afastamento completo de seu pai, S e seu irmão mais novo, Eric (Connor Paolo), desde muito jovens tiveram de aprender a encarar o mundo como ele realmente é – diferente dos Humphrey, por exemplo, que sempre tiveram o apoio de Rufus; ou dos Waldorf, que contaram com a total dedicação da melhor empregada de todos os tempos (e espiã nas horas vagas), Dorota Kishlovsky (Zuzanna Szadkowski).

Conhecida por ser uma garota problemática que não leva nada muito a sério, é ao lado de Georgina Sparks (Michelle Trachtenberg) que Serena atinge o fundo do poço incontáveis e incontáveis vezes – chegando a acreditar, inclusive, ter sido a responsável pela morte de um homem, lá no final da 1ª temporada. Ingênua que só vendo, seus planos dificilmente dão certo – até porque, quando a situação se complica, prefere assumir a culpa e sair de cena, enclausurando-se em um casulo de inseguranças que a isola daqueles que mais ama. É em um desses momentos de maior desespero que presenciamos a verdadeira face da Srtª van der Woodsen durante a reta final da 5ª temporada: alguém com sérios problemas de confiança que permanece cometendo os mesmíssimos erros em um triste loop infinito.

She’s a maneater:

Cena de “G.G.” (S05E13), o divertido episódio em que Serena sonha ser Marilyn Monroe na clássico “Os Homens Preferem as Loiras” (1953)

Sempre muito bem vestida, com os cabelos impecáveis e a maquiagem no lugar, não é em vão que Serena atrai para si todos os olhares daqueles que frequentam os colégios “Constance Billard School for Girls” e “St. Jude’s School for Boys”. Entrando e saindo de diversos relacionamentos amorosos (o que, nas palavras de sua BFF, pode se resumir em: “Nate, then Dan, then Dan again, Aaron, Gabriel, Carter, Tripp, then Dan again, then Nate again”), S tende a ser volátil tanto no amor quanto em sua vida particular. Sempre dividida entre o que realmente quer e o que as pessoas próximas de seu convívio esperam de si, é com a ajuda de Queen B que, constantemente, a garota sai de cima do muro e opta por algo que tenha a ver com a sua personalidade. Bem resolvida sexualmente, vez ou outra confunde liberdade com promiscuidade, redirecionando suas atitudes para um caminho de descarada insensatez – como quando transou com Nate e Dan enquanto estavam comprometidos ou apaixonados por ninguém menos que… Blair. Complicado!

Muito mais do que apenas um rostinho bonito:

Serena e Blair em um dos momentos mais aconchegantes da série em “Bad News Blair”, (S01E04)

Todavia, se a filha dos van der Woodsen transborda defeitos e encabeça diversas das situações mais desnecessárias de todo o Upper East Side, ela também não poupa esforços quando o assunto é o bem e proteção daqueles que mais importam em sua vida: sua família e amigos.

Sua primeira grande demonstração de caráter pode ser vista no memorável “Poison Ivy” (S01E03), episódio em que Blair tenta ridicularizá-la em público e Serena, sem hesitar, assume uma mentira para encobertar a tentativa de suicídio do irmão. Seis episódios mais tarde (“Blair Waldorf Must Pie!”) a premissa se comprova quando, mais uma vez, S estende uma mão amiga quando o transtorno alimentar de B vem à tona inesperadamente. E isso porque não mencionamos a inúmeras tentativas de inserção de Dan ao mundo dos grã-finos, ou a sua boa vontade em fazer parte de tudo aquilo que o namorado lhe apresentou – a garota até fingiu não saber jogar sinuca apenas para massagear o ego do cara. Sejamos honestos: aturar Dan Humphrey não é tarefa fácil!

Engajada em cuidar de todos aqueles que vêm ao seu auxílio, S dificilmente guarda rancor e consegue ultrapassar barreiras ao perdoar o que para muitos é imperdoável: sejam os planos maquiavélicos arquitetados por Georgina, seja o quase homicídio culposo orquestrado por Juliet Sharp (Katie Cassidy). Porém, de todos os bons atos praticados pela moça, reaproximar-se de seu pai foi, provavelmente, um dos mais bonitos que pudemos conferir em 121 episódios de série. Deixando todo o orgulho e a mágoa de lado, Serena mostrou que poderia ter sido brasileira e jamais desistiu daquele que foi responsável por quase duas décadas de negligência, mesmo após ter sido dispensada pela segunda vez durante o arco que uniu a 2ª à 3ª temporada; e uma terceira, mais tarde, quando Lola Rhodes (Ella Rae Peck) revelou-se sua meia-irmã.

It Girl, Interrupted:

Serena no revigorante “Yes, Then Zero” (S05E01)

Como se não bastasse sua facilidade em fazer novos amigos (e o bônus de deixar muitos morrendo de inveja, simultaneamente), Serena quebra todos os estereótipos de sua boa aparência quando o assunto é seu lado intelectual, e não apenas social. Leitora de grandes clássicos como “Os Belos e Malditos” (1922), de F. Scott Fitzgerald, ela foi capaz de se adaptar com bastante naturalidade aos muitos empregos que desempenhou entre as temporadas 3 a 5 – quando, é claro, finalmente conseguiu manter o foco em si mesma e deixou os garotos para segundo plano.

Trabalhando para KC Cunningham (Deanna Russo) como publicista de ninguém menos que Tyra Banks (que na série deu vida à atriz Ursula Nyquist), a loira ainda teve tempo de se aventurar com maestria pelos universos hollywoodiano, político e editorial: quando foi assistente pessoal de uma grande produtora de filmes; auxiliou Tripp van der Bilt (Aaron Tveit) em seu escritório por um breve espaço de tempo; e escreveu para Nate no “The New York Spectator”, como colunista.

Contudo, não sendo capaz de aquietar seu imenso conglomerado de incertezas, foram necessárias 4 temporadas e meia para que todas as suas inseguranças transbordassem no que podemos chamar de a fase mais obscura de sua vida. Após ver todos seus relacionamentos amorosos afundarem, sobreviver a propostas desgastantes de trabalho e até mesmo substituir Georgina no controle do blog da Gossip Girl, Serena isolou-se tanto de suas virtudes que esteve irreconhecível nos episódios que antecederam a season finale da 5ª temporada. Ela chegou, inclusive, a deixar Manhattan e adotar uma nova identidade (Sabrina) quando sua recaída em drogas a levou a ser reanimada por paramédicos em um trem. Um triste destino para alguém que havia lutado tanto para se tornar uma pessoa melhor.

Negligenciada pela família, pelos amigos e até mesmo pelos roteiristas:

Voltas e mais voltas

Projetada para ser a queridinha do público, a verdade nua e crua é que, com o desenrolar dos anos, Serena van der Woodson foi jogada às traças enquanto Blair Waldorf consolidou-se na maior estrela por detrás da superprodução da The CW. A impressão é que, ao longo de 6 temporadas de show, sua maior protagonista surgiu do nada para não chegar a lugar algum, enquanto cada uma das demais personagens conseguiram evoluir o mínimo possível – até mesmo Jenny, que saiu de cena nas duas últimas temporadas; e Nate, que desde o início da série preencheu o papel de indivíduo mais avulso do Upper East Side. Iniciando sua jornada como a garota que queria descobrir a sua verdadeira identidade, S termina Gossip Girl sem um desfecho para a sua inspiradora jornada de autoaprendizado, a qual desde o início do programa revelou-se, de longe, a mais consistente.

Com uma lista significativa de ex-namorados e um conhecidíssimo histórico de mau comportamento, Serena definitivamente não é um modelo quando o assunto é a moral ou os bons costumes (por mais que tenha, sim, se doado de todo coração em cada relacionamento que integrou). Carregando mais erros que acertos, por incontáveis vezes pisou feio na bola com aqueles que mais amava, quase sempre motivada pelos argumentos mais egoístas ou infantis. Por isso, não é de se estranhar que os deslizes de Blair e Chuck puderam ser facilmente perdoados pelos telespectadores, já que, de alguma maneira, o casal foi capaz de amadurecer através de sua extensa caminhada de intrigas; enquanto a amiga acabou crucificada, morta e sepultada pela grande maioria de quem acompanhou o espetáculo. Mas isso, talvez, tenha uma explicação bem mais simples do que se pode imaginar!

Ainda assim… humana:

Desconstruindo o conto de fadas

É indiscutível que o público televisivo, de uma maneira geral, demonstra um apreço muito maior por aquelas obras que fogem um pouco da realidade e priorizam a romantização de seu roteiro – e, voluntariamente, impõem o clássico casal dos contos de fadas que sofre à beça antes de conquistar o tão almejado “felizes para sempre”. Convenhamos: não é qualquer um que se simpatiza com a vida comum de uma garota insegura e problemática. Logo, é de se esperar que qualquer personagem ou situação que não se enquadre neste “padrão fantasioso” exigido pela demanda popular seja rejeitado de plano, tal como pudemos conferir no caso da Srtª van der Woodsen. Ao contrário de Blair, a luta de Serena não é contra a aprovação externa, mas interna.

Ao invés de darem à moça a oportunidade perfeita de se encontrar como mulher e profissional, de descobrir-se feliz por mérito próprio, sem a ajuda de um homem (tal como executaram tão bem no início da penúltima temporada), a produção da série preferiu encobrir todas as reais inseguranças que Serena carregou desde a exibição do episódio piloto com um casamento sem propósito algum. A questão a ser discutida nem é se S combina com Dan, mas por que o seu relacionamento prosperou tão rápido quando se havia muito a ser discutido na vida particular de ambos. Tanto um quanto o outro demonstraram, desde o início, defeitos que jamais poderiam ser ultrapassados sem um longo período de preparação e crescimento individuais.

No fim do noite, quando deitamos nossa cabeça no travesseiro e paramos para relembrar cada momento do nosso dia, Serena van der Woodsen é o maior exemplo de que nós, como seres humanos, gastamos a maior parte de nossas vidas cometendo erros (muitas vezes aqueles que prometemos nunca mais cometer). E tudo bem se isso acontecer. Mesmo que, eventualmente, nos encontremos em um indesviável loop de tropeços, tudo o que precisamos nos lembrar é que sempre haverá uma nova oportunidade de consertar o que fizemos de errado. Por mais difícil ou complicada que esteja nossa atual situação, não podemos jamais nos esquecer de acreditar que, mais cedo ou mais tarde, iremos acertar – ou recomeçar, se este for o caso, assim como Serena tanto tentou. O segredo não está em viver o conto de fadas dos nossos sonhos (porque, querendo ou não, estamos falando da vida real), mas em superar os obstáculos do dia a dia e tentar, sempre, dar o nosso melhor ‘eu’. Apesar de beneficiada pelos privilégios que sempre a acompanharam desde o nascimento, Serena van der Woodsen é tão imperfeita, real e complicada quanto você e eu.

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