“Blue Exorcist”: vale a pena assistir?

Promessa é dívida! Após adiantarmos para vocês que neste mês o Caí da Mudança receberia dois “Vale a pena assistir?” novinhos em folha, eis que finalmente é chegado o momento de abandonar o ócio e botar a mão na massa. Assim, é com um aperto no coração que nos despedimos de toda a nostalgia noventista proporcionada pela recém-publicada resenha de “Slayers” e, avançando alguns passos para o futuro, abraçamos uma outra franquia tão completa como aquela que dissecamos há quase duas semanas.

A obra que dá nome a este artigo pode até soar estranha para você que não é inteiramente ligado ao universo dos animes, mas, quem já deu uma espiada em Blue Exorcist sabe que não estamos exagerando ao dizer que esta é uma das melhores novidades exportadas pela televisão japonesa dentro destes últimos dez anos. Ficou interessado? Então separa a água benta e vem com a gente descobrir um pouquinho mais sobre esta superprodução oriental de primeiríssima categoria.

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Precedentes e lançamentos em outros formatos:

Além do anime, “Blue Exorcist” conta com lançamentos em light novel, videogame e até mesmo longa-metragem

Seguindo a regra quase que absoluta da maioria dos animes que remete suas origens à popular indústria dos mangás, “Blue Exorcist” (ou “Ao No Exorcist”) não poderia ser diferente e também já circulava pelas páginas de papel muito antes de ser contemplado com a sua própria versão animada. Publicada pela revista “Jump Square”, da editora Shueisha, desde 2009, a obra conta, até o fechamento deste post, com 19 volumes escritos e ilustrados por Kazue Katō, sob o gênero shōnen.

Bem recebido pela crítica nipônica, a procura por “Blue Exorcist” cresceu tanto em tão pouco tempo que, já em 2013, um segundo mangá spin-off do primeiro (e também shōnen) intitulado “Salaryman Exorcist: The Sorrows of Yukio Okumura” chegou com tudo trazendo a já conhecida roteirização de Katō com as ilustrações de Minoru Sasaki. E não parou por aí! Expandindo-se para outros formatos diversos, os fãs da franquia ainda puderam conferir a light novel “Ao No Exorcist: Weekend Hero” (2011) escrita por Aya Yajima e ilustrada por Kazue; e o jogo que combinava elementos de RPG com visual novel “Blue Exorcist: The Phantom Labyrinth of Time” (ou “Ao No Exorcist: Genkoku no Labyrinth”) para PSP, lançado em abril de 2012 pela Bandai Namco Games.

O rebanho de Satã:

Rin e Yukio Okumura, os herdeiros do Anjo Caído

Mesclando a história narrada pelo mangá a um desfecho totalmente inédito (até por volta do episódio 18, quando as divergências se intensificam), “Blue Exorcist” nos apresenta à saga de Rin e Yukio Okumura, dois irmãos gêmeos órfãos criados desde o nascimento por Shiro Fujimoto, um padre católico. O que muitos desconhecem, todavia, é que o mosteiro em que os meninos cresceram esconde muitos mais mistérios que o imaginado, já que Fujimoto é um renomado exorcista licenciado pelo Vaticano e ambos os garotos escondem uma identidade nada convencional. Isso porque, apesar de gerados por uma mãe inteiramente mortal (Yuri Egin), os irmãos Okumura são descendentes de ninguém menos que o maior de todos os demônios conhecido pela humanidade: o terrível Satã.

Destroçados pela morte prematura de seu pai adotivo pelas mãos do Tinhoso, Rin e Yukio não veem outra saída senão ingressar na Academia da Cruz, uma renomada instituição de ensino que disponibiliza em sua grade um curso avançado para jovens candidatos a exorcistas, os exwires. É lá que a dupla conhece o excêntrico diretor Mephisto Pheles e seus demais colegas de classe, os quais não demorarão a deixar a competitividade de lado para ingressar em seu círculo de amigos. Lidando com as dificuldades inerentes à vida acadêmica de qualquer estudante, cabe ainda aos jovens se unir aos experientes exorcistas da Ordem da Cruz para lutar contra as forças do mal que pretendem unificar os reinos de Assiah (o mundo dos humanos) a Gehenna (o mundo dos demônios).

O primeiro tema de abertura de “Blue Exorcist”

Com direção de Tensai Okamura; produção de Hiro Maruyama pelo estúdio A-1 Pictures; roteirização de Ryōta Yamaguchi e trilha sonora de Hiroyuki Sawano, a 1ª temporada de “Blue Exorcist” foi exibida pela primeira vez de abril a outubro de 2011, pela rede MBS, totalizando 25 episódios e 1 OVA (“Runaway Kuro” / “Kuro no Iede”, lançado em Blu-ray e DVD) de 25 minutos cada. Ah, você encontra na Netflix, ok?

Um pouco mais sobre o Exorcista das Chamas Azuis:

A busca por aceitação que Rin percorre em todo o anime é, sem sombra de dúvidas, um dos pontos altos da produção

Apesar de ambos os gêmeos carregarem o sangue de Satã em suas veias, logo no episódio piloto nos é explicado que apenas Rin herdou os poderes de seu pai biológico, os quais são facilmente identificáveis através de inconfundíveis chamas azuis (daí o nome da franquia). Assim, e a fim de esconder a chamativa aparência não humana de seu primogênito, Fujimoto não pestanejou ao submetê-lo à destreza da Kurikara, uma lendária espada cortadora de demônios responsável por selar toda a essência diabólica de Rin. Vivendo até a adolescência sem saber a verdade sobre o seu passado – apesar de, esporadicamente, atormentado pela cruel dúvida acerca de sua indiscutível estranheza –, é com o assassinato de seu pai adotivo que o menino desperta seu lado mais obscuro e se incumbe da missão de derrotar o Lorde das Trevas.

Entretanto, se engana Rin ao acreditar que seus colegas (e até mesmo o Vaticano) aceitarão sua verdadeira identidade sem questionamentos, já que quase todos à sua volta parecem guardar um forte receio quanto à integridade de suas ações. Incitado a comprovar que é uma pessoa de boa índole, nosso protagonista precisará não apenas encarar o preconceito daqueles que almejam a sua morte como ainda encontrar uma maneira de controlar seus instintos mais primitivos e selvagens. Felizmente, é ao lado de uma antiga discípula de Fujimoto (Shura Kirigakure), de seu próprio irmão e daqueles que acreditam na legitimidade de seus planos que o Exorcista das Chamas Azuis precisará encontrar a inspiração necessária para enfrentar o seu demoníaco destino.

A mais do que bem-vinda “Saga de Quioto”:

Kuro, Rin Okumura e Renzo Shima (frente); Ryuji ‘Bon’ Suguro, Izumo Kamiki, Shiemi Moriyama, Konekomaru Miwa e Yukio Okumura (atrás); Mephisto Pheles e Amaimon (acima)

Concluídos os eventos que foram ao ar em outubro de 2011, foi após quase 6 anos sem novidades na TV que o mesmo A-1 Pictures decidiu fazer o inesperado e reanimou os ânimos de todos aqueles que guardavam um mínimo de esperança para a continuação do anime. Ignorando o desfecho de tudo que aconteceu nos últimos 8 episódios da 1ª temporada (sim, se prepare para “esquecer” um bocado de acontecimentos memoráveis) e seguindo fiel ao que nos é relatado pelos volumes 5 a 9 do mangá, “Blue Exorcist: Kyoto Saga” cortou os fillers de vez e diminuiu drasticamente seu número de episódios (de 25 para 12).

Nos introduzindo a uma nova narrativa com novos vilões e novos personagens secundários, “Kyoto Saga” leva os exwires da Academia da Cruz até a cidade de Quioto, onde eles conhecerão os familiares de Ryuji ‘Bon’ Suguro e Renzo Shima. É lá que o diversificado grupo deverá proteger os olhos direito e esquerdo do Rei Impuro, artefatos das trevas de um poder imensurável que, se combinados, podem desencadear uma catástrofe sem tamanhos.

Com direção de Koichi Hatsumi, roteiros de Toshiya Ōno e trilha sonora de Hiroyuki Sawano e Kohta Yamamoto, a 2ª temporada de “Blue Exorcist” foi exibida de janeiro a março de 2017, pela rede MBS, totalizando 12 episódios e 1 OVA (“Snake and Poison” / “Hebi to Doku”, lançado em DVD) de 25 minutos cada.

“Blue Exorcist” nos cinemas:

Pôster promocional de “Blue Exorcist: The Movie(2012)

Entretanto, muito antes de sermos presenteados com “Kyoto Saga”, Rin e Yukio Okumura já haviam recebido uma outra oportunidade de nos guiar para um novo tour pelas terras possuídas de “Blue Exorcist”. Liberado sob a forma de longa-metragem, “Blue Exorcist: The Movie” (“Ao No Exorcist Movie” ou “Ao No Exorcist Gekijouban”), lançado no dia 28 de dezembro de 2012 (a propósito, um dia após o aniversário dos irmãos protagonistas), conta com 1h30min de duração e teve seu enredo baseado tanto no mangá quanto no anime homônimo.

Animados com os preparativos de um grande festival que é celebrado uma vez a cada 11 anos, os aprendizes do cursinho de exorcistas veem toda sua excitação ir por água abaixo quando inúmeros demônios começam a se manifestar pela cidade. Porém, a situação piora drasticamente com o surgimento de um trem fantasma e de uma tentativa falha de exorcizá-lo, cabendo a Rin a desafiadora tarefa de vigiar Usumaro, um estranho garotinho que, inesperadamente, aparece no meio de toda a confusão. Prontamente dispostos a resolver os conflitos que arriscam prejudicar a realização do festival, logo os membros da Ordem da Cruz descobrirão que os eventos caóticos de agora estão intimamente conectados a uma história infantil do passado que há anos é recontada entre pais e filhos.

Dirigido por Atsushi Takahashi, roteirizado por Reiko Yoshida e produzido em parceria pelos estúdios A-1 Pictures e Toho Studios, “Blue Exorcist: The Movie” contou com a já familiar trilha sonora do mestre Hiroyuki Sawano (o mesmo responsável pelas duas temporadas do anime).

O exorcismo em “Blue Exorcist”:

Apesar de focar num tema considerado polêmico para muitos, a religião mal chega a ser mencionada nos exorcismos de “Blue Exorcist”

A este ponto da resenha certamente já está mais do que claro que demônios e exorcismos são os temas mais presentes em toda o anime. Entretanto, apesar de o Vaticano ser citado com frequência e reaproveitarem bem a cultura cristã para ilustrar diversas situações, é com imenso prazer que podemos dizer que criatividadefidelidade à cultura oriental predominam no espetáculo do início ao fim. Fanatismo religioso então, nem pensar, já que o pessoal por trás da franquia decidiu priorizar mais a questão mitológica do Cristianismo que a espiritual!

Para saber em qual especialidade os exwires da Academia da Cruz irão enfrentar suas batalhas, “Blue Exorcist” utiliza-se da denominação meister (do alemão “mestre”), uma espécie de título obrigatório concedido àqueles que desejam seguir carreira como exorcistas. Assim, e para extrair o melhor de cada aprendiz, 5 são as classes existentes, cada uma destacando uma habilidade distinta. Não importa qual classe o candidato opte: se for aprovado ao menos em uma, já pode ser considerado um exorcista. Assim, a animação traz knights (exorcistas que lutam com espadas); dragoons (armas); tamers (invocando e controlando demônios); arias (recitando a bíblia e outras escrituras sagradas); e doctors (que usam suas habilidades para curar humanos de danos causados por demônios). É dito no anime que Shiro Fujimoto possuía todos os 5 títulos.

O melhor da atualidade:

Com traços modernos e um enredo pra lá de extraordinário, “Blue Exorcist” é uma aventura e tanto para quem se interessa por animações inteligentes e de qualidade

Dando enfoque para as intermináveis cenas de batalha que, como é de se esperar, são mais do que bem executadas, “Blue Exorcist” supera as expectativas do telespectador e não faz feio ao combinar comédia com drama em uma roupagem totalmente sobrenatural. Tem até espaço para uma leve pitada de romance! Isso porque, além de ganhar a nossa atenção com o brilhantismo que é inerente a temática dos exorcismos, Ryōta Yamaguchi, Toshiya Ōno e Reiko Yoshida desenvolvem com maestria toda a narrativa construída por Kazue Katō, o grande nome por trás da franquia.

Como dito acima, até mesmo a 1ª temporada do anime, que é recheado de fillers e diversos pontos originais que divergem da história contada pelo mangá, supera o script original e nos conquista com um toque bem pessoal. É nesta oportunidade que citamos os emocionantes “Garden of Amahara” / “Amahara no Niwa” (S01E04) e “Black Cat” / “Ketto Shī” (S01E10), episódios em que conhecemos um pouco mais da vida de Shiemi Moriyama, a melhor amiga de Rin; e o gato-demônio Kuro, um antigo protegido de Fujimoto. Ainda que a vida de ambas as personagens sejam bastante aprofundadas por estas passagens, não custa nada dar uma chance para todo a animação de uma forma geral, incluindo os dois OVAs, e, é claro, o longa-metragem (que também mistura muito drama com comédia de uma forma fenomenal).

Apesar de nos intrigar com determinadas personas que rapidamente transformam nossa empatia instantânea em ódio gratuito e vice-versa (como o caso do demônio Amaimon, ou até mesmo da complicada Izumo Kamiki), “Blue Exorcist” é uma produção de mão cheia para todos aqueles que são exigentes à construção do roteiro, à qualidade dos traços e até mesmo à caracterização das personagens. Felizmente, o show não deixa a desejar em qualquer requisito e segue firme, como dissemos no começo desta resenha, como um dos melhores lançamentos exportados pela Terra do Sol Nascente dentro destes últimos dez anos. Completíssimo e com um número razoável de episódios (vamos lá, não chega a 40, dá para assistir tudo rapidinho), você definitivamente não se arrependerá de conferir o que de melhor e mais atual a indústria dos animes tem a oferecer ao telespectador de bom senso crítico.

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