Os 10 melhores álbuns de 10 anos atrás (#3)

Já não é novidade pra ninguém que acompanha o nosso blog que a música pop se tornou, a longo prazo, uma das temáticas mais frequentes de nossas resenhas e artigos especiais. Assim, dando continuidade a um quadro bastante popular por aqui (mas que no ano passado falhou bruscamente ao dar o ar de sua graça), é com prazer que ressuscitamos o “10 melhores álbuns de 10 anos atrás” com o que é, ao nosso ver, o melhor período vivenciado pela indústria musical contemporânea desde o início dos anos 2000 (reveja as partes 1 e 2).

Voltando para os dias de glória em que as rádios imortalizaram o melhor dos grandes produtores de outrora, é em ritmo de tremenda nostalgia que compilamos, a seguir, 10 discos inesquecíveis que farão você querer entrar em uma máquina do tempo para esquecer tudo o que ouviu recentemente. Ah, e não se esqueça de clicar nas capas dos álbuns para conferir um clipe de cada era, tá bem? Tudo certo? Então prepare-se para relembrar cada um destes hinários que bombaram muito há uma década, começando por:

10) EMPEZAR DESDE CERO – RBD

Gravadora: EMI Music

Lançamento: 20 de novembro de 2007

Singles: “Inalcanzable”, “Empezar Desde Cero” e “Y No Puedo Olvidarte”

Considerações: Conhecido como um dos maiores fenômenos da América Latina de todos os tempos, não é à toa que o RBD rapidamente conquistou milhares e milhares de fãs por todos os países em que a telenovela “Rebelde” chegou a ser exibida. Já experientes após o lançamento de 4 bem-sucedidos discos de estúdio, foi num tom mais intimista que os seis membros do grupo fizeram bonito ao nos entregar esta joia rara que abre o nosso “10 melhores álbuns de 10 anos atrás”. Pegando emprestado o tradicional pop-rock chiclete característico de sua própria discografia (principalmente dos discos “Rebelde” e “Celestial”), “Empezar Desde Cero” traz letras mais reflexivas enquanto explora com maestria os vocais de Anahí, Dulce, Maite, Christopher, Alfonso e Christian. Dizendo adeus ao toque bem obscuro do queridinho “Nuestro Amor”, o 5º álbum do sexteto foi o grande responsável por nos apresentar aos hinos insuperáveis “Fuí La Niña”, “No Digas Nada” e “Sueles Volver” – e, ainda, fazer justiça ao dar mais espaço para a talentosíssima Maite Perroni, que pela primeira vez comandou um single (faixa-título) como vocalista principal

Paradas musicais: O álbum estreou em #6 no “Mexican Albums Chart”, atingindo o #4 na sua quinta semana (número de vendas desconhecido)

9) THE BEST DAMN THING – AVRIL LAVIGNE

Gravadora: RCA Records

Lançamento: 17 de abril de 2007

Singles: “Girlfriend”, “When You’re Gone”, “Hot” e “The Best Damn Thing”

Considerações: É claro que não deixaríamos a primeira colocada da 1ª parte do nosso especial de fora – ainda mais quando, há exatos 10 anos, pudemos conferir um dos trabalhos mais controversos de toda a carreira de Avril Lavigne. Causando bastante barulho com o lançamento do carro-chefe “Girlfriend” (o qual, curiosamente, tornou-se o único #1 de Avril na “Billboard Hot 100” estadunidense), em “The Best Damn Thing” a canadense não teve medo de deixar o post-grunge totalmente de lado para priorizar um som bem alto-astral puxado mais para o pop e menos para o rock. Contrariando em muito uma significativa parcela de seus fãs que de cara reprovou a mudança repentina no estilo, a Princesinha do Pop-punk não demorou nada para deixar o seu jeito “largada” de lado e adotar uma personalidade cada vez mais provocativa. Musicalmente falando, entretanto, “The Best Damn Thing” foi certeiro e não economizou nos hits, sendo que “When You’re Gone” e “Hot” fizeram bastante sucesso pelo mundo e instantaneamente caíram no gosto popular

Paradas musicais: O álbum estreou em #1 na “Billboard 200” com vendas de 289.000 cópias na primeira semana

8) DELTA – DELTA GOODREM

Gravadora: Sony BMG, Mercury Records

Lançamento: 20 de outubro de 2007

Singles: “In This Life”, “Believe Again”, “You Will Only Break My Heart” e “I Can’t Break It to My Heart”

Considerações: Você até pode nunca ter ouvido falar de uma das australianas mais talentosas da música internacional atual, mas, Delta Goodrem já havia governado o topo da “ARIA Albums Chart” com seus dois primeiros discos muito antes de repetir o feito com “Delta”. Enterrando seu passado sombrio que havia sido tão bem explorado em “Mistaken Identity” (2004), Goodrem não pensou duas vezes e, com suas energias totalmente recarregadas, tratou de entregar aos fãs um trabalho que realmente refletisse sua triunfal vitória sobre o linfoma de Hodgkin. Transmitindo boas energias em faixas luminosas como “Possessionless” e “God Laughs”, a loira não perdeu tempo e foi além ao nos presentear com um dos singles mais dançantes de sua bem estruturada discografia: a viciante “Believe Again”. Ah, e vale dizer ainda que o “Delta” chegou, inclusive, a estrear na “Billboard 200” estadunidense, na posição #116 (sendo este o único álbum de Goodrem, até o momento, a conseguir tal feito)

Paradas musicais: O álbum estreou em #1 na “ARIA Albums Chart” com vendas de 23.072 cópias na primeira semana

7) HEADSTRONG – ASHLEY TISDALE

Gravadora: Warner Bros.

Lançamento: 6 de fevereiro de 2007

Singles: “Be Good To Me”, “He Said, She Said”, “Not Like That” e “Suddenly”

Considerações: Como se não bastasse ver seu nome decolar após protagonizar a franquia “High School Musical”, Ashley Tisdale deu um show de versatilidade quando anunciou sua carreira solo juntamente ao seu 1º álbum de inéditas, o “Headstrong”. Misturando uma pitada de synthpop a muito dance-pop e R&B da melhor qualidade, Tisdale não se acanhou nos batidões e, totalmente desvinculada de Sharpay Evans, deu ao mundo uma pequena prévia de todo o seu poderio vocal. Mesclando faixas que transbordavam o melhor da música eletrônica de uma década atrás (“He Said She Said”, “Goin’ Crazy”) à baladinhas românticas bem clichês e adolescentes (“Unlove You”, “We’ll Be Together”), a garota prodígio rapidamente passou de “uma das Disney stars mais queridas do mundo” para “um dos maiores sonhos de consumo do público masculino” – quando figurou na lista das 100 mulheres mais sexys de 2008, em #10, pela revista “Maxim”. E isso tudo com pouquíssimo tempo de carreira solo!

Paradas musicais: O álbum estreou em #5 na “Billboard 200” com vendas de 72.000 cópias na primeira semana

6) HANNAH MONTANA 2: MEET MILEY CYRUS – HANNAH MONTANA/MILEY CYRUS

Gravadora: Walt Disney Records, Hollywood Records

Lançamento: 26 de junho de 2007

Singles: “Make Some Noise”, “Nobody’s Perfect” e “Life’s What You Make It” / “See You Again” e “Start All Over”

Considerações: Mundialmente conhecida como o rosto por trás do sucesso da série de TV “Hannah Montana”, foi somente em 2008 que Miley Cyrus começou a fazer dinheiro por si mesma: quando liberou o disco “Breakout”. Entretanto, o que muita gente desconhece é que, um ano antes, diversas rádios internacionais já tocavam os hits da própria Miley; os quais haviam sido recém-lançados em conjunto à 2ª trilha-sonora do aclamado programa do Disney Channel. Assim nasceu “Hannah Montana 2: Meet Miley Cyrus”, o álbum duplo que trazia 10 novas faixas da popstar adolescente mais famosa da TV e mais 10 novas faixas interpretadas por… Miley Cyrus. Enquanto “Hannah Montana 2” repetiu a dose da primeira soundtrack e trouxe à tona um pop mais fabricado destinado ao público infanto-juvenil, “Meet Miley Cyrus” experimentou uma porção de gêneros que culminou na primeira experiência madura de Cyrus como musicista. Compondo 8 das 20 músicas presentes no trabalho, foi nesta obra que a garota lançou o seu primeiro single, “See You Again”, e nos cativou com as pérolas “As I Am” e “Right Here”

Paradas musicais: O álbum estreou em #1 na “Billboard 200” com vendas de 325.000 cópias na primeira semana

5) GOOD GIRL GONE BAD – RIHANNA

Gravadora: Def Jam Recordings, SRP Music Group

Lançamento: 31 de maio de 2007

Singles: “Umbrella”, “Shut Up And Drive”, “Hate That I Love You”, “Don’t Stop The Music”, “Take a Bow”, “Disturbia” e “Rehab”

Considerações: Não que Rihanna fosse uma total desconhecida quando seu prestigiado “Good Girl Gone Bad” chegou às prateleiras das lojas (até porque os hits “SOS” e “Pon de Replay” já haviam abocanhado o #1 e #2 da “Billboard Hot 100” muito antes disso), mas, não podemos negar que foi após o seu lançamento que a carreira da moça decolou de vento em popa. Auxiliada pelo mentor Jay-Z, que de quebra participou do lead single “Umbrella”, o 3º disco da barbadiana foi tão bem supervisionado que recebeu, ainda, o toque de Midas dos super respeitados Ne-Yo, Justin Timberlake, StarGate e Timbaland. Combinando um visual bastante exótico que somente o Caribe tem a oferecer com o vocal inconfundível da Rihanna, “Good Girl Gone Bad” irradiou um R&B bem gostosinho que com certeza não sai da sua cabeça até os dias de hoje. O sucesso foi tamanho que no ano seguinte o álbum foi relançado sob o nome “Good Girl Gone Bad: Reloaded” contendo as inéditas “Take a Bow”, “Disturbia” e “If I Never See Your Face Again”, com o Maroon 5

Paradas musicais: O álbum estreou em #2 na “Billboard 200” com vendas de 162.000 cópias na primeira semana

4) BRAVE – JENNIFER LOPEZ

Gravadora: Epic Records

Lançamento: 4 de outubro de 2007

Singles: “Do It Well” e “Hold It Don’t Drop It”

Considerações: Que há anos Jennifer Lopez concilia uma invejável carreira de sucesso em Hollywood com uma multiplatinada trajetória na música todos já estão cansados de saber. Porém, muito antes de migrar para as batidas do electro-pop e conquistar as pistas de dança com “On the Floor” e “Dance Again”, JLo ainda perambulava por um R&B bem mais suave e orquestral, e é esta a sonoridade que pudemos contemplar do início ao fim de “Brave”, o 6º de sua discografia. Solidificando o carro-chefe “Do It Well” como uma de suas canções mais icônicas, foi com bastante requinte e autoconfiança que a norte-americana de sangue latino nos bombardeou com o seu trabalho mais consistente até o momento. Finalmente impondo sua identidade e superando em muito seus álbuns anteriores (que, convenhamos, continham diversas faixas bem “tapa buraco”), Lopez não poupou na afinação e parece ter entregado tudo de si nas brilhantes “Hold It Don’t Drop It” e “Mile in These Shoes”. Destaque, ainda, para a refrescante “Forever” e a emocionante faixa-título

Paradas musicais: O álbum estreou em #12 na “Billboard 200” com vendas de 52.600 cópias

3) X – KYLIE MINOGUE

Gravadora: Parlophone Records

Lançamento: 21 de novembro de 2007

Singles: “2 Hearts”, “Wow”, “In My Arms”, “All I See” e “The One”

Considerações: Completando, neste ano, três décadas de estrada, não é novidade para ninguém que a australiana Kylie Minogue é a proprietária de um dos catálogos mais respeitados dentro do meio musical internacional. E, foi há exatos 10 anos que tivemos a grandiosa honra de conhecer “X”, o 10º álbum de estúdio da veterana. Originalmente nomeado “Magnetic Electric”, o aguardadíssimo sucessor de “Body Language” (2003) foi, para Kylie, o mesmo que “Delta” foi para Delta Goodrem; isso porque, assim como a sua conterrânea, Minogue acabara de vencer uma árdua e superexposta batalha contra o câncer (de mama). Contando com a ajuda de profissionais de renome como Bloodshy & Avant, Guy Chambers e Calvin Harris, a voz que dá vida ao sucesso “In My Arms” revelou, à época, que não quis repetir toda a melancolia de “Impossible Princess” (1997) e deu preferência a um som bem mais alegre e contagiante. Seguindo as tendências do electro-pop, “X” é bastante eclético e compõe-se tanto de instrumentais mais sofisticados (como “Like a Drug” e “Sensitized”) quanto de baladinhas suaves e românticas (como “All I See” e “Cosmic”). Extravasando positividade, teve até espaço para “No More Rain”, a sensacional canção composta pela própria australiana no intuito de dizer adeus a seu triste diagnóstico anterior

Paradas musicais: O álbum estreou em #1 na “ARIA Awards” com vendas de 16.000 cópias na primeira semana

2) DIGNITY – HILARY DUFF

Gravadora: Hollywood Records

Lançamento: 21 de março de 2007

Singles: “Play With Fire”, “With Love” e “Stranger”

Considerações: Todo jovem artista que se lança na indústria do entretenimento possui a probabilidade de protagonizar, em determinado momento de sua trajetória, algum programa de televisão voltado ao público infantil. Apesar de Hilary Duff ter passado exatamente por isso, é claro que não demoraria muito para a moça entrar na vida adulta e demonstrar um forte desejo de mudar a sua imagem pública como profissional. Com anseios de amadurecimento, em “Dignity” a nova morena do pedaço conseguiu não apenas elaborar o melhor trabalho de sua carreira como também adquiriu o respeito de todos aqueles que não levavam a sério o seu brilhante engajamento como musicista. Perfeitamente envolvida na produção executiva e composição de seu 4º disco de inéditas, Duff teve tempo de sobra para nos contar um pouquinho mais sobre a separação de seus pais (“Stranger”, “Gypsy Woman”), o rompimento com o próprio namorado (possivelmente a faixa-título) e um feliz incidente envolvendo um stalker russo (“Dreamer”). Com vocais mais contidos combinados a instrumentais dançantes cheios de muita elegância, Hilary nunca esteve tão confortável em um trabalho que exalasse tanta honestidade e autodeterminação

Paradas musicais: O álbum estreou em #3 na “Billboard 200” com vendas de 140.000 cópias na primeira semana

1) BLACKOUT – BRITNEY SPEARS

Gravadora: Jive Records

Lançamento: 25 outubro de 2007

Singles: “Gimme More”, “Piece of Me” e “Break the Ice”

Considerações: Eis que chegamos ao topo da nossa lista com o que é considerado, por muitos (inclusive por nós do Caí da Mudança), o melhor álbum pop deste milênio. E quando falamos em “Blackout” qualquer elogio definitivamente não é exagero! É curioso, contudo, que o maior nome por trás de sua criação não estivesse com o juízo completamente no lugar quando o carro-chefe “Gimme More” chegou em setembro de 2007 trazendo uma Britney Spears novinha em folha. Vivendo um verdadeiro inferno na Terra, a insubstituível Princesinha do Pop usou e abusou dos sintetizadores enquanto as composições do disco, claramente inspiradas pelas manchetes sensacionalistas dos tabloides da época, se encarregaram de expor uma crítica social e tanto. O sucesso foi tamanho que o 2º single do material, “Piece of Me”, entrou para a setlist de todas as turnês posteriores ao seu lançamento e ainda deu nome à atual residência que a cantora realiza em Las Vegas desde 2013, a “Britney: Piece of Me”. Tudo isso, é claro, não teria sido possível se não houvesse o envolvimento de mestres como Danja, Bloodshy & Avant, Kara DioGuardi, Keri Hilson e Jim Beanz. Em 2012, o “Rock and Roll Hall of Fame” incluiu “Blackout” em sua conceituada biblioteca musical

Paradas musicais: O álbum estreou em #2 na “Billboard 200” com vendas de 290.000 cópias na primeira semana


BÔNUS) MY DECEMBER – KELLY CLARKSON

Gravadora: RCA Records, 19 Recordings

Lançamento: 22 de junho de 2007

Singles: “Never Again”, “Sober”, “One Minute” e “Don’t Waste Your Time”

Considerações: Por fim, antes de encerrarmos a 3ª parte do “10 melhores álbuns de 10 anos atrás”, cabe a nós incluir uma importante menção honrosa ao 3º álbum de estúdio da primeiríssima vencedora do “American Idol”, Kelly Clarkson. Bem diferente do pop-rock mainstream que dominou o exitoso “Breakaway” (2004), “My December” aposta toda as suas fichas em uma sonoridade bem mais pesada e expressiva fortemente influenciada pelo rock. Coescrevendo cada uma das 13 faixas presentes na edição standard, Clarkson não teve medo de dar uma pausa nas parcerias de sucesso proporcionadas por Max Martin e Dr. Luke e mergulhou de cabeça por um caminho bem mais intimista que de longe nos fez lembrar o saudoso “Thankful” (2003). Você certamente já ouviu o lead single “Never Again”, que atingiu o #8 da “Billboard Hot 100”

Paradas musicais: O álbum estreou em #2 na “Billboard 200” com vendas de 291.000 cópias na primeira semana


E aí, deixamos algum trabalho de fora? Em sua opinião quais são os 10 melhores lançamentos de 10 anos atrás? Conte-nos a sua opinião.

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“Blue Exorcist”: vale a pena assistir?

Promessa é dívida! Após adiantarmos para vocês que neste mês o Caí da Mudança receberia dois “Vale a pena assistir?” novinhos em folha, eis que finalmente é chegado o momento de abandonar o ócio e botar a mão na massa. Assim, é com um aperto no coração que nos despedimos de toda a nostalgia noventista proporcionada pela recém-publicada resenha de “Slayers” e, avançando alguns passos para o futuro, abraçamos uma outra franquia tão completa como aquela que dissecamos há quase duas semanas.

A obra que dá nome a este artigo pode até soar estranha para você que não é inteiramente ligado ao universo dos animes, mas, quem já deu uma espiada em Blue Exorcist sabe que não estamos exagerando ao dizer que esta é uma das melhores novidades exportadas pela televisão japonesa dentro destes últimos dez anos. Ficou interessado? Então separa a água benta e vem com a gente descobrir um pouquinho mais sobre esta superprodução oriental de primeiríssima categoria.

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Precedentes e lançamentos em outros formatos:

Além do anime, “Blue Exorcist” conta com lançamentos em light novel, videogame e até mesmo longa-metragem

Seguindo a regra quase que absoluta da maioria dos animes que remete suas origens à popular indústria dos mangás, “Blue Exorcist” (ou “Ao No Exorcist”) não poderia ser diferente e também já circulava pelas páginas de papel muito antes de ser contemplado com a sua própria versão animada. Publicada pela revista “Jump Square”, da editora Shueisha, desde 2009, a obra conta, até o fechamento deste post, com 19 volumes escritos e ilustrados por Kazue Katō, sob o gênero shōnen.

Bem recebido pela crítica nipônica, a procura por “Blue Exorcist” cresceu tanto em tão pouco tempo que, já em 2013, um segundo mangá spin-off do primeiro (e também shōnen) intitulado “Salaryman Exorcist: The Sorrows of Yukio Okumura” chegou com tudo trazendo a já conhecida roteirização de Katō com as ilustrações de Minoru Sasaki. E não parou por aí! Expandindo-se para outros formatos diversos, os fãs da franquia ainda puderam conferir a light novel “Ao No Exorcist: Weekend Hero” (2011) escrita por Aya Yajima e ilustrada por Kazue; e o jogo que combinava elementos de RPG com visual novel “Blue Exorcist: The Phantom Labyrinth of Time” (ou “Ao No Exorcist: Genkoku no Labyrinth”) para PSP, lançado em abril de 2012 pela Bandai Namco Games.

O rebanho de Satã:

Rin e Yukio Okumura, os herdeiros do Anjo Caído

Mesclando a história narrada pelo mangá a um desfecho totalmente inédito (até por volta do episódio 18, quando as divergências se intensificam), “Blue Exorcist” nos apresenta à saga de Rin e Yukio Okumura, dois irmãos gêmeos órfãos criados desde o nascimento por Shiro Fujimoto, um padre católico. O que muitos desconhecem, todavia, é que o mosteiro em que os meninos cresceram esconde muitos mais mistérios que o imaginado, já que Fujimoto é um renomado exorcista licenciado pelo Vaticano e ambos os garotos escondem uma identidade nada convencional. Isso porque, apesar de gerados por uma mãe inteiramente mortal (Yuri Egin), os irmãos Okumura são descendentes de ninguém menos que o maior de todos os demônios conhecido pela humanidade: o terrível Satã.

Destroçados pela morte prematura de seu pai adotivo pelas mãos do Tinhoso, Rin e Yukio não veem outra saída senão ingressar na Academia da Cruz, uma renomada instituição de ensino que disponibiliza em sua grade um curso avançado para jovens candidatos a exorcistas, os exwires. É lá que a dupla conhece o excêntrico diretor Mephisto Pheles e seus demais colegas de classe, os quais não demorarão a deixar a competitividade de lado para ingressar em seu círculo de amigos. Lidando com as dificuldades inerentes à vida acadêmica de qualquer estudante, cabe ainda aos jovens se unir aos experientes exorcistas da Ordem da Cruz para lutar contra as forças do mal que pretendem unificar os reinos de Assiah (o mundo dos humanos) a Gehenna (o mundo dos demônios).

O primeiro tema de abertura de “Blue Exorcist”

Com direção de Tensai Okamura; produção de Hiro Maruyama pelo estúdio A-1 Pictures; roteirização de Ryōta Yamaguchi e trilha sonora de Hiroyuki Sawano, a 1ª temporada de “Blue Exorcist” foi exibida pela primeira vez de abril a outubro de 2011, pela rede MBS, totalizando 25 episódios e 1 OVA (“Runaway Kuro” / “Kuro no Iede”, lançado em Blu-ray e DVD) de 25 minutos cada. Ah, você encontra na Netflix, ok?

Um pouco mais sobre o Exorcista das Chamas Azuis:

A busca por aceitação que Rin percorre em todo o anime é, sem sombra de dúvidas, um dos pontos altos da produção

Apesar de ambos os gêmeos carregarem o sangue de Satã em suas veias, logo no episódio piloto nos é explicado que apenas Rin herdou os poderes de seu pai biológico, os quais são facilmente identificáveis através de inconfundíveis chamas azuis (daí o nome da franquia). Assim, e a fim de esconder a chamativa aparência não humana de seu primogênito, Fujimoto não pestanejou ao submetê-lo à destreza da Kurikara, uma lendária espada cortadora de demônios responsável por selar toda a essência diabólica de Rin. Vivendo até a adolescência sem saber a verdade sobre o seu passado – apesar de, esporadicamente, atormentado pela cruel dúvida acerca de sua indiscutível estranheza –, é com o assassinato de seu pai adotivo que o menino desperta seu lado mais obscuro e se incumbe da missão de derrotar o Lorde das Trevas.

Entretanto, se engana Rin ao acreditar que seus colegas (e até mesmo o Vaticano) aceitarão sua verdadeira identidade sem questionamentos, já que quase todos à sua volta parecem guardar um forte receio quanto à integridade de suas ações. Incitado a comprovar que é uma pessoa de boa índole, nosso protagonista precisará não apenas encarar o preconceito daqueles que almejam a sua morte como ainda encontrar uma maneira de controlar seus instintos mais primitivos e selvagens. Felizmente, é ao lado de uma antiga discípula de Fujimoto (Shura Kirigakure), de seu próprio irmão e daqueles que acreditam na legitimidade de seus planos que o Exorcista das Chamas Azuis precisará encontrar a inspiração necessária para enfrentar o seu demoníaco destino.

A mais do que bem-vinda “Saga de Quioto”:

Kuro, Rin Okumura e Renzo Shima (frente); Ryuji ‘Bon’ Suguro, Izumo Kamiki, Shiemi Moriyama, Konekomaru Miwa e Yukio Okumura (atrás); Mephisto Pheles e Amaimon (acima)

Concluídos os eventos que foram ao ar em outubro de 2011, foi após quase 6 anos sem novidades na TV que o mesmo A-1 Pictures decidiu fazer o inesperado e reanimou os ânimos de todos aqueles que guardavam um mínimo de esperança para a continuação do anime. Ignorando o desfecho de tudo que aconteceu nos últimos 8 episódios da 1ª temporada (sim, se prepare para “esquecer” um bocado de acontecimentos memoráveis) e seguindo fiel ao que nos é relatado pelos volumes 5 a 9 do mangá, “Blue Exorcist: Kyoto Saga” cortou os fillers de vez e diminuiu drasticamente seu número de episódios (de 25 para 12).

Nos introduzindo a uma nova narrativa com novos vilões e novos personagens secundários, “Kyoto Saga” leva os exwires da Academia da Cruz até a cidade de Quioto, onde eles conhecerão os familiares de Ryuji ‘Bon’ Suguro e Renzo Shima. É lá que o diversificado grupo deverá proteger os olhos direito e esquerdo do Rei Impuro, artefatos das trevas de um poder imensurável que, se combinados, podem desencadear uma catástrofe sem tamanhos.

Com direção de Koichi Hatsumi, roteiros de Toshiya Ōno e trilha sonora de Hiroyuki Sawano e Kohta Yamamoto, a 2ª temporada de “Blue Exorcist” foi exibida de janeiro a março de 2017, pela rede MBS, totalizando 12 episódios e 1 OVA (“Snake and Poison” / “Hebi to Doku”, lançado em DVD) de 25 minutos cada.

“Blue Exorcist” nos cinemas:

Pôster promocional de “Blue Exorcist: The Movie(2012)

Entretanto, muito antes de sermos presenteados com “Kyoto Saga”, Rin e Yukio Okumura já haviam recebido uma outra oportunidade de nos guiar para um novo tour pelas terras possuídas de “Blue Exorcist”. Liberado sob a forma de longa-metragem, “Blue Exorcist: The Movie” (“Ao No Exorcist Movie” ou “Ao No Exorcist Gekijouban”), lançado no dia 28 de dezembro de 2012 (a propósito, um dia após o aniversário dos irmãos protagonistas), conta com 1h30min de duração e teve seu enredo baseado tanto no mangá quanto no anime homônimo.

Animados com os preparativos de um grande festival que é celebrado uma vez a cada 11 anos, os aprendizes do cursinho de exorcistas veem toda sua excitação ir por água abaixo quando inúmeros demônios começam a se manifestar pela cidade. Porém, a situação piora drasticamente com o surgimento de um trem fantasma e de uma tentativa falha de exorcizá-lo, cabendo a Rin a desafiadora tarefa de vigiar Usumaro, um estranho garotinho que, inesperadamente, aparece no meio de toda a confusão. Prontamente dispostos a resolver os conflitos que arriscam prejudicar a realização do festival, logo os membros da Ordem da Cruz descobrirão que os eventos caóticos de agora estão intimamente conectados a uma história infantil do passado que há anos é recontada entre pais e filhos.

Dirigido por Atsushi Takahashi, roteirizado por Reiko Yoshida e produzido em parceria pelos estúdios A-1 Pictures e Toho Studios, “Blue Exorcist: The Movie” contou com a já familiar trilha sonora do mestre Hiroyuki Sawano (o mesmo responsável pelas duas temporadas do anime).

O exorcismo em “Blue Exorcist”:

Apesar de focar num tema considerado polêmico para muitos, a religião mal chega a ser mencionada nos exorcismos de “Blue Exorcist”

A este ponto da resenha certamente já está mais do que claro que demônios e exorcismos são os temas mais presentes em toda o anime. Entretanto, apesar de o Vaticano ser citado com frequência e reaproveitarem bem a cultura cristã para ilustrar diversas situações, é com imenso prazer que podemos dizer que criatividadefidelidade à cultura oriental predominam no espetáculo do início ao fim. Fanatismo religioso então, nem pensar, já que o pessoal por trás da franquia decidiu priorizar mais a questão mitológica do Cristianismo que a espiritual!

Para saber em qual especialidade os exwires da Academia da Cruz irão enfrentar suas batalhas, “Blue Exorcist” utiliza-se da denominação meister (do alemão “mestre”), uma espécie de título obrigatório concedido àqueles que desejam seguir carreira como exorcistas. Assim, e para extrair o melhor de cada aprendiz, 5 são as classes existentes, cada uma destacando uma habilidade distinta. Não importa qual classe o candidato opte: se for aprovado ao menos em uma, já pode ser considerado um exorcista. Assim, a animação traz knights (exorcistas que lutam com espadas); dragoons (armas); tamers (invocando e controlando demônios); arias (recitando a bíblia e outras escrituras sagradas); e doctors (que usam suas habilidades para curar humanos de danos causados por demônios). É dito no anime que Shiro Fujimoto possuía todos os 5 títulos.

O melhor da atualidade:

Com traços modernos e um enredo pra lá de extraordinário, “Blue Exorcist” é uma aventura e tanto para quem se interessa por animações inteligentes e de qualidade

Dando enfoque para as intermináveis cenas de batalha que, como é de se esperar, são mais do que bem executadas, “Blue Exorcist” supera as expectativas do telespectador e não faz feio ao combinar comédia com drama em uma roupagem totalmente sobrenatural. Tem até espaço para uma leve pitada de romance! Isso porque, além de ganhar a nossa atenção com o brilhantismo que é inerente a temática dos exorcismos, Ryōta Yamaguchi, Toshiya Ōno e Reiko Yoshida desenvolvem com maestria toda a narrativa construída por Kazue Katō, o grande nome por trás da franquia.

Como dito acima, até mesmo a 1ª temporada do anime, que é recheado de fillers e diversos pontos originais que divergem da história contada pelo mangá, supera o script original e nos conquista com um toque bem pessoal. É nesta oportunidade que citamos os emocionantes “Garden of Amahara” / “Amahara no Niwa” (S01E04) e “Black Cat” / “Ketto Shī” (S01E10), episódios em que conhecemos um pouco mais da vida de Shiemi Moriyama, a melhor amiga de Rin; e o gato-demônio Kuro, um antigo protegido de Fujimoto. Ainda que a vida de ambas as personagens sejam bastante aprofundadas por estas passagens, não custa nada dar uma chance para todo a animação de uma forma geral, incluindo os dois OVAs, e, é claro, o longa-metragem (que também mistura muito drama com comédia de uma forma fenomenal).

Apesar de nos intrigar com determinadas personas que rapidamente transformam nossa empatia instantânea em ódio gratuito e vice-versa (como o caso do demônio Amaimon, ou até mesmo da complicada Izumo Kamiki), “Blue Exorcist” é uma produção de mão cheia para todos aqueles que são exigentes à construção do roteiro, à qualidade dos traços e até mesmo à caracterização das personagens. Felizmente, o show não deixa a desejar em qualquer requisito e segue firme, como dissemos no começo desta resenha, como um dos melhores lançamentos exportados pela Terra do Sol Nascente dentro destes últimos dez anos. Completíssimo e com um número razoável de episódios (vamos lá, não chega a 40, dá para assistir tudo rapidinho), você definitivamente não se arrependerá de conferir o que de melhor e mais atual a indústria dos animes tem a oferecer ao telespectador de bom senso crítico.

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“Slayers”: vale a pena assistir?

Meu querido leitor, se você já é adulto, e adicionalmente passou da casa dos 20, então é bem provável que tenha crescido na companhia dos saudosos programas infantis da TV aberta que exibiam as sempre populares animações japonesas. Em tempos em que a internet discada mais falhava do que funcionava, a criança que existe aí dentro certamente voltava correndo do colégio só para não perder os episódios que faziam a infância ou adolescência de qualquer um muito mais gostosas.

E é através desse clima de pura nostalgia que selecionamos, após uma extensa maratona, o não tão conhecido anime que dá título ao primeiro “Vale a pena assistir?” deste mês (sim, já estamos planejando um segundo artigo ainda para setembro). Sem maiores delongas, vamos ao que realmente nos interessa: descobrir se você perderá tempo ou não dando uma conferida em Slayers.

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Precedentes:

Algumas das light novels de “Slayers” (fonte da imagem)

Tendo sua origem há exatos 28 anos, quando ganhou um singelo destaque na revista “Dragon Magazine”, em uma curta narrativa, “Slayers” não demorou muito para se consolidar numa sólida franquia que se estendeu rapidamente para as páginas dos mangás e para a telinha das animações e dos jogos de videogames. Contando, inicialmente, as histórias de Hajime Kanzaka que ganharam vida graças aos traços de Rui Araizumi, a marca não fez feio após sua tímida estreia e conquistou o Japão em 15 volumes veiculados pela renomada publicação da editora Fujimi Shobo, entre os anos de 1990 a 2000, no formato light novel.

Seguida pela duradoura “Slayers Special” (1991-2008), as aventuras de Lina Inverse e seus amigos caíram tanto no gosto popular que levou apenas seis anos para sair da indústria literária e chegar até a televisiva no primeiro e grandioso anime exibido pela TV Tokyo, em 1995. Produzido pelos estúdios E.G. Films e J.C.Staff ao longo de 26 episódios, a direção do homônimo “Slayers” ficou a encargo de Takashi Watanabe (“Lost Universe”), enquanto Takao Koyama foi o responsável por adaptar para a TV os 3 primeiros volumes da precursora light novel. E esta era apenas a ponta do iceberg!

Lina Inverse, o cordeiro em pele de lobo:

Lina Inverse, a protagonista de toda a franquia

Na história que nos é apresentada pelo pioneiro “Slayers” (1995), Lina Inverse é uma jovem feiticeira de apenas 15 anos popularmente conhecida como a maior assassina de bandidos e dragões de que se tem notícia. Temida por todos aqueles que mais cedo ou mais tarde acabam entrando em seu caminho, ela logo faz amizade com o habilidoso Gourry Gabriev, um charmoso e avoado espadachim que acompanha nossa jovem protagonista ao longo de todas as 5 temporadas do anime. É durante essa jornada de muitos perigos e desafios que se juntam definitivamente ao seu grupo expedicionário a princesa justiceira Amelia Wil Tesla Saillune, herdeira do trono de Seyruun, e o anterior guerreiro agora transformado em quimera Zelgadis Greywords.

O que muitos não sabem, porém, é que Lina Inverse, ao contrário do que alertam todos os rumores ao seu respeito, é na verdade uma garota muito sensata que não desperdiça uma oportunidade de ajudar o próximo (contanto, é claro, que seja generosamente recompensada por altas quantias de ouro ou por fartas refeições). Orientada por um senso de justiça bastante forte que carrega para onde quer que vá, não é mistério para ninguém que será justamente em suas costas que recairá toda a responsabilidade de salvar não apenas seus queridos amigos, mas também todo o restante da humanidade – principalmente da ameaça infligida pelo maior demônio de todos os tempos, o destruidor Shabranigdo.

A primeira das muitas aberturas fantásticas do anime

Auxiliada por seus companheiros de viagem e por todos aqueles que se prontificam a ajudá-la em sua árdua tarefa (dentre os quais destacamos aqui o sempre misterioso Xellos, o fofíssimo Pokota, a também feiticeira Sylphiel e a bondosa Filia), Lina Inverse aproveita toda essa trajetória de dificuldades e aprendizado para se aprimorar naquilo que melhor sabe fazer: magia. Para os amantes dessa arte oculta que instiga a nossa imaginação há tantos séculos, “Slayers” é uma produção de mão cheia que surpreende a cada novo episódio e não desaponta até mesmo o mais exigente dos telespectadores.

Um só anime, diversas ramificações:

Somente a 1ª temporada chegou dublada ao Brasil, quando foi exibida pela TV Bandeirantes

Encerrados os acontecimentos que desencadeiam “Slayers” (1995), somos então levamos para “Slayers Next” (1996) e “Slayers Try” (1997), o 2º e 3º arcos da franquia que receberam a mesma direção, produção e roteirização da primogênita temporada. Uma curiosidade bastante peculiar sobre estes dois segmentos é que, enquanto “Next” manteve-se fiel ao enredo narrado pela light novel e adaptou para a TV os eventos ocorridos entre os volumes 4 a 8, “Try” nos apresentou uma história totalmente original, ambas com 26 episódios cada. Uma 4ª temporada, denominada “Slayers Again”, até chegou a ser cogitada seguindo o sucesso de “Try”, mas os rumores da época apontam que o projeto foi rapidamente engavetado, sendo que só tivemos notícias de um novo lançamento mais de uma década mais tarde.

Assim, ainda sob a produção do estúdio J.C.Staff, sob a transmissão da TV Tokyo e a direção de Takashi Watanabe – mas desta vez com os roteiros de Jiro Takayama –, os sempre fiéis seguidores de “Slayers” tiveram a honra de ser apresentados, muitos anos depois, a “Slayers Revolution” (2008) e “Slayers Evolution-R” (2009), as duas últimas temporadas responsáveis por colocar um ponto final na série televisiva. Cada uma exibindo 13 novos episódios de uma narrativa inédita inspirada em subplots pertencentes às light novels, ambas as novidades foram liberadas em continuação com uma arte muito mais moderna que, em momento algum, chegou a desrespeitar todo o legado construído pela marca em plenos anos 90. É o novo dando as boas-vindas ao velho da melhor maneira que se pode imaginar!

O outro universo de “Slayers”:

Naga e Lina em poster promocional de “Slayers Perfect” (1995), o primeiro longa-metragem

Paralelamente, o que a maior parte de quem assistiu ao anime (e não deu a mínima atenção para os demais formatos) desconhece é que, diferente do que pôde ser visto na telinha da televisão japonesa, o desfecho do que acontece nos filmes e nos episódios em OVA é inteiramente à parte da série principal, quase funcionando como prequelas. Isso porque não apenas todos os 4 longas-metragens, mas também os 6 episódios extras liberados diretamente em vídeo, nos redirecionam aos primórdios da saga de Lina Inverse, quando a feiticeira sequer conhecia Gourry Gabriev ou sua tão desejada Espada da Luz.

Desta maneira, tanto em “Slayers Perfect” (1995) [também conhecido como “Slayers The Motion Picture” e “Slayers The Movie: Perfect Edition”]; como em “Slayers Return” (1996) [também conhecido como “Slayers Movie 2: The Return”]; “Slayers Great” (1997); e “Slayers Gorgeous” (1998), Lina desbrava o mundo ao lado de ninguém menos que Naga, a Serpente, uma atrapalhada feiticeira que se autointitula a maior inimiga da protagonista – apesar de, na verdade, nutrir uma grande amizade por ela.

O mesmo, é claro, se repete nos lançamentos em OVA, os quais podem ser encontrados por aí sob os nomes “Slayers Special” (1996) [também chamado de “Slayers: Dragon Slave”, “Slayers: Explosion Array” e “Slayers: The Book of Spells”]; e “Slayers Excellent” (1998), tendo, cada, 3 episódios, totalizando 6. A grande exceção, talvez, fique com o 5º filme da franquia, “Slayers Premium” (2001), um curta-metragem de 30 minutos; e a participação de Nama em “Slayers Evolution-R”, que foram o mais próximo tivemos de uma colisão entre o passado e o presente da vida de Lina.

“Slayers” nos videogames:

Tela de entrada de “Slayers” (1994), o primeiro jogo da franquia liberado para o SNES

Se você se interessou para reviver a fascinante jornada de Lina Inverse e seus amigos nos videogames, então precisa saber que a franquia “Slayers” se expandiu para os títulos: “Slayers” (1994), para o SNES; “Slayers Royal” (1997) e “Slayers Royal 2” (1998), para Sega Saturn e PlayStation; e “Slayers Wonderful” (1998), para PlayStation. Vale dizer, também, que diversos de seus personagens, como Lina, Gourry e Naga, cresceram tanto na indústria eletrônica que ganharam destaque em crossovers como “Magical Battle Arena” (2008), para PC; “Heroes Phantasia” (2012), para PSP; e “Granblue Fantasy” (2014), para Android e iOS.

Comédia, romance e uma leve pitada de erotismo:

Imagem promocional de “Slayers Evolution-R” (2009), a última temporada do programa

Quebrando o padrão dos animes de ação e aventura da década de 90 que traziam, quase que em sua maioria, protagonistas masculinos, “Slayers” esteve tão à frente de seu tempo que foi, provavelmente, um dos pioneiros a explorar o girl power entre seus jovens telespectadores. E fique sabendo que esta não foi uma decisão exclusiva dos estúdios E.G. Films e J.C.Staff, pois, desde a época das light novels e mangás a franquia já possuía como público alvo os jovens leitores japoneses do sexo masculino (tanto que os primeiros mangás foram publicados como seinen e os mais recentes como shōnen). Seguindo por esta linha de raciocínio, não seria de todo absurdo se os traços da animação seguissem fiéis ao material impresso e sexualizassem o corpo feminino ao extremo, como de fato aconteceu, sendo Naga, a Serpente o maior exemplo disso.

Em contrapartida, grande parte da comédia proveniente de “Slayers” parte exatamente dessa premissa, uma vez que Lina Inverse é uma garota baixinha e desprovida de um corpo violão, recebendo, para sua infelicidade, os comentários mais asquerosos possíveis. Como boa feiticeira que é, ela não deixa barato e está sempre enfeitiçando aqueles que ousam criticar sua aparência, não pensando duas vezes antes de mirar um “Fireball” ou “Dragon Slave” nos tarados de plantão que têm a audácia de chamá-la de “sem peito”. Transbordando impaciência e impulsividade, é graças ao cuidado redobrado de Amelia, Gourry e Zelgadis que Lina não perde a cabeça a todo momento e consegue manter o foco em si mesma, seja para desempenhar as tarefas que lhe são passadas pelos homens de poder de cada cidade que visita, seja para frequentar um restaurante e deixá-lo à beira da falência.

Uma última vertente do programa que não poderia deixar de ser mencionada, é claro, é o romance, já que a nossa protagonista e Gourry chegam a viver alguns raríssimos momentos bem calientes – o que não é lá muito fácil para Lina, pois o cara é bastante tapado e estraga qualquer chance de conquistar a sua amada. O espadachim é tão disputado pelo elenco feminino que somos agraciados, em “Slayers Next”, com um dos mais divertidos episódios de toda a animação: “You Can’t Escape! The Return of the Obsessive Martina!”, o 6º dessa temporada. Apesar de nunca explorado com maiores detalhes, fortes indícios nos fazem crer que também existiu no anime um outro romance platônico envolvendo Amelia e Zelgadis, mas essa é uma teoria que jamais pôde ser comprovada na TV, pois o grupo sempre esteve tão ocupado combatendo o mal que jamais conseguiu tirar um segundo para refletir sobre suas vidas amorosas. Se não está fácil nem para Lina e Gourry, quem dirá para Amelia e Zel!

Um clássico que poucos conhecem:

Amelia, Gourry, Lina, Xellos (fundo) e Zelgadis, o grupo completo

Como não é muito difícil de se imaginar após uma resenha tão positiva como esta, “Slayers” é a nossa primeira indicação de anime do mês para todos aqueles que não dispensam uma produção de qualidade que sabe dosar comédia com fantasia na medida certa – e o mais importante: com aquela pitada de nostalgia que somente os animes clássicos são capazes de nos proporcionar. Nem um pouco arrastado, cada arco desenvolve-se brilhantemente ao passo que até mesmo os fillers não devem ser evitados. Assista-os: você não pode perder a oportunidade única de ver Lina e Amelia cantando e dançando em “The Forbidden Dance? Where is the Strongest Spell?” (S02E14) com roupas bem ao estilo Sailor Moon (veja aqui um trechinho).

Trazendo, inclusive, alguns efeitos sonoros bem similares aos de cults como “Dragon Ball Z”, você não demorará para notar que, assim como outros grandes clássicos noventistas, “Slayers” segue uma linha de produção infalível que há anos se perdeu por entre os últimos lançamentos japoneses. Com jogadas inteligentes de roteiro e uma caracterização das personagens tão específica que entrará na sua cabeça para certamente jamais sair (existe risada mais irritante, adorável e maravilhosa que a de Naga, a Serpente?), o show extravasa criatividade ao mesmo tempo que controla uma simplicidade sem tamanhos. Se é tempero que você quer, então pode se recostar na cadeira e relaxar, pois este aqui tem de sobra.

Este artigo é dedicado ao amigo Kelvin

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“Yu-Gi-Oh! Zero” (1998): vale a pena assistir?

O ano de 2016 foi, definitivamente, muito importante para a inclusão de uma temática tão pouco explorada aqui no Caí da Mudança, mas que, de vez em quando, surge para entreter os insaciáveis amantes da cultura oriental: as animações japonesas. E, se você tem o costume esporádico de acompanhar o escasso material que já produzimos para a nossa seção de desenhos animados, então deve saber que “Yu-Gi-Oh!” foi, de longe, o título que mais apareceu entre as nossas publicações voltadas exclusivamente para o público otaku.

Não muito diferente no post de hoje, finalmente chegou o momento de darmos alguns passos em direção às origens do “Monstros de Duelo” e tirar do baú a primeira experiência televisiva que se encarregou de nos apresentar à incrível saga de Yugi Muto. Senhoras e senhores, com vocês… “Yu-Gi-Oh! Zero”.

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Precedentes… o primeiro “Yu-Gi-Oh!”:

As diversas faces de Yami Yugi: as três primeiras retratadas em “Duel Monsters” e a última em “Zero” (autor desconhecido)

Apesar de ter se tornado o trabalho mais popular de toda a exitosa franquia “Yu-Gi-Oh!” (“Rei dos Jogos”, em tradução livre), muitos não sabem que “Duel Monsters” (2000-2004) não foi o primeiro produto inspirado no mangá de mesmo nome a ter os seus capítulos redirecionados para episódios de televisão. Isso porque de abril a outubro de 1998 foi ao ar, pela “TV Asahi”, o autointitulado “Yu-Gi-Oh!”, a promissora animação da “Toei Animation” desenvolvida em apenas 27 episódios que levaram aos telespectadores toda a originalidade da história inicialmente contada e ilustrada por Kazuki Takahashi dois anos antes, em 1996.

Sob a direção de Hiroyuki Kakudou, a simplista produção de olhar visionário não fez feio e tentou, a todo custo, manter-se o mais fiel possível da obra original que anos antes era sucesso moderado entre o público leitor japonês. Narrando-nos a história de Yugi Muto, o anime original afasta-se em muito da proposta intentada por “Duel Monsters” e, apesar de nos apresentar formalmente aos melhores amigos do protagonista que já haviam dado as caras na conhecida e aclamada “sequência”, pouco reproduz do que nos foi ensinado ao longo de 224 episódios.

Produzido pela companhia “NAS” (“Nihon Ad Systems”) com o apoio do “Studio Gallop”, “Duel Monsters” rendeu cinco temporadas que foram subdivididas em inúmeros arcos – dentre os quais se destaca, é claro, o pioneiro “Duelist Kingdom”, da season 1. Já o mangá foi originalmente publicado pela “Weekly Shōnen Jump” (revista semanal de responsabilidade da editora “Shueisha”) e chegou a ser comercializado até o ano de 2004. No Brasil sua veiculação só aconteceu seis anos mais tarde, quando a editora nipo-brasileira “JBC” distribuiu a HQ entre os anos de 2006 a 2010 – quando a franquia já era febre em todo o território nacional.

Como Yin e Yang:

 Enquanto no anime de 2000 as diferenças entre Yugi Muto e Yami Yugi eram bem frágeis e pouco nos convenciam, em “Zero” (1998) desde o início o telespectador possui a certeza de que se encontra diante de duas personalidades completamente opostas
Enquanto no anime de 2000 as diferenças entre Yugi Muto e Yami Yugi eram bem frágeis e pouco nos convenciam, em “Zero” (1998) o telespectador tem a certeza de que se encontra diante de duas personalidades completamente opostas desde o início (autor desconhecido)

Influenciado pelos 7 primeiros volumes do mangá de Kazuki Takahashi, “Zero” (como foi nomeado décadas mais tarde pelos fãs da franquia no intuito exclusivo de diferenciar o primeiro desenho animado do segundo – que a nível mundial também recebeu apenas o título “Yu-Gi-Oh!”, sem o “Duel Monsters”) nos introduz ao nosso popular jovem protagonista de uma maneira jamais vista antes. Isso porque diferente da linha de produção pré-moldada pelos roteiristas da “NAS” e do “Studio Gallop”, a animação de 1998 não se atropela ao “vender o seu produto” e delimita de maneira formidável os contornos que separam Yugi Muto de Yami Yugi.

Dessa forma, “Zero” acerta ao repetir as inseguranças do menino Yugi que já eram de nosso conhecimento (em “Duel Monsters”) e vai além ao retratá-lo como alguém exageradamente sensível, tímido e deveras solitário (características tão pouco exploradas na superprodução de 2000). Vítima de um terrível caso de bullying diário, Muto é extremamente altruísta e sustenta uma bondade sem tamanhos – a qual, por diversas vezes, transcende um estado de inocência que beira a tolice. O garoto sofre tanta dor física e pressão psicológica que é inevitável ao telespectador não passar a maior parte dos episódios revezando-se entre a compaixão e a impunidade daqueles que tentam lhe fazer algum mal.

Todavia, como Yin e Yang, Yami Yugi (o antigo espírito que habita o Enigma do Milênio) também ganha bastante destaque por todo o anime e merece apontamentos a serem tecidos à parte. Exaltando um senso de justiça extremista capaz de rebaixar Maximillion Pegasus para o nível de mero aprendiz, o lado sombrio de Yugi age de maneira fria e desconhece o significado de palavras como racionalidade e piedade. Um verdadeiro justiceiro fora-da-lei, nosso segundo protagonista (por vezes antagonista) possui um senso de humor mórbido e não pensa duas vezes antes de fazer com que os vilões da animação sejam confrontados pessoalmente com o mal que habita em seus corpos. Já dizia o antigo “Código de Hamurabi”: “olho por olho, dente por dente…”

O verdadeiro “Rei dos Jogos”:

Yugi Muto transformando-se em Yami Yugi

Se “Duel Monsters” economizou na quantidade de jogos/desafios e deu preferência ao bom e velho “Monstros de Duelo”, “Zero” também ganha pontos do telespectador ao fugir do característico jogo de cartas e incorpora uma infinidade de outras competições bem inusitadas. Resgatando clássicos como o ioiô e o nostálgico RPG dos anos 80, o anime nos traz episódios em que estratégia, lógica e sorte se revelam ferramentas fundamentais para qualquer um que decida cruzar o caminho do todo poderoso “Rei dos Jogos”. Ah, e ainda tem espaço para o “Monstros dos Dados Masmorra” (que também chegou a ganhar um pequeno destaque no anime de 2000), “Monstros de Cápsula” (este com um spin-off todinho de 12 episódios) e até mesmo um campeonato regional multidisciplinar promovido pelo mauricinho mais detestado/idolatrado de toda a história da franquia: Seto Kaiba.

A abertura de “Yu-Gi-Oh! Zero”

Mais do que meros personagens:

Por ter ido ao ar apenas no Japão, “Zero” acabou se tornando bem menos conhecido que “Duel Monsters” e os demais spin-offs produzidos nos últimos anos

Já iniciando com uma trilha sonora que soa super nostálgica até mesmo para quem jamais assistiu a qualquer episódio da animação, “Zero” desenvolve-se de maneira muito mais intimista que “Duel Monsters” e tem seu enredo focado numa quantidade bem menor de personagens.

Além de Joey, Téa e Tristan (que no anime são apresentados em seus nomes originais: Jonouchi, Anzu e Honda, respectivamente), dos inseparáveis (e bem mais egoístas) irmãos Kaiba e dos recorrentes Shadi e Bakura, o anime da “Toei Animation” resgata a fidelidade do mangá e nos traz a presença da meiga Miho Nosaka: o quinto membro do famoso quarteto que acabou sendo injustificadamente ocultado dois anos mais tarde pela “NAS” e pelo “Studio Gallop”. Responsável por impulsionar o lado mais apaixonado de Tristan (Honda), o “elemento surpresa” em “Zero” equilibra consideravelmente o elenco feminino e concede à Téa (Anzu) a oportunidade de não se sentir tão incompreendida em meio a garotos tão perdidamente bobos e impulsivos.

Nos disponibilizando mais tempo para conhecer o Sr. Muto (o avô do Yugi), podemos acompanhar ainda todo o amadurecimento de Joey (Jonouchi) como melhor amigo do protagonista; o bom-humor de Tristan, que por alguma razão desapareceu na “sequência” de 2000; e a seriedade de Téa, que em “Duel Monsters” deixou muito a desejar no quesito autoestima. Até mesmo os vilões de “Zero” desenvolvem seus propósitos com maior agressividade e sensibilidade, convencendo-nos de que a humanização presente no desenho ultrapassa a mera pretensão de “ser apenas um entre tantos outros projetos de sucesso”.

O “Jogo das Trevas” como você nunca viu:

Obscuro, bem obscuro… (autor desconhecido)

Sustentando uma história de fundo mais singela e livre de muitas extravagâncias, “Zero” foca bastante no relacionamento interpessoal de seus personagens e nos leva para situações comuns ao dia a dia de qualquer pessoa. Assim, não espere que toda a tecnologia de “Duel Monsters” dê as caras por aqui, já que de longe este não foi um objetivo intentado por Hiroyuki Kakudou, o diretor da animação. Em muitos dos episódios, inclusive, o drama e a simplicidade tomam conta da trama e o desfecho segue assim, tentando a todo momento nos emergir para a realidade do que nos está sendo transmitido para nossos olhos. Um simples passeio em um parque de diversões ou o assalto de uma lanchonete são mais do que suficientes para nos entreter por mais de 20 minutos; e esta particularidade, com certeza, é o segredo para nos deixar tão confortáveis e sedentos por mais ao fim de cada narrativa.

(In)Felizmente, como o anime não chegou a ser distribuído para outros países do globo (incluindo o gigante continental do Norte), a versão que assistimos de “Zero” é a original japonesa sem as inúmeras modificações investidas pelas produtoras americanas a fim de se censurar a obscuridade que é inerente das produções orientais. Muito mais cru e bizarro que qualquer outro título da franquia “Yu-Gi-Oh!”, a impressão que temos é a de que a “Toei Animation” não poupou esforços de tentar mexer com o psicológico do telespectador, entregando-nos um trabalho recheado de tabus e de uma forte simbologia que transborda para todos os cantos. Se você detesta a censura, então provavelmente irá adorar a ausência dela neste desenho.

Partindo para uma direção completamente oposta da grande maioria das animações atuais, “Zero” nos traz aquele gostinho de sinceridade que eventualmente é deixado de lado para poupar o público infantil de temas tão pesados como insanidade e violência. Não há dúvidas que essa falta de barreiras, por vezes, pode chocar os telespectadores desavisados – e, certamente, ocasionar um pequeno mal-estar naqueles que não esperam ser confrontados tão diretamente assim. Entretanto, por mais que a obra exceda este conformismo com o qual já estamos acostumados há tanto tempo, é sempre bom conhecer “novas” produções que conseguem quebrar o padrão de maneira tão honesta e autêntica. Mais do que um anime qualquer que nos cativa por sua versatilidade incomparável, “Yu-Gi-Oh! Zero” enxerga muito além de qualquer outro título desta exitosa franquia e coloca em pratos limpos a natureza humana como ela realmente é na maior parte do tempo: fria, calculista, complicada e um bocado injusta.


Este artigo fala sobre “Yu-Gi-Oh! Zero”, o primeiro anime que foi ao ar em 1998. Para saber mais sobre a franquia “Yu-Gi-Oh!”, leia o nosso especial publicado no Co-op Geeks. Caso esteja procurando pelo segundo anime produzido pela “NAS” e que foi ao ar entre os anos de 2000 a 2004, fique com o “Vale a pena assistir” de “Yu-Gi-Oh! Duel Monsters”.


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“Stranger Things” (1ª temporada): vale a pena assistir?

Se você não esteve em coma nos últimos dois meses então provavelmente já ouviu falar sobre “Stranger Things”: a nova série da “Netflix” que se tornou um fenômeno de imediato. Seguindo a linha de outros espetáculos transmitidos pelo que é hoje uma das maiores plataformas de streaming do planeta, “Things” repete o sucesso de suas antecessoras e, assim como tudo o que tem sido exibido com exclusividade pelo site, se sobressai com um nível de qualidade por vezes inacreditável. Combinando elenco a roteiro, direção, fotografia, temática, trilha sonora e muito mais, o tema do nosso “Vale a pena assistir?” de hoje está imperdível – e você precisa conferir, a seguir, tudo o que é necessário saber sobre uma das novidades mais comentadas do ano. Estão preparados?

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

2016 é o novo 1986… o retrô está de volta:

Ao lado de Eleven, o trio formado por Mike, Dustin e Lucas (da direita para a esquerda) é, com certeza, um dos maiores motivos para você conhecer “Stranger Things”

Esqueça tudo o que você conhece e que tenha acontecido após o início da década de 90! Totalmente ambientada nos anos 80, “Stranger Things” se passa na pacata cidade de Hawkins, Indiana: um lugar onde os registros policiais praticamente não existem – e o mais grave que pode acontecer a alguém é o furto de anões de jardim.

Nos introduzindo a um grupo de garotos comuns que divide o seu tempo entre tarefas de escola e partidas de RPG (jogo que foi auge na época e popularizou-se graças ao pioneiro “Dungeons & Dragons”), a trama ganha forma quando Will Byers (Noah Schnapp) misteriosamente desaparece sem deixar maiores vestígios. Impulsionando um sistema de buscas auxiliado pelos próprios moradores da região, a polícia – e toda a cidade – se vê paralisada diante do incidente enquanto a mãe do menino, Joyce (Winona Ryder), tenta fazer tudo que está ao seu alcance para encontrar o caçula da família.

Paralelamente, uma agência secreta governamental que opera nas redondezas acaba perdendo o controle de seus experimentos e faz com que as falhas de seus estudos se esbarrem no cotidiano normal dos habitantes de Hawkins. Interceptando ligações telefônicas e “dando um jeito” em todos aqueles que entram em seu caminho (mesmo que involuntariamente), caberá aos poderosos chefões do governo norte-americano a difícil missão de encobertar a infinidade de segredos que, gradualmente, nos é revelada ao longo de cada intenso episódio.

O nascimento de alguns… e a ascensão para outros:

Millie Bobby Brown e Winona Ryder, o encontro de duas gerações tão promissoras

Protagonizado por um time de atores mirins que, até o momento, não havia participado de muitos outros projetos de renome, a superprodução acerta ao redirecionar toda sua atenção para os novatos que ganham nossa empatia instantaneamente. Narrando a nostálgica aventura de Mike Wheeler (Finn Wolfhard), Dustin Henderson (Gaten Matarazzo) e Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin) atrás do melhor amigo desaparecido, a trajetória do trio muda radicalmente com a chegada de Eleven/Onze (Millie Bobby Brown), uma garota bastante incomum que parece saber mais do que aparenta – e que, é claro, não demorará para roubar todos os holofotes para si.

Também nos entregando as atuações brilhantes de Natalia Dyer (Nancy Wheeler) e Charlie Heaton (Jonathan Byers), irmãos mais velhos de Mike e Will, respectivamente, “Stranger Things” conta com os recorrentes – e bem convincentes – Joe Keery (Steve Harrington) e Shannon Purser (Barbara Holland), namorado e melhor amiga de Nancy.

Sob a pele do chefe de polícia Jim Hopper, o destemido David Harbour divide o elenco adulto com Cara Buono (Karen Wheeler), Matthew Modine (Dr. Martin Brenner) e ninguém menos que Winona Ryder, o nome mais experiente e consagrado de toda a série. Conhecida por ter estrelado diversos clássicos da cultura popular como “Os Fantasmas Se Divertem” (1988), “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Garota, Interrompida” (1999), a veterana se destaca por uma singularidade que lhe é inerente, convencendo-nos com uma interpretação cheia de paixão e honestidade. Ryder, definitivamente, não brinca em serviço!

Um pouco de História não faz mal a ninguém:

MKULTRA, um programa clandestino (e real) da CIA, serve como uma das influências para a série

Flertando com o sobrenatural e com o passado, a produção dos Duffer Brothers é precisa em sua narrativa e aproveita-se de todos os recursos históricos da época em busca de exatidão e credibilidade. Passando-se, como dito, em uma América dos anos 80, o enredo aproveita o plano de fundo da Guerra Fria (que ainda se movimentava a todo vapor e só foi perder velocidade com o fim da União Soviética, em 1991) e traz à tona algumas teorias de conspiração que frequentemente são reafirmadas por programas e séries de TV. Uma dessas teorias foi o real MKULTRA, um programa clandestino da CIA (o Serviço de Inteligência dos EUA) que chegou a fazer experimentos em seres humanos com drogas e inúmeros meios de tortura, abuso e procedimentos cirúrgicos. Haja fôlego para tanta informação!

Transbordando temáticas e inspirações:

Dá pra acreditar que “Stranger Things” já virou até um joguinho para PC? (Compatível com Windows, MAC e Linux)

Vindo até nós como “uma homenagem à cultura dos anos 80”, “Things” não nega suas origens e revela-se um verdadeiro tributo ao trabalho dos gigantes do cinema Steven Spielberg, John Carpenter e George Lucas. Driblando entre a ficção científica, o sobrenatural, o terror, o mistério e o drama, a série ainda toma por influência as obras literárias de Stephen King e diversos cults como “Alien” (1979), “Poltergeist” (1982), “E.T.: O Extraterrestre” (1982), “A Hora do Pesadelo” (1984), “Os Goonies” (1985) entre outros. A gama de inspiração é tão extensa que sobrou até para alguns títulos do survival horror a função de contribuir para o que conhecemos do programa – como o lendário “Silent Hill” (1999) e o recente “The Last of Us” (2013)

Falando sobre bullying e preconceito, os diálogos que encontramos por toda a série são bem fieis à linguagem oitentista, um período em que a liberdade sexual costumava ser bastante oprimida desde a infância (e adjetivos como “bicha” corriam de boca em boca da forma mais pejorativa possível). Trazendo exemplos clássicos da perseguição sofrida por milhares de crianças e adolescentes durante o período escolar, “Stranger Things” também divide a concentração do telespectador para abarcar outros temas recorrentes como divórcio, família, amizade, violência, opressão estatal, ciência, parapsicologia e a moderna representatividade. De nerds a negros e inúmeros outros grupos rejeitados pelas grandes massas (e rotulados como “desajustados”) – tem até espaço para a displasia cleidocraniana, uma doença que atinge um dos personagens/atores do programa –, o espetáculo critica com veemência os padrões impostos pela sociedade e tenta ser o mais diversificado possível (com toda a razão do mundo, é claro).

A 2ª temporada vem aí:

A sequência que todos estão esperando…

Construída em uma única temporada disponível desde julho passado com 8 episódios que variam de 42 a 55 minutos, “Stranger Things” conta com a produção executiva dos Duffer Brothers (os criadores da série) auxiliados por Shawn Levy e Dan Cohen. Produzido pela “21 Laps Entertainment” e pela “Monkey Massacre” (e claro, distribuído exclusivamente pela “Netflix”), o show já foi confirmado para uma season 2 que tem estreia agendada para 2017, em 9 novos episódios. Bem recebida pela crítica especializada, a sua estreia acumulou 95% de aprovação pelo Rotten Tomatoes e 76/100 pelo Metacritic.

Vídeo hilário da apresentadora Xuxa gravado especialmente para divulgação da primeira temporada no Brasil

Um começo mais do que perfeito, mas um final…

A trilha sonora de “Stranger Things”, que tem de The Clash a New Order e Dolly Parton, é sem sombra de dúvidas outro grande acerto da produção (confira)

Conquistando crianças e adultos sem visar um público específico, a novidade é certeira em sua proposta e não apenas homenageia a infância de muitos como também é eficaz ao trazer para as novas gerações todo o brilho de uma das melhores décadas passadas. Apesar de destacar-se por toda sua parte visual que é bastante fiel ao cinema e TV oitentistas (o que inclui cenário, figurino e, é claro, esbarra no próprio lado cultural e histórico de nossos parentes mais velhos), “Things” possui uma história muito bem amarrada que, em momento algum, deixa a desejar. Com um roteiro digno de um clássico infantil bem ao estilo de “Os Goonies” e “E.T.: O Extraterrestre”, a série desencadeia-se em uma sequência louca de eventos que acontece de forma paralela – mas que, da maneira mais coesa possível, culmina em um mesmo caminho derradeiro.

Todavia, por mais que administre tudo isso em doses perfeitas de pura nostalgia que solidificam-se nos 7 primeiros (e maravilhosos) capítulos de sua grade, a produção comete o desculpável deslize de fechar o ciclo de modo demasiadamente apressado, deixando o telespectador um tanto quanto confuso. Não que a season finale coloque os pés entre as mãos e deixe muitos furos na história (claro que a maioria destes foram propositais e deverão ser fechados com as próximas temporadas), mas, é como se não tivéssemos o tempo necessário para digerir todas as informações que nos bombardeiam em apenas 53 minutos de duração – se divididos em dois episódios finais, provavelmente ficaríamos mais bem à vontade.

Progredindo como as páginas de um bom livro que consegue nos emergir em sua narrativa e nos desconectar do plano físico, “Stranger Things” é uma ótima dica para todos aqueles que há muito esperavam por uma série que fosse capaz de tirar o fôlego sem muito blá-blá-blá. Mais um título entre os diversos dos últimos anos que foram lançados fora da TV e conseguiram, por vezes, se sobressair à plataforma mais clássica que nos acompanha desde a década de 40, a obra-prima dos Duffer Brothers surge para nos corroborar que o futuro está cada vez mais próximo e inadiável. Após passarmos longos 70 anos debruçados em frente aos antiquados televisores de tubo que foram, aos poucos, substituídos pelas telas de LCD e LED, cada vez mais o amanhã se torna imprevisível – e, por que não, até um pouco assustador…

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