“Yu-Gi-Oh! Zero” (1998): vale a pena assistir?

O ano de 2016 foi, definitivamente, muito importante para a inclusão de uma temática tão pouco explorada aqui no Caí da Mudança, mas que, de vez em quando, surge para entreter os insaciáveis amantes da cultura oriental: as animações japonesas. E, se você tem o costume esporádico de acompanhar o escasso material que já produzimos para a nossa seção de desenhos animados, então deve saber que “Yu-Gi-Oh!” foi, de longe, o título que mais apareceu entre as nossas publicações voltadas exclusivamente para o público otaku.

Não muito diferente no post de hoje, finalmente chegou o momento de darmos alguns passos em direção às origens do “Monstros de Duelo” e tirar do baú a primeira experiência televisiva que se encarregou de nos apresentar à incrível saga de Yugi Muto. Senhoras e senhores, com vocês… “Yu-Gi-Oh! Zero”.

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Precedentes… o primeiro “Yu-Gi-Oh!”:

As diversas faces de Yami Yugi: as três primeiras retratadas em “Duel Monsters” e a última em “Zero” (autor desconhecido)

Apesar de ter se tornado o trabalho mais popular de toda a exitosa franquia “Yu-Gi-Oh!” (“Rei dos Jogos”, em tradução livre), muitos não sabem que “Duel Monsters” (2000-2004) não foi o primeiro produto inspirado no mangá de mesmo nome a ter os seus capítulos redirecionados para episódios de televisão. Isso porque de abril a outubro de 1998 foi ao ar, pela “TV Asahi”, o autointitulado “Yu-Gi-Oh!”, a promissora animação da “Toei Animation” desenvolvida em apenas 27 episódios que levaram aos telespectadores toda a originalidade da história inicialmente contada e ilustrada por Kazuki Takahashi dois anos antes, em 1996.

Sob a direção de Hiroyuki Kakudou, a simplista produção de olhar visionário não fez feio e tentou, a todo custo, manter-se o mais fiel possível da obra original que anos antes era sucesso moderado entre o público leitor japonês. Narrando-nos a história de Yugi Muto, o anime original afasta-se em muito da proposta intentada por “Duel Monsters” e, apesar de nos apresentar formalmente aos melhores amigos do protagonista que já haviam dado as caras na conhecida e aclamada “sequência”, pouco reproduz do que nos foi ensinado ao longo de 224 episódios.

Produzido pela companhia “NAS” (“Nihon Ad Systems”) com o apoio do “Studio Gallop”, “Duel Monsters” rendeu cinco temporadas que foram subdivididas em inúmeros arcos – dentre os quais se destaca, é claro, o pioneiro “Duelist Kingdom”, da season 1. Já o mangá foi originalmente publicado pela “Weekly Shōnen Jump” (revista semanal de responsabilidade da editora “Shueisha”) e chegou a ser comercializado até o ano de 2004. No Brasil sua veiculação só aconteceu seis anos mais tarde, quando a editora nipo-brasileira “JBC” distribuiu a HQ entre os anos de 2006 a 2010 – quando a franquia já era febre em todo o território nacional.

Como Yin e Yang:

 Enquanto no anime de 2000 as diferenças entre Yugi Muto e Yami Yugi eram bem frágeis e pouco nos convenciam, em “Zero” (1998) desde o início o telespectador possui a certeza de que se encontra diante de duas personalidades completamente opostas
Enquanto no anime de 2000 as diferenças entre Yugi Muto e Yami Yugi eram bem frágeis e pouco nos convenciam, em “Zero” (1998) o telespectador tem a certeza de que se encontra diante de duas personalidades completamente opostas desde o início (autor desconhecido)

Influenciado pelos 7 primeiros volumes do mangá de Kazuki Takahashi, “Zero” (como foi nomeado décadas mais tarde pelos fãs da franquia no intuito exclusivo de diferenciar o primeiro desenho animado do segundo – que a nível mundial também recebeu apenas o título “Yu-Gi-Oh!”, sem o “Duel Monsters”) nos introduz ao nosso popular jovem protagonista de uma maneira jamais vista antes. Isso porque diferente da linha de produção pré-moldada pelos roteiristas da “NAS” e do “Studio Gallop”, a animação de 1998 não se atropela ao “vender o seu produto” e delimita de maneira formidável os contornos que separam Yugi Muto de Yami Yugi.

Dessa forma, “Zero” acerta ao repetir as inseguranças do menino Yugi que já eram de nosso conhecimento (em “Duel Monsters”) e vai além ao retratá-lo como alguém exageradamente sensível, tímido e deveras solitário (características tão pouco exploradas na superprodução de 2000). Vítima de um terrível caso de bullying diário, Muto é extremamente altruísta e sustenta uma bondade sem tamanhos – a qual, por diversas vezes, transcende um estado de inocência que beira a tolice. O garoto sofre tanta dor física e pressão psicológica que é inevitável ao telespectador não passar a maior parte dos episódios revezando-se entre a compaixão e a impunidade daqueles que tentam lhe fazer algum mal.

Todavia, como Yin e Yang, Yami Yugi (o antigo espírito que habita o Enigma do Milênio) também ganha bastante destaque por todo o anime e merece apontamentos a serem tecidos à parte. Exaltando um senso de justiça extremista capaz de rebaixar Maximillion Pegasus para o nível de mero aprendiz, o lado sombrio de Yugi age de maneira fria e desconhece o significado de palavras como racionalidade e piedade. Um verdadeiro justiceiro fora-da-lei, nosso segundo protagonista (por vezes antagonista) possui um senso de humor mórbido e não pensa duas vezes antes de fazer com que os vilões da animação sejam confrontados pessoalmente com o mal que habita em seus corpos. Já dizia o antigo “Código de Hamurabi”: “olho por olho, dente por dente…”

O verdadeiro “Rei dos Jogos”:

Yugi Muto transformando-se em Yami Yugi

Se “Duel Monsters” economizou na quantidade de jogos/desafios e deu preferência ao bom e velho “Monstros de Duelo”, “Zero” também ganha pontos do telespectador ao fugir do característico jogo de cartas e incorpora uma infinidade de outras competições bem inusitadas. Resgatando clássicos como o ioiô e o nostálgico RPG dos anos 80, o anime nos traz episódios em que estratégia, lógica e sorte se revelam ferramentas fundamentais para qualquer um que decida cruzar o caminho do todo poderoso “Rei dos Jogos”. Ah, e ainda tem espaço para o “Monstros dos Dados Masmorra” (que também chegou a ganhar um pequeno destaque no anime de 2000), “Monstros de Cápsula” (este com um spin-off todinho de 12 episódios) e até mesmo um campeonato regional multidisciplinar promovido pelo mauricinho mais detestado/idolatrado de toda a história da franquia: Seto Kaiba.

A abertura de “Yu-Gi-Oh! Zero”

Mais do que meros personagens:

Por ter ido ao ar apenas no Japão, “Zero” acabou se tornando bem menos conhecido que “Duel Monsters” e os demais spin-offs produzidos nos últimos anos

Já iniciando com uma trilha sonora que soa super nostálgica até mesmo para quem jamais assistiu a qualquer episódio da animação, “Zero” desenvolve-se de maneira muito mais intimista que “Duel Monsters” e tem seu enredo focado numa quantidade bem menor de personagens.

Além de Joey, Téa e Tristan (que no anime são apresentados em seus nomes originais: Jonouchi, Anzu e Honda, respectivamente), dos inseparáveis (e bem mais egoístas) irmãos Kaiba e dos recorrentes Shadi e Bakura, o anime da “Toei Animation” resgata a fidelidade do mangá e nos traz a presença da meiga Miho Nosaka: o quinto membro do famoso quarteto que acabou sendo injustificadamente ocultado dois anos mais tarde pela “NAS” e pelo “Studio Gallop”. Responsável por impulsionar o lado mais apaixonado de Tristan (Honda), o “elemento surpresa” em “Zero” equilibra consideravelmente o elenco feminino e concede à Téa (Anzu) a oportunidade de não se sentir tão incompreendida em meio a garotos tão perdidamente bobos e impulsivos.

Nos disponibilizando mais tempo para conhecer o Sr. Muto (o avô do Yugi), podemos acompanhar ainda todo o amadurecimento de Joey (Jonouchi) como melhor amigo do protagonista; o bom-humor de Tristan, que por alguma razão desapareceu na “sequência” de 2000; e a seriedade de Téa, que em “Duel Monsters” deixou muito a desejar no quesito autoestima. Até mesmo os vilões de “Zero” desenvolvem seus propósitos com maior agressividade e sensibilidade, convencendo-nos de que a humanização presente no desenho ultrapassa a mera pretensão de “ser apenas um entre tantos outros projetos de sucesso”.

O “Jogo das Trevas” como você nunca viu:

Obscuro, bem obscuro… (autor desconhecido)

Sustentando uma história de fundo mais singela e livre de muitas extravagâncias, “Zero” foca bastante no relacionamento interpessoal de seus personagens e nos leva para situações comuns ao dia a dia de qualquer pessoa. Assim, não espere que toda a tecnologia de “Duel Monsters” dê as caras por aqui, já que de longe este não foi um objetivo intentado por Hiroyuki Kakudou, o diretor da animação. Em muitos dos episódios, inclusive, o drama e a simplicidade tomam conta da trama e o desfecho segue assim, tentando a todo momento nos emergir para a realidade do que nos está sendo transmitido para nossos olhos. Um simples passeio em um parque de diversões ou o assalto de uma lanchonete são mais do que suficientes para nos entreter por mais de 20 minutos; e esta particularidade, com certeza, é o segredo para nos deixar tão confortáveis e sedentos por mais ao fim de cada narrativa.

(In)Felizmente, como o anime não chegou a ser distribuído para outros países do globo (incluindo o gigante continental do Norte), a versão que assistimos de “Zero” é a original japonesa sem as inúmeras modificações investidas pelas produtoras americanas a fim de se censurar a obscuridade que é inerente das produções orientais. Muito mais cru e bizarro que qualquer outro título da franquia “Yu-Gi-Oh!”, a impressão que temos é a de que a “Toei Animation” não poupou esforços de tentar mexer com o psicológico do telespectador, entregando-nos um trabalho recheado de tabus e de uma forte simbologia que transborda para todos os cantos. Se você detesta a censura, então provavelmente irá adorar a ausência dela neste desenho.

Partindo para uma direção completamente oposta da grande maioria das animações atuais, “Zero” nos traz aquele gostinho de sinceridade que eventualmente é deixado de lado para poupar o público infantil de temas tão pesados como insanidade e violência. Não há dúvidas que essa falta de barreiras, por vezes, pode chocar os telespectadores desavisados – e, certamente, ocasionar um pequeno mal-estar naqueles que não esperam ser confrontados tão diretamente assim. Entretanto, por mais que a obra exceda este conformismo com o qual já estamos acostumados há tanto tempo, é sempre bom conhecer “novas” produções que conseguem quebrar o padrão de maneira tão honesta e autêntica. Mais do que um anime qualquer que nos cativa por sua versatilidade incomparável, “Yu-Gi-Oh! Zero” enxerga muito além de qualquer outro título desta exitosa franquia e coloca em pratos limpos a natureza humana como ela realmente é na maior parte do tempo: fria, calculista, complicada e um bocado injusta.


Este artigo fala sobre “Yu-Gi-Oh! Zero”, o primeiro anime que foi ao ar em 1998. Para saber mais sobre a franquia “Yu-Gi-Oh!”, leia o nosso especial publicado no Co-op Geeks. Caso esteja procurando pelo segundo anime produzido pela “NAS” e que foi ao ar entre os anos de 2000 a 2004, fique com o “Vale a pena assistir” de “Yu-Gi-Oh! Duel Monsters”.


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“Stranger Things” (1ª temporada): vale a pena assistir?

Se você não esteve em coma nos últimos dois meses então provavelmente já ouviu falar sobre “Stranger Things”: a nova série da “Netflix” que se tornou um fenômeno de imediato. Seguindo a linha de outros espetáculos transmitidos pelo que é hoje uma das maiores plataformas de streaming do planeta, “Things” repete o sucesso de suas antecessoras e, assim como tudo o que tem sido exibido com exclusividade pelo site, se sobressai com um nível de qualidade por vezes inacreditável. Combinando elenco a roteiro, direção, fotografia, temática, trilha sonora e muito mais, o tema do nosso “Vale a pena assistir?” de hoje está imperdível – e você precisa conferir, a seguir, tudo o que é necessário saber sobre uma das novidades mais comentadas do ano. Estão preparados?

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

2016 é o novo 1986… o retrô está de volta:

Ao lado de Eleven, o trio formado por Mike, Dustin e Lucas (da direita para a esquerda) é, com certeza, um dos maiores motivos para você conhecer “Stranger Things”

Esqueça tudo o que você conhece e que tenha acontecido após o início da década de 90! Totalmente ambientada nos anos 80, “Stranger Things” se passa na pacata cidade de Hawkins, Indiana: um lugar onde os registros policiais praticamente não existem – e o mais grave que pode acontecer a alguém é o furto de anões de jardim.

Nos introduzindo a um grupo de garotos comuns que divide o seu tempo entre tarefas de escola e partidas de RPG (jogo que foi auge na época e popularizou-se graças ao pioneiro “Dungeons & Dragons”), a trama ganha forma quando Will Byers (Noah Schnapp) misteriosamente desaparece sem deixar maiores vestígios. Impulsionando um sistema de buscas auxiliado pelos próprios moradores da região, a polícia – e toda a cidade – se vê paralisada diante do incidente enquanto a mãe do menino, Joyce (Winona Ryder), tenta fazer tudo que está ao seu alcance para encontrar o caçula da família.

Paralelamente, uma agência secreta governamental que opera nas redondezas acaba perdendo o controle de seus experimentos e faz com que as falhas de seus estudos se esbarrem no cotidiano normal dos habitantes de Hawkins. Interceptando ligações telefônicas e “dando um jeito” em todos aqueles que entram em seu caminho (mesmo que involuntariamente), caberá aos poderosos chefões do governo norte-americano a difícil missão de encobertar a infinidade de segredos que, gradualmente, nos é revelada ao longo de cada intenso episódio.

O nascimento de alguns… e a ascensão para outros:

Millie Bobby Brown e Winona Ryder, o encontro de duas gerações tão promissoras

Protagonizado por um time de atores mirins que, até o momento, não havia participado de muitos outros projetos de renome, a superprodução acerta ao redirecionar toda sua atenção para os novatos que ganham nossa empatia instantaneamente. Narrando a nostálgica aventura de Mike Wheeler (Finn Wolfhard), Dustin Henderson (Gaten Matarazzo) e Lucas Sinclair (Caleb McLaughlin) atrás do melhor amigo desaparecido, a trajetória do trio muda radicalmente com a chegada de Eleven/Onze (Millie Bobby Brown), uma garota bastante incomum que parece saber mais do que aparenta – e que, é claro, não demorará para roubar todos os holofotes para si.

Também nos entregando as atuações brilhantes de Natalia Dyer (Nancy Wheeler) e Charlie Heaton (Jonathan Byers), irmãos mais velhos de Mike e Will, respectivamente, “Stranger Things” conta com os recorrentes – e bem convincentes – Joe Keery (Steve Harrington) e Shannon Purser (Barbara Holland), namorado e melhor amiga de Nancy.

Sob a pele do chefe de polícia Jim Hopper, o destemido David Harbour divide o elenco adulto com Cara Buono (Karen Wheeler), Matthew Modine (Dr. Martin Brenner) e ninguém menos que Winona Ryder, o nome mais experiente e consagrado de toda a série. Conhecida por ter estrelado diversos clássicos da cultura popular como “Os Fantasmas Se Divertem” (1988), “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Garota, Interrompida” (1999), a veterana se destaca por uma singularidade que lhe é inerente, convencendo-nos com uma interpretação cheia de paixão e honestidade. Ryder, definitivamente, não brinca em serviço!

Um pouco de História não faz mal a ninguém:

MKULTRA, um programa clandestino (e real) da CIA, serve como uma das influências para a série

Flertando com o sobrenatural e com o passado, a produção dos Duffer Brothers é precisa em sua narrativa e aproveita-se de todos os recursos históricos da época em busca de exatidão e credibilidade. Passando-se, como dito, em uma América dos anos 80, o enredo aproveita o plano de fundo da Guerra Fria (que ainda se movimentava a todo vapor e só foi perder velocidade com o fim da União Soviética, em 1991) e traz à tona algumas teorias de conspiração que frequentemente são reafirmadas por programas e séries de TV. Uma dessas teorias foi o real MKULTRA, um programa clandestino da CIA (o Serviço de Inteligência dos EUA) que chegou a fazer experimentos em seres humanos com drogas e inúmeros meios de tortura, abuso e procedimentos cirúrgicos. Haja fôlego para tanta informação!

Transbordando temáticas e inspirações:

Dá pra acreditar que “Stranger Things” já virou até um joguinho para PC? (Compatível com Windows, MAC e Linux)

Vindo até nós como “uma homenagem à cultura dos anos 80”, “Things” não nega suas origens e revela-se um verdadeiro tributo ao trabalho dos gigantes do cinema Steven Spielberg, John Carpenter e George Lucas. Driblando entre a ficção científica, o sobrenatural, o terror, o mistério e o drama, a série ainda toma por influência as obras literárias de Stephen King e diversos cults como “Alien” (1979), “Poltergeist” (1982), “E.T.: O Extraterrestre” (1982), “A Hora do Pesadelo” (1984), “Os Goonies” (1985) entre outros. A gama de inspiração é tão extensa que sobrou até para alguns títulos do survival horror a função de contribuir para o que conhecemos do programa – como o lendário “Silent Hill” (1999) e o recente “The Last of Us” (2013)

Falando sobre bullying e preconceito, os diálogos que encontramos por toda a série são bem fieis à linguagem oitentista, um período em que a liberdade sexual costumava ser bastante oprimida desde a infância (e adjetivos como “bicha” corriam de boca em boca da forma mais pejorativa possível). Trazendo exemplos clássicos da perseguição sofrida por milhares de crianças e adolescentes durante o período escolar, “Stranger Things” também divide a concentração do telespectador para abarcar outros temas recorrentes como divórcio, família, amizade, violência, opressão estatal, ciência, parapsicologia e a moderna representatividade. De nerds a negros e inúmeros outros grupos rejeitados pelas grandes massas (e rotulados como “desajustados”) – tem até espaço para a displasia cleidocraniana, uma doença que atinge um dos personagens/atores do programa –, o espetáculo critica com veemência os padrões impostos pela sociedade e tenta ser o mais diversificado possível (com toda a razão do mundo, é claro).

A 2ª temporada vem aí:

A sequência que todos estão esperando…

Construída em uma única temporada disponível desde julho passado com 8 episódios que variam de 42 a 55 minutos, “Stranger Things” conta com a produção executiva dos Duffer Brothers (os criadores da série) auxiliados por Shawn Levy e Dan Cohen. Produzido pela “21 Laps Entertainment” e pela “Monkey Massacre” (e claro, distribuído exclusivamente pela “Netflix”), o show já foi confirmado para uma season 2 que tem estreia agendada para 2017, em 9 novos episódios. Bem recebida pela crítica especializada, a sua estreia acumulou 95% de aprovação pelo Rotten Tomatoes e 76/100 pelo Metacritic.

Vídeo hilário da apresentadora Xuxa gravado especialmente para divulgação da primeira temporada no Brasil

Um começo mais do que perfeito, mas um final…

A trilha sonora de “Stranger Things”, que tem de The Clash a New Order e Dolly Parton, é sem sombra de dúvidas outro grande acerto da produção (confira)

Conquistando crianças e adultos sem visar um público específico, a novidade é certeira em sua proposta e não apenas homenageia a infância de muitos como também é eficaz ao trazer para as novas gerações todo o brilho de uma das melhores décadas passadas. Apesar de destacar-se por toda sua parte visual que é bastante fiel ao cinema e TV oitentistas (o que inclui cenário, figurino e, é claro, esbarra no próprio lado cultural e histórico de nossos parentes mais velhos), “Things” possui uma história muito bem amarrada que, em momento algum, deixa a desejar. Com um roteiro digno de um clássico infantil bem ao estilo de “Os Goonies” e “E.T.: O Extraterrestre”, a série desencadeia-se em uma sequência louca de eventos que acontece de forma paralela – mas que, da maneira mais coesa possível, culmina em um mesmo caminho derradeiro.

Todavia, por mais que administre tudo isso em doses perfeitas de pura nostalgia que solidificam-se nos 7 primeiros (e maravilhosos) capítulos de sua grade, a produção comete o desculpável deslize de fechar o ciclo de modo demasiadamente apressado, deixando o telespectador um tanto quanto confuso. Não que a season finale coloque os pés entre as mãos e deixe muitos furos na história (claro que a maioria destes foram propositais e deverão ser fechados com as próximas temporadas), mas, é como se não tivéssemos o tempo necessário para digerir todas as informações que nos bombardeiam em apenas 53 minutos de duração – se divididos em dois episódios finais, provavelmente ficaríamos mais bem à vontade.

Progredindo como as páginas de um bom livro que consegue nos emergir em sua narrativa e nos desconectar do plano físico, “Stranger Things” é uma ótima dica para todos aqueles que há muito esperavam por uma série que fosse capaz de tirar o fôlego sem muito blá-blá-blá. Mais um título entre os diversos dos últimos anos que foram lançados fora da TV e conseguiram, por vezes, se sobressair à plataforma mais clássica que nos acompanha desde a década de 40, a obra-prima dos Duffer Brothers surge para nos corroborar que o futuro está cada vez mais próximo e inadiável. Após passarmos longos 70 anos debruçados em frente aos antiquados televisores de tubo que foram, aos poucos, substituídos pelas telas de LCD e LED, cada vez mais o amanhã se torna imprevisível – e, por que não, até um pouco assustador…

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“Scream Queens” (1ª temporada): vale a pena assistir?

Há exatos nove meses ia ao ar, pela programação da “Fox”, a estreia de “Scream Queens”: a mais recente aposta de Ryan Murphy, Brad Falchuk e Ian Brennan para os televisores não apenas dos EUA, mas também do mundo inteiro. Após passar um bom tempo sendo escrita, gravada e produzida (vale dizer que o primeiro anúncio oficial se deu em um já distante outubro de 2014?), a série que combina elementos de terror com comédia já caminha para sua segunda temporada e, agora, serve de tema para o nosso “Vale a pena assistir?” do mês de junho!

Não conhece o programa e gostaria de descobrir quais são as nossas perspectivas antes de assistir ao episódio piloto? Então confira, a seguir, o compilado de informações que enumeramos nesta publicação feita especialmente para você!

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Precedentes:

Emma Roberts interpreta a protagonista/antagonista Chanel Oberlin

Depois de quebrar recordes de audiência com “Glee” e conquistar o gosto popular com “American Horror Story”, Ryan Murphy, Brad Falchuk e Ian Brennan resolveram, mais uma vez, juntar suas forças para trazer até o público algo completamente novo – mas que, cumulativamente, não fugisse dos outros trabalhos que coescreveram ao longo destes últimos anos. Descrita, nas palavras de Murphy, como a reunião de “tudo que amamos, mas que ainda não existia na TV”, “Scream Queens” surgiu assim, como a perfeita “combinação de ‘Atração Mortal’ (filme de 1989) com ‘Sexta-Feira 13’ (1980)”­ – e, como bem acrescenta uma das protagonistas, o teen cult “Meninas Malvadas” (2004). Trazendo um entusiasmo sem tamanhos acompanhado de uma recepção bem mediana, a produção chegou até os jovens estadunidenses no último 22 de setembro e não demorou para se tornar, inevitavelmente, um dos assuntos mais comentados entre os fanáticos por séries de TV.

Inspirado pelos grandes clássicos slasher (subgênero do horror do qual é requisito a presença de um serial killer que mata jovens aleatoriamente) das décadas de 80 e 90, o trio por trás do espetáculo não teve receio algum de sair do básico e misturar comédia com terror, humor negro, sátira e mistério. Ostentando, em seu elenco, nomes bem populares da indústria do entretenimento como Emma Roberts (“AHS: Coven”), Lea Michele (“Glee”) e Jamie Lee Curtis (“Sexta-Feira Muito Louca”), “Scream Queens” vai além ao nos entregar um roteiro bem envolvente e incorporar, ainda, participações especiais de Ariana Grande, Nick Jonas entre tantos outros. Quer mais ou já é o suficiente?

A sinopse:

Nick Jonas como Boone Clemens

A trama por trás da série ganha forma quando a vaidosa Chanel Oberlin (Emma Roberts) sente sua popularidade ameaçada após a Reitora Munsch (Jamie Lee Curtis) conceder a qualquer estudante da Universidade Wallace autorização para se inscrever na rígida fraternidade que tem a patricinha como presidente, a “Kappa Kappa Tau”. Conhecida por sua seletividade e por abrigar somente a elite do campus, de uma hora para outra a “KKT” vai perdendo seu prestígio ao ser coagida a abrigar um considerável número de alunas que não “atende os padrões” exigidos pelas normas da irmandade – dentre as quais se destacam garotas com deficiências físicas, lésbicas, negras e até mesmo uma vlogueira totalmente excêntrica. Com o apoio de suas amigas e subalternas – as quais são “carinhosamente” apelidadas de minions – Chanel #2 (Ariana Grande), Chanel #3 (Billie Lourd) e Chanel #5 (Abigail Breslin), Oberlin não encontra outra saída senão infernizar a vida das estranhas candidatas que, persistentemente, não abandonarão tão cedo o sonho de se tornar uma poderosa Kappa definitiva.

Paralelamente, um estranho vestindo o uniforme de mascote da universidade começa a rondar toda a propriedade caçando qualquer um que, de alguma maneira, se aproxime ou conheça o sombrio passado por trás da “Kappa Kappa Tau”. Aniquilando uma infinidade de vítimas em potencial, o temido Red Devil (Demônio Vermelho) faz a fraternidade perder cada vez mais membros enquanto as suspeitas sobre a sua identidade se tornam, a cada episódio, mais complexas e reveladoras. Caberá a Grace Gardner (Skyler Samuels) e Pete Martínez (Diego Boneta), o quase-casal de mocinhos, desvendar o mistério por trás de tantos homicídios e tentar cessar as sucessivas mortes que desencadeiam ao longo da atração um banho de sangue à la “Sexta-Feira 13”. Em meio a pistas que nos remeterão aos detalhes mais minimalistas e intrigantes, a única certeza contundente é a de que qualquer um, em “Scream Queens”, possui as suas razões para vestir a máscara do assassino e sair por aí, fazendo do local um purgatório de insanidades.

O retorno da “Rainha do Grito”:

Jamie Lee Curtis é a reitora Cathy Munsch

Quem é fissurado nos clássicos do terror de décadas e décadas atrás, provavelmente deve saber que o termo “scream queen” (ou “rainha do grito”, em nosso idioma) é o mais comum para designar as atrizes que desempenham um grande papel em filmes deste gênero. Seja sob a pele de coadjuvantes indefesas que acabam por ter seu destino selado pelas mãos de um serial killer ou de protagonistas que, vez ou outra, conseguem contornar toda a carnificina que as persegue, a verdade é que “gritar” não é o único requisito para que uma profissional da área se consagre com tal honraria – e assim, não é qualquer uma que consegue sustentar o mencionado título da nobreza cinematográfica.

Seguindo um legado que, possivelmente, foi iniciado há muito tempo por Fay Wray (“King Kong”, 1933), ninguém menos que Jamie Lee Curtis (a estrela principal da franquia “Halloween”, também conhecida como “A Rainha do Grito”) se torna, em “Scream Queens”, um dos maiores (se não o maior) destaques de todo o seu extenso time de celebridades. Deixando o super-heroísmo de Laurie Strode para trás, Curtis é feliz ao encarnar a personalidade e viver, na atração da “Fox”, a narcisista Reitora Munsch. Um constante empecilho para Chanel e para todos aqueles que ousam atrapalhar sua sólida carreira pelos bancos acadêmicos, a megera revela um passado tão antigo e obscuro quanto o que assombra a controversa “Kappa Kappa Tau”. Definitivamente, a veterana é eficiente ao interpretar um papel que foi escrito para ser seu.

Outras “scream queens” notáveis dos cinemas (e que merecem as menções honrosas neste post) são: Heather Langenkamp (“A Hora do Pesadelo”), Neve Campbell (“Pânico”), Jennifer Love Hewitt (“Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado”), Sarah Michelle Gellar (“O Grito”), Naomi Watts (“O Chamado”), Katie Cassidy (“Quando Um Estranho Chama”) e Mary Elizabeth Winstead (“Premonição 3”).

A segunda temporada vem aí:

Produzida pela “20th Century Fox Television” em parceria com a “Prospect Films”, a “Ryan Murphy Productions” e a “Brad Falchuk Teley-vision”, a primeira temporada de “Scream Queens” possui 13 episódios com o tempo médio de 45 minutos (imagem do elenco principal)

Após ser recepcionada de forma bem mista pelo público, felizmente “Scream Queens” foi renovada para uma segunda temporada que deverá começar a ser gravada somente no mês que vem, em julho, em novos estúdios da Califórnia (a primeira foi filmada em Nova Orleans). Com estreia prevista para 20 de setembro deste ano, a história se passará dois anos após os eventos que concluíram a primeira temporada e nos introduzirá a cenários totalmente repaginados – e isso sem contar o retorno de grande parte do elenco original interpretando os mesmos personagens sobreviventes do Red Devil (mas, desta vez, imersos em um hospital psiquiátrico).

Até o momento, foi confirmado o retorno de: Emma Roberts, Jamie Lee Curtis, Lea Michele, Abigail Breslin, Billie Lourd, Niecy Nash, Glen Powell e Keke Palmer (dizem os rumores que Harry Styles, do One Direction, poderá dar as suas caras na season 2); e a estreia de John Stamos (“Três é Demais”). Você confere mais informações acessando este link.

Curiosidades que você PRECISA conhecer:

“You Belong to Me”, de Heather Heywood, marca a abertura oficial da série (na imagem: o misterioso Red Devil)

O pessoal do “OK!OK!” listou, no vídeo a seguir, 50 fatos sobre “Scream Queens” que não apenas valem a pena ser conferidos, como também deixam a série muito mais interessante. Não se preocupe, pois em momento algum foram levantados spoilers sobre o desfecho ou a identidade do assassino:

As informações deste vídeo podem ser consultadas diretamente pelo site do IMDb, em inglês (atenção, aqui, para devidos spoilers)

De tudo um pouco:

E por último, mas não menos importante, Lea Michele vive a Chanel #6/Hester Ulrich

Qualquer um que possua um mínimo de conhecimento sobre cultura popular (de televisão a cinema, música à história), certamente encontrará em “Scream Queens” o mesmo que diversos ícones do passado tanto fizeram questão de entregar ao seu público alvo: diversão sem comprometimento. Seguindo a linha de alguns longas-metragens (como o já citado “Meninas Malvadas”, “As Patricinhas de Beverly Hills” e “Todo Mundo em Pânico”) ou até mesmo de séries televisivas (como “Gossip Girl” e “Desperate Housewives”), a criação de Murphy, Falchuk e Brennan não se prende muito aos padrões da normalidade e soa mais como uma sátira da vida real do que um aplaudível show de seriedade – logo, não espere encontrar pelo decorrer da atração situações lógicas totalmente moldáveis ao mundo no qual vivemos.

É verdade que, em meio a piadas misóginas, preconceituosas e não menos que bizarras, “Scream Queens” não se mostra a série mais adequada para o telespectador que possui como única pretensão ser introduzido a um circo de horrores onde o macabro ganha vida e apavora a todos os tipos de público, sem restrições. Muito mais voltado para o humor negro, à sátira e uma leve pincelada de gore, o show se destaca por uma futilidade fora do imaginável – e, à primeira vista, não só pode como acaba sendo rejeitada por aqueles que tinham como prioridade se assustar, e não se divertir. A questão é que, diferente talvez de como foi anunciado (ou de como as pessoas olharam para o seu lançamento), o programa não apresenta nada de assustador e, eventualmente, apenas brinca com os elementos do horror ao incluir situações de perigo comuns aos filmes de terror em seu script.

Entretanto, se o espetáculo peca ao nos confundir com sua temática trash pouco esclarecedora, ele acerta ao repetir os antigos feitos de “Glee” e emergir quem o assiste para uma diversidade social que é inerente a qualquer civilização moderna. Não que seja muito comum encontrar por aí garotas usando colares cervicais em tempo integral, mas, “Scream Queens” abraça a representatividade ao dar destaque para atores negros e incluir personagens de diferentes orientações sexuais – tem até mesmo algumas fortes personalidades com deficiências físicas/distúrbios mentais e outras com extravagantes gostos pessoais. Visualmente falando, a série se utiliza muito dessa imensidão de possibilidades e, ao beber das inesgotáveis fontes que defendem o tratamento igualitário entre minorias e maiorias, se sobressai ao criticar nossa atual condição como sociedade hipócrita, machista, homofóbica e racista – tudo por meio de muita ironia, é claro.

No fim das contas, “Scream Queens” nada mais é senão uma luxuosa mansão do século XXI que, coincidentemente, acabou por ser decorada com os móveis genuínos de uma casa mal-assombrada dos anos 80. Não espere levar sustos ou sentir aflição enquanto acompanha a atração do começo ao fim: você está, claramente, se interessando pelo título errado. Aliado a um figurino impecável, a um trabalho de maquiagem excepcional e a um time de atores que nos entregam valiosos momentos hilários (e gostaríamos de deixar aqui o nosso mais sincero destaque para Niecy Nash, Billie Lourd e, é claro, Emma Roberts), o programa se revela uma ótima opção para quem é ligado em séries humorísticas de TV e compartilha de uma paixão natural pela cultura popular (desde que, é claro, você deixe as suas expectativas de lado). Se você gostou da vibe de “Todo Mundo em Pânico” e é apaixonado por “Meninas Malvadas”, então, com certeza, possui grandes chances de se encantar (e se identificar) com a bombástica criação fashion dos gênios contemporâneos que são Murphy, Falchuk e Brennan.

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“Yu-Gi-Oh! Duel Monsters”: vale a pena assistir?

Há alguns meses escrevemos para o Co-op Geeks um artigo superinteressante onde tivemos a oportunidade de reunir tudo o que você precisa saber sobre “Yu-Gi-Oh!”, uma das franquias mais rentáveis já produzidas pela cultura asiática (relembre). Agora, dando enfoque ao segundo (e mais conhecido) anime lançado sob a marca de Kazuki Takahashi – e aproveitando que no ano passado a animação completou uma década e meia de existência –, na publicação de hoje iremos levar até você bons motivos para tirar a poeira do baú e resgatar esta lenda que marcou a infância de muita gente.

Observação: no Japão, o anime ao qual se refere esta resenha foi lançado sob o título “Yu-Gi-Oh! Duel Monsters” (enquanto, no restante do mundo, foi chamado apenas de “Yu-Gi-Oh!”). Portanto, para evitar qualquer confusão com a franquia, o jogo de cartas, os jogos eletrônicos ou o primeiro desenho animado, frequentemente utilizaremos o nome japonês para nos dirigirmos ao segundo anime da série.

Este artigo é livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o entendimento do texto será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma bem sucinta). Boa leitura!

Precedentes… é hora do duelo:

“Yu-Gi-Oh! Duel Monsters” pode ser acompanhado atualmente pela Netflix; pelo canal de TV a cabo PlayTV (de segunda à sexta, às 10h30min e às 16:30 horas, e aos domingos, a partir das 14h00min); ou pelo bom e velho senhor Google

Antes de entrarmos de cara em “Duel Monsters”, o grande destaque desta resenha exclusiva, importante mencionar que a animação liberada no começo dos anos 2000 não foi o primeiro material assinado sob o nome da multifacetada franquia “Yu-Gi-Oh!”. Inspirada no mangá inicial de 1996 escrito e ilustrado por Kazuki Takahashi, a série já rendeu inúmeras releituras para as mais diferentes mídias dentre as quais não podemos deixar de citar o bem-sucedido jogo de cartas (o “Yu-Gi-Oh! Trading Card Game”, de 1999), diversos jogos eletrônicos (entre eles o queridinho “Forbidden Memories”, para PSOne, também de 1999) e o primeiro (e quase desconhecido do público) anime produzido pelos estúdios da “Toei Animation”. Com apenas 27 episódios que foram ao ar somente no Japão entre abril e outubro de 1998, a produção foi uma fiel adaptação para a realidade televisiva do enredo narrado pelos 7 primeiros volumes do mangá de mesmo nome.

Mudando de estúdio logo depois e investindo pesado em uma nova ambientação, não demorou para que Takahashi cedesse os direitos de seu trabalho para a companhia “NAS” (“Nihon Ad Systems”) – com o apoio do “Studio Gallop” – produzir o que hoje conhecemos como um dos títulos mais marcantes do novo milênio. Era a centelha que faltava para colocar a franquia em profunda combustão internacional…

Espalhando as boas novas para os quatro ventos:

Yami Yugi (esquerda) e Yugi Muto (direita), as duas faces do “Rei dos Jogos”

Tomando por base as histórias do 8º volume em diante do mangá original, o segundo desenho animado inspirado nos já consagrados quadrinhos japoneses foi a primeira grande aposta dos produtores orientais para o mercado ocidental – um público que ainda não estava familiarizado com a popular sensação asiática. Transmitido pela primeira vez em abril de 2000 pela “TV Tokyo” (e encerrada quase quatro anos e meio mais tarde), a nova série totalizou 224 episódios divididos em 5 temporadas.

Recebido nos EUA pela “4Kids Entertainment” em setembro de 2001, incontáveis foram as modificações realizadas pela produtora no intuito de americanizar a produção e torná-la mais “viável” ao público infantil estadunidense – o que incluía desde a alteração dos nomes dos protagonistas à retirada de qualquer termo que vinculasse o enredo pretendido à violência, morte, sexo ou religião. A censura foi tamanha que nem mesmo as cartas do exitoso “Trading Card Game”, os jogos lançados para os mais diversos consoles ou a trilha-sonora oficial saíram imunes deste severo “procedimento restaurativo” (assista a este vídeo para ter uma pequena ideia do que estamos falando).

Chegando ao Brasil em 2002, “Duel Monsters” foi exibido em primeira mão pela “Rede Globo” – e, anos mais tarde, pela “Nickelodeon”. A versão que recebemos por aqui, inclusive, foi a mesma transmitida por todos os EUA (logo, não é de se estranhar que muitos fãs da franquia ainda estranhem a arte original trazida na versão oriental dos famosos cards de duelo).

A chegada do Faraó:

O Enigma do Milênio, uma das sete relíquias milenares

A história do anime ganha forma e vai tomando rumo quando o pequeno Yugi Muto recebe de presente do avô um quebra-cabeças conhecido como Enigma do Milênio: uma misteriosa joia egípcia que contém inúmeros segredos e poderes sobrenaturais. Após montar cada peça em seu devido lugar e solucionar o complicado desafio, Yugi liberta o espírito de um antigo faraó que passa a auxiliá-lo na difícil tarefa de tomar as decisões mais importantes de sua vida.

Dividindo seu corpo e mente com esta segunda personalidade do passado, logo ele perceberá que o novo amigo aumentará consideravelmente sua coragem e perspicácia – o que desperta, como consequência, o interesse de muita gente que está de olho na preciosa relíquia milenar. Porém, o que o garoto não sabe é que, conforme mais se envolve nos problemas que são inevitavelmente inseridos em sua jornada, mais ele descobre que o mundo pode ser um lugar perigoso não apenas para a sua própria segurança, mas também para a de todos aqueles que cruzam o caminho dos “Monstros de Duelo”, o jogo de cartas que é febre em todo o globo terrestre.

A abertura que você jamais esquecerá

As grandes cinco sagas:

Yami Yugi (direita) em duelo contra Marik Ishtar (esquerda), o grande antagonista da “Batalha da Cidade”

Logo que a animação começa, somos apresentados a Yugi e seus três melhores amigos: Joey, Téa e Tristan. Após receber uma fita videocassete de Maximillion Pegasus, o criador do “Monstros de Duelo”, a alma do avô de Yugi é capturada pelo magnata dos negócios e tudo que resta ao garoto é embarcar em uma viagem direto para o Reino dos Duelistas, uma ilha que está sediando o maior campeonato que o jogo já recebeu. Liderado pelo próprio Pegasus (o também presidente das “Ilusões Industriais”), a competição vai aos poucos nos revelando os inúmeros personagens que farão parte das aventuras de Yugi e, mais tarde, também aparecerão nas demais temporadas do anime. Enfrentando cada adversário no intuito de se tornar o grande finalista do torneio para recuperar o espírito de seu avô, o menino não desistirá de concluir o seu objetivo e passar por cima de cada obstáculo criado pelos outros competidores ou ardilosos capangas de Pegasus.

Com 49 episódios, “Reino dos Duelistas” é a primeira temporada de “Duel Monsters” e se divide em três arcos: “Duelist Kingdom”, “Legendary Heroes” e “Dungeon Dice Monsters”. É sucedido por “Batalha da Cidade” (“Rulers of the Duel”), com 48 episódios (do 50 ao 97); “Mundo Virtual” (que se divide em “Noah’s Saga” e “Enter the Shadow Realm”, este último sendo uma sequência direta de “Batalha da Cidade”), com 47 episódios (do 98 ao 144); “Saga de Orichalcos” (“Waking the Dragons”), com 40 episódios (do 145 ao 184); e “Batalha Final” (que se divide em “Grand Championship”, “Dawn of the Duel” e “The Final Duel”), também com 40 episódios (do 185 ao 224).

Qual é o segredo?

Maximillion Pegasus, o grande vilão da primeira temporada de “Duel Monsters”, é definitivamente uma das figuras mais interessantes de toda a trama

Conforme “Duel Monsters” vai se desenrolando, consequentemente o círculo ao redor de Yugi se fecha e o leva diretamente para as intermináveis viagens que se dividem na dupla tarefa de combater o mal e encontrar a verdade por trás da identidade secreta de sua segunda personalidade. Contudo, mesmo que, à primeira vista, “Yu-Gi-Oh!” aparente ser apenas mais um entre os milhares animes que existem por aí, à nossa disposição, vale dizer que este, em particular, acerta em diversos pontos que acabam passando batido no enredo da maioria das demais produções liberadas pela concorrência.

O primeiro destes acertos está no fato de que, por mais que todas as 5 temporadas enfoquem majoritariamente na jornada de Yugi e nos sucessivos duelos que sempre entretêm o telespectador, a narrativa dos demais personagens habitualmente é abordada de uma maneira tão intimista que os torna tão intensos quanto o próprio protagonista do desenho animado. Assim, da mesma forma que é impossível não encontrar ao menos um duelista com o qual você possa se identificar, também é impossível não se deparar com alguns indivíduos que conquistarão o seu ódio gratuito de imediato. Porém, inclusive estes indivíduos (seja movidos por seus profundos interesses egoístas, seja por suas macabras histórias de vida) acabam por ter as suas próprias convicções, o que definitivamente não tira o brilho de genialidade a que lhes é comum. Tudo em “Duel Monsters” é questão de ponto de vista, pois, até o mais cruel dos antagonistas pode, sob a sua perspectiva, atuar acreditando que está fazendo um bem maior – basta a quem assiste saber compreender os dois lados da moeda.

Sempre um passo à frente:

Mai Valentine, amiga de Yugi, representa muito do empoderamento feminino que tanto se tem falado nos dias atuais

A humanização que se esconde por trás de cada personagem é no mínimo deslumbrante, e apesar de a “4Kids Entertainment” nos ter feito o “favor” de peneirar muito da obscuridade que é inerente não apenas aos vilões, mas também aos próprios mocinhos (acreditem: até mesmo os diálogos chegaram a ser alterados para uma versão mais clean), muitas personalidades permanecem fascinantes por sua essência que transborda rios e rios de pura sensibilidade. Levando até o público um pouco do drama cotidiano que faz parte da vida de todos nós, solidão, insegurança, amizade, família e confiança são apenas alguns dos muitos temas que fazem parte de todo o anime e são sempre apresentados em tons que combinam seriedade a bom humor em uma desenvoltura invejável.

Outro ponto positivo que podemos encontrar logo de cara em “Duel Monsters” é a maneira como tecnologia se mistura com o passado e nos faz acompanhar a cada episódio não menos que maravilhados. Com inúmeras referências à cultura egípcia, grega e até nórdica, mesmo após 16 anos a criatividade por trás da produção ultrapassa as barreiras do tempo e nos provam que, quando um trabalho é bem feito, nada pode ser capaz de superá-lo. Não é à toa que o sucesso por trás da franquia teve seu ápice quando o anime ganhou a América e revolucionou os intervalos escolares de todo o continente (ou vai me dizer que nunca desafiou os seus colegas de classe para um duelo?).

Seja por seus personagens carismáticos, seja por seu enredo original que juntos unem emissor a receptor em uma comunicação incrível, mesmo com alguns traços bem mal feitos (que podem ser conferidos somente em pouquíssimos episódios das temporadas finais), “Yu-Gi-Oh! Duel Monsters” continua nos ganhando com uma nostalgia que é única de qualquer criança que viveu a era de ouro das animações japonesas. Infelizmente, não podemos voltar alguns anos no calendário, mas, se tem uma coisa que o tempo jamais será capaz de arruinar é aquela emocionante sensação de ter acreditado no “coração das cartas” e vivido a tão querida “hora do duelo”. Resumindo esta imensa resenha em uma única frase: é claro que vale a pena assistir!


Este artigo fala sobre “Yu-Gi-Oh! Duel Monsters”, o segundo anime que foi ao ar entre os anos de 2000 a 2004. Para saber mais sobre a franquia “Yu-Gi-Oh!”, leia o nosso especial publicado no Co-op Geeks.


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