De “As Patricinhas de Beverly Hills” a “Meninas Malvadas”: construindo um clássico adolescente

O que torna um mero longa-metragem voltado ao público adolescente em um clássico da cultura popular? Qual é a fórmula secreta pela qual um diretor, roteirista e elenco precisam passar para transformar um projeto tão promissor no maior trabalho de suas carreiras? Muitos são os filmes que seguem a temática explorada por “As Patricinhas de Beverly Hills” (“Clueless”, 1995) e “Meninas Malvadas” (“Mean Girls”, 2004), mas, a verdade é que poucas são as atrações que se destacam na mídia e se mostram merecedoras de tanta atenção. Apesar de esses questionamentos levarem até a nossa cabeça diversas respostas no mínimo subjetivas, não precisamos pensar muito para perceber que muita coisa está em jogo em se tratando tanto da primeira quanto da segunda produção.

Que os dois longas souberam muito bem como cativar o público de uma maneira incrivelmente positiva, isso ninguém duvida, e é graças às brilhantes atuações de Alicia Silverstone e Lindsay Lohan (as grandes protagonistas por trás das inesquecíveis Cher Horowitz e Cady Heron) que muita gente credita todo o sucesso por trás destes gigantes da “Sessão da Tarde”. Outros, por sua vez, nem ligam muito para o time principal de atores e, sem hesitar em qualquer momento, entregam toda a sua adoração para os demais aspectos basilares de um bom filme: seja elogiando o diretor, o figurinista, o roteirista, a trilha sonora ou até mesmo o elenco de apoio – não é à toa que a vilã Regina George é, hoje, muito mais amada (e idolatrada) que a mocinha virgem e boba vivida por Lohan.

Regina George (Rachel McAdams), um dos personagens mais marcantes da história dos filmes adolescentes

Contudo, antes de analisarmos qualquer ponto de impacto presente nas histórias por trás de “As Patricinhas de Beverly Hills” e “Meninas Malvadas”, precisamos primeiramente nos perguntar algo que é crucial para entender o perfeito desenrolar desta publicação: o que é ser um adolescente?

Se você tem mais de 30 anos (ou menos de 12), este talvez seja um questionamento um tanto quanto vago (ou difícil de compreender), então, não pense que encontrar a resposta certa é tarefa fácil – apesar de não ser impossível. Isso porque, para entender o que é ser um adolescente, ou você (obviamente) precisa ser um adolescente ou precisa ter sido um algum dia, e é no caso de se enquadrar nesta segunda hipótese que eu peço a você, caro leitor, para fazer um pequeno esforço puxando na sua caixa de memórias um pouquinho dos seus velhos tempos de colégio.

A primeira coisa que precisamos levar em conta é que a maior parte dos adolescentes possuem a complicada tendência de multiplicar os seus reais problemas por 1 milhão. Entenda que não importa se você faz (ou fez) parte dos “nerds asiáticos, asiáticos descolados, atletas titulares, gatas negras antipáticas, garotas que comem demais, garotas que não comem nada, aspirantes a estrelas, drogados ou doidos de banda sexualmente ativos”: no fim do dia, continuará encontrando defeitos em seu próprio corpo e não parará de reclamar, para quem quiser ouvir, de como a sua vida é um inferno. E ai daquele que te contrariar: pois não importa quantos amigos você tenha (ou o quanto os seus pais se importem contigo), ninguém jamais entenderá como é difícil ser você.

Outro ponto que não podemos deixar de lado, quer você acredite ou não, é que todo adolescente tem um talento nato para a maldade. É claro que com esta afirmação eu não estou dizendo que, ao passar pela puberdade, o indivíduo obrigatoriamente se envolverá com o mundo dos crimes e sairá por aí cometendo as maiores atrocidades do planeta (apesar de alguns realmente se entregarem para este caminho). Muito pelo contrário: é como se cada um carregasse dentro de si dois lados totalmente opostos que estão sempre batalhando numa desesperada tentativa de chamar a atenção das pessoas ao seu redor (aquela clássica cena dos desenhos animados em que a consciência se divide em um anjo e um diabo e perturbam a mente de um pobre coitado incessantemente). Todo adolescente faz fofoca, espalha boatos e mente para os quatro ventos, seja por meio de redes sociais, seja pessoalmente. Apesar de serem totalmente imperfeitos, são pessoas altamente perfeccionistas que adoram apontar os defeitos alheios, e quando não atingem os seus objetivos, logo se voltam para o drama de nosso parágrafo anterior e fazem de um pequeno deslize a situação mais caótica de suas vidas (Cher e suas amigas que o digam).

Cady Heron (Lindsay Lohan), a protagonista de “Meninas Malvadas”, precisa sobreviver ao mundo dos populares para ser alguém no colégio

Porém, antes de os taxarmos como reis e rainhas do drama (ou habilidosos gênios do mal), devemos nos lembrar que, antes de mais nada, adolescentes são, inegavelmente, sobreviventes do seu próprio universo de futilidades. Pode não parecer, mas, é na adolescência que a maior parte das pessoas desperta das ilusões da infância e percebe que o mundo lá fora pode ser um lugar muito mais cruel do que aparenta ser. É na adolescência que os jovens adultos percebem que, mais cedo ou mais tarde, a idade chegará, e com ela as responsabilidades de ser gente grande. Enquanto precisam lutar contra a opressão dos mais “fortes” e brigar para defender as suas verdadeiras opiniões, um adolescente precisa, ainda, escolher entre dois caminhos tão incompatíveis com a sua falta de amadurecimento: se render para a multidão e ser apenas mais um no meio das massas ou construir a sua própria personalidade e ser rotulado de “esquisito, antissocial ou anormal”.

É verdade que o colégio, e até mesmo a faculdade, quase sempre funcionam como uma amostra do que os adolescentes viverão após a sua maioridade e independência, quando não mais estiverem sob a guarda e proteção de seus pais. Mas, no fundo, apesar de parecerem ambientes tão similares, tanto um quanto o outro podem proporcionar pontos de vista bem diferentes para uma mesma situação. Se você agredir alguém no mundo real, muito provavelmente te colocarão atrás das grades (ou te farão pagar alguma quantia indenizatória à vítima), enquanto fazer o mesmo no colégio lhe renderá, na pior das hipóteses, uma mísera suspensão de alguns dias. Ser o valentão praticante de bullying é legal, maneiro, coloca a sua baixa autoestima lá em cima, mas, fora das cadeiras acadêmicas, é uma prática que poderá determinar a maneira como a sociedade julga a sua reputação (ou a falta dela), atribuindo ao agressor um status de pessoa totalmente indesejável. É por isso que, desde já, o adolescente precisa rever os seus atos para resolver o tipo de adulto que será em seu futuro.

Ser adolescente é mais do que curtir modinhas e se auto vitimar: é aprender que a vida tem um propósito para cada pessoa; que não importa se você é melhor ou pior que as pessoas ao seu redor, desde que dê o melhor de si para ser você mesmo (assim como aprendeu Cher Horowitz). É aprender que uma escolha egoísta traz consequências graves não apenas para si mesmo, mas também para aqueles que fazem parte do seu dia a dia (assim como aprendeu Cady Heron). É exatamente por saber retratar tão bem um adolescente da vida real (esse mesmo que descrevemos acima) que tanto “As Patricinhas de Beverly Hills” como “Meninas Malvadas” se tornaram o sucesso que são, mesmo após tanto tempo de suas estreias. O público destes filmes é outro senão o adolescente, e para se identificar com a proposta oferecida pelas grandes distribuidoras cinematográficas e televisivas, os espectadores precisam assistir a um espetáculo que esteja revestido de honestidade (e não de uma censura esdrúxula pretendida pelas organizações protetoras dos bons costumes).

Quase todos os demais longas-metragens e séries infantojuvenis tendem a pecar exatamente por fugirem tanto desse propósito, do de mostrarem os adolescentes como eles realmente são: chatos, imperfeitos, fúteis e maldosos. Ninguém quer assistir a um filme ou programa que passa adiante a imagem de um jovem simpático, educado, multitalentoso e de bem com a vida, pois estas são qualidades que jamais estarão reunidas em uma única pessoa com tão pouca maturidade. Não é à toa que já diziam os mais sábios que a adolescência é uma fase de descobertas e aceitações, não é mesmo? Enquanto os grandes diretores, roteiristas e até mesmo atores não tentarem parar de camuflar a verdade do que é ser um adolescente, dificilmente teremos novos clássicos dignos para carregarem a tocha deixada por “Clueless” e “Mean Girls”.

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