“Lucy”, a teoria de que só usamos 10% da nossa capacidade cerebral e o poder de persuasão da mídia

Desde que o mundo é conhecido como mundo e o homem o ser mais curioso do universo, inúmeras foram as pesquisas realizadas pelos mais conhecidos estudiosos de todos os lugares do globo no intuito de averiguar qualquer dúvida surgida ao longo da História. E, como não poderia deixar de ser, não demorou muito para milhares de teorias serem formuladas e defendidas com unhas e dentes pelos mais malucos experimentos, muitos dos quais, nem sempre, foram tão precisos assim – e consequentemente, deixaram bastante gente confusa.

Seguindo por essa onda de incertezas e interrogações, uma das mais estranhas teses difundidas ao longo dos anos (e que teria surgido por volta do século XIX – ninguém sabe ao certo quando ou quem a começou) é a de que os seres humanos desenvolvem apenas 10% de toda a sua capacidade cerebral (o que, por conseguinte, deixaria os outros 90% inativos), assertiva que aqui chamaremos de a “Teoria dos 10%”. De acordo com a crença popular, este lado adormecido de nosso cérebro estaria tão ligado ao sobrenatural que, uma vez alcançado, permitiria ao homem trabalhar com facilidade a sua percepção extrassensorial.

Uma vez atingida a percepção extrassensorial (aquela que está além dos nossos cinco sentidos: tato, olfato, paladar, visão e audição), a pessoa estaria a um passo de melhor desenvolver o seu lado sensitivo, explorando sem limites dons paranormais como a telepatia, a clarividência, a telecinesia entre diversos outros. Porém, apesar de parecer uma ideia um tanto quanto aceitável e completamente bem-vinda para alguns (afinal: se com 10% o homem teria sido capaz de modificar o mundo como o conhecemos, imaginem com 100%!), a verdade é que tudo isso não passa de um mito – que, assim como tantos outros, já fizeram a cabeça de muita gente.

O pôster oficial do filme “Lucy”, em francês

Se pensarmos pelo lado da lógica e nos deixarmos influenciar pela intuição (ou pela dúvida que cerca o mundo sobrenatural), esta tese tão perspicaz até que não é de todo descartável (basta nos lembrarmos dos milhares de segredos já descobertos pelo homem desde que a tecnologia se aperfeiçoou e intensificou). Mas, o que será que os cientistas e especialistas da área pensam sobre a “Teoria dos 10%”?

Bom, para os neurocientistas, isso tudo cai por terra através de uma simples ressonância magnética: aquele conhecido exame que permite ao médico fotografar em alta definição os órgãos internos do nosso corpo. Diferente do que diz a “Teoria dos 10%”, o procedimento nos revela que, até mesmo durante o sono, todas as partes do cérebro mostram-se em um nível de atividade, e isso aumenta ainda mais quando a pessoa faz ou exercita seus pensamentos (abrir e fechar a mão ou dizer poucas palavras já é o suficiente para movimentar muito mais de 10% de todo o órgão) – observe só esta imagem animada. É verdade que, em alguns casos, um sujeito pode até possuir as chamadas “áreas silenciosas” em seu cérebro, mas vale dizer que elas só se manifestam após ocorrência de graves danos cerebrais.

Unindo a Ciência com a indústria do entretenimento, em agosto de 2014 tivemos a oportunidade de conhecer “Lucy”, um dos mais recentes projetos protagonizados pela queridinha de Hollywood Scarlett Johansson. Contando, ainda, com as presenças de outros grandes atores de peso, como Morgan Freeman e Amr Waked, o longa-metragem dirigido por Luc Besson (o mesmo de “O Quinto Elemento”) não apenas foi um sucesso de bilheterias como também chegou a ser muito bem recepcionado pela crítica especializada. Acumulando mais de 460 milhões de dólares por todo o planeta (contra o “modesto” orçamento de 40 milhões), é exatamente por se amparar na curiosa “Teoria dos 10%” que o filme se tornou um dos mais comentados por todos os amantes da Ciência.

Combinando ficção científica com elementos de ação, a produção felizmente teve mais acertos do que erros, e apesar de partir para um lado completamente fantasioso (e bastante improvável), exala um charme único e apaixonante – o que mais poderíamos esperar de um filme sobre ficção científica? Na história, Johansson é Lucy, uma garota norte-americana que está vivendo em Taiwan e é enganada pelo recém-namorado na estranha tarefa de entregar uma maleta misteriosa para um grupo de mafiosos barra pesada. Sendo usada como mula (entenda mais) e coagida a transportar uma grande quantidade da droga CPH4 dentro do seu próprio corpo, as complicações começam quando o saco plástico contendo a substância rompe e se espalha pelo sistema circular de Lucy.

Não deixe de assistir ao trailer legendado do filme

Adquirindo diversas novas habilidades físicas e mentais, Lucy não demorará muito para perceber que, além de estar com a vida por um fio, também precisará lutar contra os ponteiros do relógio: quanto mais o tempo passa, maiores se tornam as incertezas acerca do seu futuro. É com a ajuda do professor Samuel Norman (Freeman) e do policial Pierre Del Rio (Waked) que a trama vai crescendo e a pobre moça se vê no meio de dois caminhos tão divergentes: vingar-se de quem fez aquilo consigo ou sair em busca de um bem muito maior. Será mesmo que ir atrás daqueles que a violaram e castigá-los com seus novos superpoderes é o melhor que a protagonista tem a oferecer ao espectador? Ou será que existe muito mais por trás de todo esse conhecimento recém-adquirido pela valente super-humana?

Fazendo-nos inúmeros questionamentos sobre a evolução humana e os propósitos da humanidade na Terra, “Lucy” acerta por não focar tanto nas cenas de ação e redireciona o cerne de sua produção para o seu principal objetivo: deixar o público intrigado. Aliás, até mesmo os diversos momentos de interação entre atores e dublês nas sequências de luta e fuga, além de muito bem gravados, são eficazes ao prender a nossa atenção, entretendo-nos com o melhor que os cinemas podem oferecer em efeitos especiais. Porém, o que mais podemos aprender com este filme? Por que e para que estamos aqui, vivos? Qual é o nosso legado?

É verdade que a “Teoria dos 10%”, assim como diversos dos novos talentos experimentados pela personagem de Scarlett Johansson, são totalmente fantasiosos e desprovidos de fundamentação lógica, mas não podemos nos esquecer que esta é a função do universo cinematográfico: não apenas transmitir a realidade, mas também fazer uma releitura de como funciona a mente humana. É graças à nossa capacidade de pensar que o homem pode viajar para além da linha tempo/espaço e ir longe do chão que pisamos, transformando o impossível no possível e qualquer coisa intocável em palpável. Mas todo cuidado é pouco: “Lucy” cumpre a sua função de entreter (e até mesmo nos entrega uma importante reflexão filosófica), mas, não podemos nos deixar levar por tudo que nos é mostrado pelas lentes das câmeras. Apesar de caminharem sempre de mãos dadas, realidade e ficção ainda continuam (bem) afastadas pela tênue linha da razão.

Caso você tenha se interessado pela “Teoria dos 10%”, pode saber um pouco mais sobre a opinião científica conferindo um apanhado de informações por este link.