Afrontando a mesmice dos cinemas, “Sobrenatural” surpreende em “trilogia” que vale a pena ver

Quem entende de terror e tem acompanhado os mais recentes lançamentos que rolaram por estes últimos anos sabe que a franquia “Sobrenatural” (“Insidious”) é, além de uma das mais bem sucedidas do mundo, uma das mais idolatradas pelo público. Todavia, entre a fortuna que foi arrecadada em tão pouco tempo com orçamentos que jamais ultrapassaram a casa dos 10 milhões de dólares, há uma razão (para não dizer várias) para que a saga de James Wan o tenha consagrado como um dos mais respeitados diretores paranormais dos tempos modernos.

Que Wan já havia conquistado o respeito popular com “Jogos Mortais” em um distante 2004, isso todos nós já sabemos, mas, de certa maneira, ainda havia muito a ser provado ao longo dos anos – e felizmente “Sobrenatural” foi a chave para que isso viesse à tona. Na publicação de hoje, a fim de melhor compreender o olhar visionário deste expert do macabro, faremos uma aprofundada análise sobre os detalhes que se escondem atrás da fascinante trilogia de longas-metragens que chegou para modificar muitos dos nossos conceitos sobre “um bom filme de terror”.


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Capítulo 1… repaginando a indústria do terror:

Desde que os clássicos dos anos 80 foram lançados e traumatizaram muitos telespectadores com suas marcantes cenas de violência, carnificina e banhos de sangue, muito se copiou na indústria do terror e pouco se inovou. Idealizando a concepção do “quanto mais sangue, melhor”, não há como negar que poucas foram as produções que ousaram sair desta zona de conforto nas últimas três décadas e se arriscaram ao ir atrás de um caminho totalmente alternativo. Felizmente, “Sobrenatural” foi uma delas!

Recebendo a direção de James Wan e a escrita de Leigh Whannell, o longa nos introduz à história dos Lambert, a família chefiada por Josh (Patrick Wilson) e Renai (Rose Byrne). Pais de três filhos, os problemas do casal começam quando todos se mudam para uma nova casa e o seu primogênito, Dalton (Ty Simpkins), entra em coma logo após sofrer um acidente inesperado. Sem a ajuda dos médicos, os pais resolvem recorrer aos conselhos da mãe de Josh e pedem o auxílio de uma sensitiva, Elise Rainier (Lin Shaye), alguém que já havia sido útil em um passado um tanto quanto longínquo e agora está de volta para confrontar o obscuro mais uma vez.

Apesar de ser o primeiro da trilogia, vale dizer que, na linha do tempo, “Sobrenatural” (2011) narra a segunda leva de acontecimentos vividos no universo aterrorizante da franquia de Wan, sendo precedido por “Capítulo 3” (2015) e sucedido por “Capítulo 2” (2013). Com um orçamento de 1,5 milhão de dólares, o filme fez mágica ao produzir a invejável receita de 97 milhões e render ao galã Patrick Wilson uma passagem de ida direto à “Invocação do Mal”, a exitosa obra também dirigida por Wan (e que traz, também, a talentosa Vera Farmiga no elenco).

Capítulo 2… pondo (ou apagando) os pingos dos ‘I’s?

Se o papel de “Sobrenatural” (2011) foi fazer o telespectador usar a sua massa cinzenta para compreender a enxurrada de mistérios que lhe é apresentada por mais de uma hora e meia, “Capítulo 2” (“Insidious: Chapter 2”, de 2013) chegou dois anos depois para intensificar ainda mais esse complicado processo investigativo. Após caprichar sem medo no roteiro que havia escrito sozinho para a produção de 2011, Leigh Whannell decidiu tornar as coisas muito mais interessantes ao convidar o próprio James Wan para dividir os créditos da história contada no segundo filme – a qual ganhou diversos novos detalhes completamente inusitados e de tirar o fôlego.

Repetindo seu cargo como diretor, em “Capítulo 2” Wan volta a nos narrar as chocantes experiências vividas pela família Lambert após as tragédias do primeiro filme; depois de lutar contra o sobrenatural e fazer uma visita intensa ao “outro lado”, Josh (Wilson) tenta reconstruir sua vida e apagar os pesadelos do passado. Mas, diferente do que sua família imagina (e logo descobrirá), a assombração do filme anterior não se dará por satisfeita tão cedo e tentará, mais uma vez, cumprir o maior de seus objetivos: retornar para o mundo dos vivos no corpo de alguém.

Aliado a uma nova onda de acontecimentos que responderão muitas brechas deixadas no longa inicial (e talvez colocar diversas interrogações na cabeça daquele telespectador mais distraído), “Sobrenatural: Capítulo 2” acerta ao nos exibir uma narrativa secundária muito mais tenebrosa que a iniciada pela obra anterior. Trazendo o mesmo elenco do primeiro filme, o trabalho teve um orçamento de 5 milhões de dólares e rendeu a impressionante receita de 162 milhões.

Capítulo 3… o conteúdo adicional que deu certo:

Dizem os mais velhos que “um é pouco, dois é bom, e três é demais”, mas, será que esta assertiva procede por aqui? Após fechar o ciclo perfeitamente em “Capítulo 2” (não deixando nenhum espaço para que a saga da família Lambert pudesse ter uma possível continuidade), “Sobrenatural: O Início” (“Insidious: Chapter 3”, de 2015) chegou não para narrar o futuro dos episódios que marcaram o filme anterior, mas sim para dar uma versão mais detalhada de como teria se solidificado a carreira de Elise Rainier como uma das maiores sensitivas dos cinemas (então, não espere ver Patrick Wilson ou Rose Byrne dando as caras por este filme).

O longa já se inicia e ganha força quando Elise (Lin Shaye) é visitada pela jovem Quinn Brenner (Stefanie Scott), uma garota que não aprendeu a lidar com a morte da própria mãe e está à procura de alguém que a auxilie a se comunicar com “o outro lado”. Alertada sobre os perigos desta prática e ignorando os riscos de sua teimosia, a vida de Quinn vira de cabeça para baixo quando um misterioso homem infiltra-se em seu dia a dia em uma experiência bem semelhante à protagonizada por Renai e Josh em “Sobrenatural 1 e 2”. Contudo, diferente das outras vezes, Elise parece não estar mais tão segura de seus poderes, e este mero detalhe fará toda a diferença para o desfecho de toda a produção.

Oficialmente, “O Início” é uma prequela, ou seja, uma história que se passa no mesmo ambiente iniciado pelo filme de 2011, mas que narra acontecimentos que ocorreram antes da história original. Sem James Wan na direção (ele só trabalhou como produtor), a função de dirigir o trabalho foi passada ao multifacetado Leigh Whannell, o já conhecido roteirista dos projetos anteriores que voltou, mais uma vez, para também escrever o enredo da terceira produção. O resultado foi que, dos 10 milhões de dólares investidos nas filmagens, a arrecadação atingiu os 113 milhões.

Uma nova visão sobre o macabro:

Logo de cara, podemos resumir toda a franquia em dois extremos que se comunicam esporadicamente: a história que se desenrola ao longo dos dois primeiros filmes (os de 2011 e 2013) e a que é contada na produção posterior (a de 2015). Como já comentado mais acima, “Capítulo 2” encerra o ciclo de acontecimentos originados em “Sobrenatural”, então é natural que a terceira produção soe um tanto quanto desconexa das anteriores (na verdade, ela mais parece um bônus criado para agradar aos fãs mais dedicados do que um título independente, como foi a segunda). Todavia, mesmo não acrescentando muito aos seus antecessores, a prequela não deixa de ter o seu charme e chega em boa hora para quebrar dois dos maiores deslizes cometido por Wan: a péssima tensão familiar que atrapalhou (em muito) o ritmo natural dos longas-metragens iniciais e a maneira como os seus protagonistas não pareciam ter ideia alguma do que estavam fazendo (qual pai ou mãe deixaria seus filhos sozinhos por tanto tempo?).

Contudo, em meio a poucos equívocos, “Sobrenatural” acerta a mão ao renegar as já batidas (e sempre pouco criativas) cenas de mutilação e tortura reproduzidas incansavelmente pelos clássicos do terror B e se contenta em ganhar a nossa atenção de uma maneira muito mais autêntica. Tanto o é que muitos dos seus momentos de clímax se dão com maior frequência no lugar conhecido como “o distante” (uma espécie de segunda dimensão que está constantemente brincando com a nossa imaginação) e menos no nosso próprio plano externo; um truque de mestre planejado por Wan e reutilizado por Whannell para nos dizer que, naquele lugar, tudo poderia acontecer – é impossível não se conectar com cada um dos personagens e não sentir todo o pavor experimentado por eles.

Deixando o vermelho de lado e o típico serial killer a ver navios, a trilogia (que na verdade nem funciona como uma trilogia, já que o terceiro filme está longe de ser uma sequência) iniciada pelo homônimo “Sobrenatural” (2011) se distancia em muito dos clichês propagados pela última década e aposta as suas fichas em uma abordagem totalmente nova, mas que vale a pena ser conferida. Mudando radicalmente o caminho natural seguido pelas últimas produções e caprichando bastante em quesitos como direção, elenco, figurino e roteiro (esta última uma área pouco explorada pela maioria dos filmes de terror), o longa foca em um grande desfecho que fala por si só, prendendo a nossa atenção do começo ao fim. Chegando para radicalizar o modo como estávamos acostumados a assistir filmes de terror, “Sobrenatural” é muito feliz ao amarrar seus personagens em uma trama obscura e altamente complexa, mas que, do começo ao fim, se mostra inteligente, criativa e memorável.

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