Timidamente, “The Duff” acerta e se mostra a comédia adolescente que estávamos precisando

Faz pouco mais de uma semana que compartilhamos por aqui uma publicação sobre dois dos maiores clássicos da comédia teen de todos os tempos: “As Patricinhas de Beverly Hills” (1995) e “Meninas Malvadas” (2004) – não deixe de relembrar. Agora, fazendo uma breve busca pelo Senhor Google à procura dos mais comentados lançamentos que rolaram durante o ano de 2015, é com “The Duff” que ilustraremos o post de hoje e falaremos um pouquinho mais sobre o tão agitado (e perigoso) universo adolescente. Pegue a sua pipoca, prepare os seus assentos e boa leitura!

A primeira coisa que precisamos saber sobre a produção da “Lionsgate” e da “CBS Films” é que, assim como o gigante de 2004 estrelado por Lindsay Lohan e Rachel McAdams, “The Duff” também originou-se de uma obra literária lançada muito antes para as páginas dos livros. Inspirado no registro de mesmo nome escrito por Kody Keplinger e publicado em 2011, você pode não acreditar, mas o trabalho distribuído sob a licença da “Hachette Kids Hodder Children” foi liberado quando a escritora tinha apenas 17 anos. Dirigido pelo ganhador do “Oscar” Ari Sandel e roteirizado por Josh A. Cagan, o filme foi estrelado por Mae Whitman, Robbie Amell e Bella Thorne.

Bianca Piper (Mae Whitman), a nossa protagonista

Tudo começa quando Bianca Piper (Whitman), uma inteligente estudante do último ano do Ensino Médio, leva uma vida comum e desajeitada ao lado de suas duas melhores amigas: duas meninas que, aparentemente, não têm nada em comum com a sua falta de popularidade. Lindas, poderosas e queridas por todos, as deslumbrantes Jess Harris (Skyler Samuels) e Casey Cordero (Bianca Santos), diferente da melhor amiga, atraem todos os olhares à sua volta e se mostram o sonho de consumo de 9 a cada 10 garotos. Porém, a história só toma forma e caminha para o seu derradeiro destino final quando o clássico galã do time de futebol (Wes, interpretado por Amell) e a patricinha diabólica (Madison, interpretada por Thorne) aparecem em cena para completar o time de estrelas e fazer do longa-metragem um dos mais divertidos sobre o temática adolescente.

Conversando com Wes em uma festa na casa de Madison, Bianca descobre-se na triste e surpreendente condição de D.U.F.F. (“designated ugly fat friend”, expressão que em nossa língua significaria algo como “amigo designado para ser feio e gordo”). Nas palavras do garoto, D.U.F.F. nada mais é senão aquele amigo “menos atraente” que os populares carregam para cima e para baixo para passarem a impressão de que são mais bonitos que o normal – apesar de não ser necessariamente “feio ou gordo”, a regra é que o D.U.F.F. seja o membro menos interessante do seu grupo (para provocar essa distinção de aparências). E como se não fosse o suficiente, além de bancar o acessório, cabe ao D.U.F.F. atuar como um facilitador, uma espécie de secretário particular encarregado de guardar informações e marcar encontros dos populares do seu grupo com os dos demais grupos, servindo como uma “ponte de acesso”.

Horrorizada com a informação, Bianca não demora muito para descobrir que não é a única “amiga designada para ser feia e gorda” da escola e que as pessoas ao seu redor podem ser muito mais cruéis do que poderia imaginar. Este é o caso de Madison, a ex-namorada de Wes que está sempre pronta para fazer da vida de todo mundo um inferno e que não poupa esforços para pisar em qualquer um que cruze o seu caminho (ou que ofereça algum tipo de ameaça ao seu reinado de superficialidades). Decidida a mudar a sua sina, Bianca faz um acordo com o ex de sua rival (o clássico atleta nada inteligente que corre o risco de ser reprovado no colégio) e, juntos, se ajudarão na tarefa de fazer um aumentar as suas notas enquanto o outro muda radicalmente o seu estilo de vida para ser melhor aceito pela sociedade (e pelo garoto dos seus sonhos).

Da esquerda para a direita: Jess Harris (Skyler Samuels), Casey Cordero (Bianca Santos) e Bianca Piper (Mae Whitman)

Contudo, não é apenas pelo time de artistas ou pelo seu enredo interessante que “The Duff” se destaca dos demais filmes sobre o gênero e ganha alguns pontos positivos.

Se existe uma artimanha que foi muito bem empregada pela equipe por trás do longa-metragem é o ponto de contato que a sua história cria com a tecnologia, as redes sociais e o nosso mundo externo. Talvez uma das maiores inseguranças de um diretor ou escritor seja citar fontes que remetam o seu telespectador/leitor à uma data ou momento específico, taxando a produção e fazendo-a perder o seu teor “atemporal” (aquela que você pode acompanhar a qualquer momento e que sempre parecerá atual). Apesar de quase sempre dar certo, a verdade é que definir um momento não é de todo ruim, e isso não apenas funciona bem em “The Duff” como é um dos pontos chave para todo o seu sucesso (com um orçamento de 8,5 milhões de dólares, a receita do filme chegou a ultrapassar os 43 milhões). Fazendo uma menção honrosa ao épico “Os Simpsons” e a sites do nosso dia a dia (como o Twitter, Tumblr e Instagram), diferente do esperado, a “modernidade” que se esconde em cada cena não apenas nos deixa mais familiarizados com a realidade do longa-metragem como também nos faz acreditar que cada personagem realmente saiu do nosso plano físico (e não da imaginação fértil de alguém que pouco entende do assunto).

Madison Morgan (Bella Thorne), a antagonista

Outro ponto importante que não podemos deixar de mencionar é a fantástica caracterização da nossa grande protagonista e a nomeação de Mae Whitman para dar vida à Bianca Piper. Se você já assistiu a qualquer clássico adolescente produzido nos últimos 30 anos, deve saber que é regra a escolha de um rostinho bonito e jovem para interpretar o papel da inocente menina que é feita de boba durante todo o filme (Hilary Duff, Lindsay Lohan e Amanda Bynes que o digam). Todavia, mesmo quebrando algumas dessas regras, Whitman tira de letra e se mostra uma escolha totalmente controversa (e bem sucedida) para o papel. Isso porque, diferente da grande maioria das demais atrizes, Mae não usa minissaia ou possui um corpo padrão retirado das capas de revistas de moda – até pelo contrário, pois é graças à suas roupas estranhas e à atitude nerd-tímida-legal que a protagonista de “The Duff” ganha a nossa confiança logo de cara. Apesar de bonita, Bianca é só uma garota normal que gostaria de ser levada a sério, a típica menina que nós encontramos nos colégios de qualquer lugar do mundo (diferente das modelos magérrimas, bem vestidas e deslumbrantes que estrelam a maioria destes filmes). Se tivesse seguido a regra, com certeza Bella Thorne seria a protagonista (e não a antagonista).

Se Whitman quebra a regra por não ser uma modelo por excelência, com certeza ela não está sozinha ao extrapolar o requisito da idade que um profissional deve ter para interpretar um adolescente por volta dos seus 16 ou 17 anos. Pode parecer mentira, mas, tanto Mae como Robbie (Wes) já tinham passado dos 25 quando “The Duff” estrelou nos cinemas norte-americanos em 20 de fevereiro do ano passado. Apesar de não aparentarem a idade que possuem, essa na verdade é uma prática bem comum na indústria cinematográfica, e se você não se lembra de nenhum outro caso como este, basta mencionarmos “As Patricinhas de Beverly Hills” e “Meninas Malvadas”, por exemplo. Na primeira produção, Stacey Dash (Dionne, a melhor amiga de Cher), apesar de esbanjar uma beleza sem tamanhos na produção de 1995, já contava com 27 quando deu vida a uma das garotas mais populares do colégio de “Clueless”. O mesmo aconteceu com Rachel McAdams, a inesquecível Regina George – que, na estreia de “Mean Girls”, já contava com 25 (não parece, né?). Realmente, nem sempre um ator adolescente é a melhor opção para estrelar um filme sobre o gênero!

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E já que o assunto é Regina George… se “The Duff” é eficaz ao acumular diversos acertos em quesitos tão improváveis, talvez ele peque em um dos mais óbvios possíveis: a escolha de Bella Thorne para viver uma das antagonistas mais descartáveis da história dos cinemas. Não que Bella seja uma atriz ruim (muito pelo contrário), mas, por mais que a moça tenha se esforçado bastante para interpretar um dos papeis mais medíocres de toda a sua carreira, Madison Morgan é como o “barro” de “Meninas Malvadas” que jamais irá acontecer. Definitivamente inspirada (para não dizer copiada) na Regina George de Tina Fey, a vilã de “The Duff” não apenas não nos convence como se mostra uma personalidade totalmente mal construída, mal trabalhada e mal explorada. Se Regina tinha a magnitude de uma rainha, Madison demonstra a competência de uma mosca varejeira desorientada pela fumaça de um inseticida. Totalmente aleatória, até os momentos mais “bad ass” da personagem parecem incompletos, nos dando a impressão de que Madison não se encaixa com o restante do cenário, mostrando-se alguém frio, desinteressante e completamente entediante. Mas, não é só de acertos que um filme sobrevive, acredito eu!

No geral, “The Duff” pode parecer apenas mais um filme adolescente estrelado por meia dúzia de jovens que nunca ouvimos falar, mas é, sem sombra de dúvidas, um título que não pode passar despercebido dos nossos olhares. Resgatando diversas temáticas que valem a pena ser discutidas – como o bullying, a autoconfiança e a criação de rótulos indesejáveis –, o longa trata tudo isso com bastante bom humor e uma linguagem mais descontraída, típica dos adolescentes, enquanto é narrado pela própria Bianca de uma maneira bem intimista (bem semelhante à “Meninas Malvadas”). Os atores escolhidos para fazerem parte do elenco não poderiam ser melhores (como o Ken Jeong, de “Se Beber, Não Case”, e a Allison Janney, do seriado “Mom”), pois não só mergulharam de cabeça na produção como compartilharam de uma química muito gostosa de ser acompanhada. Caprichando na trilha sonora (que vai de Charli XCX à Jessie J e Fall Out Boy) e fazendo com que tudo soe o mais natural possível, é um filme que vale a pena ser conferido pelo simples fato de trazer uma situação degradante de forma divertida e envolvente, mas sem perder o mais importante: que é o seu lado crítico. Não importa se você conhece, tem ou é um D.U.F.F.: no fim das contas, existem coisas muito mais importantes para se descobrir durante a nada fácil etapa da adolescência.

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