A vida pode ser estranha, mas em “Life is Strange” você descobrirá que ela é muito mais do que isso

Você não é uma daquelas pessoas que acredita ser a temática viagens pelo tempo uma exclusividade de filmes como “De Volta Para o Futuro”, “Efeito Borboleta” e “De Repente 30”, não é mesmo? Explorando um dos assuntos favoritos da ficção científica (e até mesmo do suspense e da comédia, como podemos observar pelos dois últimos títulos recém citados), a oportunidade de se deslocar pelo espaço/tempo tem sido também uma ótima ferramenta de trabalho desenvolvida e aprimorada pelos mais remotos jogos eletrônicos. Seja pelo noventista “Chrono Trigger”, o qual deu início à febre dos RPGs há vinte anos, ou pela terceira sequência da série “Crash Bandicoot” (o “Warped”), o qual popularizou lá em 98 os gráficos em 3D, nós poderíamos passar bastante tempo por aqui elencando alguns dos melhores games que já se arriscaram ao mexer com o relógio e provocar o desequilíbrio no sagrado cosmo.

Deixando o passado um pouco de lado (pelo menos por enquanto, é claro), o tema da vez que inspirou esta publicação trata-se de um dos jogos mais populares da atualidade e que atingiu a espetacular proeza de distribuir pelo mundo mais de 1 milhão de cópias somente no primeiro semestre de 2015. Desenvolvido pela “Dontnod Entertainment” e publicado pela “Square Enix”, “Life is Strange” (“A Vida é Estranha”, em tradução literal) traz ao jogador a possibilidade de viver a interessante trajetória de uma estudante de Fotografia que descobre uma recente e oportuna (porém inexplicável) habilidade de voltar no tempo e mudar completamente a sua vida e a de todos aqueles que a rodeiam.

Encarnando a tímida e introspectiva Maxine Caulfield (ou apenas Max, para os mais íntimos), logo no início do jogo a protagonista é encorajada pelos desenvolvedores de “Life is Strange” a testar o seu mais novo talento enquanto se mantém presa em uma entediante aula do curso. Safando-se de receber uma bronca do professor (Mr. Jefferson) por desconhecer a matéria em estudo e da vergonha de ser enfrentada por uma colega de classe mesquinha (Victoria Chase), Max não demorará para descobrir que sua estranha condição lhe permitirá alcançar muito mais do que meros elogios acadêmicos ou a tão sonhada admiração popular. Recebendo o apoio de sua melhor amiga, Chloe Price, a quem já não tinha mais contato há muito tempo, apenas as duas garotas possuem conhecimento sobre o dom recém adquirido por Caulfield e juntas entrarão em uma aventura sem voltas rumo a um destino intrigante.

Max Caulfield, a protagonista da trama

Passando-se na cidade fictícia de “Arcadia Bay”, localizada no estado do Oregon (mais especificamente na “Academia de Blackwell), no ano de 2013, muito mais do que bullying e monitoramento eletrônico escolar servem de pauta para um dos jogos mais fascinantes já distribuídos pela “Square Enix”. Investigando o misterioso desaparecimento de uma estudante (Rachel Amber) que sem mais nem menos parece ter sumido do mapa como num passe de mágica, Max e Chloe descobrirão que assuntos muito mais sombrios cercam sua terra natal a qual é atualmente dominada por uma família que detém o total controle político da região (os Prescotts). Entram nessa história, ainda, a doce Kate Marsh, uma vítima dos males de nossa sociedade contemporânea; Warren Graham, um nerd e sensível garoto super apaixonado pela personagem principal; e Nathan Prescott, um dos principais criadores de problemas para nossa dupla dinâmica. Recebendo a visão de um tornado que tem o potencial para destruir toda a cidade, Max precisará ser rápida e lutar contra o tempo antes que tudo vá para os ares no prazo máximo de quatro dias (pouca pressão, não?).

Dividida em cinco capítulos, cada qual liberado em um intervalo que varia de dois a três meses, apenas “Polarized” (“Polarizada”, a ser lançado oficialmente no dia 20 de outubro deste ano) falta vir ao nosso encontro para encerrar a saga trilhada pelos marcantes personagens da trama. Os demais capítulos – “Chrysalis” (“Crisálida”, liberado em 30/01/2015); “Out of Time” (“Fora de Sincronia”, liberado em 24/03/2015); “Chaos Theory” (“Teoria do Caos”, liberado em 19/05/2015); e “Dark Room” (“Quarto Escuro”, liberado em 28/07/2015) – já podem ser encontrados para compra online e estão à disposição de todos aqueles que ainda não conhecem a série, mas gostariam de explorar os mistérios escritos por Christian Divine e Jean-Luc Cano.

Estruturado na autonomia de o jogador poder optar por apenas uma escolha entre as diversas apresentadas (e voltar no tempo, caso se arrependa), o jogo traz também diversas opções de diálogo que definirão o modo como os demais personagens enxergarão a sua Max Caulfield. É claro que você não poderá rebobinar sua história sempre que quiser, já que, uma vez abandonado o cenário atual, suas decisões se tornarão definitivas (mas convenhamos: voltar no tempo a qualquer momento para corrigir eventuais erros tiraria toda a graça do game). Para tanto, logo de início você será advertido de que “Life is Strange é um jogo que permite ao jogador influenciar a história. Todas as suas ações e decisões terão um impacto sobre o passado, presente e futuro. Escolha com sabedoria”.

Discorrendo sobre a já conhecida e real “Teoria do Caos” (a mesma que dá nome ao terceiro capítulo da série), de Edward Lorenz – aquela que se baseia no princípio de que “uma minúscula borboleta batendo asas hoje pode levar a um furacão devastador daqui a semanas” -, diversos elementos do game ilustram a tese defendida pelo meteorologista (como a borboleta azul e o tornado que aparecem no trailer a seguir). De acordo com os estudos realizados pelo norte-americano, pequenas ações ocorridas no universo podem gerar grandes consequências no futuro, fazendo com que estejamos sujeitos a um constante e instável sistema de incertezas temporais.

Confere só esse trailer de tirar o fôlego!

Recebido de maneira majoritariamente positiva pela crítica (os quatro primeiros episódios variaram de 70 a 80% de aceitação), a maior reprovação vinda dos sites especializados apontou que a sincronia labial trabalhada em “Life is Strange” não era das melhores, além do rotineiro (e informal) uso de gírias. Elogiado pelas frequentes “viagens no tempo” e a “formação do caráter” que poderá ser moldada pelo próprio jogador, a conceituada “Forbes” elogiou a “combinação de gêneros” de “LIS”, atribuindo uma incrível nota 8,5 de 10,0 pontos. Indicado às premiações de maior prestígio que visam celebrar os melhores jogos eletrônicos do ano, “Life is Strange” venceu duas categorias no “Develop Industry Excellence Award”, por “Novos Jogos para PC/Console” e “Uso da Narrativa”, e está concorrendo ao “Golden Joystick Award” (evento que acontecerá no dia 30 de outubro de 2015) por “Melhor Jogo Original”, “Melhor Enredo”, “Melhor Áudio”, “Melhor Momento em um Jogo”, “Jogo do Ano” e “Performance do Ano” (Ashly Burch como Chloe Price). A votação é aberta ao público e você pode participar contribuindo com a sua ajuda clicando aqui.

Entrando na vibe dos jogos interativos que dão ao jogador a chance de escolher entre duas ou mais saídas para uma mesma situação (como vimos em “Until Dawn” recentemente), “Life is Strange” se destaca por apresentar uma história que surpreende e emociona qualquer um, até mesmo aquele seu amigo dono de um coração de pedra. Se por um lado temos o problema da sincronização labial que é mesmo precária por algumas vezes, por outro temos a ótima dublagem reproduzida pelo pessoal por trás dos personagens que nos são introduzidos no decorrer do game. Constantemente narrando sábias observações sobre a vida que denotam invejáveis sensibilidade e vulnerabilidade, Max Caulfield (na voz de Hannah Telle) nos proporciona diversos momentos reflexivos que podem ser facilmente adequados aos nossos problemas do dia a dia. Com uma vista maravilhosa e rica em detalhes que faz toda a diferença nos cenários que formam “Arcadia Bay”, as cenas da obra dão ao jogador aquela indescritível sensação proposta pela “Dontnod Entertainment” de inserção ao ambiente do jogo, feito que poucos títulos atuais têm conseguido fazer com tamanha maestria.

Desenvolvendo uma química quase mágica entre os personagens e as situações que os interligam, o caráter é outro ponto muito dissecado em “Life is Strange”, uma ferramenta que pode ser lapidada de diferentes maneiras dependendo de jogador para jogador. Assim, o game nos faz pensar e refletir sobre questões éticas que nem sempre têm sido respeitadas pelos indivíduos na nossa realidade, cabendo a você optar por um perfil mais pendente para a moralidade ou se entregar de braços abertos para as armadilhas do egoísmo social. Até qual ponto a lealdade deve permanecer dentro de uma amizade antiga quando conflitante com causas sociais que beneficiarão toda uma coletividade de pessoas carentes? Até onde a crueldade e frieza humana são capazes de ir e unirem-se à psicopatia dos serial killers que estão vez ou outra observando cada passo que é dado por todos os seus alvos? Caberá a você, sob o controle da incrível Super Max, desvendar todos esses questionamentos e estar sempre alerta para levantar o braço direito e rebobinar o tempo antes que o pior aconteça. Como bem alerta os desenvolvedores do game: escolha com sabedoria!

Dirigido por Raoul Barbet e Michel Koch, desenhado por Michel Koch, Kenny Laurent e Amaury Balandier, estruturado por Baptiste Moisan, Sebastien Judit e Sebastien Gaillard, e com uma trilha sonora desenvolvida por Jonathan Morali, “Life is Strange” está disponível para as plataformas Microsoft Windows (PC), PlayStation 4, PlayStation 3, Xbox One, Xbox 360, e aborda uma jogabilidade single-player (1 jogador) do gênero aventura/drama. Carregando consigo uma legião de seguidores fieis que está cada vez mais ávida por novidades que circundam o universo do jogo, eu tenho certeza que você entrará para o clube assim que começar a acompanhar os segredos que se escondem por cada centímetro quadrado de “Arcadia Bay”.

Se você curtiu “Life is Strange” e gostaria de ter uma prévia do game, pode acompanhar a gameplay completa gravada pelo Alan do “ElectronicDesireGE” por meio deste link. Jogo não recomendado para menores de 17 anos por conter sangue, temas sexuais, linguagem depreciativa, violência e uso de drogas. Você pode saber mais informações sobre acessando o site oficial da obra e a página de fãs do Facebook (em português).