“Until Dawn”: o game em que a interatividade realmente funciona

Desde que o mercado dos jogos eletrônicos começou a expandir-se no final da década de 80 e tomou as formas da 3ª dimensão nos anos que se seguiram, uma dúvida que com certeza sempre frequentou a cabeça de todo e qualquer jogador refere-se ao quão longe poderiam ir os designers de games. E, por mais que estes grandes desenvolvedores trabalhem arduamente para entregar um material o mais próximo da realidade para os seus milhares de admiradores do mundo todo, convenhamos que nem tudo é possível, por mais que relutemos a admitir isso.

Seja pela introdução de cenários pouco interativos que são costumeiramente limitados pelas famosas redomas invisíveis (aquelas “paredes de ar” que te impedem de seguir adiante no mapa, se lembram?) ou por um roteiro que não permite ao jogador optar pelo seu próprio destino, muitas foram as novidades trazidas pelas mais poderosas empresas do globo desde que a tecnologia se aperfeiçoou e o homem tomou as rédeas de sua maior criação. A comercialização de eletrônicos, obviamente, não é mais a mesma, e se você não for capaz de atender à crescente demanda infelizmente acabará tendo de lidar com alguns olhares de repulsa do público mais seletivo.

Entrando na vibe dos games super-realistas, uma nova jogabilidade que se tornou sonho de consumo do pessoal de uns tempos pra cá não poderia ser outra senão a autonomia de se poder escolher entre dois ou mais caminhos bem diferentes dentro de uma mesma trama. Apesar de parecer um tanto quanto improvável, a proposta é simples! Imaginemos a seguinte situação hipotética: você, o protagonista da história, está perdido com o seu grupo de amigos à noite em um lugar que ninguém conhece. Já parou para pensar como seria foda se existisse a possibilidade de se poder aventurar pela trilha da esquerda e não a da direita, fazendo com que assim o seu personagem se perca do grupo e tenha de se virar sozinho para sair vivo do desconhecido?!

Se você curtiu o trailer talvez queira acompanhar o gameplay completo no canal do LubaTV

Se o fato de analisarmos apenas essa ferramenta isoladamente já é inacreditável, imagine então tentar visualizar essas e muitas outras tão surpreendentes quanto reunidas em uma única obra! Esse foi o desafio aceito pela “Supermassive Games” e pela “Sony Computer Entertainment” ao desenvolverem e editarem “Until Dawn” (“Até o Amanhecer”, em português literal), a mais nova aposta das empresas para os consoles do “PlayStation 4”. Liberado oficialmente no dia 25 de agosto deste ano lá pelo território norte-americano, o game do gênero survival horror e interactive drama pode ser encontrado na modalidade single-player (1 jogador) e acompanha o mesmo esquema de escolhas interativas que conhecemos em “The Wolf Among Us”.

Denominado “efeito borboleta”, este sistema no qual “suas escolhas mudarão o desenrolar da história” é definitivamente um dos pontos mais altos e bem trabalhados quando do planejamento e desenvolvimento de “Until Dawn”. Seja para alertar o jogador, seja para responsabilizá-lo, desde o começo do game diversas orientações são passadas na tela inicial para que ninguém possa alegar ignorância mais tarde, tais como: a menor das decisões pode mudar o futuro de forma dramática, “escolha suas ações com cuidado” e “sua história é uma entre várias possibilidades”. Explorando os ensinamentos da real “Teoria do Caos”, de Edward Lorenz – a qual inclusive baseia um outro jogo que será tratado logo mais por aqui –, “Until Dawn” destrincha a ideia defendida pelo meteorologista de que “uma minúscula borboleta batendo asas hoje pode levar a um furacão devastador daqui a semanas”.

Seguindo 10 jovens que resolveram passar alguns bons momentos de descontração em um chalé nas montanhas durante um rigoroso inverno, a história toma forma quando Mike, Ashley, Emily, Matt e Jessica fazem uma brincadeira de mal gosto com Hannah, que é apaixonada por Mike. Descobrindo toda a armação e se sentindo completamente envergonha, a garota abandona o lugar e parte rumo ao desconhecido, se arriscando em uma forte nevasca no meio da noite para se ver livre do bullying sofrido. Surpreendida com o ocorrido e inconformada com o posicionamento de seus amigos, Beth adentra pela floresta para prestar socorro à irmã gêmea e sai sozinha à sua procura. Porém, essa história não termina com um final feliz quando as meninas descobrem a presença de um estranho no lugar e, no calor do momento, despencam de um abismo que as leva até a morte.

Mike (Brett Dalton)

Um ano se passou desde o trágico incidente que envolveu as irmãs Washington e nenhuma nova notícia veio a tona, o que, é claro, ensejou no arquivamento das buscas policiais pelos responsáveis pelo caso (detalhe: os corpos nunca foram encontrados). Às vésperas do aniversário de desaparecimento das suas irmãs, Josh toma uma boa iniciativa e, para colocar um ponto final ao fatídico episódio, decide convidar o mesmo pessoal para passar uma nova temporada na propriedade de seus pais. Sam e Chris, que nada tiveram com a peça pregada mas também estiveram à época, também aceitam o convite e retornam para as montanhas Blackwood Pines, no Monte Washington, para dar uma força ao amigo “em memória de suas irmãs”.

Todavia, muita coisa mudou desde que Hannah e Beth desapareceram e o grupo de amigos concordou em se reunir mais uma vez na mesma localidade. Emily, que agora namora Matt, mas esteve com Mike há um ano (quem agora namora Jessica), envolve-se em uma discussão feia e causa um grande mal-estar em todos, culminando na separação de Jessica e Mike do chalé. Essa é a deixa para que a trama se desenrole em diversos cenários com inúmeras histórias de fundo que juntas formarão a verdade por trás de “Until Dawn”. Misturando ficção com realidade, não demorará muito para que cada personagem perceba que retornar à Blackwood Pines exatamente no aniversário de desaparecimento de Hannah e Beth foi a pior decisão tomada em suas vidas. Possuindo o condão de controlar as atitudes dos 8 jovens, cabe ao jogador encaminhar todos os heróis para o seu tão temido destino surpresa, podendo cada um ser salvo ao final ou até brutalmente assassinado.

Recebido pelos críticos de forma predominantemente positiva, a maior parte dos comentários sobre “Until Dawn” elogiou o “mecanismo de escolhas” que obriga o jogador a optar por uma entre duas saídas tão adversas, além de ter destacado a “excelente dublagem, história e cenário visual”. Condecorado com 80,60% de aprovação do “GameRankings” (baseado em 65 críticas) e 79/100 do “Metacritic” (baseado em 90 críticas), Alexa Ray Corriea, do “GameSpot”, se disse surpresa com o desenrolar do game. Elogiando principalmente a narrativa nele presente, Corriea levantou que “os caminhos que se ramificam pelo enredo alteraram significativamente a história do jogo”, coisa não muito eficaz nos títulos da concorrência. Um detalhe pouco observado pelos críticos, mas que se faz interessante lembrar, é a presença de inúmeros totens por todo o ambiente do jogo. Classificados em 5 espécies (perigo, morte, orientação, fortuna e perda), esses símbolos da antiga cultura indígena estadunidense trazem ao jogador pequenas cenas sobre supostos acontecimentos futuros, e servem para dar um aviso do que vem pela frente caso você opte por uma decisão ou outra (vão por mim, coletar totens faz toda a diferença).

Com um elenco de peso, diversos atores e atrizes do meio televisivo emprestaram seus traços e vozes para dar vida aos garotos da história, dentre os quais menciono a brilhante Hayden Panettiere (famosa por ter feito a Claire Bennet da série “Heroes”) e o galã Brett Dalton (o Grant Ward, de “Agents of S.H.I.E.L.D.”) – Sam e Mike, respectivamente. Os demais personagens secundários, não menos importantes, foram interpretados pelos também talentosos e muito convincentes Rami Malek (Josh), Ella Lentini (Hannah e Beth), Noah Fleiss (Chris), Galadriel Stineman (Ashley), Nichole Bloom (Emily), Jordan Fisher (Matt) e Meaghan Martin (Jessica).

Sam (Hayden Panettiere) e Mike (Brett Dalton)

Sem revelar mais pormenores para lhes poupar de spoilers, “Until Dawn” aparece em pleno segundo semestre de 2015 para dar um novo gás à indústria dos eletrônicos e trazer algumas novidades muito bem-vindas a este cenário. Inúmeros têm sido os games que “abordam uma maior autonomia nas escolhas do jogador”, mas a verdade é que no fim das contas poucas são as consequências que essas decisões interferem na história. Por mais que você opte por “permanecer escondido” ou “sair correndo”, o assassino acabará te encontrando de qualquer maneira e a luta corporal se tornará inevitável. Positivamente, isso é algo que não acontece neste jogo, pois até mesmo o menor dos deslizes fará com que você se afunde em um caminho de desgraças sem voltas. Como bem sugerido pelos desenvolvedores: “não fazer nada” é, muitas vezes, a melhor opção a se adotar em momentos de grande tensão e pressão.

Aliado a gráficos surpreendentemente bonitos e que farão qualquer um se apaixonar logo à primeira vista, “Until Dawn” é uma trama envolvente e que merece a atenção de todos que adoram um excelente jogo com pitadas de terror, bom-humor e muita criatividade.

Jogo recomendado apenas para maiores de 18 anos por conter cenas de violência, linguagem inapropriada e mutilação.