Anitta, Lexa, preconceito e o futuro da música pop-funk brasileira

Como fiel ouvinte da música pop internacional e de todos os seus derivados, confesso que desde os meus primórdios enxerguei o som nacional com certos olhos de receio (ou até mesmo preconceito, para ser mais sincero – não é a toa que este é o nosso primeiro post sobre música nacional). E, nessa vibe de tanto odiar tudo aquilo que era produzido pelos cantores e produtores tupiniquins, acabei, por diversas vezes, me negando a acompanhar alguns dos grandes destaques que já pintaram pelas rádios de todo o Brasil por estes últimos anos.

De fato, apesar de curtir algumas bandas de pop-rock regional, como o Capital Inicial, ou uma cantora ou outra, como a Wanessa (ex-Camargo), nunca fui uma pessoa devota àquilo que tanto fez (e faz) sucesso em nosso país. Entre inúmeros hits da música sertaneja e do funk carioca que dominaram o gosto popular de 9 a cada 10 brasileiros pelo último quinquênio, vocês devem imaginar que minha insatisfação sempre foi muito grande, para não dizer gigante. Contudo, um pouquinho de toda essa implicância estava prestes a mudar há poucos meses deste ano de 2015.

Tudo começou enquanto assistia a um programa musical pela televisão e fui apresentado a uma novata de nome Lexa, a convidada especial daquele dia em questão. Muito simpática e com um vozeirão bem afinado, minha surpresa foi totalmente inesperada ao descobrir que o foco da mencionada cantora era o funk, aquele mesmo que “aprendi” a reprovar ao longo dos muitos anos. Fazendo uma rápida busca pelos canais de TV, não demorei muito para encontrar alguns clipes da tal Lexa, e apesar de não curtir a sonoridade trabalhada por ela e pela sua gravadora, era inegável que a guria tinha talento (e carisma, um dos pontos que mais me chamou a atenção).

A cantora Lexa em ensaio fotográfico para o álbum “Disponível”

Deixando os estereótipos do politicamente correto de lado, resolvi fazer o download de “Disponível”, o primeiro disco da iniciante, e é claro que levei um tombo anda maior ao descobrir que ele não se baseava apenas no (até então) detestado funk. Muito pelo contrário: com uma baladinha ou outra, o debut album de Lexa, apesar de pouco inovador, me surpreendeu ao brincar com uma mistura de sons, indo do romântico R&B norte-americano para um reggae com cara de pop em fração de segundos. E para ser bem sincero, até mesmo as faixas de funk, a grande maioria do trabalho, não eram de todo ruim, com instrumentais interessantes e letras que exaltavam o feminismo, a liberdade e a independência (elementos que permanecem fortemente em alta na sociedade contemporânea).

Feliz com o resultado que ouvi no recente material, a positividade de Lexa me levou a conhecer outra figurinha bem popular do contagiante ritmo carioca. Sim, estou falando de Anitta! Esta muito mais renomada que aquela (convenhamos que o mero lançamento de “Show das Poderosas” já foi o suficiente para transformar a jovem garota em um dos maiores nomes da música brasileira atual), é fato que a nascida Larissa de Macedo Machado conseguiu construir ao longo de quase três anos uma carreira de imenso prestígio e fortuna.

Partindo para seu terceiro álbum de estúdio, o aclamado “Bang”, a cantora e compositora pouco decepciona com o seu mais novo disco de inéditas ao também abraçar sonoridades diversas e reuni-las em um material coeso e totalmente animador (você provavelmente já deve conhecer os sucessos “Deixa Ele Sofrer” e a faixa-título). Ainda focando suas letras no empoderamento feminino, na diversão e no amor, Anitta, assim como Lexa, tem se mostrado um interessante nome da recente leva de artistas que deverá representar o futuro da indústria musical brasileira. Apesar de as comparações serem cada vez mais frequentes (e inevitáveis, uma vez que foram levadas ao estrelado pela mesma empresa publicitária), a verdade é que tanto uma quanto a outra parecem ter objetivos completamente diferentes em suas carreiras.

Enquanto Anitta já precisa lidar com problemas mais sérios (como a dor de cabeça de uma batalha judicial) e aparenta gozar de uma estabilidade comercial muito mais poderosa, Lexa ainda dá seus primeiros passos pela jornada musical, mostrando, para isso, toda a versatilidade de sua voz em um repertório ainda muito limitado. Caprichando nos covers – como estes de “Give Your Heart a Break”, da Demi Lovato, e “Você Sempre Será”, da Marjorie Estiano, que você PRECISA conferir –, a novata parece querer crescer tanto quanto à sua antecessora, e para isso ambas têm adotado algumas táticas em comum (apesar de suas inquestionáveis diferenças, é claro).

A primeira delas, sem sombra de dúvidas, está em uma grande produção, com direito a clipes recheados de dançarinos bem coreografados e cenários que nos remetem aos trabalhos dos poderosos artistas do Hemisfério Norte – isso sem falarmos da gravação e remasterização de suas canções, que acentuam uma forte preocupação com a qualidade final de som levado para seus álbuns. Contudo, a maior façanha que as duas garotas têm investido pesado é na junção do funk ao pop (o que eu gosto de chamar de pop-funk), trazendo-nos, finalmente, algo de novo neste cenário tão pouco explorado pelos artistas brasileiros da atual década (saudades Sandy & Junior, Kelly Key, Marjorie Estiano e KLB).

“Pior Que Eu Sinto Falta” é um dos mais recentes trabalhos da Lexa que tem se destacado bastante por aí. Assista agora mesmo ao clipe da balada romântica

Que o pop nunca foi o grande foco das paradas de sucesso brasileiras (novidade), isso não sou eu quem diz, mas sim o próprio histórico das maiores empresas de radiodifusão do país, que há muito preferem dar maior enfoque aos demais ritmos populares do Brasil (como o sertanejo, o pagode, o axé e a MPB). Ganhando força com a chegada do novo milênio, o funk, assemelhando-se às demais sonoridades dominantes, há muito deixou de ser considerado um som das periferias para marcar o gosto musical de toda a população. Passando a confirmar presença na playlist de qualquer festa (seja da classe rica, média ou pobre), felizmente os anos 2000 chegaram para mudar o conceito do gênero e a visão que as pessoas tinham do marginalizado estilo sonoro. Todavia, muita coisa ainda estava em construção e mudaria com a virada desta década (2009-2010).

Indo na direção contrária à ostentação e à pornografia que muitos MCs tanto prezam em seus “trabalhos” conhecidíssimos por todo o Brasil, Anitta, Lexa e outros nomes recentes da indústria musical têm sido pioneiros ao reformular o funk e introduzi-lo ao público sob um novo olhar mais comercial e filtrado. Deixando as palavras de baixo calão de lado e focando na composição de músicas que falam muito sobre a confiança e a diversidade, foi graças aos seus trabalhos que hoje somos contemplados com dois tipos de funk: aquele proibidão que rola solto em alguns bailes perigosíssimos do Rio de Janeiro, e este novo, repaginado, sem sombra de dúvidas mais saudável e recomendável para nossos ouvidos.

Desde que me entendo por gente, sempre demonstrei uma preferência maior pela cultura estrangeira, e não apenas em se tratando de música, mas também cinema, literatura e tantos outros ramos do entretenimento em geral. Todavia, jamais enxerguei essa situação como falta de patriotismo ou respeito pelo meu país, e apenas encarei tudo isso como questão de gosto. Afinal: não tenho culpa se por toda minha vida me identifiquei melhor com o conteúdo que veio do exterior ao que eu tive aqui pelo interior. Mudando um pouquinho os meus próprios conceitos sobre o que é bom e o que é ruim, Lexa e Anitta aparecem em meu caminho como dois novos motivos para abraçar o talento nacional e curtir essa garotada que tem tanta sede de crescer e expandir aqui no Brasil tudo o que sempre admirei lá fora.

Sem preconceitos ou prejulgamentos, é tempo de mudar, de abrirmos as nossas mentes para novos horizontes e deixarmos a batida nos guiar.