O estranho caso de Kesha contra Dr. Luke: muito mais que um embate entre mocinhos e vilões

Se você parou para dar uma vasculhada nas notícias que bombardearam a internet na última semana, então deve saber que o caso Kesha X Dr. Luke tem estremecido não apenas a Justiça norte-americana, mas também todos aqueles possuem algum apreço pelo universo da música popular. Por isso, decidi fazer uma profunda análise com tudo o que tem saído de relevante sobre o assunto e, no post de hoje, discutiremos um pouquinho mais sobre um dos confrontos mais aterrorizantes já vivenciados por dois dos maiores nomes da indústria do entretenimento.

Para quem não sabe, a gente explica:

A BATALHA JUDICIAL:

Desde 2014, a voz por trás de sucessos como “Tik Tok” e “We R Who We R” decidiu recorrer ao Poder Judiciário para quebrar o contrato que a une a um dos produtores mais bem sucedidos da última década (o mesmo que já trabalhou com Katy Perry, Britney Spears e Kelly Clarkson). O motivo? Lukasz Gottwald (ou simplesmente Dr. Luke) teria drogado Kesha e a violentado não apenas sexualmente, mas também psicologicamente – crimes que teriam começado há uma década, quando a popstar tinha apenas 18 anos (hoje ela tem 28).

Acontece que, na última sexta-feira (19/02), foi realizado o julgamento que poderia ter solucionado parte dos maiores problemas de Kesha: a cantora havia entrado com um pedido liminar que, uma vez concedido, a autorizaria a gravar novas músicas sem se vincular à “Sony Music” (a gravadora onde Luke trabalha atualmente). Contudo, metade desta batalha acabou sendo perdida quando o júri responsável pelo caso não se convenceu do pedido por “insuficiência de provas” e negou a liminar, solicitando o agendamento de uma nova sessão para o dia 18 de maio.

A questão é: caso não apresente novas provas capazes de confirmar a ocorrência do estupro, provavelmente o processo será julgado improcedente pela Corte e a moça continuará presa ao contrato com seu possível agressor. E pior: além de impedi-la de lançar qualquer material sem a permissão do produtor ou de sua gravadora, o acordo que originou o conflito determina a gravação, liberação e divulgação de outros 6 álbuns (todos sem previsão de lançamento). Definitivamente, perder não é uma opção para Kesha.

LUKE… TALVEZ NÃO TÃO INOCENTE ASSIM:

Obviamente, Luke discorda do que tem sido dito pela cantora e, além de processá-la de volta por calúnia, alega que tudo não passaria de uma artimanha para sujar sua reputação e livrar-se do acordo firmado anos atrás – vale dizer que, em 2011, a loira já havia negado qualquer abuso sexual protagonizado por ele. O produtor vai muito mais além e, em recente matéria publicada pela “Rolling Stone”, seus advogados disseram que “havia sido ofertado à Kesha a oportunidade de gravar um novo material sem a companhia de Gottwald” e que, em momento algum ela estaria presa a ele” – contrariando a campanha #FreeKesha levantada pelo público nas redes sociais. Este, a propósito, foi o documento que pesou na última decisão do júri (a mesma que negou a liminar solicitada pela moça e remarcou uma nova sessão para daqui três meses).

Porém, muitos detalhes nessa história ainda se mantêm mal explicados!

Se por um lado Kesha parece não possuir muitas provas sobre os abusos sexuais sofridos (já que o júri não se convenceu sobre as alegações de seu advogado), por outro Luke se autoincrimina com meia dúzia de mensagens altamente duvidosas publicadas em seu Twitter por volta de 2010 e que decidiram vir à tona após o julgamento do dia 19. No perfil dele, pode-se ler diversas frases de duplo sentido, como: “Kesha, estou preocupado com o que eles irão fazer. De mim você apenas irá levar sua palmadinha de sempre por ser má”, “aprenda a guardar segredos, quer dizer, somos melhores amigos, temos que guardar nossos segredos para nós mesmos, Kesha!” e “caramba meus artistas trabalham duro” (esta última publicada ao lado de uma foto da cantora, dormindo). Diferente do que o júri tem entendido, as suspeitas em cima de Gottwald podem ser muito maiores que o imaginado.

APENAS A PONTA DO ICEBERG:

É verdade que, apesar de parecer ser o lado menos forte desta disputa, Kesha tem solidificado o apoio dos fãs e da mídia a seu favor (estrelas como Lady Gaga e Ariana Grande já foram até suas redes sociais demonstrar suporte à cantora), mas, não podemos nos esquecer que Luke não precisa de muito para ter a gravadora (e possivelmente a Justiça) na palma de suas mãos.

Isso porque, durante a audiência de semana passada, o advogado da “Sony” foi claro ao apontar que “o interesse da gravadora não está no sucesso dela, mas sim no de Dr. Luke”, o que, além de contrariar o que foi informado à “Rolling Stone” (e rebatido pelo advogado de Kesha como uma “promessa ilusória” – ou seja, eles permitiriam sim que ela gravasse novas músicas, mas provavelmente a boicotariam de alguma maneira), deixa claro que a moça é apenas uma peça totalmente descartável para os executivos da companhia.

Outra questão que acabou causando grande discórdia nesta história toda foi a incrível doação de 250 mil dólares feita por Taylor Swift à Kesha e que, inevitavelmente, gerou uma onda de comentários negativos de outras personalidades, como Demi Lovato. Apesar de muitos não entenderem a quantia cedida à colega para “ajudá-la neste momento difícil” – já que, diferente dos demais artistas, Taylor apenas fez a doação e se manteve em silêncio sobre o ocorrido –, vários questionamentos abrem-se ao lado de outra enxurrada de boatos publicados por diversos tabloides do mundo inteiro, como o “TMZ”.

Enquanto alguns insistem em dizer que Swift não apoiou Kesha ativamente em suas redes sociais por questões contratuais (afinal, a voz de “Bad Blood” seria contratada da “Sony Music Publishing” desde os 13 anos), uma fonte afirmou ao “TMZ” que Luke teria congelado a renda da cantora já há algum tempo, o que a impediria de ter acesso aos direitos autorais de suas canções e, consequentemente, ao dinheiro proveniente delas. A doação encabeçada por Swift teria vindo em boa hora, pois, segundo a mesma fonte, a intérprete de “C’Mon” teria esgotado toda sua fortuna na batalha judicial que tem enfrentado para se ver livre do contrato a liga a Lukasz Gottwald.

EM QUEM ACREDITAR?

Kesha durante o julgamento do dia 19/02

Diferente do que a maioria das pessoas tem opinado, o caso de Kesha X Dr. Luke se mostra muito mais complexo do que aparenta ser e, provavelmente, a melhor palavra para defini-lo neste momento é “estranho”. Quem se solidariza com a causa e decide se posicionar de um lado ou de outro, deve se lembrar que, nem sempre, o mundo se resume a “sim ou não”, “certo ou errado” – existe muito mais no meio dessas duas alternativas do que você e eu podemos imaginar.

É verdade que as mensagens publicadas pelo produtor em seu Twitter são, no mínimo, suspeitas (das duas, uma: ou ele tem um péssimo senso de humor ou realmente tem algo a esconder), isso sem mencionarmos que até mesmo artistas como Kelly Clarkson, que já trabalharam com Luke, partiram em defesa de Kesha demonstrando algum tipo de amparo solidário. Mas, se Kesha foi mesmo violentada como seu advogado afirma com tanta certeza, onde estão os exames médicos capazes de provar o alegado? Onde estão as testemunhas deste caso, seja de acusação ou de defesa? Onde está o álibi do produtor?

Se Kesha sofreu mesmo abusos no passado, então com certeza seu agressor deve ter encontrado um bom motivo para silenciá-la por tantos anos: é natural que uma vítima deste tipo de crime passe por um intenso período traumático e não queira tocar no assunto com mais ninguém (seja por medo, seja por vergonha). E, se essa experiência, de fato, foi tão perturbadora como aparenta ser (nem precisamos mencionar o episódio em que a loira se internou na reabilitação para tratar de distúrbios alimentares), é bem provável que nem exista exame médico provando a prática do estupro (o que não facilitará em nada o lado da cantora).

Mas, e se Lukasz Gottwald não estiver tão errado assim? É verdade que o produtor, apesar de ser um dos mais requisitados do meio artístico, não possui fama de ser a pessoa mais sociável do mundo (dizem, inclusive, que ele teria sido um dos motivos para a ida de Kesha para a rehab), porém, não podemos nos esquecer que estupro é um crime grave, que precisa ser apurado minuciosamente. É difícil não se sensibilizar com a atual situação da cantora, mas, tão grave quanto violentar alguém é condenar um inocente pela prática de um crime que jamais existiu.

Em meio a tantas dúvidas, é natural que façamos perguntas como: “por que Kesha processaria Luke sem razões? O que ela tem a perder?” ou “se Luke não a molestou (como afirma categoricamente) e, venha a vencer esta batalha judicial, será que seria conveniente ao produtor continuar trabalhando com a pessoa que está arruinando a sua reputação?”. Definitivamente, é complicado quando decidimos brincar de juízes e tiraramos conclusões precipitadas sem estar a par do assunto, não levando em consideração os fatos e as provas produzidas no processo; e diferente do que a mídia retrata diariamente, não podemos nos esquecer que por trás de cada notícia se escondem dois seres humanos totalmente desgastados com esta história macabra. Infelizmente, cabe à Justiça tomar a sua decisão e dizer quem possui a razão, por mais que, ao final, possa cometer uma atrocidade incalculável.

É claro que, atrás de tanto falatório, esconde-se o indivíduo mais cruel, sujo e dissimulado da face da Terra, alguém que é capaz de fazer qualquer coisa por dinheiro (seja Luke, seja Kesha), mas, será mesmo que a solução para este problema é descobrir quem está dizendo a verdade? Quer dizer, após tanta repercussão e discussão popular, a única pergunta coerente, no momento, é: por que esse contrato continua vigorando (afinal: não há dúvidas de que ele é o grande X da questão)? Será que a única maneira de solucionar esse embate é declarando Kesha inocente e Luke culpado (ou vice e versa), se esquecendo completamente do motivo que os une a este pacto de infelicidades?  Quem imaginaria que, por trás das densas cortinas da indústria fonográfica, existiria tanta podridão camuflada sob a forma de notas musicais.

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