Os 10 melhores discos de 2017

Apesar de não termos escrito tanto sobre música neste ano, não poderíamos deixar de compartilhar aqui no Caí da Mudança a já tradicional relação com os 10 melhores discos liberados ao longo destes últimos 12 meses. Entretanto, desde já gostaríamos (e precisamos) esclarecer que, diferente dos anos anteriores, foi bastante difícil para nós chegar a uma lista definitiva dos melhores de 2017, uma vez que foram muitas as opções realmente boas e que mereciam o mínimo possível de destaque em um especial como este.

Assim, e sem maiores delongas, você confere a seguir o nosso acirrado top 10, as já conhecidas menções honrosas e, não menos importante, uma pequena surpresa com o que foi considerado, tanto pela crítica quanto pelo público, o melhor álbum pop de 2017. Não se esqueça de clicar nas imagens abaixo para conferir um videoclipe especial de cada álbum e artista, ok? Ah, e ainda vale lembrar que você pode acessar os títulos escolhidos em 2016 (através deste link) e os selecionados em 2015 (por este outro link). Preparados? Então vamos lá:

10) YOUNGER NOW – MILEY CYRUS

Gravadora: RCA Records

Lançamento: 29 de setembro de 2017

Singles: “Malibu”, “Younger Now”

Considerações: Distanciando-se da imagem provocativa que construiu com tanto afinco durante as eras “Bangerz” (2013) e “Miley Cyrus & Her Dead Petz” (2015), é num tom mais intimista e raiz que Miley Cyrus ressurge em pleno 2017 com o 6º lançamento de sua diversificada discografia. Impulsionado pelo carro-chefe “Malibu” (#10 no “Hot 100”), “Younger Now” pode não ter atendido às expectativas do público, mas é sem sombra de dúvidas uma obra que merece ser reconhecida. Contando com apenas 11 faixas – todas compostas e produzidas pela própria Miley ao lado de Oren Yoel (com quem já havia trabalhado em “Dead Petz”) –, o disco combina pop-rock a baladinhas country da maneira mais espetacular possível. Totalmente sóbria de sua vida pregressa, é com uma sonoridade bem retrô, mas contemporânea, que a cantora nos apresenta à gravações sublimes (à exceção de “Rainbowland”, é claro) como “Bad Mood”, “Love Someone” e a fantástica faixa-título

Paradas musicais: O álbum estreou em #5 na “Billboard 200” com vendas de 45 mil cópias na primeira semana

9) TELL ME YOU LOVE ME – DEMI LOVATO

Gravadora: Island, Safehouse, Hollywood Records

Lançamento: 29 de setembro de 2017

Singles: “Sorry Not Sorry”, “Tell Me You Love Me”

Considerações: Outra ex-Disney star que também marcou 2017 com novo material foi a Demi Lovato, que há dois anos já havia nos surpreendido com o Grammy nominee “Confident” (2015). Colhendo os bons frutos gerados pelo lead single “Sorry Not Sorry” (#6 no “Hot 100”), em seu 6º álbum Lovato perambula, majoritariamente, entre o pop e o R&B, investindo em uma roupagem ainda mais obscura – e deixando claro que sua intenção é mesmo abraçar novos públicos e mercados. Explorando de forma secundária gêneros como synth-pop, gospel, rock e hip-hop, a moça é precisa em sua busca por independência e felicíssima ao nos presentear com as memoráveis “Ruin The Friendship”, “Cry Baby” e “Games” – até mesmo a carnavalesca “Instruction”, com Jax Jones e Stefflon Don, foi lembrada. Trazendo 12 faixas na edição standard, 15 na deluxe e 17 na exclusiva da Target, “Tell Me You Love Me” inclui as produções de Oak Felder, Trevor Brown entre muitos outros

Paradas musicais: O álbum estreou em #3 na “Billboard 200” com vendas de 75 mil cópias na primeira semana

8) AFTER LAUGHTER – PARAMORE

Gravadora: Fueled by Ramen

Lançamento: 12 de maio de 2017

Singles: “Hard Times”, “Told You So”, “Fake Happy”

Considerações: Quem diria que, após 13 anos de uma sólida carreira construída no rock alternativo, o Paramore pudesse nos surpreender com um álbum totalmente pop? Embalado pelos instrumentais do new wave, do pop-rock, do synth-pop e do power pop, “After Laughter”, o 5º do trio, já demonstra logo em sua faixa de abertura todo o alto-astral ambientado na dance music dos anos 80 que esculpe sua tracklist do início ao fim. Totalmente contagiante e com uma pegada chiclete que não desgruda de nossos ouvidos, o sucessor de “Paramore” (2013) explora desde sons mais alternativos (“No Friend”, “Idle Worship”) a baladinhas suaves (“26”, “Tell Me How”) e canções recheadas de sintetizadores (“Hard Times”, “Rose-Colored Boy”). Recebendo as composições de Hayley Williams, Zac Farro (que desde o começo do ano voltou à formação da banda), Aaron Weiss e Taylor York, todas as 12 músicas nele presentes foram produzidas por York. Não deixe de conferir nossa resenha completa sobre o disco!

Paradas musicais: O álbum estreou em #6 na “Billboard 200” com vendas de 67 mil cópias na primeira semana

7) BEAUTIFUL TRAUMA – PINK

Gravadora: RCA Records

Lançamento: 13 de outubro de 2017

Singles: “What About Us”, “Beautiful Trauma”

Considerações: Separados por um interminável espaço de 5 anos, foi após muita espera dos fãs que o 7º álbum da Pink chegou há poucos meses para suceder o exitoso “The Truth About Love” (2012). Aliando-se aos velhos amigos Max Martin e Shellback, é em seu já familiar pop-rock ora pessoal, ora ousado, que a voz por trás de hits como “Just Like a Pill” surge com as indispensáveis “Revenge” (com o Eminem), “Whatever You Want” e “Secrets”. Creditada na composição de cada uma das 12 faixas presentes no disco, Pink acerta em cheio na vibe transmitida pelo “Beautiful Trauma” – a qual nos lembra, inevitavelmente, a do smash hit “Fuckin’ Perfect” (principalmente por “For Now”). Entre tantos artistas medíocres que sempre parecem acompanhar as tendências do momento e nunca inovam, é muito bom ver uma veterana fazendo música pop moderna com a mesma qualidade de seus trabalhos antecessores. Destaque especial, ainda, para “Barbies” e “Where We Go”

Paradas musicais: O álbum estreou em #1 na “Billboard 200” com vendas de 408 mil cópias na primeira semana

6) REPUTATION – TAYLOR SWIFT

Gravadora: Big Machine Records

Lançamento: 10 de novembro de 2017

Singles: “Look What You Made Me Do”, “…Ready For It?”

Considerações: Pegando-nos de surpresa após os boatos que apontavam seu retorno para este ano, Taylor Swift não se contentou com uma estreia simplória e chegou com tudo com sua “Look What You Made Me Do” (#1 no “Hot 100”). Quebrando o recorde de vídeo mais visualizado no YouTube nas primeiras 24h (foram 43,2 milhões de views), a moça encaixou “…Ready for It?” (#4) na sequência e a partir daí não deu mais descanso para quem estava ansioso pelo seu 2º lançamento pop. Trazendo Ed Sheeran e Future em “End Games”, o 6º da cantora, assim como seu antecessor, capricha nas batidas de electropop e synth-pop produzidas por ninguém menos que Jack Antonoff, Max Martin e Shellback – aliás, a própria Taylor assina a produção de algumas faixas junto com a produção executiva. Muito mais obscuro e desafiador que o “1989” (2014), “Reputation” caminha por uma montanha-russa de altos e baixos que vai desde hits prontos como “I Did Something Bad”, “Don’t Blame Me” e “Dancing With Our Hands Tied” à gravações que jamais deveriam ter visto a luz do dia, como “Gorgeous”

Paradas musicais: O álbum estreou em #1 na “Billboard 200” com vendas de 1.238 milhão de cópias na primeira semana

5) PLACES – LEA MICHELE

Gravadora: Columbia Studios

Lançamento: 28 de abril de 2017

Singles: “Love Is Alive”

Considerações: Contrariando o pop mainstream que tem tocado nas rádios ano após ano (inclusive o que marcou presença em seu debut album), é num tom mais cru e super afinado que Lea Michele nos embala em “Places”, sua 2ª experiência pelos estúdios de gravação. Recordando o passado de Michele na Broadway, o aguardado sucessor de “Louder” (2014) não deixa a desejar no quesito autenticidade e supera (em muito) a estreia mais comercial da ex-estrela de “Glee” há 4 anos com o single “Cannonball”. Trazendo as composições de grandes nomes da indústria musical atual (como Linda Perry, Ellie Goulding e Julia Michaels), “Places” extrapola vivacidade nas baladas muito bem produzidas pelos talentosos John Shanks, Xandy Barry (do multiplatinado duo Wax Ltd) entre outros. Apesar de pouco divulgado na mídia, o disco, que conta com 11 faixas na edição padrão e 13 na exclusiva da Target, não falhou no quesito gravações atemporais, dentre as quais devemos mencionar “Heavenly”“Hey You”“Sentimental Memories”

Paradas musicais: O álbum estreou em #28 na “Billboard 200” com vendas de 16 mil cópias na primeira semana

4) FLICKER – NIALL HORAN

Gravadora: Neon Haze, Capitol Records

Lançamento: 20 de outubro de 2017

Singles: “This Town”, “Slow Hands”, “Too Much to Ask”

Considerações: Primeiro novato do nosso top 10, Niall Horan ainda fazia parte do One Direction quando muitos o classificavam como o membro mais fraco do grupo. Dois anos mais tarde, felizmente, esta falácia logo caiu por terra. Dono de um dos maiores sucessos do ano (“Slow Hands”, #3 na Irlanda, #7 no Reino Unido, #11 nos EUA), Horan causou ainda mais frisson quando “Flicker”, o seu 1º álbum como solista, estreou direto no topo da parada norte-americana (mercado este que nem sempre é tão receptivo a artistas de outros continentes). Coescrevendo cada uma das 13 canções presentes no disco, Niall ainda é creditado pelo violão que podemos ouvir em 9 delas. Inspirado por bandas antigas de rock, como o Eagles e o Fleetwood Mac, “Flicker” caminha predominantemente pelo folk pop produzido por profissionais como Greg Kurstin, Julian Bunetta e Jacquire King. Se você gostou da maravilhosa “Slow Hands”, então não pode deixar de conferir as igualmente icônicas “On the Loose”, “Mirrors” e “The Tide”

Paradas musicais: O álbum estreou em #1 na “Billboard 200” com vendas de 152 mil cópias na primeira semana

3) RAINBOW – KESHA

Gravadora: Kemosabe, RCA Records

Lançamento: 11 de agosto de 2017

Singles: “Praying”, “Woman”, “Learn to Let Go”

Considerações: Renascendo como uma fênix não apenas figurativamente, mas também literalmente, foi após uma árdua batalha judicial contra o produtor Dr. Luke que Kesha conseguiu finalmente dar continuidade à sua carreira. Dizendo adeus ao electropop que predominou em seus trabalhos anteriores, em “Rainbow” a cantora abandona de vez o efeito robótico que a fez tão famosa no início da década e, com a voz mais limpa do que nunca, experimenta gêneros como pop rock, glam rock, neo soul e country pop. Entoando o hino mais feminista do ano (“Woman”), é entre letras intimistas (“Bastards”, “Praying”), sonoridades regionais (“Hunt You Down”, “Spaceship”) e hits dançantes (“Learn to Let Go”) que o 3º álbum e Kesha a colocou novamente em evidência no mundo todo. Dando um tapa na cara de todos que duvidavam de seu poderio vocal, a loira esteve tão intimamente ligada ao processo criativo do disco que subscreveu a composição de suas 14 faixas, além da produção executiva de todo o material; outros produtores incluem Ricky Reed e Drew Pearson

Paradas musicais: O álbum estreou em #1 na “Billboard 200” com vendas de 117 mil cópias na primeira semana

2) HARRY STYLES – HARRY STYLES

Gravadora: Erskine, Columbia Records

Lançamento: 12 de maio de 2017

Singles: “Sign of the Times”, “Two Ghosts”, “Kiwi”

Considerações: Livrando-se da pegada teen inerente a cada disco e música de sua boyband, foi impulsionado pelo soft rock e britpop que Harry Styles fez o que consideramos a melhor estreia solo de um integrante da One Direction. Iniciado pelo carro-chefe “Sign of the Times” (#1 no UK, #4 nos EUA), o 1º disco de Harry – que assim como os de Zayn e Niall também estreou direto no topo da “Billboard 200” –, acerta em cheio nas produções de Jeff Bhasker, Alex Salibian e Tyler Johnson que em nada se assemelham aos lançamentos do 1D. Rendendo, ainda os singles “Kiwi”“Two Ghosts”, “Harry Styles” chegou a ser amplamente divulgado em diversos programas de rádio, TV e internet (como a insuperável edição de 2017 do “Victoria’s Secret Fashion Show” que você certamente ouviu falar). Coescrevendo todas as 10 faixas que compõem a tracklist do material, o vocalista ascende magistralmente e revela-se, sem esforço, uma das maiores apostas para o futuro da música internacional. Não deixe de conferir “Carolina”, “Only Angel” e “Ever Since New York”

Paradas musicais: O álbum estreou em #1 na “Billboard 200” com vendas de 230 mil cópias na primeira semana

1) HEARTS THAT STRAIN – JAKE BUGG

Gravadora: Virgin EMI Records

Lançamento: 1º de setembro de 2017

Singles: “How Soon the Dawn”

Considerações: Pode parecer curioso que um blog tão familiarizado a resenhar álbuns de música pop opte por selecionar o trabalho de um artista alternativo para encabeçar uma lista de melhores discos do ano. Entretanto, fica difícil não o fazer quando paramos para ouvir, e consequentemente nos apaixonar, pelo 4º de inéditas do músico inglês Jake Bugg. Liberado um ano e três meses após “On My One” (2016), “Hearts That Strain” dá continuidade à trajetória de Jake por suas variações favoritas da indie music, dentre as quais se destacam o indie rock, indie folk, folk rock e country folk. Compondo, sozinho, cada uma das 11 faixas que aparecem no álbum, Bugg ainda participou ativamente do processo de produção do material, tendo desta vez recebido a ajuda de Dan Auerbach (o guitarrista e vocalista do The Black Keys) na árdua tarefa. Convidando Noah Cyrus para dividir os vocais na melódica “Waiting”, o cara transcende a musicalidade de qualquer outra obra liberada em 2017 com uma introspecção que beira à perfeição. Já queremos “Indigo Blue” como próximo single!

Paradas musicais: O álbum estreou em #7 na “UK Albums” (nº de cópias desconhecido)

ÁLBUM BÔNUS:

MELODRAMA – LORDE

Gravadora: Lava, Republic Records

Lançamento: 16 de junho de 2017

Singles: “Green Light”, “Perfect Places”, “Homemade Dynamite”

Considerações: Seríamos loucos se, em uma publicação como esta, não abríssemos um espacinho para falar sobre o 2º álbum de inéditas da neozelandesa Lorde. Afinal, não é qualquer trabalho que consegue, simultaneamente, liderar diversas listas de fim de ano, ser aclamado entre o público e a crítica e ainda indicado a “Album of the Year” pela maior premiação musical da história: o Grammy. Precedendo “Pure Heroine” (2013), não é em vão que “Melodrama” foi nomeado com o título que ostenta. Intercalando gêneros diversos que variam do dance-pop de “Green Light” a baladas carregadas por piano como “Liability”, o disco explora temas como a solidão e rompimentos amorosos de maneira louvável e intensa. Auxiliada por Jack Antonoff, Malay e Frank Dukes, Lorde compôs e produziu cada uma das 11 músicas que fazem de “Melodrama” o sucesso que ele é. Dê o play nas ótimas “Supercut”, “Perfect Places”, “Writer In the Dark” e “Sober”

Paradas musicais: O álbum estreou em #1 na “Billboard 200” com vendas de 109 mil cópias na primeira semana

MENÇÕES HONROSAS:

E aí, querido leitor? Quais foram os seus álbuns favoritos de 2017? Apesar de elencarmos acima o que consideramos os 10 melhores lançamentos do ano, é importante citarmos outros discos que também ganharam destaque nestes últimos meses e que, sem sombra de dúvidas, merecem ao menos nossas menções honrosas. Assim, também destacamos o “Meaning of Life”, da Kelly Clarkson; o “The Ride”, da Nelly Furtado; o “El Dorado”, da Shakira; o “Blue Lips”, da Tove Lo; o “Evolve”, do Imagine Dragons; e o “Dua Lipa”, da Dua Lipa. Muito obrigado por nos acompanhar em 2017 e um Feliz Ano Novo pra você e para toda sua família!

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O estranho caso de Kesha contra Dr. Luke: muito mais que um embate entre mocinhos e vilões

Se você parou para dar uma vasculhada nas notícias que bombardearam a internet na última semana, então deve saber que o caso Kesha X Dr. Luke tem estremecido não apenas a Justiça norte-americana, mas também todos aqueles possuem algum apreço pelo universo da música popular. Por isso, decidi fazer uma profunda análise com tudo o que tem saído de relevante sobre o assunto e, no post de hoje, discutiremos um pouquinho mais sobre um dos confrontos mais aterrorizantes já vivenciados por dois dos maiores nomes da indústria do entretenimento.

Para quem não sabe, a gente explica:

A BATALHA JUDICIAL:

Desde 2014, a voz por trás de sucessos como “Tik Tok” e “We R Who We R” decidiu recorrer ao Poder Judiciário para quebrar o contrato que a une a um dos produtores mais bem sucedidos da última década (o mesmo que já trabalhou com Katy Perry, Britney Spears e Kelly Clarkson). O motivo? Lukasz Gottwald (ou simplesmente Dr. Luke) teria drogado Kesha e a violentado não apenas sexualmente, mas também psicologicamente – crimes que teriam começado há uma década, quando a popstar tinha apenas 18 anos (hoje ela tem 28).

Acontece que, na última sexta-feira (19/02), foi realizado o julgamento que poderia ter solucionado parte dos maiores problemas de Kesha: a cantora havia entrado com um pedido liminar que, uma vez concedido, a autorizaria a gravar novas músicas sem se vincular à “Sony Music” (a gravadora onde Luke trabalha atualmente). Contudo, metade desta batalha acabou sendo perdida quando o júri responsável pelo caso não se convenceu do pedido por “insuficiência de provas” e negou a liminar, solicitando o agendamento de uma nova sessão para o dia 18 de maio.

A questão é: caso não apresente novas provas capazes de confirmar a ocorrência do estupro, provavelmente o processo será julgado improcedente pela Corte e a moça continuará presa ao contrato com seu possível agressor. E pior: além de impedi-la de lançar qualquer material sem a permissão do produtor ou de sua gravadora, o acordo que originou o conflito determina a gravação, liberação e divulgação de outros 6 álbuns (todos sem previsão de lançamento). Definitivamente, perder não é uma opção para Kesha.

LUKE… TALVEZ NÃO TÃO INOCENTE ASSIM:

Obviamente, Luke discorda do que tem sido dito pela cantora e, além de processá-la de volta por calúnia, alega que tudo não passaria de uma artimanha para sujar sua reputação e livrar-se do acordo firmado anos atrás – vale dizer que, em 2011, a loira já havia negado qualquer abuso sexual protagonizado por ele. O produtor vai muito mais além e, em recente matéria publicada pela “Rolling Stone”, seus advogados disseram que “havia sido ofertado à Kesha a oportunidade de gravar um novo material sem a companhia de Gottwald” e que, em momento algum ela estaria presa a ele” – contrariando a campanha #FreeKesha levantada pelo público nas redes sociais. Este, a propósito, foi o documento que pesou na última decisão do júri (a mesma que negou a liminar solicitada pela moça e remarcou uma nova sessão para daqui três meses).

Porém, muitos detalhes nessa história ainda se mantêm mal explicados!

Se por um lado Kesha parece não possuir muitas provas sobre os abusos sexuais sofridos (já que o júri não se convenceu sobre as alegações de seu advogado), por outro Luke se autoincrimina com meia dúzia de mensagens altamente duvidosas publicadas em seu Twitter por volta de 2010 e que decidiram vir à tona após o julgamento do dia 19. No perfil dele, pode-se ler diversas frases de duplo sentido, como: “Kesha, estou preocupado com o que eles irão fazer. De mim você apenas irá levar sua palmadinha de sempre por ser má”, “aprenda a guardar segredos, quer dizer, somos melhores amigos, temos que guardar nossos segredos para nós mesmos, Kesha!” e “caramba meus artistas trabalham duro” (esta última publicada ao lado de uma foto da cantora, dormindo). Diferente do que o júri tem entendido, as suspeitas em cima de Gottwald podem ser muito maiores que o imaginado.

APENAS A PONTA DO ICEBERG:

É verdade que, apesar de parecer ser o lado menos forte desta disputa, Kesha tem solidificado o apoio dos fãs e da mídia a seu favor (estrelas como Lady Gaga e Ariana Grande já foram até suas redes sociais demonstrar suporte à cantora), mas, não podemos nos esquecer que Luke não precisa de muito para ter a gravadora (e possivelmente a Justiça) na palma de suas mãos.

Isso porque, durante a audiência de semana passada, o advogado da “Sony” foi claro ao apontar que “o interesse da gravadora não está no sucesso dela, mas sim no de Dr. Luke”, o que, além de contrariar o que foi informado à “Rolling Stone” (e rebatido pelo advogado de Kesha como uma “promessa ilusória” – ou seja, eles permitiriam sim que ela gravasse novas músicas, mas provavelmente a boicotariam de alguma maneira), deixa claro que a moça é apenas uma peça totalmente descartável para os executivos da companhia.

Outra questão que acabou causando grande discórdia nesta história toda foi a incrível doação de 250 mil dólares feita por Taylor Swift à Kesha e que, inevitavelmente, gerou uma onda de comentários negativos de outras personalidades, como Demi Lovato. Apesar de muitos não entenderem a quantia cedida à colega para “ajudá-la neste momento difícil” – já que, diferente dos demais artistas, Taylor apenas fez a doação e se manteve em silêncio sobre o ocorrido –, vários questionamentos abrem-se ao lado de outra enxurrada de boatos publicados por diversos tabloides do mundo inteiro, como o “TMZ”.

Enquanto alguns insistem em dizer que Swift não apoiou Kesha ativamente em suas redes sociais por questões contratuais (afinal, a voz de “Bad Blood” seria contratada da “Sony Music Publishing” desde os 13 anos), uma fonte afirmou ao “TMZ” que Luke teria congelado a renda da cantora já há algum tempo, o que a impediria de ter acesso aos direitos autorais de suas canções e, consequentemente, ao dinheiro proveniente delas. A doação encabeçada por Swift teria vindo em boa hora, pois, segundo a mesma fonte, a intérprete de “C’Mon” teria esgotado toda sua fortuna na batalha judicial que tem enfrentado para se ver livre do contrato a liga a Lukasz Gottwald.

EM QUEM ACREDITAR?

Kesha durante o julgamento do dia 19/02

Diferente do que a maioria das pessoas tem opinado, o caso de Kesha X Dr. Luke se mostra muito mais complexo do que aparenta ser e, provavelmente, a melhor palavra para defini-lo neste momento é “estranho”. Quem se solidariza com a causa e decide se posicionar de um lado ou de outro, deve se lembrar que, nem sempre, o mundo se resume a “sim ou não”, “certo ou errado” – existe muito mais no meio dessas duas alternativas do que você e eu podemos imaginar.

É verdade que as mensagens publicadas pelo produtor em seu Twitter são, no mínimo, suspeitas (das duas, uma: ou ele tem um péssimo senso de humor ou realmente tem algo a esconder), isso sem mencionarmos que até mesmo artistas como Kelly Clarkson, que já trabalharam com Luke, partiram em defesa de Kesha demonstrando algum tipo de amparo solidário. Mas, se Kesha foi mesmo violentada como seu advogado afirma com tanta certeza, onde estão os exames médicos capazes de provar o alegado? Onde estão as testemunhas deste caso, seja de acusação ou de defesa? Onde está o álibi do produtor?

Se Kesha sofreu mesmo abusos no passado, então com certeza seu agressor deve ter encontrado um bom motivo para silenciá-la por tantos anos: é natural que uma vítima deste tipo de crime passe por um intenso período traumático e não queira tocar no assunto com mais ninguém (seja por medo, seja por vergonha). E, se essa experiência, de fato, foi tão perturbadora como aparenta ser (nem precisamos mencionar o episódio em que a loira se internou na reabilitação para tratar de distúrbios alimentares), é bem provável que nem exista exame médico provando a prática do estupro (o que não facilitará em nada o lado da cantora).

Mas, e se Lukasz Gottwald não estiver tão errado assim? É verdade que o produtor, apesar de ser um dos mais requisitados do meio artístico, não possui fama de ser a pessoa mais sociável do mundo (dizem, inclusive, que ele teria sido um dos motivos para a ida de Kesha para a rehab), porém, não podemos nos esquecer que estupro é um crime grave, que precisa ser apurado minuciosamente. É difícil não se sensibilizar com a atual situação da cantora, mas, tão grave quanto violentar alguém é condenar um inocente pela prática de um crime que jamais existiu.

Em meio a tantas dúvidas, é natural que façamos perguntas como: “por que Kesha processaria Luke sem razões? O que ela tem a perder?” ou “se Luke não a molestou (como afirma categoricamente) e, venha a vencer esta batalha judicial, será que seria conveniente ao produtor continuar trabalhando com a pessoa que está arruinando a sua reputação?”. Definitivamente, é complicado quando decidimos brincar de juízes e tiraramos conclusões precipitadas sem estar a par do assunto, não levando em consideração os fatos e as provas produzidas no processo; e diferente do que a mídia retrata diariamente, não podemos nos esquecer que por trás de cada notícia se escondem dois seres humanos totalmente desgastados com esta história macabra. Infelizmente, cabe à Justiça tomar a sua decisão e dizer quem possui a razão, por mais que, ao final, possa cometer uma atrocidade incalculável.

É claro que, atrás de tanto falatório, esconde-se o indivíduo mais cruel, sujo e dissimulado da face da Terra, alguém que é capaz de fazer qualquer coisa por dinheiro (seja Luke, seja Kesha), mas, será mesmo que a solução para este problema é descobrir quem está dizendo a verdade? Quer dizer, após tanta repercussão e discussão popular, a única pergunta coerente, no momento, é: por que esse contrato continua vigorando (afinal: não há dúvidas de que ele é o grande X da questão)? Será que a única maneira de solucionar esse embate é declarando Kesha inocente e Luke culpado (ou vice e versa), se esquecendo completamente do motivo que os une a este pacto de infelicidades?  Quem imaginaria que, por trás das densas cortinas da indústria fonográfica, existiria tanta podridão camuflada sob a forma de notas musicais.