Sem perder o foco, Manu Gavassi salva o pop nacional e se reinventa no incrível novo álbum “Manu”

Quem acompanha a indústria musical certamente já deve ter percebido que este ramo se tornou, em pouquíssimo tempo, num dos mercados mais abrangentes do universo artístico. Em tempos em que a diversidade foi conquistada e é celebrada abertamente, a tecnologia e a acessibilidade abriram portas que recebem, diariamente, milhares de jovens talentos interessados em seguir a tão sonhada carreira profissional. É assim no exterior e que não poderia ser diferente no Brasil, por mais que o pop nacional permaneça bem carente de nomes interessados em produzir um som de qualidade.

Reunindo um time competente de produtores, aprimorando sua escrita e reinventando-se da imagem que adquiriu quando era uma mera colaboradora da revista Capricho, é com maestria que Manu Gavassi protagoniza a nossa resenha especial desta semana. Atualmente promovendo o 3º disco de inéditas de sua carreira – o “Manu” –, a moça também se desdobra em diversos projetos paralelos e revela-se um dos nomes mais multifacetados do cenário cultural nacional. Quer saber um pouco mais sobre a atual fase vivida pela promissora sensação do pop brasileiro? Então vamos lá!

Precedentes e caminho independente com “Vício”:

Se você já ouviu falar sobre Manu Gavassi então definitivamente já associou o nome da cantora ao primeiro grande sucesso de sua carreira: o first single “Garoto Errado”, que não apenas esteve presente no homônimo “Manu Gavassi”, de 2010, como também integrou a trilha-sonora da novela “Rebelde”, da Rede Record. Seguindo os passos daqueles que motivaram sua trajetória musical – dentre os quais podemos destacar desde Sandy à Selena Gomez –, Manu não tardou para fazer a alegria dos fãs e, três anos mais tarde, liberou o seu aguardadíssimo 2º experimento pelos estúdios de gravação: o disco “Clichê Adolescente”. Não se contentando com a trajetória apenas na música, Gavassi foi além e, apenas em 2014, expandiu seus horizontes e aventurou-se como atriz na 22ª temporada de “Malhação” e na novela “Em Família”, ambas da Rede Globo. Neste ano, ela ainda lança o seu primeiro livro: “Olá, Caderno”, pela Editora Rocco.

Entretanto, foi somente a partir do EP independente “Vício” que a paulistana de 24 anos chacoalhou de vez o pop brazuca ao incorporar-se numa nova persona totalmente empoderada e cheia de atitude. Recebendo a produção de ninguém menos que Junior Lima (da dupla Sandy & Junior) e Dudinha, o extended play nos trouxe 5 novas músicas, incluindo o autoral carro-chefe “Camiseta” e a faixa-título cheia de alfinetadas “Vício”. Investindo de vez no synth-pop e assinando a composição de todo o material, Gavassi nunca soou tão à vontade e dona de si em um trabalho que transbordasse tanta contemporaneidade e maturidade. Bem, pelo menos até fechar contrato com uma nova gravadora e lançar o seu 3º álbum de inéditas…

Produções de peso com os melhores do mercado:

Liberado neste primeiro semestre de 2017, no dia 21 de abril, sob o selo da Universal Music, é com a direção artística da própria cantora e de Felipe Simas que “Manu” chegou às prateleiras das lojas nos apresentando à 12 novas músicas impecáveis. Antecedido pelo primeiro single “Hipnose”, o material não fez feio e reuniu as produções de ouro de nomes que incluem Pedro Dash, Marcelo Ferraz, Mãozinha, Umberto Tavares (Anitta, Ludmilla) e Tropkillaz. Compondo todas as canções com uma versatilidade única – e sendo acertadamente auxiliada por Ana Caetano, do Anavitória, em uma faixa aqui e outra acolá –, Gavassi aborda temas como amor, flerte e inseguranças com uma honestidade incomparável.

Rendendo-se de vez ao dance-pop tão popularizado nas rádios gringas de todo o planeta, a moça chegou a revelar, em entrevista concedida à revista “Glamour”, que este “é como se fosse o primeiro CD. No primeiro, eu tinha 16 anos, não sabia da parte visual, identidade visual… Neste, eu pude participar de tudo: dos arranjos, escolher os produtores. Foi diferente de tudo que eu já tinha vivido”. Sobre suas inspirações na hora de compor, ela contou ao “Correio Braziliense” que ouviu muito Melanie Martinez, Lily Allen, Lorde, Justin Bieber e Selena Gomez, concluindo que “sempre ouvi muita música pop”. E, realmente, é nessa vibe bem dançante e contagiante à la “Purpose” que “Manu” chega a nossos ouvidos e nos conquista desde o primeiro play.

As incríveis nudes de Manu:

Casando perfeitamente instrumentais intensos ao doce vocal de sua intérprete, “Manu” não economiza nos hits e proporciona ao ouvinte a sensação única de conferir “o que de melhor bomba lá fora” numa versão genuinamente brasileira. Sob a condução de composições sólidas que dizem muito sobre a boa e atual fase vivida por Gavassi, o álbum não perde tempo e de cara nos introduz aos devaneios de uma mulher poderosa que sabe realmente o que quer. Aliás, se pudéssemos escolher uma palavra-chave para caracterizar o disco como um todo, esta definitivamente seria ousadia – seja pela parte lírica, seja pela visual. Despindo-se do machismo que é inerente à sociedade em que vivemos, não é necessário muito esforço para entender que o nu de “Manu” vem exatamente para reforçar uma forte e importante mensagem de autoaceitação e bem-estar com o seu próprio corpo.

Exalando sensualidade e confiança da primeira à última faixa, o material é certeiro ao abrir os trabalhos com a supermoderna “Hey”, a candidata perfeita para 3º single desta nova era. Passando pela queridinha “Hipnose”, é num ritmo totalmente comercial que somos dirigidos para a primeira colaboração de Manu com a Ana Caetano: a radiofônica “Perigo”. Culminando em “Muito Muito” (a atual música de trabalho da moça), é com muito desdém que ouvimos Manoela entoar a composição mais atrevida de seu crescente catálogo autoral. Ainda percorrendo este caminho dançante onde a energia parece não chegar ao fim, a viciante “Me Beija” mal começa e logo acaba para dar lugar à “23”, o primeiro ponto de descanso de uma tracklist digna de Carly Rae Jepsen ou da nova Taylor Swift.

O clipe de “Muito Muito” teve direção de João Monteiro e Fernando Moraes

Assim, como quem não quer nada, “Manu” vai aos poucos recuperando o fôlego e, antes de voltar mais provocativo do que nunca com “Mentiras Bonitas”, tem tempo para nos tranquilizar com “Fora de Foco”, a última das três parcerias celebradas com a talentosa integrante do Anavitória (a outra é “Me Beija”). Passando a tocha para “Heart Song”, Gavassi permanece interpretando versos bem fofos antes de dar voz à última de suas gravações mais sexys: a segunda candidata perfeita para single “Ninguém Vai Saber”. Já nos preparando para o adeus inevitável, “Antes do Fim” chega num tom bem intimista que muito nos lembra os clássicos da MPB que não são mais produzidos nos dias de hoje. Quase como uma faixa perdida numa cápsula do tempo, a penúltima canção do material continua reverberando em nossos ouvidos antes de “Aqui Estamos Nós” apontar com diversos questionamentos inteligentes que colocam um ponto final bem melódico ao grandioso sucessor de “Clichê Adolescente”.

A solução que todos estávamos esperando:

Não é preciso ser crítico musical ou entender de música para perceber que o pop, no Brasil, destaca-se negativamente como um dos gêneros mais mal investidos pelos artistas que aqui seguem carreira. Em tempos em que o sertanejo universitário é a primeira escolha entre as duplas que se lançam anualmente no mercado e o funk carioca lidera o número de visualizações musicais do YouTube, mais os gêneros que tanto fazem sucesso lá fora acabam por ser deixados de lado em nossa terra natal. Seja pela pouca visibilidade que as plataformas brasileiras oferecem, seja pela falta de interesse daqueles que apenas engolem os trabalhos internacionais sem nem ao menos digerir, mais e mais negligenciamos os poucos profissionais que se empenham em preencher essa lacuna que há anos permanece nos assombrando.

Assim, acreditamos que não falamos apenas por nós quando reclamamos do quão monótono é ligar o rádio ou ir à uma festa e encontrar sempre os mesmos hits enlatados que o brasileiro consome tão compulsivamente – e o pior: sem nem ao menos dar uma chance para outras sonoridades diferentes. Em um país onde Sandy, Wanessa ou até mesmo a ainda novata Anitta já fincaram suas bandeiras e nos presentearam com alguns dos melhores lançamentos dos últimos anos (e da última década), precisamos cada vez mais dar valor àqueles que utilizam de seus esforços para nos trazer um som cheio de autenticidade.

Porém, nem tudo são lágrimas! Por mais que vivamos na era medieval da música pop brasileira (e este é um fato incontroverso), não podemos nunca perder nossas esperanças, sempre pensando que, por mais difíceis que as coisas estejam, tempos melhores deverão chegar em breve. Se até ontem lamentávamos a ausência de um nome realmente compromissado em dar prosseguimento ao império iniciado por estas super-heroínas cheias de talento, pelo menos agora temos a certeza de que o Brasil possui alguém mais do que competente para salvar os nossos ouvidos dos modismos que parecem nunca chegar ao fim. É com você, Manu Gavassi!

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