Sem perder o foco, Manu Gavassi salva o pop nacional e se reinventa no incrível novo álbum “Manu”

Quem acompanha a indústria musical certamente já deve ter percebido que este ramo se tornou, em pouquíssimo tempo, num dos mercados mais abrangentes do universo artístico. Em tempos em que a diversidade foi conquistada e é celebrada abertamente, a tecnologia e a acessibilidade abriram portas que recebem, diariamente, milhares de jovens talentos interessados em seguir a tão sonhada carreira profissional. É assim no exterior e que não poderia ser diferente no Brasil, por mais que o pop nacional permaneça bem carente de nomes interessados em produzir um som de qualidade.

Reunindo um time competente de produtores, aprimorando sua escrita e reinventando-se da imagem que adquiriu quando era uma mera colaboradora da revista Capricho, é com maestria que Manu Gavassi protagoniza a nossa resenha especial desta semana. Atualmente promovendo o 3º disco de inéditas de sua carreira – o “Manu” –, a moça também se desdobra em diversos projetos paralelos e revela-se um dos nomes mais multifacetados do cenário cultural nacional. Quer saber um pouco mais sobre a atual fase vivida pela promissora sensação do pop brasileiro? Então vamos lá!

Precedentes e caminho independente com “Vício”:

Se você já ouviu falar sobre Manu Gavassi então definitivamente já associou o nome da cantora ao primeiro grande sucesso de sua carreira: o first single “Garoto Errado”, que não apenas esteve presente no homônimo “Manu Gavassi”, de 2010, como também integrou a trilha-sonora da novela “Rebelde”, da Rede Record. Seguindo os passos daqueles que motivaram sua trajetória musical – dentre os quais podemos destacar desde Sandy à Selena Gomez –, Manu não tardou para fazer a alegria dos fãs e, três anos mais tarde, liberou o seu aguardadíssimo 2º experimento pelos estúdios de gravação: o disco “Clichê Adolescente”. Não se contentando com a trajetória apenas na música, Gavassi foi além e, apenas em 2014, expandiu seus horizontes e aventurou-se como atriz na 22ª temporada de “Malhação” e na novela “Em Família”, ambas da Rede Globo. Neste ano, ela ainda lança o seu primeiro livro: “Olá, Caderno”, pela Editora Rocco.

Entretanto, foi somente a partir do EP independente “Vício” que a paulistana de 24 anos chacoalhou de vez o pop brazuca ao incorporar-se numa nova persona totalmente empoderada e cheia de atitude. Recebendo a produção de ninguém menos que Junior Lima (da dupla Sandy & Junior) e Dudinha, o extended play nos trouxe 5 novas músicas, incluindo o autoral carro-chefe “Camiseta” e a faixa-título cheia de alfinetadas “Vício”. Investindo de vez no synth-pop e assinando a composição de todo o material, Gavassi nunca soou tão à vontade e dona de si em um trabalho que transbordasse tanta contemporaneidade e maturidade. Bem, pelo menos até fechar contrato com uma nova gravadora e lançar o seu 3º álbum de inéditas…

Produções de peso com os melhores do mercado:

Liberado neste primeiro semestre de 2017, no dia 21 de abril, sob o selo da Universal Music, é com a direção artística da própria cantora e de Felipe Simas que “Manu” chegou às prateleiras das lojas nos apresentando à 12 novas músicas impecáveis. Antecedido pelo primeiro single “Hipnose”, o material não fez feio e reuniu as produções de ouro de nomes que incluem Pedro Dash, Marcelo Ferraz, Mãozinha, Umberto Tavares (Anitta, Ludmilla) e Tropkillaz. Compondo todas as canções com uma versatilidade única – e sendo acertadamente auxiliada por Ana Caetano, do Anavitória, em uma faixa aqui e outra acolá –, Gavassi aborda temas como amor, flerte e inseguranças com uma honestidade incomparável.

Rendendo-se de vez ao dance-pop tão popularizado nas rádios gringas de todo o planeta, a moça chegou a revelar, em entrevista concedida à revista “Glamour”, que este “é como se fosse o primeiro CD. No primeiro, eu tinha 16 anos, não sabia da parte visual, identidade visual… Neste, eu pude participar de tudo: dos arranjos, escolher os produtores. Foi diferente de tudo que eu já tinha vivido”. Sobre suas inspirações na hora de compor, ela contou ao “Correio Braziliense” que ouviu muito Melanie Martinez, Lily Allen, Lorde, Justin Bieber e Selena Gomez, concluindo que “sempre ouvi muita música pop”. E, realmente, é nessa vibe bem dançante e contagiante à la “Purpose” que “Manu” chega a nossos ouvidos e nos conquista desde o primeiro play.

As incríveis nudes de Manu:

Casando perfeitamente instrumentais intensos ao doce vocal de sua intérprete, “Manu” não economiza nos hits e proporciona ao ouvinte a sensação única de conferir “o que de melhor bomba lá fora” numa versão genuinamente brasileira. Sob a condução de composições sólidas que dizem muito sobre a boa e atual fase vivida por Gavassi, o álbum não perde tempo e de cara nos introduz aos devaneios de uma mulher poderosa que sabe realmente o que quer. Aliás, se pudéssemos escolher uma palavra-chave para caracterizar o disco como um todo, esta definitivamente seria ousadia – seja pela parte lírica, seja pela visual. Despindo-se do machismo que é inerente à sociedade em que vivemos, não é necessário muito esforço para entender que o nu de “Manu” vem exatamente para reforçar uma forte e importante mensagem de autoaceitação e bem-estar com o seu próprio corpo.

Exalando sensualidade e confiança da primeira à última faixa, o material é certeiro ao abrir os trabalhos com a supermoderna “Hey”, a candidata perfeita para 3º single desta nova era. Passando pela queridinha “Hipnose”, é num ritmo totalmente comercial que somos dirigidos para a primeira colaboração de Manu com a Ana Caetano: a radiofônica “Perigo”. Culminando em “Muito Muito” (a atual música de trabalho da moça), é com muito desdém que ouvimos Manoela entoar a composição mais atrevida de seu crescente catálogo autoral. Ainda percorrendo este caminho dançante onde a energia parece não chegar ao fim, a viciante “Me Beija” mal começa e logo acaba para dar lugar à “23”, o primeiro ponto de descanso de uma tracklist digna de Carly Rae Jepsen ou da nova Taylor Swift.

O clipe de “Muito Muito” teve direção de João Monteiro e Fernando Moraes

Assim, como quem não quer nada, “Manu” vai aos poucos recuperando o fôlego e, antes de voltar mais provocativo do que nunca com “Mentiras Bonitas”, tem tempo para nos tranquilizar com “Fora de Foco”, a última das três parcerias celebradas com a talentosa integrante do Anavitória (a outra é “Me Beija”). Passando a tocha para “Heart Song”, Gavassi permanece interpretando versos bem fofos antes de dar voz à última de suas gravações mais sexys: a segunda candidata perfeita para single “Ninguém Vai Saber”. Já nos preparando para o adeus inevitável, “Antes do Fim” chega num tom bem intimista que muito nos lembra os clássicos da MPB que não são mais produzidos nos dias de hoje. Quase como uma faixa perdida numa cápsula do tempo, a penúltima canção do material continua reverberando em nossos ouvidos antes de “Aqui Estamos Nós” apontar com diversos questionamentos inteligentes que colocam um ponto final bem melódico ao grandioso sucessor de “Clichê Adolescente”.

A solução que todos estávamos esperando:

Não é preciso ser crítico musical ou entender de música para perceber que o pop, no Brasil, destaca-se negativamente como um dos gêneros mais mal investidos pelos artistas que aqui seguem carreira. Em tempos em que o sertanejo universitário é a primeira escolha entre as duplas que se lançam anualmente no mercado e o funk carioca lidera o número de visualizações musicais do YouTube, mais os gêneros que tanto fazem sucesso lá fora acabam por ser deixados de lado em nossa terra natal. Seja pela pouca visibilidade que as plataformas brasileiras oferecem, seja pela falta de interesse daqueles que apenas engolem os trabalhos internacionais sem nem ao menos digerir, mais e mais negligenciamos os poucos profissionais que se empenham em preencher essa lacuna que há anos permanece nos assombrando.

Assim, acreditamos que não falamos apenas por nós quando reclamamos do quão monótono é ligar o rádio ou ir à uma festa e encontrar sempre os mesmos hits enlatados que o brasileiro consome tão compulsivamente – e o pior: sem nem ao menos dar uma chance para outras sonoridades diferentes. Em um país onde Sandy, Wanessa ou até mesmo a ainda novata Anitta já fincaram suas bandeiras e nos presentearam com alguns dos melhores lançamentos dos últimos anos (e da última década), precisamos cada vez mais dar valor àqueles que utilizam de seus esforços para nos trazer um som cheio de autenticidade.

Porém, nem tudo são lágrimas! Por mais que vivamos na era medieval da música pop brasileira (e este é um fato incontroverso), não podemos nunca perder nossas esperanças, sempre pensando que, por mais difíceis que as coisas estejam, tempos melhores deverão chegar em breve. Se até ontem lamentávamos a ausência de um nome realmente compromissado em dar prosseguimento ao império iniciado por estas super-heroínas cheias de talento, pelo menos agora temos a certeza de que o Brasil possui alguém mais do que competente para salvar os nossos ouvidos dos modismos que parecem nunca chegar ao fim. É com você, Manu Gavassi!

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Com reboot inesperado, Paramore celebra toda sua positividade no novo álbum “After Laughter”

É comum a toda e qualquer pessoa encontrar um momento na vida em que repaginar o visual revela-se algo necessário não apenas para a autoestima e o bem-estar, mas também para a autodescoberta de uma nova identidade. E quando esses indivíduos, em especial, trabalham com o meio artístico, é bem provável que a busca por caminhos até então inexplorados reflita direta ou indiretamente naquilo em que estão habituados a produzir, e isso não é segredo para ninguém. Seja por meio de gêneros do cinema e da TV muitas vezes intocados pela filmografia de nossos atores favoritos, essa mudança repentina de ares não poderia ser diferente e também persegue alguns dos profissionais mais populares da indústria fonográfica – e, felizmente, nos rende alguns lançamentos memoráveis que são recebidos de braços bem abertos por nossas bibliotecas musicais.

Os integrantes do Paramore em photoshoot para a revista “DIY” (foto por: Pooneh Ghana; edição: maio/17)

E, por óbvio, o Paramore jamais seria uma exceção à esta regra quase que sagrada. Após nos conquistar com “Ain’t It Fun”, a vencedora do “Grammy 2015” de “Melhor Canção Rock”, lá do álbum homônimo “Paramore” (2013), finalmente chegou o momento do trio comandado por Hayley Williams nos deixar ouvir o que aprontou nos estúdios de gravação por estes últimos quatro anos. Liberado oficialmente há menos de uma semana (12/05) – poucos dias após vazar na internet, é claro –, “After Laughter” mal saiu do forno e já tem conquistado tanto a crítica especializada quanto o público em geral. Liderado pelo carro-chefe “Hard Times” (#90 no “Hot 100” da Billboard norte-americana), o 5º disco de inéditas do Paramore é atualmente promovido por “Told You So”, a faixa super oitentista que recebeu, recentemente, um clipe totalmente vintage e recheado de referências à moda daquela época (não deixe de assistir).

Distribuído sob o selo da “Fueled by Ramen”, “After Laughter” vai direto ao ponto e, sem qualquer enrolação, nos apresenta à breves (e incríveis) 12 novas faixas, todas produzidas por Taylor York (o guitarrista da banda) e Justin Meldal-Johnsen (que já havia trabalhado anteriormente em “Paramore”). Recebendo as composições de Hayley Williams, Zac Farro (que desde o começo de 2017 voltou para a formação), Aaron Weiss (vocalista do MewithoutYou) e York, o novíssimo trabalho inspira-se bastante no new wave dos anos 80 e ainda navega pelos sempre bem-vindos pop rock e synth-pop – gêneros que já haviam marcado presença em hits passados dos álbuns “All We Know Is Falling” (2005), “Riot!” (2007), “Brand New Eyes” (2009) e “Paramore” (2013).

Demonstrando todo o simbolismo que se esconde atrás desta experiência inédita que tem transbordado positividade para todos os cantos, Williams revelou recentemente que “After Laughter” tem sido “(…) um grande passo para nós como banda e é definitivamente um novo som. Nós estamos muito orgulhosos disso. Eu sinto que [que o álbum] realmente reflete quem nós somos agora”. Contudo, você pode até já ter ouvido as novas músicas do grupo e espalhado as boas novas por aí, mas provavelmente está se questionando sobre o real significado deste título tão curioso. “After Laughter é sobre o olhar no rosto das pessoas quando elas terminam de rir. Se você olhar alguém por tempo suficiente, sempre verá aquele olhar que vem em seu rosto quando para de sorrir, e eu sempre achei isso muito fascinante, imaginar o que a trouxe de volta à realidade”.

Exaustão, depressão e ansiedade são apenas alguns dos muitos temas abordados liricamente pelo “After Laughter”

Dando-nos um gostinho de tudo que vem pela frente, “After Laughter” tenta nos conquistar com a supremacia de seu alto-astral e já abre os trabalhos com a queridinha “Hard Times”, a primogênita que inicia a tracklist do 5º disco de inéditas da banda. Totalmente contagiante e com uma pegada chiclete que é típica do pop e dance lá da década de 80, o lead-single possui uma estrutura bastante simples que, em questão de segundos, entrará na sua cabeça para não sair pelo restante da semana (pelo menos). Não muito diferente, este é o caminho reafirmado por “Rose-Colored Boy” e “Told You So”, estas duas supermodernas faixas dançantes que parecem ter sido retiradas (e restauradas) de um badalado clube noturno nova-iorquino de 30 anos atrás.

Deixando a ambientação um pouco mais suave, “Forgiveness” e “Fake Happy” abrem o segundo arco do álbum, este responsável por harmonizar a sonoridade trabalhada até aqui e trazer um equilíbrio mais do que convidativo – antes, é claro, de nos encaminhar para o ápice de sua fragilidade com a intimista “26”, o verdadeiro coração de “After Laughter”. Bem crua e guiada pelas cordas de um violão poderoso que acentuam toda a honestidade da voz de Hayley Williams, a balada é comovente o suficiente para não desapontar, obviamente.

Recuperando a energia gradativamente, “Pool” cresce em nossos ouvidos e, sem muita cerimônia, revela-se uma das melhores gravações do material (e, por que não, do próprio catálogo do Paramore). Instintivamente apaixonante, a 7ª canção chega ao seu fim após nos cativar com uma inocência estrondosa que deságua na tão boa quanto “Grudges” – a qual foi memoravelmente comparada, pela crítica gringa, ao trabalho de outros grandes artistas, como o The Cure e The Bangles. Assim, chegamos a “Caught in the Middle”, que mesmo sem perder a energia inicial de “After Laughter”, fraqueja discretamente e dá indícios de que precisamos de uma nova lufada de ar fresco antes de prosseguir.

O clipe de “Hard Times” foi dirigido por Andrew Joffe (o mesmo de “Our Own House” e “Reflections”, do MisterWives)

Este novo fôlego, felizmente, nos é proporcionado pela independente “Idle Worship”, a gravação perfeita (e mais do que bem-vinda) para nos preparar para o adeus inadiável. Após abrir lugar para a brilhante “No Friend”, a única música com dedo de Aaron Weiss na composição (pasmem, é a primeira do Paramore a não apresentar vocais de Hayley Williams), não nos resta outra saída senão abraçar a melancolia imensurável de “Tell Me How” e, já com o coração na mão, aceitar a saudade e nos despedir do que se mostrou, até agora, o melhor disco internacional do ano. Como uma festa retrô carregada de boas vibrações que infelizmente chega ao seu triste fim, “After Laughter” enche o nosso peito com aquela maravilhosa sensação de “dever cumprido” que somente uma banda do patamar do Paramore seria capaz.

Por alguma razão desconhecida e bastante enigmática, esta é a primeira vez em um considerável espaço de tempo que temos o prazer de ouvir um artista das antigas (não nos esquecendo que o Paramore já está com 13 anos de estrada) soar tão revigorante para os atuais padrões do mercado fonográfico. De alguma forma quase que sobrenatural, “After Laughter” chega em nossas mãos como um saudoso reboot de tudo que já ouvimos desde o lançamento de “All We Know Is Falling”, o disco de estreia dos estadunidenses. Sem qualquer sombra de dúvidas, Williams, York e Farro souberam como amadurecer o seu som sem perder a boa mão para a música – e, assim, reinventar um dos nomes mais prestigiados do cenário musical sem o uso de falsos artifícios ou modismos escrachados. Ainda é o Paramore e ainda soa como o Paramore, apesar de não podermos esconder o fato de que esta mudança repentina de ares, apesar de nos ter pego de surpresa, fez um bem danado para os nossos ouvidos.

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Os 10 melhores discos de 2016

2016 já está acabando e, como de costume, a internet tem sido bombardeada com as mais variadas listas de fim de ano que relacionam os melhores e piores lançamentos musicais que se destacaram por todo o cenário da indústria fonográfica. Não muito diferente dos demais sites, blogs e revistas, o Caí da Mudança também decidiu seguir a correnteza e elencou, na publicação de hoje, 10 discos que agradaram bastante os nossos redatores e que não poderiam passar despercebidos da atenção de vocês, caros leitores.

Tentando deixar de lado títulos bastante populares como “Lemonade”, da Beyoncé, ou “Views”, do Drake, você confere, a seguir, o que mais se sobressaiu nas nossas playlists e que tanto gritou para ganhar um espacinho especial por aqui. Entre inúmeros gêneros dos mais diversificados artistas, os nossos 10 melhores discos do ano de 2016 (os quais, é claro, não seguem uma linha do melhor para o pior, e vice-versa) foram:

DANGEROUS WOMAN – ARIANA GRANDE / por MARCELO

Gravadora: “Republic Records”;

Lançamento: 20 de maio de 2016;

Gênero: pop, dance-pop, R&B;

Singles: “Dangerous Woman”, “Into You” e “Side to Side”;

Considerações: De todos os discos mainstream liberados ao longo dos últimos 12 meses “Dangerous Woman” é um que não poderia faltar em nossa simplória lista não apenas pelo eficiente impacto comercial de seus singles bem-sucedidos, mas também pelo que a obra, como um todo, representou na promissora discografia de Ariana Grande. Já considerada por muitos como um ícone desta nova leva de cantores e musicistas, a morena não poupou esforços de tornar as coisas mais pessoais e decidiu entregar-se de corpo e alma no que se revelou a experiência mais autoral de sua trajetória musical. Deixando o pop genérico para segundo plano (apesar das escassas “Into You” e “Side to Side”) e caprichando melhor em faixas corajosas que exploraram uma faceta mais sensual de sua intérprete (“Let Me Love You” e “Knew Better / Forever Boy”), o disco inova ao combinar R&B, house e dance a uma voz poderosa que vem se mostrando uma das mais marcantes da atual década. Originalidade, ousadia e confiança foram, inquestionavelmente, as palavras que melhor definiram o 3º disco solo desta garota que ainda tem muito a nos mostrar. Relembre a nossa resenha especial sobre o “Dangerous Woman”.

Charts: “Dangerous Woman” estreou em #2 na “Billboard 200”, a principal parada estadunidense, com vendas de 175 mil cópias na primeira semana. Na “Billboard Hot 100” os singles “Dangerous Woman”, “Into You”, “Side to Side” e “Focus” (promocional) atingiram as posições #8, #13, #4 e #7, respectivamente;

Ouça: “Let Me Love You”, “Greedy” e “Bad Decisions”;

Assista: ao clipe de “Let Me Love You”.


JOANNE – LADY GAGA / por JÚLIO CÉSAR

Gravadora: “Interscope Records”, “Streamline”;

Lançamento: 21 de outubro de 2016;

Gênero: country pop, dance pop, soft rock;

Singles: “Perfect Illusion” e “Million Reasons”;

Considerações: Finalmente aconteceu. 2016 foi o ano em que finalmente me rendi à Lady Gaga. Num álbum que transita por várias influências e gêneros, Gaga consegue, com maestria, soar coesa e ousada ao mesmo tempo. Não que seja algo que já não tenha sido feito antes, mas é algo que nem todos conseguem fazer tão bem e com tanta autenticidade. Da abertura com “Diamond Heart”, à emocional e introspectiva faixa título “Joanne” num tom pessoal, seguida pela fashion-feroz-country-rock “John Wayne”, passando por “Dancin’ In Circles” – que na letra traz Gaga de volta à suas origens sombrias –, até a brilhante “Sinner’s Prayer”. Há mensagem de tolerância e aceitação trazida por versos na melodia melancólica de “Come to Mama”, alertando que “não haverá futuro” se não aprendermos a conviver uns com os outros; uma elegante parceria com Florence Welch, em “Hey Girl”, e influências de jazz em “Just Another Day”. Num conceito pessoal, estrelado por um dos vocais mais admiráveis em um álbum pop nos últimos anos, com “Joanne”, particularmente, me curvei à Lady Gaga. Finalmente. E nunca foi tão bom.

Charts: “Joanne” estreou em #1 na “Billboard 200”, a principal parada estadunidense, com vendas de 170 mil cópias na primeira semana. Na “Billboard Hot 100” os singles “Perfect Illusion” e “Million Reasons” atingiram as posições #15 e #52, respectivamente;

Ouça: “Joanne”, “John Wayne” e “Sinner’s Prayer”.

Assista: ao clipe de “Perfect Illusion”.


MIND OF MINE – ZAYN / por MARCELO

Gravadora: “RCA Records”;

Lançamento: 25 de março de 2016;

Gênero: pop, alternative R&B, R&B;

Singles: “Pillowtalk”, “Like I Would” e “Wrong”;

Considerações: Não muito diferente de Ariana, outro que decidiu procurar por novos horizontes e se sobressaiu ao trazer um som mais intimista foi o Zayn – mundialmente conhecido por ter integrado o quinteto One Direction. Saindo da “Terra da Rainha” e ganhando os EUA com um material solo que deixou bastante gente boquiaberta, o britânico provou de vez que nada tinha a ver com os trabalhos assinados pelos outros discípulos de Simon Cowell e investiu sem medo em gêneros como o folk, dub, soul, funk, eletrônico, qawwali, hip-hop, reggae, soft-rock e música clássica. Inspirando-se em grandes artistas que fizeram parte de sua infância (como Tupac, Usher, R. Kelly e Prince), Zayn é feliz ao abrir seu coração e nos apresentar a faixas muito bem produzidas capazes de nos fazer embarcar para uma viagem direto a suas memórias mais íntimas e secretas. Com um material de excelente qualidade abrangido por “Borderz”, “Lucozade”, “Bright” e “Golden” é realmente uma lástima que o público só tenha dado atenção para o carro-chefe “Pillowtalk”. Quem diria que após “abandonar” seus parceiros de longa data o Sr. Malik viria a liderar uma das mais brilhantes estreia como solista desta década? Relembre a nossa resenha especial sobre o “Mind of Mine”.

Charts: “Mind of Mine” estreou em #1 na “Billboard 200”, a principal parada estadunidense, com vendas de 157 mil cópias na primeira semana. Na “Billboard Hot 100” os singles “Pillowtalk” e “Like I Would” atingiram as posições #1 e #55, respectivamente;

Ouça: “Rear View”, “Lucozade” e “Borderz”;

Assista: ao clipe de “Befour”.


CITIZEN OF GLASS – AGNES OBEL / por JÚLIO CÉSAR

Gravadora: “PIAS Recordings”;

Lançamento: 21 de outubro de 2016;

Gênero: folk/classical;

Singles: “Familiar” e “Golden Green”;

Considerações: Este foi, definitivamente, o álbum que mais esperei durante o ano. Agnes Obel é uma cantora e instrumentista dinamarquesa que mescla os gêneros folk e música clássica. Na difícil tarefa de honrar seus dois primeiros [e como costumo chamar, inebriantes] álbuns, Obel faz com que a tarefa pareça simples com “Citizen of Glass”. É um daqueles álbuns que, como “Philharmonics” (2010) e “Aventine” (2013), você não pode descrever. Você precisa ouvi-lo, senti-lo, contemplá-lo e, a partir daí, descobrir como se sente sobre ele. “Citizen of Glass” é uma peça de arte de uma artista fantástica, que além de ser uma excelente continuidade de seu trabalho, provém também evolução, com vocais tão bem explorados em canções como “It’s Happening Again” e “Trojan Horses”, e produções como “Familiar”. Agnes Obel e “Citizen of Glass” são raros. Mesmo com uma nova onda artística atingindo o mainstream na indústria fonográfica de hoje, garanto que não há nada parecido tocando por aí. É distinto, singular, magnífico.

Charts: “Citizen of Glass” chegou até o #50 da “Billboard 200”, a principal parada estadunidense. No “Syndicat National de l’Édition Phonographique” o single “Familiar” atingiu a posição #54;

Ouça: “It’s Happening Again”, “Stone” e “Mary”;

Assista: ao clipe de “Familiar”.


INESPERADO – ANAHÍ / por MARCELO

Gravadora: “Universal Music”;

Lançamento: 3 de junho de 2016;

Gênero: latin pop;

Singles: “Rumba”, “Boom Cha”, “Eres” e “Amnesia”;

Considerações: Foi assim, após 7 anos “cozinhando” seus fãs sem o lançamento de um novo material de estúdio, que Anahí tomou as rédeas de sua carreira musical e voltou com tudo com o aguardadíssimo sucessor de “Mi Delirio” (2009). Predominantemente pop, “Inesperado” soa assim como seu título, usando e abusando dos elementos típicos do dance-pop e indo muito além ao incorporar instrumentais exclusivos do electropop, reggaeton, pop-rock e funk carioca. Responsável por levar a mexicana de volta à suas raízes latinas (“Me Despido”, “Arena Y Sol”, “La Purta de Alcalá”), a produção de cada faixa foi extraordinariamente refinada por nomes de peso como Ettore Grenci, Sebastian J e Cheche Alara enquanto a parte lírica recebeu as contribuições dos já conhecidos Gloria Trevi (“Me Hipnotizas”), Noel Schajris (“Alérgico”) e Claudia Brant (“Te Puedo Escuchar”). Com inúmeros detalhes milimetricamente calculados, nunca um álbum de Anahí soou tão eclético sem perder a essência bastante emotiva daquela que já nos cativava desde os velhos tempos do RBD. Destaque especial para faixas como “Temblando” e “Inesperado” que sem querer nos cativa com uma espontaneidade imediata. Relembre a nossa resenha especial sobre o “Inesperado”.

Charts: “Inesperado” estreou em #4 no “Amprofon”, a principal parada musical mexicana. O single “Rumba” atingiu a posição #32 “Billboard Latin Pop Songs”;

Ouça: “Arena Y Sol”, “La Puerta de Alcalá” e “Inesperado”;

Assista: ao clipe de “Amnesia”.


REVOLUTION RADIO – GREEN DAY / por JÚLIO CÉSAR

Gravadora: “Reprise Records”;

Lançamento: 7 de outubro de 2016;

Gênero: punk rock;

Singles: “Bang Bang” e “Still Breathing”;

Considerações: Sejamos honestos, não há bandas de rock surgindo e atingindo o sucesso mainstrem em muitos anos. Não estamos falando de alternative, indie, inde pop… As últimas bandas que eu me lembro de terem surgido no mainstream foram durante o período de ascensão do emocore, entre 2005 e 2010. Num mercado dominado por artistas solos – seja de qual gênero for, é um alento ter o bom e velho Green Day prevalecendo, de volta de um hiatus de mais de 3 anos com um álbum simples, objetivo e absolutamente relevante. “Revolution Radio” soa um autêntico punk rock/college rock Green Day, ainda assim atual, em faixas como “Say Goodbye”. O álbum também soa como uma grande ode a trabalhos anteriores da banda. “Forever Now” traz uma estrutura similar a de “Jesus of Suburbia”, de “American Idiot” (2004), enquanto “Ordinary World” pode remeter à nostalgia de “Good Riddance (Time of Your Life)”, de “Nimrod” (1997). Obrigado por não nos deixar na mão, Green Day!

Charts: “Revolution Radio” estreou em #1 na “Billboard 200”, a principal parada estadunidense, com vendas de 95 mil cópias na primeira semana. Na “Billboard Alternative Songs” os singles “Bang Bang” e “Still Breathing” atingiram as posições #1 e #3, respectivamente;

Ouça: “Outlaws”, “Troubled Times” e “Ordinary World”;

Assista: ao clipe de “Still Breathing”.


THIS IS WHAT THE TRUTH FEELS LIKE – GWEN STEFANI / por MARCELO

Gravadora: “Interscope Records”;

Lançamento: 18 de março de 2016;

Gênero: pop;

Singles: “Used to Love You”, “Make Me Like You” e “Misery”;

Considerações: Outra que demorou bastante para voltar aos estúdios de gravação (exatos 10 anos) e entregar ao público um novo álbum solo de inéditas foi a Gwen Stefani, também conhecida por trabalhar como vocalista do No Doubt. Revezando seu tempo entre a vida particular (que há pouquíssimo tempo foi atingida por um divórcio inesperado) e a profissional (quando atuou como técnica do “The Voice” norte-americano, substituindo Christina Aguilera), Stefani entrou rapidamente na onda dos produtores contemporâneos como Greg Kurstin, Mattman & Robin, J.R. Rotem e Stargate e tentou, de maneira bem original, revitalizar sua sonoridade tão particular – quem é fã de Stefani com certeza se identificará com as genuínas “You’re My Favorite”“Rocket Ship”“Red Flag”. Dando vida à hinos como “Make Me Like You” e “Rare” que falaram muito sobre seu atual relacionamento com o Blake Shelton, o trabalho fez bonito nos charts dos EUA e deram à cantora seu primeiro #1 como solista, após o #3 de “The Sweet Scape” (2006) e #5 de “Love. Angel. Music. Baby” (2004). É R&B, disco, electropop, synthpop, ska pop, trip-hop e folk do começo ao fim.  Relembre a nossa resenha especial sobre o “This Is What the Truth Feels Like”.

Charts: “This Is What the Truth Feels Like” estreou em #1 na “Billboard 200”, a principal parada musical estadunidense, com vendas de 84 mil cópias na primeira semana. Na “Billboard Hot 100” os singles “Used to Love You” e “Make Me Like You” atingiram as posições #52 e #54, respectivamente.

Ouça: “Truth”, “Me Without You” e “Loveable”;

Assista: ao clipe de “Make Me Like You”.


ANTI – RIHANNA / por MARCELO

Gravadora: “Westbury Road” e “Roc Nation”;

Lançamento: 28 de janeiro de 2016;

Gênero: pop, R&B;

Singles: “Work”, “Kiss It Better”, “Needed Me” e “Love on the Brain”;

Considerações: Não que a voz por trás de “We Found Love” estivesse em baixa no mercado até o lançamento do seu 8º disco de inéditas, mas, existe uma boa razão para que “Anti” tenha ganhado tanto destaque por aqui quando do seu lançamento, no começo deste ano. Despindo-se de qualquer influência da música genérica que permeou seus trabalhos mais populares como “Loud” (2010), “Talk That Talk” (2011) e “Unapologetic” (2012), o anteriormente nomeado “R8” foca em uma Rihanna cheia de vulnerabilidades que há muito não víamos dando as caras por aí. Aposentando as batidas nauseantes de David Guetta, Calvin Harris e companhia que já não aguentávamos mais ouvir, a barbadiana mais famosa da música não pensou duas vezes e achou por bem dar preferência a um som mais simplista e que representasse melhor a atual fase de sua vida. Experimentando instrumentais mais urbanos como o R&B, o reggae e o eletrônico (“Work”, “Needed Me”) e combinando-os perfeitamente a um pouco de jazz e soul da melhor qualidade (“Close To You”, “Love on the Brain”), a musicista nos comprova que, às vezes, “menos é mais”. O público agradece a honestidade, Riri. Relembre a nossa resenha especial sobre o “Anti”.

Charts: “Anti” estreou em #27 na “Billboard 200”, a principal parada estadunidense, mas em sua segunda semana atingiu o #1, com vendas de 166 mil cópias. Na “Billboard Hot 100” os singles “Work”, “Kiss It Better”, “Needed Me” e “Love on the Brain” atingiram as posições #1, #62, #7 e #20, respectivamente;

Ouça: “Desperado”, “Same Ol’ Mistakes” e “Never Ending”;

Assista: ao clipe de “Needed Me”.


A MOON SHAPED POOL – RADIOHEAD / por JÚLIO CÉSAR

Gravadora: “XL Recordings”;

Lançamento: 8 de maio de 2016;

Gênero: art rock, alternative rock, eletrônica;

Singles: “Burn the Witch” e “Daydreaming”;

Considerações: Foi tudo muito rápido em meio há um hiatus muito longo. Num dia não tínhamos nada, no outro tivemos “Burn the Witch”. Três dias depois veio “Daydreaming” e o aguardado anúncio de um novo álbum para dali dois dias. É possível considerar, talvez, “A Moon Shaped Pool” como uma continuação atual de “Kid A” (2000), em um tom mais melódico e personalidade mais madura. Os sussurros invertidos de Tom Yorke em “Daydreaming” parecem pertencer perfeitamente ao instrumental alinhado numa assimetria brilhante. O álbum traz também a tão esperada versão estúdio de “True Love Waits”, um clássico instantâneo da banda que figurou pela primeira vez no “I Might Be Wrong: Live Recordings” (2001), em uma gravação ao vivo. Em suma, “A Moon Shaped Pool” termina por ser não apenas mais um álbum a figurar entre os melhores do ano, mas um que preenche bem e de forma natural a timeline de obras da banda.

Charts: “A Moon Shaped Pool” estreou em #3 na “Billboard 200”, a principal parada estadunidense, com vendas de 181 mil cópias na primeira semana. No “UK Singles Chart” os singles “Burn the Witch” e “Daydreaming” atingiram as posições #64 e #74, respectivamente;

Ouça: “Daydreaming”, “Present Tense” e “True Love Waits”;

Assista: ao clipe de “Burn the Witch”.


WINGS OF THE WILD – DELTA GOODREM / por MARCELO

Gravadora: “Sony Music Australia”;

Lançamento: 1º de julho de 2016;

Gênero: pop;

Singles: “Wings”, “Dear Life”, “Enough” e “The River”;

Considerações: Por fim, nossa seleção não estaria completa se não nos lembrássemos do que foi, sem sombra de dúvidas, um dos materiais mais surpreendentes conduzidos por um artista de fora da indústria estadunidense. Levando longos 4 anos desde o maravilhoso “Child of the Universe” (2012), a australiana Delta Goodrem não economizou na qualidade e trouxe em “Wings of the Wild” aquilo que melhor sabe fazer desde o início de sua trajetória: um álbum recheado de baladas super emotivas e alguns hinos dançantes que acertam por desviar radicalmente das faixas genéricas que bombam nas rádios de todo o planeta. Combinando um vocal de aço (“Dear Life”) a consistentes instrumental (“Wings”), ritmo (“In the Name Of Love”), temática (“Feline”) e identidade (“I’m Not Giving Up”), “Wild” extravasa contemporaneidade e evolui consideravelmente na discografia de ouro que vem sendo construída por uma das musicistas mais completas de sua geração. Uma mistura uniforme de pop, rock, rap e dance, o 5º álbum de Goodrem não deixa a desejar desde a sua primeira audição e nos comprova que a parceria com o produtor Vince Pizzinga (que trabalha com a cantora desde o “Innocent Eyes”, de 2003) e o duo DNA (Anthony Egizii e David Musumeci) trouxe à Delta o tom de liberdade que lhe faltava para explorar novos horizontes sem perder o autocontrole de sua própria personalidade. Relembre a nossa resenha especial sobre o “Wings of the Wild”.

Charts: “Wings of the Wild” estreou em #1 no “ARIA Charts”, as paradas musicais australianas, ao lado dos singles “Wings” (#1), “Dear Life” (#3), “Enough” (#27), “The River” (#58) e “Only Human” (#46);

Ouça: “Enough”, “In the Name of Love” e “I’m Not Giving Up”;

Assista: ao clipe de “The River”.


E vocês, meus caros leitores: quais foram os álbuns lançados neste 2016 que mais lhes agradaram? Não deixem de comentar logo a seguir as suas recomendações com os trabalhos que mais bombaram em suas playlists e que nós da família Caí da Mudança precisamos conhecer. Um Feliz Ano Novo a todos!

Despindo-se de todo o glamour, Lady Gaga assume nova persona e irradia autenticidade em “Joanne”

Seria 2016 o grande ano de retorno das mais bem-sucedidas estrelas femininas da música pop da década passada? Depois de Rihanna, Beyoncé, Gwen Stefani e Britney Spears voltarem à ativa após intermináveis hiatos sem novos materiais na estrada, finalmente é chegado o momento da maior hitmaker de 2008 tomar as rédeas do cenário fonográfico atual e protagonizar um comeback recheado com muita originalidade, ousadia e reconhecimento: sim, estamos nos referindo à Lady Gaga. Dividindo a opinião das massas com um primeiro single que parece não ter atendido às expectativas do público majoritário (relembre nossa resenha para “Perfect Illusion”), a incomparável “Mother Monster” preferiu deixar as bizarrices de lado e surge, agora, com o que aparenta ser o trabalho mais cru de seu catálogo tão extravagante. Venha com a gente conhecer um pouco mais sobre o “Joanne”!

Lady Gaga em ensaio fotográfico para o “iHeartRadio” (foto por Katherine Tyler)

Desde que “ARTPOP” (2013) fora anunciado como o “álbum do milênio” e deixara muito a desejar no quesito inovação, Lady Gaga não pensou duas vezes antes de tirar longas férias do mercado mainstream e se aventurar por outros ramos de sua carreira tão multifacetada. Indo para o jazz e apostando como atriz em “American Horror Story: Hotel” (projeto que lhe rendeu uma vitória no “Globo de Ouro” deste ano), a norte-americana só foi revelar planos de voltar para o pop em setembro, quando confirmou a chegada de um novo single que seria lançado no dia 9 daquele mês. Levando seus seguidores à loucura e chocando muitos que não esperavam por uma sonoridade tão distinta, foi após muita espera que a loira pôs um fim ao sofrimento de seus little monsters e liberou, na íntegra, o disco “Joanne” no último 21 de outubro.

Distribuído sob os selos da “Interscope Records” e “Streamline”, o aguardadíssimo “LG5” (como era popularmente chamado o trabalho pelos fãs) não fez feio nos charts e, seguindo “Born This Way” (2011), “ARTPOP” (2013) e “Cheek to Cheek” (2014), estreou diretamente no topo da “Billboard 200”, a principal parada de álbuns dos EUA. Comercializando impressionantes 201 mil cópias apenas na primeira semana, o novo disco saiu-se melhor que o esperado e rendeu à Gaga um novo recorde para a sua imensa lista de feitos incomparáveis: tornar-se a mulher com mais álbuns em #1 nesta década. Atingindo o #1 no iTunes de mais de 60 países, “Joanne” é atualmente promovido por “Million Reasons”, o segundo single oficial escolhido para substituir a agora promocional “A-Yo”. Deixando a EDM para segundo plano e orientando-se predominantemente pelo bom e velho pop, outros gêneros bastante explorados pela musicista nesta nova era têm sido o soft rock, dance-pop, country e folk.

O visual da cantora está bem mais simples e limpo na era “Joanne”

Com 11 faixas na edição standard, 14 na deluxe e 15 na deluxe japonesa, “Joanne” foca muito em sua intérprete e traz apenas uma colaboração especial em sua tracklist: com a Florence Welch, do Florence + the Machine. Abarcando um renomado time de produtores requisitadíssimos, os nomes envolvidos no projeto vão desde o já conhecido Mark Ronson (“Rehab”, Amy Winehouse) e passam por Jeff Bhasker (“Free”, Natalia Kills), BloodPop (“Drum”, MØ), Emile Haynie (“Summmertime Sadness”, Lana Del Rey), Josh Homme (vocalista do Queens of the Stone Age), Kevin Parker (vocalista do Tame Impala) e RedOne (“Poker Face”, “Bad Romance”). Atuando como coprodutora e compositora em todas as canções, Gaga foi auxiliada liricamente não só pelos demais produtores como também pelos bem experientes Hillary Lindsey (“When I Look at You”, Miley Cyrus), Beck (vencedor do “Álbum do Ano” no Grammy de 2015), Joshua Tillman (“Hold Up”, Beyoncé) e Thomas Brenneck (guitarrista do Menahan Street Band).

Já começando com o pé direito ao nos introduzir à brilhante “Diamond Heart”, o lançamento ganha forma de maneira rápida e precisa quando a faixa de abertura resolve nos dar uma pequena prévia do que o “Joanne” soa em sua totalidade. Chegando de mansinho com uma composição bem autoral e explosiva que revela um pouquinho sobre o passado difícil de Gaga, a loira nunca soou tão honesta ao assumir que “não é perfeita”, mas, considerar que “tem um coração de diamante”. Abrindo espaço para “A-Yo”, o country ganha vida da melhor maneira possível enquanto a musicista canta sobre sexo em uma batida levemente inspirada no hit desperdiçado “MANiCURE”. Outras faixas que tomam por referência o gênero sulista e que também se sobressaem por fugir da zona de conforto de Gaga são “Sinner’s Prayer” e “Million Reasons”.

Saindo da zona de conforto, a música eletrônica acabou sendo deixada de lado para que Gaga pudesse explorar novos gêneros como o country, soft rock e disco-rock

Chegando para apaziguar o mix de gêneros e nos preparar para o arco mais alto astral composto por “John Wayne”, “Dancin’ in Circles” e “Perfect Illusion”, a balada que dá nome ao disco é do início ao fim movida por uma simplicidade intangível. Bastante acústica e ressaltando o conceito por trás do sucessor de “Cheek to Cheek” (2014), em recente entrevista concedida à “Rolling Stone” Gaga revelou que sua intenção era “unir pessoas que não se conhecem e que talvez se sintam estranhas, mas que de alguma forma possam se conectar por meio da música”. Dando destaque exclusivo para sua família – principalmente para uma tia de nome Joanne, que faleceu nos anos 70, vítima de lúpus (doença que também assola a cantora) –, em “Joanne” a moça se despe de todas as extravagâncias do passado para enaltecer aquilo que muitos se negaram a ver desde o início da sua carreira: a presença de uma voz muito, muito marcante.

Combinando sonoridades e instrumentos em “John Wayne” (canção que homenageia o ator de mesmo nome), explorando um pouco de dance, reggae e ska na safadinha “Dancin’ in Circles” e trazendo o disco-rock já familiar de “Perfect Illusion”, “Joanne” suaviza consideravelmente enquanto caminha para seu triste fim. Citando inúmeras referências bíblicas na maravilhosa “Come to Mama”, Gaga não poupa esforços em mais uma vez passar sua mensagem de apoio às minorias sociais e reforçar aquilo que todos já devem ter ouvido pelo menos uma vez na vida: “todos temos que amar uns aos outros”. É nessa mesma vibe de afeto e união que “Hey Girl” (o featuring com a Florence Welch) desabrocha instintivamente, certeira por casar tão bem os vocais de duas das melhores cantoras da atualidade e por explorar um verdadeiro hino de empoderamento feminino. Impossível não recordar os velhos tempos de “The Fame” com uma sonoridade dessas (e que também foi experimentada na bônus “Just Another Day”), especialmente por causa de “Brown Eyes”, “Summerboy” e “Again Again”.

Lady Gaga em apresentação de “A-Yo” na “Dive Bar Tour” (série de shows que tem realizado em bares norte-americanos)

De maneira demasiadamente melódica, acústica e tocante, “Angel Down” e “Grigio Girls” dividem nossa opinião e nos deixam ora de braços estendidos, ora apreensivos. Exaltando um poderio vocal que há muito tem sido explorado sabiamente pela vocalista, ambas exploram o melhor do timbre de Gaga sem trazer nenhuma grande inovação, afastando-se um pouco do que foi pretendido pelo restante da tracklist e não soando de todo necessário. Inevitavelmente, este também é o caminho traçado por “Angel Down (Work Tape)”, a aguardadíssima colaboração com o RedOne que, ao final das contas, muito prometeu e nada mais foi do que uma perfeita ilusão (quem esperava por um grande hit mainstream a lá “Bad Romance” com certeza ficou e continua bastante chateado).

Conhecida por construir e desconstruir sua imagem a cada era com uma versatilidade inquestionável, Lady Gaga mais uma vez nos surpreende por aproveitar todas as oportunidades para fugir do mercado comum e estabelecer um padrão imprevisível para seus lançamentos musicais. Depois de conquistar o público com seus hits dançantes, nos impressionar com uma obscuridade nunca vista antes e chocar a todos com figurinos dignos de um autêntico conto de fadas fashionista, a eterna intérprete de “Just Dance” surge em pleno 2016 para renovar os seus votos de artista completa que não se deixa ser vencida tão facilmente. Experimentando de tudo um pouco e dando sua voz e suor para a concretização de trabalhos primorosos que jamais serão esquecidos pelo público, Stefani Joanne Angelina Germanotta é certamente um nome que surgiu para botar ordem na atual indústria fonográfica e revolucionar alguns conceitos que há muito precisavam ser revistos por alguém tão competente. Seja bem-vinda de volta, Joanne, nós sentimos a sua falta!

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Repleto de sensibilidade, Shawn Mendes está mais acústico do que de costume no novo “Illuminate”

Não faz nem um ano desde que decidimos escrever, pela primeira vez, um pouquinho mais sobre a trajetória de Shawn Mendes, o novato que tem feito o maior sucesso nas rádios e paradas musicais de todo o mundo (relembre). Após liberar seu primeiro disco de inéditas (o “Handwritten”, de 2015) e dominar o top 10 da “Billboard Hot 100” com o hit “Stitches” (#4), o jovem canadense que adquiriu notoriedade depois de bombar no aplicativo Vine consegue, hoje, tocar sua vida adiante sem depender das diversas gravações caseiras que o levaram ao estrelato.

Deixando os covers de lado e redirecionando todas suas energias para a própria discografia, Shawn sabe que é chegado o momento de dar continuidade à sua brilhante história e já prepara o terreno para aquilo que o futuro lhe reserva. E foi assim, de mansinho, que fomos surpreendidos no mês passado com “Illuminate”, o 2º material de estúdio de Mendes que não poderia passar despercebido em nosso blog sem uma resenha mais do que especial. Assim, e sem mais blá-blá-blá, você confere, a seguir, nossos principais apontamentos sobre esse lançamento tão aguardado que chegou na melhor hora possível para todos aqueles que mal podiam esperar por um novo trabalho do cantor!

Shawn Mendes em ensaio fotográfico para a revista “Notion” (2016)

Que o “Handwritten” acabou por cair nas graças do público isso não é novidade para ninguém – tanto que, além de debutar em #1, com vendas de 119 mil cópias na first week, até chegou a integrar a nossa lista com os meus 10 discos favoritos de 2015, em #6. Rendendo 4 singles de sucesso que deram grande suporte para as turnês “Shawn’s First Headlines” e “Shawn Mendes World Tour” (esta última, inclusive, ainda na ativa), o primeiro álbum do garoto prodígio de apenas 18 anos não falhou comercialmente e chegou a ser certificado ouro e platina em diversos países do globo, como Brasil, México, Reino Unido e EUA. Todavia, nem tudo dura para sempre e, após encerrar o projeto com o featuring “I Know What You Did Last Summer”, com a Camila Cabello (do Fifth Harmony), finalmente chegou o momento de Shawn respirar novos ares e nos entregar algumas novidades que mexeram com todas as nossas estruturas.

Liberando o carro-chefe “Treat You Better” no último 3 de junho, o canadense acertou em cheio ao selecionar sua parceria com os compositores Teddy Geiger e Scott Harris para representar a primeira música de trabalho do “Illuminate”. Sucesso instantâneo que atingiu o #6 no “Hot 100” da “Billboard”, a canção segue a linha mais pop de “Stitches” e ganha o ouvinte por utilizar-se da mesma estrutura anteriormente experimentada no 3º single do disco iniciante (estrofes lentas que gradativamente culminam em um refrão explosivo). Trazendo um emocionante clipe dirigido por Ryan Pallotta (“Wish You Were Here”, Delta Goodrem; e “Chains”, Nick Jonas) que relata um relacionamento altamente conturbado e abusivo, a gravação já ultrapassou as 230 milhões de visualizações no YouTube e é eficientemente encerrada com o telefone para contato do “National Domestic Violence Hotline”, o disk-denúncia para violência doméstica dos EUA (assista).

“Ruin”, o primeiro single promocional do lançamento, também chegou a ganhar um clipe. Assista

Disponível para compra desde o dia 23 de setembro, “Illuminate” foi gravado entre os anos de 2015 e 2016. Predominantemente pop, o álbum abraça a vertente mais acústica que é própria de Shawn e pouco se distancia do que pudemos conhecer em sua primeira experiência pelos estúdios de gravação. Distribuído sob os selos da “Island Records” e “Universal Music Group”, além de “Treat You Better” (o único single oficial anunciado até o fechamento deste post) também foram liberadas anteriormente (mas como faixas promocionais) as bem emotivas “Ruin”, “Three Empty Words” e “Mercy”. Conseguindo seu segundo #1 na “Billboard 200”, o novo material do moço estreou direto no topo dos charts norte-americanos, com vendas de 145 mil cópias na primeira semana. Segundo a própria “Billboard”, apenas 5 artistas (incluindo Shawn) conseguiram emplacar seus dois primeiros álbuns #1s em tão pouca idade – Justin Bieber (com 17 anos), Miley Cyrus (com 14 anos), Hilary Duff (também com 14 anos) e LeAnn Rimes (com 15 anos).

Contendo 12 canções na edição standard e 15 na deluxe, Mendes assina todas as músicas presentes no disco e divide os créditos de composição com Geoff Warburton (-), Scott Harris (“Life of the Party”, “Something Big”), Teddy Geiger (“Stitches”), Danny Parker (“Chains”, Nick Jonas), Ilsey Juber (“Man on the Moon”, Britney Spears), Laleh (“Stone Cold”, Demi Lovato) entre outros. Já o trabalho de produção, por sua vez, acabou por ficar sabiamente sob a responsabilidade de ninguém menos que Jake Gosling (“Thinking Out Loud”, Ed Sheeran), Dan Romer (“Say Something”, A Great Big World com Christina Aguilera), DJ “Daylight” Kyriakides (-) e os já mencionados Geiger e Harris.

“Illuminate” foi majoritariamente bem-recebido pela crítica especializada (3,5/5 pelo “AllMusic”, “Idolator” e “Rolling Stone”)

Completamente uniforme, “Illuminate” não foge muito da temática trabalhada pelo disco antecessor e, como dito acima, foca bastante em uma roupagem mais acústica – um som que, felizmente, casa muito bem na doce (e por vezes imperiosa) voz de seu intérprete. Trazendo as vulneráveis “Ruin”, “Don’t Be a Fool”, “Like This” e “Bad Reputation”, são nestas faixas que encontramos, logo de cara, o gigantesco amadurecimento que Shawn passou em tão pouco tempo, ainda mais se considerarmos que este é apenas o segundo material de seu catálogo. Distanciando-se muito da tendência mais adolescente que pudemos conferir em canções como “Something Big” e “Believe”, esta pequena parcela do sucessor de “Handwritten” nos soa bem promissora e, provavelmente, influenciará em muito os próximos trabalhos de estúdio do moço.

Assista ao emocionante clipe para a promocional “Mercy”

E como não poderia deixar de ser, é claro que o “Illuminate” não erraria tão feio a ponto de não incluir, ao menos, uma gravação ou outra sem pender para um som mais comercial. Nesse sentido encontramos o lead single “Treat You Better” – que, como dito acima, se assemelha em muito à estrutura musical de “Stitches” –, e a possível candidata para próximo single “No Promises” (isso ao nosso ver, é claro, pois nada foi confirmado pela equipe de Mendes até o momento). Com um instrumental não menos que original e viciante, o único defeito deste hino incomparável é sua duração nem alcançar os comuns 3 minutos, o tempo padrão da maioria das músicas liberadas pelos artistas do mainstream (“No Promises” é a mais curta da tracklist, com 2 minutos e 46 segundos, seguida de “Patience”, com 2 minutos e 55 segundos).

Mendes e sua equipe já preparam a “Illuminate World Tour”, a terceira turnê do canadense prevista para começar em março de 2017, nas Filipinas

Intercalando entre suavidade e animação, “Three Empty Words” abre o arco mais positivo de “Illuminate” – o qual é, nos moldes de “Handwritten”, composto também pelas cativantes “Lights On”, “Honest” e “Patience” (estas foram certamente gravadas para todos aqueles que tanto gostaram do debut do canadense e muito torceram por uma segunda parte). Muito bem posicionadas no álbum, as canções amarram-se firmemente umas às outras e nos redirecionam para o segmento final que encerra o disco com chave de ouro. Ao som de “Understand”, a última faixa da edição standard explora muito bem a vulnerabilidade a que fomos introduzidos no início da tracklist, por “Ruin” – mas, desta vez, de forma bem menos obscura. Repleta de uma vivacidade resplandecente, assim também prosseguem as duas bônus da edição deluxe: “Hold On” e “Roses”, que não apenas dão uma conclusão para a sua antecessora (“Understand”) como ganham vida própria e brilham por uma singularidade própria.

Entretanto, não poderíamos concluir a nossa resenha se deixássemos de mencionar o que é, aos nossos olhos, não apenas a melhor canção do “Illuminate”, como também a que melhor define o projeto como um todo. Composta pelo Shawn ao lado de Teddy Geiger, Danny Parker e Ilsey Juber (e produzida por Gosling e Geiger), “Mercy” transborda em nossos ouvidos desde sua primeira audição e revela-se uma das maiores músicas do ano. Carregando uma intensidade que não cabe dentro de si e explode em um ápice de muita sensibilidade, o single promocional mistura drama com naturalidade sem parecer forçado, soando até mesmo comercial na medida certa. Trazendo uma letra bastante expressiva, os seus versos inesquecíveis funcionam bem tanto na versão padrão (presente na edição standard) quanto na versão acústica (exclusiva para aqueles que adquirirem a deluxe).

Crescendo sem perder o rumo da identidade que vem lapidando em tão pouco tempo, por diversas vezes Shawn nos faz relembrar, em seu “Illuminate”, do trabalho primoroso que foi feito no “Handwritten”. Recheado de produções simplistas que realçam o melhor da voz, carisma e composições de Mendes, o novo álbum amadurece consideravelmente sem pôr um ponto final ao que já conhecíamos desde o lançamento do primeiro single “Life of the Party”, lá de 2014. Sem mudanças bruscas ou radicais de imagem, o novato parece se encontrar no caminho certo para a longevidade de sua carreira, mostrando que, por mais que continue dominando os charts, o vem fazendo da maneira mais saudável possível (para si e para o público). E assim torcemos para que o pequeno-grande Shawn continue ao longo dos próximos anos, conquistando-nos com uma honestidade sem fins que tem tudo para elevar seu nome cada vez mais alto.

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