“Blue Exorcist”: vale a pena assistir?

Promessa é dívida! Após adiantarmos para vocês que neste mês o Caí da Mudança receberia dois “Vale a pena assistir?” novinhos em folha, eis que finalmente é chegado o momento de abandonar o ócio e botar a mão na massa. Assim, é com um aperto no coração que nos despedimos de toda a nostalgia noventista proporcionada pela recém-publicada resenha de “Slayers” e, avançando alguns passos para o futuro, abraçamos uma outra franquia tão completa como aquela que dissecamos há quase duas semanas.

A obra que dá nome a este artigo pode até soar estranha para você que não é inteiramente ligado ao universo dos animes, mas, quem já deu uma espiada em Blue Exorcist sabe que não estamos exagerando ao dizer que esta é uma das melhores novidades exportadas pela televisão japonesa dentro destes últimos dez anos. Ficou interessado? Então separa a água benta e vem com a gente descobrir um pouquinho mais sobre esta superprodução oriental de primeiríssima categoria.

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Precedentes e lançamentos em outros formatos:

Além do anime, “Blue Exorcist” conta com lançamentos em light novel, videogame e até mesmo longa-metragem

Seguindo a regra quase que absoluta da maioria dos animes que remete suas origens à popular indústria dos mangás, “Blue Exorcist” (ou “Ao No Exorcist”) não poderia ser diferente e também já circulava pelas páginas de papel muito antes de ser contemplado com a sua própria versão animada. Publicada pela revista “Jump Square”, da editora Shueisha, desde 2009, a obra conta, até o fechamento deste post, com 19 volumes escritos e ilustrados por Kazue Katō, sob o gênero shōnen.

Bem recebido pela crítica nipônica, a procura por “Blue Exorcist” cresceu tanto em tão pouco tempo que, já em 2013, um segundo mangá spin-off do primeiro (e também shōnen) intitulado “Salaryman Exorcist: The Sorrows of Yukio Okumura” chegou com tudo trazendo a já conhecida roteirização de Katō com as ilustrações de Minoru Sasaki. E não parou por aí! Expandindo-se para outros formatos diversos, os fãs da franquia ainda puderam conferir a light novel “Ao No Exorcist: Weekend Hero” (2011) escrita por Aya Yajima e ilustrada por Kazue; e o jogo que combinava elementos de RPG com visual novel “Blue Exorcist: The Phantom Labyrinth of Time” (ou “Ao No Exorcist: Genkoku no Labyrinth”) para PSP, lançado em abril de 2012 pela Bandai Namco Games.

O rebanho de Satã:

Rin e Yukio Okumura, os herdeiros do Anjo Caído

Mesclando a história narrada pelo mangá a um desfecho totalmente inédito (até por volta do episódio 18, quando as divergências se intensificam), “Blue Exorcist” nos apresenta à saga de Rin e Yukio Okumura, dois irmãos gêmeos órfãos criados desde o nascimento por Shiro Fujimoto, um padre católico. O que muitos desconhecem, todavia, é que o mosteiro em que os meninos cresceram esconde muitos mais mistérios que o imaginado, já que Fujimoto é um renomado exorcista licenciado pelo Vaticano e ambos os garotos escondem uma identidade nada convencional. Isso porque, apesar de gerados por uma mãe inteiramente mortal (Yuri Egin), os irmãos Okumura são descendentes de ninguém menos que o maior de todos os demônios conhecido pela humanidade: o terrível Satã.

Destroçados pela morte prematura de seu pai adotivo pelas mãos do Tinhoso, Rin e Yukio não veem outra saída senão ingressar na Academia da Cruz, uma renomada instituição de ensino que disponibiliza em sua grade um curso avançado para jovens candidatos a exorcistas, os exwires. É lá que a dupla conhece o excêntrico diretor Mephisto Pheles e seus demais colegas de classe, os quais não demorarão a deixar a competitividade de lado para ingressar em seu círculo de amigos. Lidando com as dificuldades inerentes à vida acadêmica de qualquer estudante, cabe ainda aos jovens se unir aos experientes exorcistas da Ordem da Cruz para lutar contra as forças do mal que pretendem unificar os reinos de Assiah (o mundo dos humanos) a Gehenna (o mundo dos demônios).

O primeiro tema de abertura de “Blue Exorcist”

Com direção de Tensai Okamura; produção de Hiro Maruyama pelo estúdio A-1 Pictures; roteirização de Ryōta Yamaguchi e trilha sonora de Hiroyuki Sawano, a 1ª temporada de “Blue Exorcist” foi exibida pela primeira vez de abril a outubro de 2011, pela rede MBS, totalizando 25 episódios e 1 OVA (“Runaway Kuro” / “Kuro no Iede”, lançado em Blu-ray e DVD) de 25 minutos cada. Ah, você encontra na Netflix, ok?

Um pouco mais sobre o Exorcista das Chamas Azuis:

A busca por aceitação que Rin percorre em todo o anime é, sem sombra de dúvidas, um dos pontos altos da produção

Apesar de ambos os gêmeos carregarem o sangue de Satã em suas veias, logo no episódio piloto nos é explicado que apenas Rin herdou os poderes de seu pai biológico, os quais são facilmente identificáveis através de inconfundíveis chamas azuis (daí o nome da franquia). Assim, e a fim de esconder a chamativa aparência não humana de seu primogênito, Fujimoto não pestanejou ao submetê-lo à destreza da Kurikara, uma lendária espada cortadora de demônios responsável por selar toda a essência diabólica de Rin. Vivendo até a adolescência sem saber a verdade sobre o seu passado – apesar de, esporadicamente, atormentado pela cruel dúvida acerca de sua indiscutível estranheza –, é com o assassinato de seu pai adotivo que o menino desperta seu lado mais obscuro e se incumbe da missão de derrotar o Lorde das Trevas.

Entretanto, se engana Rin ao acreditar que seus colegas (e até mesmo o Vaticano) aceitarão sua verdadeira identidade sem questionamentos, já que quase todos à sua volta parecem guardar um forte receio quanto à integridade de suas ações. Incitado a comprovar que é uma pessoa de boa índole, nosso protagonista precisará não apenas encarar o preconceito daqueles que almejam a sua morte como ainda encontrar uma maneira de controlar seus instintos mais primitivos e selvagens. Felizmente, é ao lado de uma antiga discípula de Fujimoto (Shura Kirigakure), de seu próprio irmão e daqueles que acreditam na legitimidade de seus planos que o Exorcista das Chamas Azuis precisará encontrar a inspiração necessária para enfrentar o seu demoníaco destino.

A mais do que bem-vinda “Saga de Quioto”:

Kuro, Rin Okumura e Renzo Shima (frente); Ryuji ‘Bon’ Suguro, Izumo Kamiki, Shiemi Moriyama, Konekomaru Miwa e Yukio Okumura (atrás); Mephisto Pheles e Amaimon (acima)

Concluídos os eventos que foram ao ar em outubro de 2011, foi após quase 6 anos sem novidades na TV que o mesmo A-1 Pictures decidiu fazer o inesperado e reanimou os ânimos de todos aqueles que guardavam um mínimo de esperança para a continuação do anime. Ignorando o desfecho de tudo que aconteceu nos últimos 8 episódios da 1ª temporada (sim, se prepare para “esquecer” um bocado de acontecimentos memoráveis) e seguindo fiel ao que nos é relatado pelos volumes 5 a 9 do mangá, “Blue Exorcist: Kyoto Saga” cortou os fillers de vez e diminuiu drasticamente seu número de episódios (de 25 para 12).

Nos introduzindo a uma nova narrativa com novos vilões e novos personagens secundários, “Kyoto Saga” leva os exwires da Academia da Cruz até a cidade de Quioto, onde eles conhecerão os familiares de Ryuji ‘Bon’ Suguro e Renzo Shima. É lá que o diversificado grupo deverá proteger os olhos direito e esquerdo do Rei Impuro, artefatos das trevas de um poder imensurável que, se combinados, podem desencadear uma catástrofe sem tamanhos.

Com direção de Koichi Hatsumi, roteiros de Toshiya Ōno e trilha sonora de Hiroyuki Sawano e Kohta Yamamoto, a 2ª temporada de “Blue Exorcist” foi exibida de janeiro a março de 2017, pela rede MBS, totalizando 12 episódios e 1 OVA (“Snake and Poison” / “Hebi to Doku”, lançado em DVD) de 25 minutos cada.

“Blue Exorcist” nos cinemas:

Pôster promocional de “Blue Exorcist: The Movie(2012)

Entretanto, muito antes de sermos presenteados com “Kyoto Saga”, Rin e Yukio Okumura já haviam recebido uma outra oportunidade de nos guiar para um novo tour pelas terras possuídas de “Blue Exorcist”. Liberado sob a forma de longa-metragem, “Blue Exorcist: The Movie” (“Ao No Exorcist Movie” ou “Ao No Exorcist Gekijouban”), lançado no dia 28 de dezembro de 2012 (a propósito, um dia após o aniversário dos irmãos protagonistas), conta com 1h30min de duração e teve seu enredo baseado tanto no mangá quanto no anime homônimo.

Animados com os preparativos de um grande festival que é celebrado uma vez a cada 11 anos, os aprendizes do cursinho de exorcistas veem toda sua excitação ir por água abaixo quando inúmeros demônios começam a se manifestar pela cidade. Porém, a situação piora drasticamente com o surgimento de um trem fantasma e de uma tentativa falha de exorcizá-lo, cabendo a Rin a desafiadora tarefa de vigiar Usumaro, um estranho garotinho que, inesperadamente, aparece no meio de toda a confusão. Prontamente dispostos a resolver os conflitos que arriscam prejudicar a realização do festival, logo os membros da Ordem da Cruz descobrirão que os eventos caóticos de agora estão intimamente conectados a uma história infantil do passado que há anos é recontada entre pais e filhos.

Dirigido por Atsushi Takahashi, roteirizado por Reiko Yoshida e produzido em parceria pelos estúdios A-1 Pictures e Toho Studios, “Blue Exorcist: The Movie” contou com a já familiar trilha sonora do mestre Hiroyuki Sawano (o mesmo responsável pelas duas temporadas do anime).

O exorcismo em “Blue Exorcist”:

Apesar de focar num tema considerado polêmico para muitos, a religião mal chega a ser mencionada nos exorcismos de “Blue Exorcist”

A este ponto da resenha certamente já está mais do que claro que demônios e exorcismos são os temas mais presentes em toda o anime. Entretanto, apesar de o Vaticano ser citado com frequência e reaproveitarem bem a cultura cristã para ilustrar diversas situações, é com imenso prazer que podemos dizer que criatividadefidelidade à cultura oriental predominam no espetáculo do início ao fim. Fanatismo religioso então, nem pensar, já que o pessoal por trás da franquia decidiu priorizar mais a questão mitológica do Cristianismo que a espiritual!

Para saber em qual especialidade os exwires da Academia da Cruz irão enfrentar suas batalhas, “Blue Exorcist” utiliza-se da denominação meister (do alemão “mestre”), uma espécie de título obrigatório concedido àqueles que desejam seguir carreira como exorcistas. Assim, e para extrair o melhor de cada aprendiz, 5 são as classes existentes, cada uma destacando uma habilidade distinta. Não importa qual classe o candidato opte: se for aprovado ao menos em uma, já pode ser considerado um exorcista. Assim, a animação traz knights (exorcistas que lutam com espadas); dragoons (armas); tamers (invocando e controlando demônios); arias (recitando a bíblia e outras escrituras sagradas); e doctors (que usam suas habilidades para curar humanos de danos causados por demônios). É dito no anime que Shiro Fujimoto possuía todos os 5 títulos.

O melhor da atualidade:

Com traços modernos e um enredo pra lá de extraordinário, “Blue Exorcist” é uma aventura e tanto para quem se interessa por animações inteligentes e de qualidade

Dando enfoque para as intermináveis cenas de batalha que, como é de se esperar, são mais do que bem executadas, “Blue Exorcist” supera as expectativas do telespectador e não faz feio ao combinar comédia com drama em uma roupagem totalmente sobrenatural. Tem até espaço para uma leve pitada de romance! Isso porque, além de ganhar a nossa atenção com o brilhantismo que é inerente a temática dos exorcismos, Ryōta Yamaguchi, Toshiya Ōno e Reiko Yoshida desenvolvem com maestria toda a narrativa construída por Kazue Katō, o grande nome por trás da franquia.

Como dito acima, até mesmo a 1ª temporada do anime, que é recheado de fillers e diversos pontos originais que divergem da história contada pelo mangá, supera o script original e nos conquista com um toque bem pessoal. É nesta oportunidade que citamos os emocionantes “Garden of Amahara” / “Amahara no Niwa” (S01E04) e “Black Cat” / “Ketto Shī” (S01E10), episódios em que conhecemos um pouco mais da vida de Shiemi Moriyama, a melhor amiga de Rin; e o gato-demônio Kuro, um antigo protegido de Fujimoto. Ainda que a vida de ambas as personagens sejam bastante aprofundadas por estas passagens, não custa nada dar uma chance para todo a animação de uma forma geral, incluindo os dois OVAs, e, é claro, o longa-metragem (que também mistura muito drama com comédia de uma forma fenomenal).

Apesar de nos intrigar com determinadas personas que rapidamente transformam nossa empatia instantânea em ódio gratuito e vice-versa (como o caso do demônio Amaimon, ou até mesmo da complicada Izumo Kamiki), “Blue Exorcist” é uma produção de mão cheia para todos aqueles que são exigentes à construção do roteiro, à qualidade dos traços e até mesmo à caracterização das personagens. Felizmente, o show não deixa a desejar em qualquer requisito e segue firme, como dissemos no começo desta resenha, como um dos melhores lançamentos exportados pela Terra do Sol Nascente dentro destes últimos dez anos. Completíssimo e com um número razoável de episódios (vamos lá, não chega a 40, dá para assistir tudo rapidinho), você definitivamente não se arrependerá de conferir o que de melhor e mais atual a indústria dos animes tem a oferecer ao telespectador de bom senso crítico.

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“Slayers”: vale a pena assistir?

Meu querido leitor, se você já é adulto, e adicionalmente passou da casa dos 20, então é bem provável que tenha crescido na companhia dos saudosos programas infantis da TV aberta que exibiam as sempre populares animações japonesas. Em tempos em que a internet discada mais falhava do que funcionava, a criança que existe aí dentro certamente voltava correndo do colégio só para não perder os episódios que faziam a infância ou adolescência de qualquer um muito mais gostosas.

E é através desse clima de pura nostalgia que selecionamos, após uma extensa maratona, o não tão conhecido anime que dá título ao primeiro “Vale a pena assistir?” deste mês (sim, já estamos planejando um segundo artigo ainda para setembro). Sem maiores delongas, vamos ao que realmente nos interessa: descobrir se você perderá tempo ou não dando uma conferida em Slayers.

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Precedentes:

Algumas das light novels de “Slayers” (fonte da imagem)

Tendo sua origem há exatos 28 anos, quando ganhou um singelo destaque na revista “Dragon Magazine”, em uma curta narrativa, “Slayers” não demorou muito para se consolidar numa sólida franquia que se estendeu rapidamente para as páginas dos mangás e para a telinha das animações e dos jogos de videogames. Contando, inicialmente, as histórias de Hajime Kanzaka que ganharam vida graças aos traços de Rui Araizumi, a marca não fez feio após sua tímida estreia e conquistou o Japão em 15 volumes veiculados pela renomada publicação da editora Fujimi Shobo, entre os anos de 1990 a 2000, no formato light novel.

Seguida pela duradoura “Slayers Special” (1991-2008), as aventuras de Lina Inverse e seus amigos caíram tanto no gosto popular que levou apenas seis anos para sair da indústria literária e chegar até a televisiva no primeiro e grandioso anime exibido pela TV Tokyo, em 1995. Produzido pelos estúdios E.G. Films e J.C.Staff ao longo de 26 episódios, a direção do homônimo “Slayers” ficou a encargo de Takashi Watanabe (“Lost Universe”), enquanto Takao Koyama foi o responsável por adaptar para a TV os 3 primeiros volumes da precursora light novel. E esta era apenas a ponta do iceberg!

Lina Inverse, o cordeiro em pele de lobo:

Lina Inverse, a protagonista de toda a franquia

Na história que nos é apresentada pelo pioneiro “Slayers” (1995), Lina Inverse é uma jovem feiticeira de apenas 15 anos popularmente conhecida como a maior assassina de bandidos e dragões de que se tem notícia. Temida por todos aqueles que mais cedo ou mais tarde acabam entrando em seu caminho, ela logo faz amizade com o habilidoso Gourry Gabriev, um charmoso e avoado espadachim que acompanha nossa jovem protagonista ao longo de todas as 5 temporadas do anime. É durante essa jornada de muitos perigos e desafios que se juntam definitivamente ao seu grupo expedicionário a princesa justiceira Amelia Wil Tesla Saillune, herdeira do trono de Seyruun, e o anterior guerreiro agora transformado em quimera Zelgadis Greywords.

O que muitos não sabem, porém, é que Lina Inverse, ao contrário do que alertam todos os rumores ao seu respeito, é na verdade uma garota muito sensata que não desperdiça uma oportunidade de ajudar o próximo (contanto, é claro, que seja generosamente recompensada por altas quantias de ouro ou por fartas refeições). Orientada por um senso de justiça bastante forte que carrega para onde quer que vá, não é mistério para ninguém que será justamente em suas costas que recairá toda a responsabilidade de salvar não apenas seus queridos amigos, mas também todo o restante da humanidade – principalmente da ameaça infligida pelo maior demônio de todos os tempos, o destruidor Shabranigdo.

A primeira das muitas aberturas fantásticas do anime

Auxiliada por seus companheiros de viagem e por todos aqueles que se prontificam a ajudá-la em sua árdua tarefa (dentre os quais destacamos aqui o sempre misterioso Xellos, o fofíssimo Pokota, a também feiticeira Sylphiel e a bondosa Filia), Lina Inverse aproveita toda essa trajetória de dificuldades e aprendizado para se aprimorar naquilo que melhor sabe fazer: magia. Para os amantes dessa arte oculta que instiga a nossa imaginação há tantos séculos, “Slayers” é uma produção de mão cheia que surpreende a cada novo episódio e não desaponta até mesmo o mais exigente dos telespectadores.

Um só anime, diversas ramificações:

Somente a 1ª temporada chegou dublada ao Brasil, quando foi exibida pela TV Bandeirantes

Encerrados os acontecimentos que desencadeiam “Slayers” (1995), somos então levamos para “Slayers Next” (1996) e “Slayers Try” (1997), o 2º e 3º arcos da franquia que receberam a mesma direção, produção e roteirização da primogênita temporada. Uma curiosidade bastante peculiar sobre estes dois segmentos é que, enquanto “Next” manteve-se fiel ao enredo narrado pela light novel e adaptou para a TV os eventos ocorridos entre os volumes 4 a 8, “Try” nos apresentou uma história totalmente original, ambas com 26 episódios cada. Uma 4ª temporada, denominada “Slayers Again”, até chegou a ser cogitada seguindo o sucesso de “Try”, mas os rumores da época apontam que o projeto foi rapidamente engavetado, sendo que só tivemos notícias de um novo lançamento mais de uma década mais tarde.

Assim, ainda sob a produção do estúdio J.C.Staff, sob a transmissão da TV Tokyo e a direção de Takashi Watanabe – mas desta vez com os roteiros de Jiro Takayama –, os sempre fiéis seguidores de “Slayers” tiveram a honra de ser apresentados, muitos anos depois, a “Slayers Revolution” (2008) e “Slayers Evolution-R” (2009), as duas últimas temporadas responsáveis por colocar um ponto final na série televisiva. Cada uma exibindo 13 novos episódios de uma narrativa inédita inspirada em subplots pertencentes às light novels, ambas as novidades foram liberadas em continuação com uma arte muito mais moderna que, em momento algum, chegou a desrespeitar todo o legado construído pela marca em plenos anos 90. É o novo dando as boas-vindas ao velho da melhor maneira que se pode imaginar!

O outro universo de “Slayers”:

Naga e Lina em poster promocional de “Slayers Perfect” (1995), o primeiro longa-metragem

Paralelamente, o que a maior parte de quem assistiu ao anime (e não deu a mínima atenção para os demais formatos) desconhece é que, diferente do que pôde ser visto na telinha da televisão japonesa, o desfecho do que acontece nos filmes e nos episódios em OVA é inteiramente à parte da série principal, quase funcionando como prequelas. Isso porque não apenas todos os 4 longas-metragens, mas também os 6 episódios extras liberados diretamente em vídeo, nos redirecionam aos primórdios da saga de Lina Inverse, quando a feiticeira sequer conhecia Gourry Gabriev ou sua tão desejada Espada da Luz.

Desta maneira, tanto em “Slayers Perfect” (1995) [também conhecido como “Slayers The Motion Picture” e “Slayers The Movie: Perfect Edition”]; como em “Slayers Return” (1996) [também conhecido como “Slayers Movie 2: The Return”]; “Slayers Great” (1997); e “Slayers Gorgeous” (1998), Lina desbrava o mundo ao lado de ninguém menos que Naga, a Serpente, uma atrapalhada feiticeira que se autointitula a maior inimiga da protagonista – apesar de, na verdade, nutrir uma grande amizade por ela.

O mesmo, é claro, se repete nos lançamentos em OVA, os quais podem ser encontrados por aí sob os nomes “Slayers Special” (1996) [também chamado de “Slayers: Dragon Slave”, “Slayers: Explosion Array” e “Slayers: The Book of Spells”]; e “Slayers Excellent” (1998), tendo, cada, 3 episódios, totalizando 6. A grande exceção, talvez, fique com o 5º filme da franquia, “Slayers Premium” (2001), um curta-metragem de 30 minutos; e a participação de Nama em “Slayers Evolution-R”, que foram o mais próximo tivemos de uma colisão entre o passado e o presente da vida de Lina.

“Slayers” nos videogames:

Tela de entrada de “Slayers” (1994), o primeiro jogo da franquia liberado para o SNES

Se você se interessou para reviver a fascinante jornada de Lina Inverse e seus amigos nos videogames, então precisa saber que a franquia “Slayers” se expandiu para os títulos: “Slayers” (1994), para o SNES; “Slayers Royal” (1997) e “Slayers Royal 2” (1998), para Sega Saturn e PlayStation; e “Slayers Wonderful” (1998), para PlayStation. Vale dizer, também, que diversos de seus personagens, como Lina, Gourry e Naga, cresceram tanto na indústria eletrônica que ganharam destaque em crossovers como “Magical Battle Arena” (2008), para PC; “Heroes Phantasia” (2012), para PSP; e “Granblue Fantasy” (2014), para Android e iOS.

Comédia, romance e uma leve pitada de erotismo:

Imagem promocional de “Slayers Evolution-R” (2009), a última temporada do programa

Quebrando o padrão dos animes de ação e aventura da década de 90 que traziam, quase que em sua maioria, protagonistas masculinos, “Slayers” esteve tão à frente de seu tempo que foi, provavelmente, um dos pioneiros a explorar o girl power entre seus jovens telespectadores. E fique sabendo que esta não foi uma decisão exclusiva dos estúdios E.G. Films e J.C.Staff, pois, desde a época das light novels e mangás a franquia já possuía como público alvo os jovens leitores japoneses do sexo masculino (tanto que os primeiros mangás foram publicados como seinen e os mais recentes como shōnen). Seguindo por esta linha de raciocínio, não seria de todo absurdo se os traços da animação seguissem fiéis ao material impresso e sexualizassem o corpo feminino ao extremo, como de fato aconteceu, sendo Naga, a Serpente o maior exemplo disso.

Em contrapartida, grande parte da comédia proveniente de “Slayers” parte exatamente dessa premissa, uma vez que Lina Inverse é uma garota baixinha e desprovida de um corpo violão, recebendo, para sua infelicidade, os comentários mais asquerosos possíveis. Como boa feiticeira que é, ela não deixa barato e está sempre enfeitiçando aqueles que ousam criticar sua aparência, não pensando duas vezes antes de mirar um “Fireball” ou “Dragon Slave” nos tarados de plantão que têm a audácia de chamá-la de “sem peito”. Transbordando impaciência e impulsividade, é graças ao cuidado redobrado de Amelia, Gourry e Zelgadis que Lina não perde a cabeça a todo momento e consegue manter o foco em si mesma, seja para desempenhar as tarefas que lhe são passadas pelos homens de poder de cada cidade que visita, seja para frequentar um restaurante e deixá-lo à beira da falência.

Uma última vertente do programa que não poderia deixar de ser mencionada, é claro, é o romance, já que a nossa protagonista e Gourry chegam a viver alguns raríssimos momentos bem calientes – o que não é lá muito fácil para Lina, pois o cara é bastante tapado e estraga qualquer chance de conquistar a sua amada. O espadachim é tão disputado pelo elenco feminino que somos agraciados, em “Slayers Next”, com um dos mais divertidos episódios de toda a animação: “You Can’t Escape! The Return of the Obsessive Martina!”, o 6º dessa temporada. Apesar de nunca explorado com maiores detalhes, fortes indícios nos fazem crer que também existiu no anime um outro romance platônico envolvendo Amelia e Zelgadis, mas essa é uma teoria que jamais pôde ser comprovada na TV, pois o grupo sempre esteve tão ocupado combatendo o mal que jamais conseguiu tirar um segundo para refletir sobre suas vidas amorosas. Se não está fácil nem para Lina e Gourry, quem dirá para Amelia e Zel!

Um clássico que poucos conhecem:

Amelia, Gourry, Lina, Xellos (fundo) e Zelgadis, o grupo completo

Como não é muito difícil de se imaginar após uma resenha tão positiva como esta, “Slayers” é a nossa primeira indicação de anime do mês para todos aqueles que não dispensam uma produção de qualidade que sabe dosar comédia com fantasia na medida certa – e o mais importante: com aquela pitada de nostalgia que somente os animes clássicos são capazes de nos proporcionar. Nem um pouco arrastado, cada arco desenvolve-se brilhantemente ao passo que até mesmo os fillers não devem ser evitados. Assista-os: você não pode perder a oportunidade única de ver Lina e Amelia cantando e dançando em “The Forbidden Dance? Where is the Strongest Spell?” (S02E14) com roupas bem ao estilo Sailor Moon (veja aqui um trechinho).

Trazendo, inclusive, alguns efeitos sonoros bem similares aos de cults como “Dragon Ball Z”, você não demorará para notar que, assim como outros grandes clássicos noventistas, “Slayers” segue uma linha de produção infalível que há anos se perdeu por entre os últimos lançamentos japoneses. Com jogadas inteligentes de roteiro e uma caracterização das personagens tão específica que entrará na sua cabeça para certamente jamais sair (existe risada mais irritante, adorável e maravilhosa que a de Naga, a Serpente?), o show extravasa criatividade ao mesmo tempo que controla uma simplicidade sem tamanhos. Se é tempero que você quer, então pode se recostar na cadeira e relaxar, pois este aqui tem de sobra.

Este artigo é dedicado ao amigo Kelvin

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Porque Serena van der Woodsen é a melhor personagem da série de TV “Gossip Girl”

Quem se liga em séries de TV provavelmente já ouviu falar do fenômeno adolescente Gossip Girl: programa inspirado na coletânea de livros escrita por Cecily von Ziegesar e que foi ao ar entre os anos de 2007 a 2012, pela The CW. Comandada pelos já experientes Josh Schwartz e Stephanie Savage (os mesmos criadores de “The O.C.”), a superprodução fez bastante sucesso por onde passou e não falhou ao alavancar a carreira de jovens talentos como Blake Lively, Leighton Meester e até mesmo Taylor Momsen, a ex-atriz e atual vocalista do The Pretty Reckless.

Comemorando o fato de que seu episódio piloto foi exibido pela primeira vez há quase 10 anos, em um já longínquo 19 de setembro de 2007, resolvemos tirar a poeira da prateleira e preparamos este artigo especial para relembrar o império de uma das mais amadas (e detestadas) personalidades da cultura pop moderna. Antes, entretanto, vale a pena puxar na memória a fascinante história que sustenta este show.

Este texto contém spoilers: siga por sua conta e risco. Boa leitura!

Gossip Girl here…

…your one and only source into the scandalous lives of Manhattan’s elite

Passando-se em uma Nova Iorque dos tempos atuais, Gossip Girl (“A Garota do Blog”, no Brasil) nos apresenta à vida de dramas e excessos protagonizada por seis adolescentes frequentadores do Upper East Side, um dos bairros mais nobres e badalados de Manhattan. Tudo se inicia quando Serena van der Woodsen (Blake Lively) retorna para sua cidade natal decidida a solucionar os problemas que a levaram a passar um longo período afastada dos amigos e dos familiares. Devendo lidar com as consequências de sua drástica escolha – principalmente com as desavenças compartilhadas com sua até então melhor amiga Blair Waldorf (Leighton Meester) e com sua mãe, Lily (Kelly Rutherford) –, a moça vai aos poucos se reintroduzindo à costumeira rotina de outrora enquanto tenta não cometer os mesmos erros que assombram seu passado.

Evitando, a princípio, seu antigo círculo de amigos – do qual fazem parte os populares Nate Archibald e Chuck Bass (Chace Crawford e Ed Westwick, respectivamente) –, S, como é chamada pelos mais íntimos, acaba por conhecer e se apaixonar pelo sistemático aspirante a escritor Dan Humphrey (Penn Badgley): um garoto comum de classe média que vive no Brooklyn juntamente com o pai, Rufus (Matthew Settle), e a irmã caçula, Jenny (Taylor Momsen). Como se já não bastasse familiarizar-se com toda a pressão imposta pela alta sociedade local, Serena e seus colegas precisam lidar ainda com os conflitos criados pela sempre problemática Gossip Girl: uma blogueira anônima que se ocupa em publicar toda e qualquer fofoca que se esconde por detrás da escandalosa vida da elite de Manhattan. Assim, é dada a largada para uma complexa trama desenvolvida ao longo de 121 episódios organizados em 6 distintas temporadas.

Uma estrela dando vida à outra:

Quem interpreta Serena é a encantadora Blake Lively, também conhecida por seu trabalho nos filmes “A Incrível História de Adaline” (2015) e “Águas Rasas” (2016)

Escalada para estrelar Gossip Girl (até porque não é coincidência seu nome ser o primeiro a aparecer durante os créditos de apresentação), Blake Lively é quem personifica a nossa it girl Serena van der Woodsen. Entretanto, não é segredo para ninguém que, com o desenrolar das temporadas, foi o casal inédito no universo literário Blair Waldorf e Chuck Bass (Meester e Westwick) que conquistou a devoção de todos aqueles que acompanharam a série desde a sua estreia. Seja pela química impressionante partilhada entre a dupla, seja pelo descaso dos roteiristas em dar um desfecho decente para sua principal protagonista, a verdade é que, mesmo em seus piores momentos, Lively conseguiu fazer muito com o pouco que lhe foi entregue para aprimorar. Ofuscada, esporadicamente, pelas tramas vivenciadas por seus colegas de trabalho (as quais, diga-se de passagem, eram bem mais espontâneas e interessantes), a loira permaneceu determinada do início ao fim e nos entregou o que é, ao nosso ver, uma das personas mais intrigantes da história televisiva contemporânea. E isso tudo não teria funcionado, é claro, se a própria Blake não tivesse nos emprestado todo o brilho e empatia que seu semblante transmite com tanta naturalidade.

Problemas, problemas e mais problemas:

Álcool, drogas e garotos são apenas algumas das muitas válvulas de escape utilizadas por Serena para fugir de seus problemas domésticos

Sem muitos rodeios, é inevitável dizer que Serena é a típica colegial bonita, rica e popular que consegue tudo o que quer sem o mínimo de esforço (este é, a propósito, um dos pontos mais reiterados ao longo de todo o programa). Com fama de festeira e bastante namoradeira, a menina desconta na bebida e nos garotos todas as frustrações que encontra diariamente dentro de casa. Crescida em uma família desajustada graças ao divórcio de seus pais que resultou na agitada vida amorosa de sua mãe e no afastamento completo de seu pai, S e seu irmão mais novo, Eric (Connor Paolo), desde muito jovens tiveram de aprender a encarar o mundo como ele realmente é – diferente dos Humphrey, por exemplo, que sempre tiveram o apoio de Rufus; ou dos Waldorf, que contaram com a total dedicação da melhor empregada de todos os tempos (e espiã nas horas vagas), Dorota Kishlovsky (Zuzanna Szadkowski).

Conhecida por ser uma garota problemática que não leva nada muito a sério, é ao lado de Georgina Sparks (Michelle Trachtenberg) que Serena atinge o fundo do poço incontáveis e incontáveis vezes – chegando a acreditar, inclusive, ter sido a responsável pela morte de um homem, lá no final da 1ª temporada. Ingênua que só vendo, seus planos dificilmente dão certo – até porque, quando a situação se complica, prefere assumir a culpa e sair de cena, enclausurando-se em um casulo de inseguranças que a isola daqueles que mais ama. É em um desses momentos de maior desespero que presenciamos a verdadeira face da Srtª van der Woodsen durante a reta final da 5ª temporada: alguém com sérios problemas de confiança que permanece cometendo os mesmíssimos erros em um triste loop infinito.

She’s a maneater:

Cena de “G.G.” (S05E13), o divertido episódio em que Serena sonha ser Marilyn Monroe na clássico “Os Homens Preferem as Loiras” (1953)

Sempre muito bem vestida, com os cabelos impecáveis e a maquiagem no lugar, não é em vão que Serena atrai para si todos os olhares daqueles que frequentam os colégios “Constance Billard School for Girls” e “St. Jude’s School for Boys”. Entrando e saindo de diversos relacionamentos amorosos (o que, nas palavras de sua BFF, pode se resumir em: “Nate, then Dan, then Dan again, Aaron, Gabriel, Carter, Tripp, then Dan again, then Nate again”), S tende a ser volátil tanto no amor quanto em sua vida particular. Sempre dividida entre o que realmente quer e o que as pessoas próximas de seu convívio esperam de si, é com a ajuda de Queen B que, constantemente, a garota sai de cima do muro e opta por algo que tenha a ver com a sua personalidade. Bem resolvida sexualmente, vez ou outra confunde liberdade com promiscuidade, redirecionando suas atitudes para um caminho de descarada insensatez – como quando transou com Nate e Dan enquanto estavam comprometidos ou apaixonados por ninguém menos que… Blair. Complicado!

Muito mais do que apenas um rostinho bonito:

Serena e Blair em um dos momentos mais aconchegantes da série em “Bad News Blair”, (S01E04)

Todavia, se a filha dos van der Woodsen transborda defeitos e encabeça diversas das situações mais desnecessárias de todo o Upper East Side, ela também não poupa esforços quando o assunto é o bem e proteção daqueles que mais importam em sua vida: sua família e amigos.

Sua primeira grande demonstração de caráter pode ser vista no memorável “Poison Ivy” (S01E03), episódio em que Blair tenta ridicularizá-la em público e Serena, sem hesitar, assume uma mentira para encobertar a tentativa de suicídio do irmão. Seis episódios mais tarde (“Blair Waldorf Must Pie!”) a premissa se comprova quando, mais uma vez, S estende uma mão amiga quando o transtorno alimentar de B vem à tona inesperadamente. E isso porque não mencionamos a inúmeras tentativas de inserção de Dan ao mundo dos grã-finos, ou a sua boa vontade em fazer parte de tudo aquilo que o namorado lhe apresentou – a garota até fingiu não saber jogar sinuca apenas para massagear o ego do cara. Sejamos honestos: aturar Dan Humphrey não é tarefa fácil!

Engajada em cuidar de todos aqueles que vêm ao seu auxílio, S dificilmente guarda rancor e consegue ultrapassar barreiras ao perdoar o que para muitos é imperdoável: sejam os planos maquiavélicos arquitetados por Georgina, seja o quase homicídio culposo orquestrado por Juliet Sharp (Katie Cassidy). Porém, de todos os bons atos praticados pela moça, reaproximar-se de seu pai foi, provavelmente, um dos mais bonitos que pudemos conferir em 121 episódios de série. Deixando todo o orgulho e a mágoa de lado, Serena mostrou que poderia ter sido brasileira e jamais desistiu daquele que foi responsável por quase duas décadas de negligência, mesmo após ter sido dispensada pela segunda vez durante o arco que uniu a 2ª à 3ª temporada; e uma terceira, mais tarde, quando Lola Rhodes (Ella Rae Peck) revelou-se sua meia-irmã.

It Girl, Interrupted:

Serena no revigorante “Yes, Then Zero” (S05E01)

Como se não bastasse sua facilidade em fazer novos amigos (e o bônus de deixar muitos morrendo de inveja, simultaneamente), Serena quebra todos os estereótipos de sua boa aparência quando o assunto é seu lado intelectual, e não apenas social. Leitora de grandes clássicos como “Os Belos e Malditos” (1922), de F. Scott Fitzgerald, ela foi capaz de se adaptar com bastante naturalidade aos muitos empregos que desempenhou entre as temporadas 3 a 5 – quando, é claro, finalmente conseguiu manter o foco em si mesma e deixou os garotos para segundo plano.

Trabalhando para KC Cunningham (Deanna Russo) como publicista de ninguém menos que Tyra Banks (que na série deu vida à atriz Ursula Nyquist), a loira ainda teve tempo de se aventurar com maestria pelos universos hollywoodiano, político e editorial: quando foi assistente pessoal de uma grande produtora de filmes; auxiliou Tripp van der Bilt (Aaron Tveit) em seu escritório por um breve espaço de tempo; e escreveu para Nate no “The New York Spectator”, como colunista.

Contudo, não sendo capaz de aquietar seu imenso conglomerado de incertezas, foram necessárias 4 temporadas e meia para que todas as suas inseguranças transbordassem no que podemos chamar de a fase mais obscura de sua vida. Após ver todos seus relacionamentos amorosos afundarem, sobreviver a propostas desgastantes de trabalho e até mesmo substituir Georgina no controle do blog da Gossip Girl, Serena isolou-se tanto de suas virtudes que esteve irreconhecível nos episódios que antecederam a season finale da 5ª temporada. Ela chegou, inclusive, a deixar Manhattan e adotar uma nova identidade (Sabrina) quando sua recaída em drogas a levou a ser reanimada por paramédicos em um trem. Um triste destino para alguém que havia lutado tanto para se tornar uma pessoa melhor.

Negligenciada pela família, pelos amigos e até mesmo pelos roteiristas:

Voltas e mais voltas

Projetada para ser a queridinha do público, a verdade nua e crua é que, com o desenrolar dos anos, Serena van der Woodson foi jogada às traças enquanto Blair Waldorf consolidou-se na maior estrela por detrás da superprodução da The CW. A impressão é que, ao longo de 6 temporadas de show, sua maior protagonista surgiu do nada para não chegar a lugar algum, enquanto cada uma das demais personagens conseguiram evoluir o mínimo possível – até mesmo Jenny, que saiu de cena nas duas últimas temporadas; e Nate, que desde o início da série preencheu o papel de indivíduo mais avulso do Upper East Side. Iniciando sua jornada como a garota que queria descobrir a sua verdadeira identidade, S termina Gossip Girl sem um desfecho para a sua inspiradora jornada de autoaprendizado, a qual desde o início do programa revelou-se, de longe, a mais consistente.

Com uma lista significativa de ex-namorados e um conhecidíssimo histórico de mau comportamento, Serena definitivamente não é um modelo quando o assunto é a moral ou os bons costumes (por mais que tenha, sim, se doado de todo coração em cada relacionamento que integrou). Carregando mais erros que acertos, por incontáveis vezes pisou feio na bola com aqueles que mais amava, quase sempre motivada pelos argumentos mais egoístas ou infantis. Por isso, não é de se estranhar que os deslizes de Blair e Chuck puderam ser facilmente perdoados pelos telespectadores, já que, de alguma maneira, o casal foi capaz de amadurecer através de sua extensa caminhada de intrigas; enquanto a amiga acabou crucificada, morta e sepultada pela grande maioria de quem acompanhou o espetáculo. Mas isso, talvez, tenha uma explicação bem mais simples do que se pode imaginar!

Ainda assim… humana:

Desconstruindo o conto de fadas

É indiscutível que o público televisivo, de uma maneira geral, demonstra um apreço muito maior por aquelas obras que fogem um pouco da realidade e priorizam a romantização de seu roteiro – e, voluntariamente, impõem o clássico casal dos contos de fadas que sofre à beça antes de conquistar o tão almejado “felizes para sempre”. Convenhamos: não é qualquer um que se simpatiza com a vida comum de uma garota insegura e problemática. Logo, é de se esperar que qualquer personagem ou situação que não se enquadre neste “padrão fantasioso” exigido pela demanda popular seja rejeitado de plano, tal como pudemos conferir no caso da Srtª van der Woodsen. Ao contrário de Blair, a luta de Serena não é contra a aprovação externa, mas interna.

Ao invés de darem à moça a oportunidade perfeita de se encontrar como mulher e profissional, de descobrir-se feliz por mérito próprio, sem a ajuda de um homem (tal como executaram tão bem no início da penúltima temporada), a produção da série preferiu encobrir todas as reais inseguranças que Serena carregou desde a exibição do episódio piloto com um casamento sem propósito algum. A questão a ser discutida nem é se S combina com Dan, mas por que o seu relacionamento prosperou tão rápido quando se havia muito a ser discutido na vida particular de ambos. Tanto um quanto o outro demonstraram, desde o início, defeitos que jamais poderiam ser ultrapassados sem um longo período de preparação e crescimento individuais.

No fim do noite, quando deitamos nossa cabeça no travesseiro e paramos para relembrar cada momento do nosso dia, Serena van der Woodsen é o maior exemplo de que nós, como seres humanos, gastamos a maior parte de nossas vidas cometendo erros (muitas vezes aqueles que prometemos nunca mais cometer). E tudo bem se isso acontecer. Mesmo que, eventualmente, nos encontremos em um indesviável loop de tropeços, tudo o que precisamos nos lembrar é que sempre haverá uma nova oportunidade de consertar o que fizemos de errado. Por mais difícil ou complicada que esteja nossa atual situação, não podemos jamais nos esquecer de acreditar que, mais cedo ou mais tarde, iremos acertar – ou recomeçar, se este for o caso, assim como Serena tanto tentou. O segredo não está em viver o conto de fadas dos nossos sonhos (porque, querendo ou não, estamos falando da vida real), mas em superar os obstáculos do dia a dia e tentar, sempre, dar o nosso melhor ‘eu’. Apesar de beneficiada pelos privilégios que sempre a acompanharam desde o nascimento, Serena van der Woodsen é tão imperfeita, real e complicada quanto você e eu.

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Com reboot inesperado, Paramore celebra toda sua positividade no novo álbum “After Laughter”

É comum a toda e qualquer pessoa encontrar um momento na vida em que repaginar o visual revela-se algo necessário não apenas para a autoestima e o bem-estar, mas também para a autodescoberta de uma nova identidade. E quando esses indivíduos, em especial, trabalham com o meio artístico, é bem provável que a busca por caminhos até então inexplorados reflita direta ou indiretamente naquilo em que estão habituados a produzir, e isso não é segredo para ninguém. Seja por meio de gêneros do cinema e da TV muitas vezes intocados pela filmografia de nossos atores favoritos, essa mudança repentina de ares não poderia ser diferente e também persegue alguns dos profissionais mais populares da indústria fonográfica – e, felizmente, nos rende alguns lançamentos memoráveis que são recebidos de braços bem abertos por nossas bibliotecas musicais.

Os integrantes do Paramore em photoshoot para a revista “DIY” (foto por: Pooneh Ghana; edição: maio/17)

E, por óbvio, o Paramore jamais seria uma exceção à esta regra quase que sagrada. Após nos conquistar com “Ain’t It Fun”, a vencedora do “Grammy 2015” de “Melhor Canção Rock”, lá do álbum homônimo “Paramore” (2013), finalmente chegou o momento do trio comandado por Hayley Williams nos deixar ouvir o que aprontou nos estúdios de gravação por estes últimos quatro anos. Liberado oficialmente há menos de uma semana (12/05) – poucos dias após vazar na internet, é claro –, “After Laughter” mal saiu do forno e já tem conquistado tanto a crítica especializada quanto o público em geral. Liderado pelo carro-chefe “Hard Times” (#90 no “Hot 100” da Billboard norte-americana), o 5º disco de inéditas do Paramore é atualmente promovido por “Told You So”, a faixa super oitentista que recebeu, recentemente, um clipe totalmente vintage e recheado de referências à moda daquela época (não deixe de assistir).

Distribuído sob o selo da “Fueled by Ramen”, “After Laughter” vai direto ao ponto e, sem qualquer enrolação, nos apresenta à breves (e incríveis) 12 novas faixas, todas produzidas por Taylor York (o guitarrista da banda) e Justin Meldal-Johnsen (que já havia trabalhado anteriormente em “Paramore”). Recebendo as composições de Hayley Williams, Zac Farro (que desde o começo de 2017 voltou para a formação), Aaron Weiss (vocalista do MewithoutYou) e York, o novíssimo trabalho inspira-se bastante no new wave dos anos 80 e ainda navega pelos sempre bem-vindos pop rock e synth-pop – gêneros que já haviam marcado presença em hits passados dos álbuns “All We Know Is Falling” (2005), “Riot!” (2007), “Brand New Eyes” (2009) e “Paramore” (2013).

Demonstrando todo o simbolismo que se esconde atrás desta experiência inédita que tem transbordado positividade para todos os cantos, Williams revelou recentemente que “After Laughter” tem sido “(…) um grande passo para nós como banda e é definitivamente um novo som. Nós estamos muito orgulhosos disso. Eu sinto que [que o álbum] realmente reflete quem nós somos agora”. Contudo, você pode até já ter ouvido as novas músicas do grupo e espalhado as boas novas por aí, mas provavelmente está se questionando sobre o real significado deste título tão curioso. “After Laughter é sobre o olhar no rosto das pessoas quando elas terminam de rir. Se você olhar alguém por tempo suficiente, sempre verá aquele olhar que vem em seu rosto quando para de sorrir, e eu sempre achei isso muito fascinante, imaginar o que a trouxe de volta à realidade”.

Exaustão, depressão e ansiedade são apenas alguns dos muitos temas abordados liricamente pelo “After Laughter”

Dando-nos um gostinho de tudo que vem pela frente, “After Laughter” tenta nos conquistar com a supremacia de seu alto-astral e já abre os trabalhos com a queridinha “Hard Times”, a primogênita que inicia a tracklist do 5º disco de inéditas da banda. Totalmente contagiante e com uma pegada chiclete que é típica do pop e dance lá da década de 80, o lead-single possui uma estrutura bastante simples que, em questão de segundos, entrará na sua cabeça para não sair pelo restante da semana (pelo menos). Não muito diferente, este é o caminho reafirmado por “Rose-Colored Boy” e “Told You So”, estas duas supermodernas faixas dançantes que parecem ter sido retiradas (e restauradas) de um badalado clube noturno nova-iorquino de 30 anos atrás.

Deixando a ambientação um pouco mais suave, “Forgiveness” e “Fake Happy” abrem o segundo arco do álbum, este responsável por harmonizar a sonoridade trabalhada até aqui e trazer um equilíbrio mais do que convidativo – antes, é claro, de nos encaminhar para o ápice de sua fragilidade com a intimista “26”, o verdadeiro coração de “After Laughter”. Bem crua e guiada pelas cordas de um violão poderoso que acentuam toda a honestidade da voz de Hayley Williams, a balada é comovente o suficiente para não desapontar, obviamente.

Recuperando a energia gradativamente, “Pool” cresce em nossos ouvidos e, sem muita cerimônia, revela-se uma das melhores gravações do material (e, por que não, do próprio catálogo do Paramore). Instintivamente apaixonante, a 7ª canção chega ao seu fim após nos cativar com uma inocência estrondosa que deságua na tão boa quanto “Grudges” – a qual foi memoravelmente comparada, pela crítica gringa, ao trabalho de outros grandes artistas, como o The Cure e The Bangles. Assim, chegamos a “Caught in the Middle”, que mesmo sem perder a energia inicial de “After Laughter”, fraqueja discretamente e dá indícios de que precisamos de uma nova lufada de ar fresco antes de prosseguir.

O clipe de “Hard Times” foi dirigido por Andrew Joffe (o mesmo de “Our Own House” e “Reflections”, do MisterWives)

Este novo fôlego, felizmente, nos é proporcionado pela independente “Idle Worship”, a gravação perfeita (e mais do que bem-vinda) para nos preparar para o adeus inadiável. Após abrir lugar para a brilhante “No Friend”, a única música com dedo de Aaron Weiss na composição (pasmem, é a primeira do Paramore a não apresentar vocais de Hayley Williams), não nos resta outra saída senão abraçar a melancolia imensurável de “Tell Me How” e, já com o coração na mão, aceitar a saudade e nos despedir do que se mostrou, até agora, o melhor disco internacional do ano. Como uma festa retrô carregada de boas vibrações que infelizmente chega ao seu triste fim, “After Laughter” enche o nosso peito com aquela maravilhosa sensação de “dever cumprido” que somente uma banda do patamar do Paramore seria capaz.

Por alguma razão desconhecida e bastante enigmática, esta é a primeira vez em um considerável espaço de tempo que temos o prazer de ouvir um artista das antigas (não nos esquecendo que o Paramore já está com 13 anos de estrada) soar tão revigorante para os atuais padrões do mercado fonográfico. De alguma forma quase que sobrenatural, “After Laughter” chega em nossas mãos como um saudoso reboot de tudo que já ouvimos desde o lançamento de “All We Know Is Falling”, o disco de estreia dos estadunidenses. Sem qualquer sombra de dúvidas, Williams, York e Farro souberam como amadurecer o seu som sem perder a boa mão para a música – e, assim, reinventar um dos nomes mais prestigiados do cenário musical sem o uso de falsos artifícios ou modismos escrachados. Ainda é o Paramore e ainda soa como o Paramore, apesar de não podermos esconder o fato de que esta mudança repentina de ares, apesar de nos ter pego de surpresa, fez um bem danado para os nossos ouvidos.

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#CoopGeeks: 5 motivos para assistir “Fullmetal Alchemist”

Sucesso internacional em todas as mídias em que foi lançado, “Fullmetal Alchemist”, anime inspirado no mangá de mesmo nome escrito e ilustrado por Hiromu Arakawa (o qual circulou originalmente pelo Japão durante os anos de 2001 a 2010, em 27 volumes), é o grande destaque do nosso TOP 5 de hoje para o Co-op Geeks. Produzido pelo estúdio “Bones” e desenvolvido ao longo de 51 episódios dirigidos por Seiji Mizushima e roteirizados por Shō Aikawa – e que foram ao ar pela primeira vez entre outubro de 2003 a outubro de 2004, pela “MBS” –, não demorou muito para sair da “Terra do Sol Nascente” e transformar-se em uma franquia gigantesca que alcançou o universo dos videogames, dos cinemas e até mesmo dos álbuns de figurinhas.

Assim, decidimos trazer para vocês, queridos leitores, 5 motivos inquestionáveis para todos aqueles que já pensaram em conferir esta obra, mas que, por alguma razão, não levaram seus planos adiante (e precisam, de uma vez por todas, conhecer um dos melhores animes da década passada). Fiquem tranquilos… texto é livre de spoilers:

5 MOTIVOS PARA ASSISTIR “FULLMETAL ALCHEMIST”