Fifth Harmony pode ter perdido seu membro mais valioso, mas o mundo ganhou Camila Cabello

Há quem diga que grupos musicais, principalmente os formados apenas por vocalistas, já nascem com um destino predefinido. E, se pararmos para analisar a carreira das muitas boybands e girlbands que estouraram de The Beatles para cá, até dá para encontrar um pouco de razão em tais alegações. Entre lágrimas e risos, foi com bastante pesar que diversas fã bases tiveram de se contentar com a trajetória solo (e muitas vezes mais promissora) de alguns de seus integrantes mais queridos. Esta premissa, é claro, não poderia ser diferente com os grupos da atualidade, que certamente, assim como seus antecessores, jamais possuíram uma garantia da longevidade de seu sucesso. Foi assim com Spice Girls, Destiny’s Child, *NSYNC, RBD, Rouge, Girls Aloud, Jonas Brothers e One Direction, e por óbvio não poderia ser diferente também com o Fifth Harmony.

Já lidando com os boatos de uma carreira solo desde que integrava o quinteto formado no palco do The X Factor (principalmente após colaborar com Shawn Mendes e Machine Gun Kelly em “I Know What You Did Last Summer” e “Bad Things”), é fato que Camila Cabello percorreu um caminho nada fácil antes de ascender-se em um dos nomes mais comentados da música pop em 2018. Tentando uma abordagem levada pelo pop-dance, foi com o sample de “Genie in a Bottle” e uma sonoridade bem puxada para “Cheap Thrills” que Cabello deu voz ao seu 1º single como solista. Lançada oficialmente no mesmo dia em que seu clipe ganhou o YouTube (em um medley com a também inédita “I Have Questions”), “Crying in the Club” não fez feio no mercado internacional e rendeu à cubana alguns selos de platina e ouro por países como Austrália, Brasil e EUA.

Em dezembro passado Camila completou um ano fora do grupo que a levou ao estrelato

Porém, Camila jamais se contentou com “pouco” e, sem parar de experimentar novos sons, não teve medo algum de mergulhar de cabeça no hip-hop de “OMG”: faixa que dividiu os vocais com o rapper Quavo – e isso porque não mencionamos as muitas colaborações que assinou com Major Lazer, Pitbull e Cashmere Cat em “Know No Better”, “Hey Ma” e “Love Incredible”. Apesar de ter seu nome sob os holofotes mais luminosos da indústria fonográfica, é bem verdade que a moça demorou para repetir a atenção que conquistara com os hits “Worth It”, “Work from Home” e “All in My Head (Flex)” – todos do Fifth Harmony. Seu 1º álbum solo até então atendia pelo nome de “The Hurting. The Healing. The Loving.” e, apesar de (àquela época) não sabermos nada de oficial sobre seu lançamento, muitos já apostavam que o trabalho seria bem recepcionado pelo público.

Colhendo, a longo prazo, os bons frutos gerados pela ótima passagem de “Havana” pelos charts mundiais, a novata acertou na estratégia e não pensou duas vezes antes de conceder ao seu feat com Young Thug o acertado status de lead single. Aproveitando a febre latina criada por “Despacito” e “Mi Gente” que alavancou os nomes de Luis Fonsi e J Balvin, Cabello também nos deu uma aula de empreendedorismo (e necessidade) ao descartar muito do que já havia feito para dar continuidade à mensagem transmitida pelo seu exitoso smash hit. Confiando em sua ancestralidade caribenha, foi influenciada pelos gêneros reggaeton e R&B que Camila liberou, no dia 12 de janeiro, o homônimo “Camila”, sua 1ª experiência como solista pelos estúdios de gravação. Coescrevendo cada uma de suas novas canções ao lado dos notórios Ryan Tedder, Justin Tranter e Simon Wilcox, a moça arrancou os elogios dos críticos e acumulou, no famigerado Metacritic, satisfatórios 75/100.

Distribuído sob os selos da Epic Records, Syco Music e Sony Music, “Camila” cumpriu com o prometido e ultrapassou em muito as expectativas de vendas esperadas para a sua primeira semana em território norte-americano. Distribuindo 119 mil cópias na first week, o trabalho atingiu o #1 na Billboard 200 enquanto “Havana”, simultaneamente, também figurava em #1 em outra importante parada musical dos charts gringos, a Billboard Hot 100 (aliás, a última pessoa a atingir tal feito tinha sido Beyoncé, que em 2003 dominara o mundo com o “Dangerously in Love” e seu carro-chefe “Crazy in Love”). Contendo 11 faixas na edição standard, 12 na da Target e 13 na versão limitada japonesa, o disco recebeu as produções de nomes que vão desde Frank Dukes (“Congratulations”) a Jarami, Skrillex (“Where Are Ü Now”), T-Minus (“How Low”), Bart Schoudel, The Futuristics (“Fetish”), SickDrumz e Jesse Shatkin (“Chandelier”).

Latina da cabeça aos pés: o ensaio fotográfico de “Camila” evidencia bastante as origens da cantora cubana

Indo direto ao ponto, podemos dizer, a grosso modo, que “Camila” explora três vertentes bem distintas entre si, mas que, graças ao bom trabalho de seu time de produtores, fundem-se numa só com uma homogeneidade sem precedentes. A mais evidente, é claro, não poderia ser outra senão aquela já mencionada logo acima, a grande responsável por fazer Cabello mudar de planos bem no meio do caminho. Trazendo um pouquinho mais da sonoridade de sua terra natal, o sucesso de “Havana” foi tamanho que Camila não teve escolha senão encaixar na tracklist do disco outras faixas também tropicais e capazes de dar prosseguimento ao legado iniciado pelo imbatível lead single. Assim, é com bastante desenvoltura que a morena nos apresenta às também maravilhosas “She Loves Control” e “Inside Out”, gravações que, arriscamos dizer, não deverão demorar para chamar a atenção da mídia graças a seu impactante poder radiofônico.

Nem tudo, porém, são rosas! Acompanhando os comentários que seguiram sua saída do 5H (e aqui incluímos a cruel indireta protagonizada pelas meninas do grupo no palco do último VMA), é claro que Camila dedicaria muito do seu tempo livre para dar vida a composições mais intimistas que tivessem a ver com sua personalidade. Desabafando sobre desilusões amorosas e até mesmo a “falta de amigos de verdade”, “Consequences”, “Real Friends” e “Something’s Gotta Give” dão uma pausa no alto astral do bloco anterior e especializam-se em curar algumas feridas até então super expostas. Bem afinada e confiante sobre seus versos melodramáticos, Cabello supera em muito sua anterior tentativa de emplacar uma balada memorável (com “I Have Questions”) e entrega-nos três das mais honestas composições para uma jovem musicista de sua geração.

A estrela (felizmente) solitária

Por fim, todo artista pop que se preze sempre encontra uma maneira, mesmo que discreta, que incorporar as tendências do mainstream aos seus principais trabalhos de estúdio, por mais autorais que sejam suas intenções. Pegando um pouquinho de Lorde em “Into It” e de Hailee Steinfeld em “All These Years” (compare), Camila brinca com a nossa intimidade na desafiadora “In the Dark” antes de fechar o terceiro arco do disco com a já conhecida “Never Be the Same”, a balada mid-tempo com elementos de R&B que atualmente promove o disco como 2º single. Convenhamos que um disco pop não seria tão pop sem a presença de uma gravação ou outra mais clichê, não é mesmo?

(Re)construindo sua imagem do nada apoiada apenas pelo suporte de sua fã-base, é impressionante ver o quanto Camila cresceu em um espaço de tempo tão curto, mas muito bem aproveitado. Aliás, se voltarmos para 2016, podemos notar que a saída da moça do Fifth Harmony se deu num momento um tanto quanto inesperado, pois a girlband jamais estivera em tamanha evidência em toda sua carreira. Caminhando a esmo sem sequer ter uma noção do som que gostaria de criar para sua aguardada estreia como solista, as muitas faixas liberadas antes de “Havana” são a prova de que, se não tivesse “deixado a metade de seu coração” em Cuba, talvez as coisas estariam um pouquinho diferentes agora. Dando as costas para os materiais sem personalidade que consolidaram seu ex-grupo como um dos mais amados da década, também nos surpreende ver que, costurando o pop chiclete com a música latina, Cabello conseguiu encontrar seu diferencial sem soar forçado ou aproveitador.

O clipe oficial de “Havana”

Quem acompanhou todo o bafafá que foi a novela Camila x 5H sabe que indiretas brotaram por toda a internet, principalmente as vindas do quarteto – e aqui abrimos um parêntese não para criticar as demais integrantes do grupo, mas a equipe por trás de sua marca, que não poupou esforços de deixar bastante claro que a ausência de sua quinta integrante jamais faria falta. Descartada como se nunca tivesse existido, a cubana viu-se abandonada por aqueles que, a princípio, deveriam ter apoiado (ou ao menos respeitado) sua procura por independência; mesmo que de sua boca tenham saído apenas agradecimentos. Agora sem precisar dividir os vocais com Lauren, Normani, Ally e Dinah, até percebemos que, de fato, a voz de Camila não casava tão bem com as das demais garotas, apesar de fluir bem natural em suas músicas solo (vide a avalanche de críticas negativas que acompanharam as primeiras performances ao vivo de “Work from Home”).

Não podemos afirmar que a provável imagem de vítima tenha colaborado para a bem sucedida estreia de Cabello; mas, também não dá pra negar que voltas por cima são um afrodisíaco especial entre o público norte-americano (como Britney após 2007 ou Kesha após Dr. Luke). Talvez sensibilizados e empáticos com as persistentes tentativas de Camila de emplacar uma trajetória solo, os EUA tenham finalmente deixado seu patriotismo conservador de lado – mesmo que por apenas alguns meses – para abraçar a capital de Cuba como sua mais velha e querida amiga. Mas também, convenhamos que os próprios esforços da morena merecem ser valorizados! Sempre simpática, extrovertida e com um sorriso no rosto, não é difícil de entender o amor que a moça desperta entre seus mais assíduos fãs, comunidade esta que vem crescendo gradual e espontaneamente. Metade do seu coração pode estar em Havana, Camila, mas o nosso está inteiramente com você!

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Quebrando o jejum, Kylie Minogue libera “Dancing”, sua mais recente aposta para o mercado country-pop

Como o ano mal começou, é natural que, a essa altura do campeonato, não conheçamos a lista completa de veteranos da indústria musical programados para um comeback ao longo de 2018. Entretanto, se a ansiedade de alguns não colabora e tende a crescer cada vez mais, pelo menos os admiradores de Kylie Minogue podem dormir sossegados. Esperado desde 2017, o aguardadíssimo retorno da australiana para os holofotes se faz, desta vez, por meio da eloquente “Dancing”, faixa que deverá dividir a opinião de sua tão devotada fã-base.

Liberada oficialmente nesta última sexta-feira (19/01), a canção encerra o hiato de quase quatro anos desde o último material pop da cantora, o agridoce “Kiss Me Once” (2014). Tudo bem que, de lá para cá, tivemos o (re)lançamento do natalino “Kylie Christmas” (2015), mas, convenhamos que é no mainstream que Minogue se sobressai – ainda mais se levarmos em conta sua fabulosa habilidade de reinvenção que nos acompanha há nada menos que três décadas. Isso mesmo, você leu direito: são 30 anos de Kylie Minogue no meio musical!

Previsto para o dia 6 de abril, “Golden” será o 14º álbum de estúdio de Kylie Minogue

Apresentando-nos o que parece ser uma nova faceta para a carreira de sua intérprete, “Dancing” marca não apenas a saída de Kylie da Roc Nation, mas também a nova contratação com a BMG e a consequente volta para a Mushroom Records: gravadora responsável por lançar Minogue no mercado. Entretanto, se a nostalgia e a lógica nos preveem que esta é a oportunidade perfeita para o nascimento de um novo “Fever” (2001) ou “Body Language” (2003), talvez seja melhor repensarmos nossas apostas para o vindouro “Golden”.

Gravado em Los Angeles, Londres e Nashville, o 14º álbum de Kylie deverá sim, para infelicidade de alguns, seguir a linha country que influencia seu lead single. Composta pela própria cantora ao lado de Amy Wadge (“Thinking Out Loud”, Ed Sheeran) e Sky Adams (“Talk to Ya”, HRVY), a música foi inteiramente produzida por Adams, que também assina a produção de outras 8 faixas do registro. Entretanto, se uma pequena parcela do público torce o nariz para as novidades que estão por vir, a crítica especializada não tem pensado duas vezes antes de aclamar a sua chegada – como no caso da Entertainment Weekly, que já intitulou o possível futuro hit como “o trabalho mais refrescante desde o ‘Impossible Princess’”.

Combinando country-pop com electropop, “Dancing” certamente será a faixa que melhor representa a sonoridade geral do novo disco. Isso porque, em recente entrevista ao The Guardian, Minogue foi categórica ao revelar que sua obra falará muito sobre “liberdade, autodescoberta, vida e amor; uma colisão de alguns elementos do country e dance feitos no altar de Dolly Parton em uma pista de dança”. Contudo, não precisamos prever o futuro para ler nas entrelinhas! Assim, basta uma rápida checada na tracklist do disco para descobrir que muita dessa autodescoberta deverá abordar a recente separação da cantora com o ex-noivo, o ator britânico Joshua Sasse (principalmente pelas sugestivas “A Lifetime to Repair” e “One Last Kiss”).

O áudio oficial de “Dancing”

Voltando para “Dancing”, é de se estranhar, entretanto, que haja uma rejeição do público (por menor que seja) pela audácia de Kylie ao buscar em um dos gêneros mais populares dos EUA o conforto para suas novas gravações. Apesar de muitos insistirem que o “Joanne” (2016) tornou o country relevante para os atuais artistas de música pop (o que é, de certa forma, verdade), convenhamos que Lady Gaga não é nenhuma pioneira no assunto. Sim, estamos nos referindo a “Cowboy Style”, o 4º single do “Impossible Princess” (1997). É fato que as músicas indie e eletrônica desenvolveram-se quase que intrinsecamente por todo o 6º álbum de estúdio da musicista, mas, também não há como negar a forte influência do gênero raiz sob a canção que encerrava aquela era – e chegou, inclusive, a pegar um #39 na Austrália (ouça aqui).

Ainda transbordando uma positividade sem tamanhos que é inerente a cada carro-chefe de seu catálogo, Kylie e sua “Dancing” são a prova contundente de que criador e criatura nunca estiveram em tamanha sincronia. Ok, não temos pretensão alguma de desmerecer qualquer lançamento anterior da australiana (até porque, é claro, ainda não perdemos o juízo perfeito), mas é impossível não notar uma faísca diferenciada que se manifesta desde os acordes iniciais. Crescendo em nossos ouvidos gradualmente, a canção pode até confundir quem não está acostumado a ouvir Minogue experimentando gêneros alheios ao pop, mas basta o pré-refrão engatar o empolgante “can’t stand still” para percebermos o nascimento de um novo clássico Kylie.

Se por um lado “Dancing” é mais simplista e não carrega o ar refinado de “Into the Blue”, por outro sua produção puxada ora para o acústico, ora para o electropop, se revela também muito mais audível. Caprichando nos vocais que estão sempre impecáveis, Minogue não economiza na pegada chiclete que nos conquista desde o primeiro play. Aliás, arriscamos dizer que, desde o começo dos anos 2000, quando fomos contemplados pelos lead singles “Spinning Around” e “Can’t Get You Out of My Head”, não nos deparamos com um refrão tão viciante, magistralicônico e simpático para os moldes de Kylie Minogue. A espera realmente valeu a pena, pois não há dúvidas de que a cantora acertou em cheio na escolha do novo single que deverá sim, a curto ou a longo prazo, se tornar uma das músicas mais memoráveis de sua tão autêntica discografia.

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Distribuindo referências, “A Babá”, da ‘Netflix’, é o filme perfeito para os amantes do terror e da comédia

Desde que o cinema moderno se aperfeiçoou no último meio século e nos apresentou a algumas das melhores obras já criadas pelo homem, o fascínio humano pelo obscuro apenas se expandiu cada vez mais. Se no passado nossos ancestrais precisavam usar a imaginação para decifrar os segredos escondidos em livros de mestres como Edgar Allan Poe, algumas décadas mais tarde seus sucessores puderam ver tudo ganhar vida bem diante de seus olhos. E assim continua até os dias de hoje!

Aproveitando a calorosa onda de terror que tem dado as caras por aqui (aliado ao fato de que finalmente ressuscitamos nossa mirradinha seção de resenhas cinematográficas), também trazemos desta vez outro grande lançamento do mês de outubro que mexeu com a cabeça de todos os órfãos de Alfred Hitchcock e Wes Craven. Disponível na Netflix desde a última sexta-feira 13 (13/10), A Babá (The Babysitter, no original) mal chegou na popular plataforma de streaming e foi certeiro ao reunir, em apenas um filme, todos os elementos primordiais que somente um verdadeiro clássico do horror tem a oferecer. Vem descobrir um pouco mais na resenha a seguir!

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Comédia com terror… dá certo?

Ainda que Judah Lewis e Samara Weaving sejam pouco conhecidos do público, o desempenho de ambos na produção é memorável

Se você, assim como nós do Caí da Mudança, sempre fica receoso quando vê o anúncio de um novo filme de terror, então com certeza já aprendeu a lidar com as abominações que vem nos “aterrorizando” de uns tempos para cá. Ok, este é um discurso que sempre repetimos quando falamos sobre a qualidade cinematográfica – e sabemos o quão chato é bater na mesma tecla incansavelmente –, mas, a indústria do horror se encontra numa situação tão delicada que fica difícil conter a empolgação após o lançamento de um título realmente bom. Não que bons filmes não tenham chegado aos cinemas nesses últimos anos, é claro – e aqui abrimos um parêntese para citar raridades como “Regressão” (2015) e “Quando as Luzes se Apagam” (2016). Porém, quem realmente acompanha os lançamentos da sétima arte e possui um senso crítico menos maleável não se encanta com qualquer produção, por maior que seja o seu marketing.

Outro detalhe que não pode passar despercebido é o fato inquestionável de que, muito mais do que qualquer outro gênero, somente o horror é capaz de fornecer aos seus desenvolvedores uma liberdade criativa que ultrapassa os limites do imaginário humano. Ramificando-se em subgêneros específicos que exploram, cada qual, uma faceta diferente daquilo que nos aflige mais medo ou tensão, por vezes é capaz de combinar-se a elementos que, juntos, intimidam a todos, sem fazer distinção. Um exemplo perfeito dessa junção de elementos está na já resenhada franquia “Evil Dead” (confira), na qual humor negro e gore se unem não apenas para tirar gargalhadas dos telespectadores, mas também para impressioná-los com suas fortes cenas de violência explícita. Até porque, convenhamos, nem só de “Halloween” (1978) e “Sexta-Feira 13” (1980) vivem os cinéfilos amantes do macabro!

Dados técnicos e sinopse:

Bella Thorne dispensa apresentações, não é mesmo?

Dando continuidade a este legado iniciado por Sam Raimi e Bruce Campbell, o veterano McG é o grande responsável por assinar a direção e produção do ora hilário, ora sanguinário “A Babá”. Aliado ao roteiro de Brian Duffield, à trilha sonora de Douglas Pipes e à coprodução de Mary Viola e Zack Schiller, o cara e sua equipe são bem competentes e parecem saber exatamente o que estão fazendo por detrás das câmeras – o que não é bem uma novidade, já que McGinty havia dirigido “As Panteras” (2000) e sua igualmente conhecida sequência (2003). Apesar de carregar uma ambientação bem descontraída claramente voltada para o público adolescente, o longa funciona bem para todas as idades (sendo que sua classificação indicativa, é claro, o aconselha para maiores de 16 anos). Transitando entre a comédia e o terror, chegou a ser bem aceito entre os críticos da mídia internacional, acumulando 71% de aprovação no Rotten Tomatoes – o que, por si só, já é um feito considerável para um filme do gênero.

Anunciado por alguns sites como “um ‘Esqueceram de Mim’ versão adulta”, logo em seus primeiros minutos “The Babysitter” nos apresenta ao clássico garoto desajustado de 12 anos que sofre bullying no colégio diariamente. Chamado de covarde por todos que cruzam seu caminho, Cole (Judah Lewis) precisa lidar com um importante detalhe que agrava ainda mais sua má reputação entre os valentões: ser o único menino de sua idade a ainda ter uma babysitter. A sorte do menino é que, ao contrário daquele clichê de babá dos cinemas que nunca se importa com seus protegidos, a descolada Bee (Samara Weaving) o trata com bastante respeito e reciprocidade. Questionado, certo dia, por sua melhor amiga Melanie (Emily Alyn Lind) se já notou um comportamento suspeito em Bee, Cole decide finalmente investigar se a moça é realmente tudo o que aparenta ser. Se ao menos ele imaginasse o que fosse encontrar…

Confira o trailer legendado de “A Babá”

Aliada ao atleta Max (Robbie Amell), à gótica Sonya (Hana Mae Lee), à cheerleader Allison (Bella Thorne) e ao cômico John (Andrew Bachelor aka King Bach), Bee é a líder de um culto que garante realizar os sonhos mais desesperados de seus membros. Contudo, nem tudo vem de graça, e é claro que um dos requisitos para o ritual satânico que promete cumprir o almejado não poderia ser outro senão o sacrifício humano. Vendo-se preso em casa, em menor número e a alguns cômodos de distância desse grupo totalmente incomum, Cole precisará lidar com as limitações de sua pouca idade para contornar os obstáculos que se colocam entre a porta de seu quarto e a saída. Se ele sairá ileso dessa missão quase impossível você só descobre dando play lá na Netflix!

Um clássico moderno em pleno 2017:

Bella Thorne, Robbie Amell, Samara Weaving, Hana Mae Lee, Andrew Bachelor e Judah Lewis: o elenco de “A Babá” 

Transparecendo, em seus primeiros vinte minutos, um clima bem água com açúcar que é típico das comédias adolescentes, “A Babá” não poupa nos efeitos especiais e nos entrega um banho de sangue inesgotável nos dois terços restantes. O derramamento é tamanho que, em dado momento, a impressão é a de que a tela de nosso PC ou TV sairá tão vermelha quanto o rosto do jovem Cole. Tornando-se cada vez mais tenso conforme o enredo vai se desenrolando, é interessante notar as referências minuciosas que aparecem para nos imergir ao que é proposto. Seja pela citação a clássicos do cinema como “Alien” (1979) e “Predador” (1987) ou pela menção honrosa de ícones da TV como “Star Trek” (1966) e “Mad Men” (2007), a obra de McG é rica em informações e não deixa a desejar, revelando-se um verdadeiro tributo à cultura pop. Tem até um breve (mas inteligente) remember do efeito sonoro que anuncia a chegada do Jason Voorhees.

Estrelado por sensações de Hollywood (como Bella Thorne) e por revelações prodígios (como Samara Weaving e Judah Lewis), “The Babysitter” acerta (e muito) na escolha de seu elenco. A produção, que também traz como coadjuvantes Hana Mae Lee (de “A Escolha Perfeita”), Andrew Bachelor (de “Punk’d”) e Robbie Amell (de “The Flash”), é, inclusive, o ponto de reencontro entre Amell e Thorne, que haviam contracenado anteriormente no já resenhando “The Duff” (relembre). Compartilhando uma sintonia magistral, é muito prazeroso ver o quanto cada ator se entrega de corpo e alma ao papel que assumiu. Apesar de Weaving roubar a cena e nos deixar apaixonados por sua beleza e carisma imediatos, o cast de apoio brilha tanto que, por vezes, não sabemos se estamos torcendo para os mocinhos ou para os vilões. A cereja do bolo, por exemplo, fica com Mae Lee e sua eficiência para dar vida à insana Sonya.

De todas as observações positivas que levantamos no decorrer desta resenha, talvez o único ponto que deixe um pouco a desejar (principalmente para os fãs) esteja a aparição bem breve de Bella Thorne – que, graças ao peso de seu renome, carregou sozinha a divulgação do longa nas mídias sociais. Entretanto, mesmo que não tenha aparecido tanto em cena (quantitativamente falando), seu destaque não poderia ter sido mais divertido. Com apenas 85 minutos (1h25min) de duração, “A Babá” é a escolha perfeita para quem procura por uma atração objetiva que sabe exatamente para o que veio. Dominando com experiência os elementos indispensáveis que separam os bons filmes de terror dos ruins, McG não poderia ter nos presenteado com um lançamento tão clássico em pleno finzinho de 2017. Um presentão de Natal para quem estava ansioso para assistir a um espetáculo realmente interessante!

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Após anos de espera, “Amityville: O Despertar” finalmente é liberado, mas aniquila nossas expectativas

Não há muito que possamos fazer quando um projeto até então dado como certo passa a ser adiado inúmeras e inúmeras vezes, não é mesmo? Seja pelo orçamento apertado, sejam por cláusulas contratuais burocráticas, incontáveis obras do cinema, da música e da televisão já sofreram o pão que o diabo amassou antes de finalmente ver a luz do dia (isso quando, de fato, o conseguiram). Sem termos a certeza de que, um dia, seremos contemplados com o seu lançamento oficial, muitos destes materiais se tornaram lendas vivas que atiçam a nossa curiosidade até hoje.

Seguindo por este caminho tortuoso de tristes expectativas e incertezas, Amityville: O Despertar (The Awakening, no original) é o mais recente título de uma extensa lista de sobreviventes que conseguiram, com muito custo, sair do papel para a nossa realidade. Finalizado desde 2014, o aguardado longa-metragem passou por inúmeras sessões de edição até finalmente ser liberado nas vésperas do Halloween passado (28/10). Agora protagonizando a nossa publicação da vez, você confere, a seguir, quais foram as nossas principais ponderações sobre este filme que, por pouco, não acabou engavetado.

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Precedentes, original de 79 e remake de 2005:

A queridinha do público Bella Thorne é quem protagoniza o novo longa de uma das franquias mais antigas do terror

Todos já estão cansados de saber que indústria cinematográfica vive um difícil momento em que elementos imprescindíveis, como um roteiro bem escrito, são esporadicamente deixados de lado para se priorizar detalhes não tão importantes assim. É claro que, vez ou outra, somos contemplados com pérolas inesperadas que realmente acertam em seu conjunto, mas, tem sido cada vez mais difícil encontrar longas-metragens originais que nos cativem de imediato pela magia de seu enredo. Não poderia ser diferente, é claro, com o horror, que não apenas se encontra carente de novidades como vem reciclando, já há algum tempo, a antiga e nem tão infalível assim fórmula dos remakes, sequências e prequelas.

Se somente neste ano conferimos nos cinemas os herdeiros mais jovens de clássicos como “Alien” (1979) e “It” (1990), ainda em 2017 pudemos presenciar o renascimento de um cult responsável por remodelar tudo o que conhecemos sobre filmes de casas mal-assombradas: o intrigante “Terror em Amityville” (1979). Dirigido por Stuart Rosenberg e estrelado por James Brolin e Margot Kidder, o terror sobrenatural setentista não fez feio ao dar o pontapé inicial para uma franquia que conta, atualmente, com 18 títulos entre filmes lançados nos cinemas e diretamente em vídeo. Você certamente, é claro, já deve ter assistido ao remake de 2005, com o Ryan Reynolds e a Chloë Grace Moretz, mas, não é desta refilmagem massacrada pela crítica especializada que estamos falando desta vez (ainda que “O Despertar” não tenha sido tão bem recebido assim).

Acumulando baixíssimos 18% de aprovação no Rotten Tomatoes e 42/100 no Metacritic, o novo Amityville, apesar de sustentar alguns furos cruéis que poderiam ter sido facilmente evitados, não é de todo ruim; e se comparado a outros projetos de franquias famosas como “O Massacre da Serra Elétrica” (1974), ainda está muito além de diversas bombas que explodiram nos últimos anos. Entretanto, antes de entrarmos no mérito da questão, convém recapitularmos algumas décadas no tempo para relembrar os exatos acontecimentos da vida real que inspiraram um dos títulos mais respeitados pelos amantes deste gênero.

Realidade x ficção… a genialidade dos metafilmes:

Imagem promocional de “Amityville: O Despertar” que dá destaque à tão temida casa situada no nº 112 da Ocean Avenue

O ano é 1974 e Ronald DeFeo Jr, até então com 23 anos, comete um dos assassinatos mais brutais da história dos EUA durante a madrugada do dia 13 de novembro. Munido de um rifle Marlin 336c, o filho mais velho de Ronald e Louise não pensou duas vezes antes de adentrar o quarto de cada membro da família e, sem dó ou piedade, disparar contra as seis pessoas que adormeciam sob o 112 da Ocean Avenue, em Amityville, Nova Iorque. Alegando insanidade, pois teria cometido o crime após ouvir “as vozes de suas vítimas conspirando contra si”, DeFeo foi levado a julgamento e acabou condenado a seis penas de 25 anos cada. Ele permanece até hoje recolhido num presídio de segurança máxima localizado em Fallsburg, Nova Iorque. Apesar de todos os títulos da franquia exagerarem na hora de misturar fantasia com realidade, estes são os principais fatos vinculados ao caso que correu na Justiça norte-americana um ano depois, em 1975.

Sendo este o Amityville de maior visibilidade desde o remake de 2005 (outros oito filmes foram liberados nesse meio tempo), “O Despertar” nos introduz a uma técnica bem interessante e pouco explorada pelas atuais sequências dos grandes clássicos do terror. Isso porque o seu roteiro obedece às técnicas de um metafilme, ou seja, um filme derivado de um filme. Logo, os eventos narrados no longa se passam no mundo real, totalmente à parte da linha cronológica proposta por qualquer dos demais Amityville, que são todos retratados como ficção. É claro que existem diversas similaridades necessárias entre este e seus lançamentos antecessores (até porque estamos falando de um filme de terror), mas, logo fica claro que estes pontos de encontro entre passado e futuro vêm bem a calhar. Um exemplo de metafilme que deu super certo é o aclamado “A Hora do Pesadelo 7” (1994), do mestre do horror Wes Craven.

Sinopse e dados técnicos:

Em estado vegetativo por dois anos, James Walker progride da noite para o dia quando a família se muda para a assombrosa casa do filme

Em “Amityville: The Awakening”, Belle (Bella Thorne) se muda com a mãe (Jennifer Jason Leigh), a irmã mais nova (Mckenna Grace) e o irmão gêmeo debilitado (Cameron Monaghan) para uma grande casa colonial situada na famigerada vila de Amityville. Alegando que o novo endereço se encontra mais próximo da casa de uma tia dos garotos (Jennifer Morrison) e da clínica onde James faz tratamento, Joan esconde das filhas o histórico macabro que somente o nº 112 da Ocean Avenue tem a contar. Aterrorizada pelos eventos sobrenaturais vinculados ao irmão que têm se manifestado todas às noites, às 3h15min, Belle não demora para descobrir a verdade e se vê, sozinha, lutando contra um antigo mal que permaneceu adormecido por 40 anos.

Com uma receita bem tímida que atingiu os 7,4 milhões mundialmente (o orçamento é desconhecido), o lançamento de “O Despertar” se deu de maneira bem limitada, quando entrou em cartaz em alguns cinemas dos EUA no dia 28 de outubro e estreou em DVD, Blu-ray e HD Digital em 14 de novembro. Pronto desde 2014, o trabalho sofreu inúmeros adiamentos antes de ser finalmente liberado neste ano, sendo a censura uma das causas principais. Inicialmente classificado como rated R (proibido para menores de 17 anos), o filme originalmente anunciado para janeiro de 2015 sofreu restrições de idade com o passar dos meses e, após diversas edições, foi lançado sob o selo PG 13 (não aconselhável para menores de 13 anos). No Brasil, é permitido para maiores de 14 anos. Com duração de 87 minutos (1h27min), a produção da Blumhouse Productions recebe a direção do também roteirista Franck Khalfoun e combina terrorsuspensemistério.

Confira o trailer legendado de “Amityville: The Awakening”

Uma infinidade de pontas soltas:

Juliet (Grace) e Belle (Thorne) são as vítimas que mais sofrem no novo Amityville

Apesar de explorar assuntos bem interessantes, como a síndrome do encarceramento – e até mesmo incluir uma nova versão para a memorável cena do enxame de moscas –, o longa é confuso e nos entrega diversas pistas que não nos levam a lugar algum. Passagens bíblicas até chegam a ser citadas, mas sem um propósito ou finalidade. A religião em si, que a princípio poderia ter oportunizado a exibição de flashbacks ou de diálogos mais esclarecedores, apenas marca presença para logo ser deixada de lado. Aliás, é exatamente pela falta de uma explicação mais convincente envolvendo a fé na vida das personagens que a trama alcança seu clímax de maneira muito, muito apagada. E isso tudo, é claro, se dá graças à atuação bem mediana de Jennifer Jason Leigh, a matriarca da família, e à má construção de sua persona (neste último caso, é claro, por culpa do roteiro).

Pouco convincente, Leigh nos apresenta à uma viúva inexpressiva que parece ter passado os últimos anos de sua vida trancafiada em uma instituição para loucos. Tudo bem, é de se esperar que Joan tenha vivido o inferno na Terra após os eventos que deixaram seu filho em estado vegetativo por dois anos, mas, é indesculpável o descaso que ela projeta em suas outras filhas, Belle e Juliet. Em termos de maternidade, a Sra. Walker apenas perde para Margaret White, a mãe de Carrie (a Estranha).

E já que o assunto é deslize, outra escorregada bem feia e que merece destaque está no sumiço inexplicável das únicas pessoas que parecem levar Belle a sério: Terrence (Thomas Mann) e Marissa (Taylor Spreitler). Uma vez que nossa protagonista sofreu diversos problemas para se ajustar no início do longa, era de se esperar que os colegas ao menos apontassem a cara para dar um grito ou dois nas cenas finais…

Porém, nem tudo são tropeços:

Cameron Monaghan está incrível em todas as suas aparições

O ponto alto de “The Awakening” sem sombra de dúvidas está na atuação bem satisfatória de Cameron Monaghan e Bella Thorne, que para gêmeos, não chegam a desenvolver uma simbiose fenomenal, mas mergulham de cabeça ao projeto proposto. Monaghan, que pode ser visto em séries de TV como “Shameless” e “Gotham”, convence rápido e transmite com competência toda a aflição vivenciada por sua personagem zumbi. Enquanto nas duas primeiras metades do filme sua expressão facial ilustra com bastante honestidade toda a angústia de James para com sua triste condição, no terço restante o ator encarna uma perversidade que beira à psicopatia do próprio Ronald DeFeo. É sério, o cara manda muito bom no que faz!

Bella Thorne, por sua vez, tão familiarizada a retratar bad girls em inúmeros projetos para a televisão e o cinema (“The Duff”, “Scream”, “The Babysitter”), repete aqui sua faceta mais frágil (“Famous in Love”) e logo monopoliza a empatia imediata do público. Não que seu trabalho se equipare ao de lendas como Meryl Streep ou de estrelas promissoras como Emily Blunt, mas, não podemos negar que a moça tem carisma e desenvolve com maestria tudo que lhe é demandado. Tanto o é que Bella se sobressai em praticamente todo o longa, talvez apenas pecando quando chega o momento de dar vida à garotinha acanhada e de maquiagem pesada que se exclui socialmente – convenhamos que Bella Thorne sustenta uma certa imponência que a impede de ser vista como uma mera menina desajustada.

À exceção de dois ou três jumpscares horríveis que beiram o ridículo, “O Despertar” é bem razoável e até que cumpre o seu papel como título da franquia Amityville. Apesar de a revelação final ser uma das mais toscas que você verá nesta nova leva de filmes de terror, o seu desenvolvimento é eficaz o bastante para entreter sem entendiar. O maior problema de todos, e isso fica claro em menos de meia hora de filme, está nas inúmeras edições posteriores feitas para amenizar a fenomenal ambientação sombria que pudemos acompanhar no primeiro trailer do longa, liberado lá em 2014. O resultado final, certamente, teria sido bem diferente se não o tivessem censurado tanto…

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Despindo-se de todo o glamour, Lady Gaga assume nova persona e irradia autenticidade em “Joanne”

Seria 2016 o grande ano de retorno das mais bem-sucedidas estrelas femininas da música pop da década passada? Depois de Rihanna, Beyoncé, Gwen Stefani e Britney Spears voltarem à ativa após intermináveis hiatos sem novos materiais na estrada, finalmente é chegado o momento da maior hitmaker de 2008 tomar as rédeas do cenário fonográfico atual e protagonizar um comeback recheado com muita originalidade, ousadia e reconhecimento: sim, estamos nos referindo à Lady Gaga. Dividindo a opinião das massas com um primeiro single que parece não ter atendido às expectativas do público majoritário (relembre nossa resenha para “Perfect Illusion”), a incomparável “Mother Monster” preferiu deixar as bizarrices de lado e surge, agora, com o que aparenta ser o trabalho mais cru de seu catálogo tão extravagante. Venha com a gente conhecer um pouco mais sobre o “Joanne”!

Lady Gaga em ensaio fotográfico para o “iHeartRadio” (foto por Katherine Tyler)

Desde que “ARTPOP” (2013) fora anunciado como o “álbum do milênio” e deixara muito a desejar no quesito inovação, Lady Gaga não pensou duas vezes antes de tirar longas férias do mercado mainstream e se aventurar por outros ramos de sua carreira tão multifacetada. Indo para o jazz e apostando como atriz em “American Horror Story: Hotel” (projeto que lhe rendeu uma vitória no “Globo de Ouro” deste ano), a norte-americana só foi revelar planos de voltar para o pop em setembro, quando confirmou a chegada de um novo single que seria lançado no dia 9 daquele mês. Levando seus seguidores à loucura e chocando muitos que não esperavam por uma sonoridade tão distinta, foi após muita espera que a loira pôs um fim ao sofrimento de seus little monsters e liberou, na íntegra, o disco “Joanne” no último 21 de outubro.

Distribuído sob os selos da “Interscope Records” e “Streamline”, o aguardadíssimo “LG5” (como era popularmente chamado o trabalho pelos fãs) não fez feio nos charts e, seguindo “Born This Way” (2011), “ARTPOP” (2013) e “Cheek to Cheek” (2014), estreou diretamente no topo da “Billboard 200”, a principal parada de álbuns dos EUA. Comercializando impressionantes 201 mil cópias apenas na primeira semana, o novo disco saiu-se melhor que o esperado e rendeu à Gaga um novo recorde para a sua imensa lista de feitos incomparáveis: tornar-se a mulher com mais álbuns em #1 nesta década. Atingindo o #1 no iTunes de mais de 60 países, “Joanne” é atualmente promovido por “Million Reasons”, o segundo single oficial escolhido para substituir a agora promocional “A-Yo”. Deixando a EDM para segundo plano e orientando-se predominantemente pelo bom e velho pop, outros gêneros bastante explorados pela musicista nesta nova era têm sido o soft rock, dance-pop, country e folk.

O visual da cantora está bem mais simples e limpo na era “Joanne”

Com 11 faixas na edição standard, 14 na deluxe e 15 na deluxe japonesa, “Joanne” foca muito em sua intérprete e traz apenas uma colaboração especial em sua tracklist: com a Florence Welch, do Florence + the Machine. Abarcando um renomado time de produtores requisitadíssimos, os nomes envolvidos no projeto vão desde o já conhecido Mark Ronson (“Rehab”, Amy Winehouse) e passam por Jeff Bhasker (“Free”, Natalia Kills), BloodPop (“Drum”, MØ), Emile Haynie (“Summmertime Sadness”, Lana Del Rey), Josh Homme (vocalista do Queens of the Stone Age), Kevin Parker (vocalista do Tame Impala) e RedOne (“Poker Face”, “Bad Romance”). Atuando como coprodutora e compositora em todas as canções, Gaga foi auxiliada liricamente não só pelos demais produtores como também pelos bem experientes Hillary Lindsey (“When I Look at You”, Miley Cyrus), Beck (vencedor do “Álbum do Ano” no Grammy de 2015), Joshua Tillman (“Hold Up”, Beyoncé) e Thomas Brenneck (guitarrista do Menahan Street Band).

Já começando com o pé direito ao nos introduzir à brilhante “Diamond Heart”, o lançamento ganha forma de maneira rápida e precisa quando a faixa de abertura resolve nos dar uma pequena prévia do que o “Joanne” soa em sua totalidade. Chegando de mansinho com uma composição bem autoral e explosiva que revela um pouquinho sobre o passado difícil de Gaga, a loira nunca soou tão honesta ao assumir que “não é perfeita”, mas, considerar que “tem um coração de diamante”. Abrindo espaço para “A-Yo”, o country ganha vida da melhor maneira possível enquanto a musicista canta sobre sexo em uma batida levemente inspirada no hit desperdiçado “MANiCURE”. Outras faixas que tomam por referência o gênero sulista e que também se sobressaem por fugir da zona de conforto de Gaga são “Sinner’s Prayer” e “Million Reasons”.

Saindo da zona de conforto, a música eletrônica acabou sendo deixada de lado para que Gaga pudesse explorar novos gêneros como o country, soft rock e disco-rock

Chegando para apaziguar o mix de gêneros e nos preparar para o arco mais alto astral composto por “John Wayne”, “Dancin’ in Circles” e “Perfect Illusion”, a balada que dá nome ao disco é do início ao fim movida por uma simplicidade intangível. Bastante acústica e ressaltando o conceito por trás do sucessor de “Cheek to Cheek” (2014), em recente entrevista concedida à “Rolling Stone” Gaga revelou que sua intenção era “unir pessoas que não se conhecem e que talvez se sintam estranhas, mas que de alguma forma possam se conectar por meio da música”. Dando destaque exclusivo para sua família – principalmente para uma tia de nome Joanne, que faleceu nos anos 70, vítima de lúpus (doença que também assola a cantora) –, em “Joanne” a moça se despe de todas as extravagâncias do passado para enaltecer aquilo que muitos se negaram a ver desde o início da sua carreira: a presença de uma voz muito, muito marcante.

Combinando sonoridades e instrumentos em “John Wayne” (canção que homenageia o ator de mesmo nome), explorando um pouco de dance, reggae e ska na safadinha “Dancin’ in Circles” e trazendo o disco-rock já familiar de “Perfect Illusion”, “Joanne” suaviza consideravelmente enquanto caminha para seu triste fim. Citando inúmeras referências bíblicas na maravilhosa “Come to Mama”, Gaga não poupa esforços em mais uma vez passar sua mensagem de apoio às minorias sociais e reforçar aquilo que todos já devem ter ouvido pelo menos uma vez na vida: “todos temos que amar uns aos outros”. É nessa mesma vibe de afeto e união que “Hey Girl” (o featuring com a Florence Welch) desabrocha instintivamente, certeira por casar tão bem os vocais de duas das melhores cantoras da atualidade e por explorar um verdadeiro hino de empoderamento feminino. Impossível não recordar os velhos tempos de “The Fame” com uma sonoridade dessas (e que também foi experimentada na bônus “Just Another Day”), especialmente por causa de “Brown Eyes”, “Summerboy” e “Again Again”.

Lady Gaga em apresentação de “A-Yo” na “Dive Bar Tour” (série de shows que tem realizado em bares norte-americanos)

De maneira demasiadamente melódica, acústica e tocante, “Angel Down” e “Grigio Girls” dividem nossa opinião e nos deixam ora de braços estendidos, ora apreensivos. Exaltando um poderio vocal que há muito tem sido explorado sabiamente pela vocalista, ambas exploram o melhor do timbre de Gaga sem trazer nenhuma grande inovação, afastando-se um pouco do que foi pretendido pelo restante da tracklist e não soando de todo necessário. Inevitavelmente, este também é o caminho traçado por “Angel Down (Work Tape)”, a aguardadíssima colaboração com o RedOne que, ao final das contas, muito prometeu e nada mais foi do que uma perfeita ilusão (quem esperava por um grande hit mainstream a lá “Bad Romance” com certeza ficou e continua bastante chateado).

Conhecida por construir e desconstruir sua imagem a cada era com uma versatilidade inquestionável, Lady Gaga mais uma vez nos surpreende por aproveitar todas as oportunidades para fugir do mercado comum e estabelecer um padrão imprevisível para seus lançamentos musicais. Depois de conquistar o público com seus hits dançantes, nos impressionar com uma obscuridade nunca vista antes e chocar a todos com figurinos dignos de um autêntico conto de fadas fashionista, a eterna intérprete de “Just Dance” surge em pleno 2016 para renovar os seus votos de artista completa que não se deixa ser vencida tão facilmente. Experimentando de tudo um pouco e dando sua voz e suor para a concretização de trabalhos primorosos que jamais serão esquecidos pelo público, Stefani Joanne Angelina Germanotta é certamente um nome que surgiu para botar ordem na atual indústria fonográfica e revolucionar alguns conceitos que há muito precisavam ser revistos por alguém tão competente. Seja bem-vinda de volta, Joanne, nós sentimos a sua falta!

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