Os roteiros originais de “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada” e “Animais Fantásticos e Onde Habitam”: vale a pena ler?

Dando continuidade ao nosso último “vale a pena ler?”, quando trouxemos para cá um pouquinho mais sobre a franquia Harry Potter (relembre), decidimos destacar desta vez outras duas obras bastante comentadas entre os assíduos leitores da autora britânica J.K. Rowling. Publicados, pela primeira vez, há pouco menos de dois anos, foi em meio a controvérsias e muito falatório que os roteiros originais de Harry Potter e a Criança Amaldiçoada e Animais Fantásticos e Onde Habitam saíram do teatro e do cinema para ganhar um espacinho especial nas prateleiras do mundo todo.

Acompanhando o sucesso de bilheteria que fez destas novas histórias o presente perfeito para quem não havia se contentado com o fim da série após “Relíquias da Morte” (2007) – e suas adaptações cinematográficas de 2010 e 2011 –, a publicação de ambas vai além e serve como porta de entrada para o ingresso de jovens fãs da nova geração de leitores. Sem mais delongas, vocês encontram, a seguir, nossas breves ponderações sobre estes dois livros responsáveis por perpetuar a marca Harry Potter e, mais adiante, ficam com outros dois volumes tão interessantes quanto que também tivemos a feliz oportunidade de ler (e que não poderiam passar despercebidos em nosso blog).

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro necessário para o bom entendimento deste artigo será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura). Boa leitura!

Harry Potter e a Criança Amaldiçoada: Partes Um e Dois

Capa oficial de “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada: Partes Um e Dois” (clique para ampliar)

Sinopse oficial: Sempre foi difícil ser Harry Potter, e não é mais fácil agora que ele é um sobrecarregado funcionário do Ministério da Magia, marido e pai de três crianças em idade escolar. Enquanto Harry lida com um passado que se recusa a ficar para trás, seu filho mais novo, Alvo, deve lutar com o peso de um legado de família que ele nunca quis. À medida que passado e presente se fundem de forma ameaçadora, ambos, pai e filho, aprendem uma incômoda verdade: às vezes as trevas vêm de lugares inesperados.

Oficialmente anunciada como a 8ª história do Menino que Sobreviveu, passando-se 19 anos depois, Harry Potter e a Criança Amaldiçoada começa exatamente onde o epílogo de “Relíquias da Morte” nos deixou há mais de uma década: na estação de King’s Cross, no momento em que as famílias Potter, Granger-Weasley e Malfoy despacham seus filhos para mais um ano letivo. Reunidos na já popular plataforma nove e meia, Alvo Potter, Rosa Granger-Weasley e Escórpio Malfoy estão mais do que ansiosos para dar início ao seu primeiro ano em Hogwarts. Familiarizados com a antiga inimizade outrora compartilhada por seus pais, é entre rumores maldosos e a pressão que somente um Potter seria capaz de carregar que Alvo e Escórpio descobrem uma improvável amizade que ameaça desestabilizar todo o universo bruxo.

Narrando uma nova aventura com viagens no tempo, os efeitos da teoria do caos e o retorno de alguns nomes já conhecidos do passado, “Cursed Child” é a peça teatral com script de Jack Thorne baseado na história escrita por ele, John Tiffany e pela própria J.K Rowling. No elenco principal Jamie Parker, Paul Thornley, Noma Dumezweni, Poppy Miller, Alex Price, Sam Clemmett e Anthony Boyle interpretam Harry, Rony, Hermione, Gina, Draco, Alvo e Escórpio, respectivamente. Tendo estreado em 30 de julho de 2016, no West End de Londres, a obra foi muito bem recebida pela crítica especializada e, no mês passado, chegou até a Broadway (já tendo previsão de ser levada para Melbourne até 2019). Apesar de a própria autora admitir em seu perfil do Twitter que o enredo deveria ser considerado canônico (ou seja, desempenhando a função de uma sequência oficial), não é segredo para ninguém que muita gente não aprovou o desfecho tomado por Thorne para o teatro. Há quem diga, inclusive, que Rowling sequer escreveu a história, tendo apenas assinado seu nome posteriormente – o que não passa de mera especulação, é claro.

Por se tratar do roteiro de uma peça teatral, é verdade que não podemos esperar por uma descrição minuciosa dos cenários ou das personagens, já que a exposição dos fatos com certeza deve funcionar melhor visualmente, assistindo ao espetáculo, do que apenas o lendo. Mesmo assim, e apesar de muitos leitores levantarem alguns furos no script que jamais ocorreriam se estivéssemos falando de um 8º romance escrito inteiramente por J.K., “Cursed Child” tem o seu valor e nos traz, ainda que de modo simplista, a experiência única de vermos Harry, Rony e Hermione vivendo suas vidas após a Batalha de Hogwarts. Canônico ou não, é uma obra que merece a sua atenção e que somente depois de lida deverá receber (ou não) o aval do leitor! Publicado em 2016 pela Little, Brown, no Reino Unido (e pela Rocco, no Brasil), “Harry Potter e a Criança Amaldiçoada: Partes Um e Dois” possui 343 páginas e pode ser encontrado nas versões capa dura ou brochura.

Animais Fantásticos e Onde Habitam: O Roteiro Original

Capa oficial de “Animais Fantásticos e Onde Habitam: O Roteiro Original” (clique para ampliar)

Sinopse oficial: O pesquisador e magizoólogo Newt Scamander acabou de completar uma volta ao mundo em busca das criaturas mágicas mais raras e incomuns. Ao chegar em Nova York, sua intenção é fazer apenas uma breve parada. Mas a maleta de Newt é trocada, e parte de seus animais fantásticos foge para a cidade, o que significa problemas para todos…

Sucesso de bilheterias que arrecadou impressionantes 814 milhões de dólares mundialmente (mais do que “Prisioneiro de Azkaban”, o filme com menos receita dentre os 8 da franquia), “Onde Habitam” é apenas o primeiro de uma nova série composta por 5 longas-metragens que promete levar para os cinemas a fascinante vida de Newt Scamander. Passando-se em 1926 (seis décadas antes da história do jovem Harry), é com bastante timidez e simplicidade que o nosso protagonista chega nos EUA carregando consigo uma maleta cheia de animais mágicos que estudou e catalogou ao longo de sua carreira. Como não é muito difícil de se adivinhar, inúmeras destas criaturas acabam escapando, cabendo a Newt e a um seleto grupo de deslocados a tarefa de recuperar uma a uma antes que toda a comunidade bruxa seja exposta ao mundo trouxa.

Seguindo os passos de “Criança Amaldiçoada”, esta edição de Animais Fantásticos e Onde Habitam apresenta em suas páginas o roteiro original do filme que pudemos conhecer no dia 17 de novembro de 2016. Protagonizado por Eddie Redmayne, Katherine Waterston, Dan Fogler e Alison Sudol, o longa ainda inclui em seu elenco nomes de peso como Colin Farrell e Ezra Miller. Dirigido por David Yates (o também responsável pelas adaptações cinematográficas de nº 5 a 8 da série principal), contou com o roteiro da própria J.K. Rowling, ao passo que a trilha-sonora ficou com o renomado James Newton Howard (“Uma Linda Mulher”, “O Sexto Sentido”). Indicado a duas categorias do Oscar de 2017, venceu a de Melhor Figurino, sendo este o primeiro título do Universo Mágico da autora a levar uma estatueta para casa. Prevista para o dia 16 de novembro deste ano, a sequência “Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald” já teve o seu primeiro trailer revelado e promete ser um sucesso ainda maior (assista).

Apesar de trazer uma narrativa dos fatos e uma descrição de cenários/personagens muito mais sucintas que às da obra principal (livros 1 a 7), não podemos negar que, pelo menos aqui, Rowling se atentou em nos presentear com o mínimo possível de detalhes – seja pela forma como os indivíduos se portam a cada cena, seja por questões subjetivas que talvez não tenham sido captadas durante a exibição do filme. Introduzindo-nos a novas criaturas criadas especialmente para o longa (como o rapinomônio e o pássaro-trovão), “Onde Habitam” homenageia o livro-texto de Hogwarts com bastante eficiência, não se esquecendo de dar destaque ao pelúcio, ao seminviso e ao occami, por exemplo. Por mais que não estejamos falando de um romance propriamente dito, quase dá para se deliciar com este roteiro e deixar a imaginação recriar dentro de nossas cabeças o que foi dirigido por Yates nos estúdios da Heyday Films. Publicado em 2016 pela Little, Brown, no Reino Unido (e pela Rocco, no Brasil), “Animais Fantásticos e Onde Habitam: O Roteiro Original” possui 293 páginas e pode ser encontrado em capa dura com jacket incluindo lindíssimos detalhes em tinta dourada. Arte de capa e ilustrações internas pelo estúdio MinaLima.

BÔNUS:

Animais Fantásticos e Onde Habitam: Guia dos Personagens

Capa oficial de “Animais Fantásticos e Onde Habitam: Guia dos Personagens” (clique para ampliar)

Sinopse oficial: Conheça Newt, Tina, Queenie, Jacob e muitos outros neste guia completo dos personagens de Animais Fantásticos e Onde Habitam!

Pegando carona no sucesso esmagador das adaptações cinematográficas de Harry Potter, foi com uma estratégia brilhante de marketing que algumas editoras do Brasil e do mundo lançaram coletâneas incríveis reunindo o que de melhor foi levado para as salas de cinema de 2001 para cá. Sucedendo os famigerados “Magia do Cinema”, “Das Páginas para as Telas”, “O Livro dos Personagens”, “Dos Lugares Mágicos”, “Das Criaturas” e mais recentemente “Dos Artefatos Mágicos”, um dos últimos volumes a também ganhar sua própria versão impressa foi o Guia dos Personagens de Animais Fantásticos e Onde Habitam, escrito por Michael Kogge e totalmente traduzido por Regiane Winarski.

Bombardeando-nos com imagens promocionais e capturas de tela incríveis do longa que nos introduz às aventuras do Sr. Scamander, a obra ainda dá destaque ao figurino, acessórios e personalidade de suas personagens, reunindo informações básicas sobre o enredo sem entregar quaisquer spoilers. A arte gráfica do filme, criada especialmente pelo estúdio MinaLima (também responsável pelo design gráfico dos demais 8 filmes da franquia) pode ser visto na íntegra por meio de cartazes, pôsteres e propagandas de tirar o fôlego, todos reproduzidos nas páginas internas do Guia. Caso queira saber mais sobre o trabalho de Miraphora Mina e Eduardo Lima, não deixe de acessar seu site oficial.

Curiosamente, é evidente que a confecção deste livro se deu antes da pós-produção do filme, pois além de trazer alguns poucos ângulos jamais vistos pelos telespectadores, inclui em suas páginas um subplot que não chegou a entrar para a edição definitiva do roteiro. Estamos falando, é claro, da ex-namorada de Jacob, Mildred, que o abandona com um anel de noivado em mãos após nosso não-maj favorito não conseguir o empréstimo do banco para abrir sua padaria. Outras cenas deletadas (como o hino do colégio Ilvermorny e o farosutil) podem ser encontradas diretamente no YouTube. Publicado em 2016 pela Scholastic, nos EUA (e pela Rocco Jovens Leitores, no Brasil), “Animais Fantásticos e Onde Habitam: Guia dos Personagens” possui 144 páginas e pode ser encontrado em capa dura.

Vidas Muito Boas: As Vantagens do Fracasso e a Importância da Imaginação

Capa oficial de “Vidas Muito Boas: As Vantagens do Fracasso e a Importância da Imaginação” (clique para ampliar)

Sinopse oficial: Quando foi convidada a fazer o discurso de paraninfa na Universidade Harvard, J.K. Rowling escolheu falar à turma de formandos sobre dois temas que lhe são muito caros: os benefícios do fracasso e a importância da imaginação. Ter a coragem de fracassar, disse ela, é tão fundamental para uma vida boa quanto qualquer medida convencional de sucesso; imaginar a si mesmo no lugar do outro – em particular de alguém menos afortunado – é uma virtude exclusivamente humana a ser alimentada a todo custo. Desde então, as histórias contadas por Rowling e as perguntas provocadoras que ela faz aos jovens formandos inspiraram incontáveis pessoas a pensar no que significa ter uma “vida boa”. Com temas como o fracasso, as dificuldades, a imaginação e a inspiração, este livro ainda é tão relevante hoje como foram suas palavras nove anos atrás. Quando nos atrevemos a assumir um risco, e talvez fracassar, e tiramos proveito do poder de nossa imaginação, podemos todos começar a viver com menos cautela e, assim, tornamo-nos mais receptivos às oportunidades que a vida tem a nos oferecer.

Por fim, nossa publicação não estaria completa se não incluíssemos o que certamente é um dos relatos mais honestos que J.K. Rowling proferiu em toda sua brilhante carreira dedicada à literatura e à filantropia. Convidada para discursar como paraninfa para os formandos de turma de 2008 de Harvard, é com muita desenvoltura que a autora volta algumas décadas no tempo e se recorda de fatos que marcaram sua trajetória como estudante de literatura inglesa. Enfatizando a linha tênue que separa o medo pela pobreza do temor pelo fracasso, em Vidas Muito Boas Rowling admite que já chegou a viver miseravelmente antes de atingir o sucesso e alcançar o status atual que a condecorou com a Ordem do Império Britânico (OBE).

Orgulhando-se dos caminhos que escolheu e da força de vontade reunida para superar os obstáculos que a vida lhe impôs, a escritora relembra seus dias como funcionária da Anistia Internacional e agradece a empatia conquistada ainda aos 20 e poucos anos de idade. Encorajando os formandos de Harvard a tomar suas decisões com sabedoria e muita imaginação, J.K. mais uma vez nos prova que é uma escritora muito à frente de seu tempo nesta obra que você certamente repetirá a leitura assim que terminar. Publicado em 2015 pela Sphere, na Grã-Bretanha (e pela Rocco, no Brasil), “Vidas Muito Boas: As Vantagens do Fracasso e a Importância da Imaginação” possui 75 páginas e pode ser encontrado em capa dura com jacket. Arte de capa e ilustrações internas por Joel Holland adaptadas por Jorge Paes para a edição brasileira.

Caso tenha gostado deste artigo, não deixe de conferir também o nosso “vale a pena ler?” com a série Harry Potter acessando este link.

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“Harry Potter”: vale a pena ler?

Quem acompanha nosso blog e redes sociais sabe que estamos, constantemente (e a contragosto de quem não curte) publicando resenhas, notícias e informações sobre o universo mágico de J.K. Rowling. O que muitos desconhecem, entretanto, é que a incrível história do bruxinho órfão que vivia com os tios foi, desde o início, uma das maiores inspirações para o nascimento do Caí da Mudança. Posteriormente, acabamos criando o quadro que dá título a este artigo – o “Vale a pena ler?” –, e é claro que, sendo esta nossa franquia literária favorita, não poderíamos deixar de dedicar um texto especial à brilhante jornada de Harry Potter e seus amigos.

Assim, relemos, de setembro pra cá, cada um dos oito sete volumes que completam a obra e, ao revisitar os terrenos de Hogwarts mais uma vez, pudemos relembrar cada detalhe imprescindível que não poderia passar despercebido em uma resenha como esta. Sem maiores delongas, você encontra, a seguir, todas as impressões que fomos capazes de reunir e que, bem possivelmente, te convencerão a se aventurar pelo que consideramos o maior fenômeno infanto-juvenil de todos os tempos. Capas de viagem aos ombros e varinhas à mão, segurem firme ao cabo de suas Cleansweeps e vamos lá pois a nossa primeira aula de História da Magia está prestes a começar.

Texto livre de spoilers (claro que algum ou outro será mencionado mais cedo ou mais tarde, mas de forma sucinta e segura, apenas ilustrativamente). Boa leitura!

Precedentes e aritmancia:

Harry experimentando o Chapéu Seletor na seleção das casas de Hogwarts – arte por Thomas Taylor, o responsável pela primeira edição de “A Pedra Filosofal” (1997)

Publicado pela primeira vez em junho de 1997, pela Bloomsbury, é espantoso que “Harry Potter e a Pedra Filosofal” (“Philosopher’s Stone”, no Reino Unido) tenha levado tanto tempo para cativar a atenção do público. Rejeitado, de plano, por inúmeras editoras que se recusaram a “publicar uma obra tão extensa voltado ao público infanto-juvenil”, é fato que o primogênito de J.K. Rowling percorreu um longo caminho de incertezas antes de consolidar-se no sucesso pelo qual o conhecemos atualmente. Foi somente dois anos depois, em 99, que “Sorcerer’s Stone” (como o livro foi recebido nos EUA) apareceu no topo dos mais vendidos do The New York Times – alguns meses após a escritora fazer sua estreia na mesma lista com “A Câmara Secreta” (“Chamber of Secrets”), a sequência liberada em 98, na Grã-Bretanha.

Impulsionando uma série de filmes que levou para o mundo o brilhantismo que somente um gênio como J.K. poderia desenvolver, o primeiro longa-metragem chegou nas telonas dos cinemas em novembro de 2001, sob a direção de Chris Columbus (“Esqueceram de Mim 1 e 2”) e o protagonismo de Daniel Radcliffe. Acumulando, segundo dados da revista Mundo Estranho (edição nº 196, de junho de 2017) 7,7 bilhões de dólares em bilheteria, a franquia também não fez feio no meio literário e espalhou, pelo globo, 450 milhões de exemplares vendidos (4 milhões só no Brasil), em 200 territórios, traduzido para 79 idiomas. Não é à toa que esta é a série literária mais vendida de todos os tempos! Entusiasmando a criação de uma nova marca que hoje compreende jogos de vídeo-game, peças de teatro, livros paralelos, souvenirs e até mesmo parques temáticos, nunca um registro da literatura obteve tanto sucesso a ponto de se expandir para tantos formatos diferentes. Não há dúvidas de que a obra, por si só, já ultrapassou em muito a sua própria criadora.

A história do Menino que Sobreviveu:

O armário embaixo da escada – arte por Jim Kay, o responsável pela edição ilustrada de “A Pedra Filosofal” (2015)

À primeira vista, o filho de Lílian e Tiago Potter é o que podemos chamar de uma criança comum – se levarmos em conta, é claro, que crianças comuns de 10 anos normalmente são órfãs, vivem de favor na casa dos tios e possuem como quarto um armário embaixo da escada. Crescendo sem o afeto e o respeito dos Dursley, a cada dia o menino Potter se vê invisível em um mundo onde o primo, Duda, recebe do bom e do melhor sem demonstrar o mínimo de gratidão. Conformado com sua infeliz realidade, é com bastante incredulidade que Harry recebe, no dia do seu 11º aniversário, a notícia que vira sua vida de cabeça para baixo: ele não apenas é um bruxo como possui uma vaga para estudar na Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, uma das melhores da Europa.

Orientado pelo meio-gigante Rúbeo Hagrid a pegar o Expresso de Hogwarts na estação de King’s Cross, o garoto embarca em direção ao desconhecido e vai, aos poucos, descobrindo mais sobre seu passado e sobre o cruel assassinato de seus pais quando era apenas um bebê. Saindo ileso das mãos do terrível Lorde Voldemort portando apenas uma cicatriz em forma de raio na testa, Harry não demora a fazer amigos e aprender tudo sobre o mundo da magia. Frequentemente aconselhado pelo sábio Professor Alvo Dumbledore, o diretor do colégio, o garoto logo percebe que o mal permanece à espreita e que ainda há muito a ser feito para que a comunidade bruxa viva em paz de uma vez por todas. Recebendo a ajuda do atrapalhado Rony Weasley e da sabe-tudo Hermione Granger, Harry enfrenta perigos que ultrapassam o imaginário humano e que surgem para comprovar que o céu é o limite para uma mente à frente de seu tempo como a de J.K. Rowling.

O protagonista (im)perfeito:

Potter na Batalha de Hogwarts – arte por Mary GrandPré, a responsável pela capa norte-americana de “As Relíquias da Morte” (2007)

Encantado com o maravilhoso novo universo de possibilidades que na casa dos tios não passaria de um sonho impossível, não é de se estranhar que Harry, assim como os demais primeiranistas vindos de famílias trouxas (aquelas sem poderes mágicos), encontre em Hogwarts o conforto de um lar. Contudo, se a rotina dos estudantes já é por si só desafiadora, para Potter o cotidiano se revela um pouquinho mais complicado, já que a maior parte de seus colegas o venera como um verdadeiro herói de batalha. Lidando com a fama por ter derrotado o maior bruxo das trevas de todos os tempos – e a glória por um feito que sequer se recorda –, é com muita modéstia e coragem que o garoto progride como personagem e ensina ao leitor as vantagens de ser uma boa pessoa.

Não tão inteligente quanto Hermione, mas sem sombra de dúvidas mais perspicaz do que Rony, Harry jamais se mostrou, em sua vida acadêmica, um aluno exemplar. Por vezes preguiçoso e até mesmo irresponsável, é uma surpresa que tenha obtido notas satisfatórias em seus NOM’s (Níveis Ordinários em Magia, exames prestados pelos alunos do 5º ano) em “O Enigma do Príncipe” (2005). Entretanto, quem consegue ler as entrelinhas não demora a perceber que o diferencial de Potter não está precisamente em sua habilidade em magia – que é, conforme comprovado em “O Cálice de Fogo” (2000), muito aquém da de outros estudantes de Hogwarts, Durmstrang e Beauxbatons (duas outras escolas europeias). Destemido do início ao fim e ousado como ninguém, é a sua evidente inexperiência para com os problemas que aparecem em sua trajetória que faz Harry conquistar a confiança do leitor quase que instantaneamente – afinal, é essa trivialidade que o faz tão acessível a todos nós, meros mortais.

O Messias x o descendente do Führer:

Harry e seu arqui-inimigo, Lorde Voldemort – arte por Jonny Duddle, o responsável pela capa britânica de “As Relíquias da Morte” (2014)

Criado à base da indiferença, Harry enfrenta uma jornada desgastante na qual precisa provar para todos, inclusive para si mesmo, que caráter e fibra moral devem falar mais alto que popularidade e reconhecimento. A busca por poder jamais se revelou uma meta para ele, então talvez, por conta disso, o Menino que Sobreviveu tenha se mostrado um líder tão eficiente. Como cresceu de forma marginalizada, é natural para Potter respeitar as individualidades alheias, por mais “vergonhoso” que seja ter como amigo alguém que usa brincos de nabo ou colares de rolha. Curiosamente, o passado do protagonista não se diferencia muito da vida pregressa do próprio antagonista, que em contrapartida, devido à sua falta de empatia e ao excesso de preconceitos, desponta como um dos vilões mais amargos e impiedosos da cultura popular.

Conhecido por sua frieza descomunal que nos lembra a de outros ditadores do mundo trouxa, o nascido Tom Riddle é o exemplo perfeito de indivíduo ardiloso que sabe como construir um império fundado no terror e na mentira. Assim como Hitler e os ideais do nazismo, Voldemort é adepto da teoria que defende a supremacia da raça ariana (ou do sangue puro, como é retratado pelos livros de J.K.). Reunindo seguidores por toda a Grã-Bretanha durante sua ascensão ao poder, ele e seus Comensais da Morte são conhecidos por prender, torturar e assassinar qualquer um que se oponha a lhes prestar obediência. Não é à toa que suas artimanhas para controlar a comunidade bruxa o leve a se infiltrar na política, a censurar à imprensa e a modificar a grade escolar no intuito de “reeducar” as próximas gerações. Bem, um pouco parecido com o que temos vivido por aqui!

Harry Potter e o Enigma do Sucesso:

O icônico Ford Anglia voador – arte por Kazu Kibuishi, o responsável pela capa norte-americana de “A Câmara Secreta” (2013)

Voltando duas décadas no tempo, desde a primeira leitura de “A Pedra Filosofal” (1997) já nos era evidente que Rowling não veio para brincar! Desenvolvendo com maestria a narrativa de sua obra, a britânica não poupa em plot twists que realmente funcionam e deixam qualquer um de queixo caído. Amarrando as contradições entre o passado e o presente com uma linha tênue que somente é revelada ao final de “As Relíquias da Morte” (2007), a escritora nos instiga a criar teorias que, certamente, jamais chegarão aos pés da real solução apresentada. Transbordando criatividade e exercitando sua imaginação de maneira ímpar, a ex-professora de língua inglesa não para por aí e também acerta na construção dos personagens e de seus cenários encantados. Repletos com uma humanidade excepcional que nos impossibilita de não criar vínculos afetivos, suas criações possuem profundidade e precisão, sempre descritos por detalhes intimistas que fazem toda a diferença durante a leitura. Quem não gostaria de estudar em Hogwarts e ser amigo de Luna Lovegood, Hagrid ou Dobby?

Abordando temáticas importantíssimas que vão além do conflito entre o bem e o mal, os livros de J.K. derrubam barreiras ao levar para o mundo bruxo os problemas corriqueiros de qualquer sociedade trouxa como a nossa. Seja pela escravidão dos elfos domésticos, os maus tratos infantis sofridos pelo protagonista ou o preconceito propagado aos “sangues ruins” (que se assemelha em muito ao racismo, ao sexismo e à homofobia), muitas são as metáforas utilizadas pela escritora para quebrar o silêncio e desarmar os bichos-papões do nosso dia a dia. Depressão, perda de entes queridos e bullying na escola também não foram esquecidos! As próprias virtudes de cada uma das casas de Hogwarts (coragem, astúcia, inteligência e lealdade) são um reiterado lembrete de que, como pessoas, não somos iguais, melhores ou piores que os outros – oras, cada um possui as suas próprias qualidades e afinidades. A graça está na diversidade!

Incumbido de despertar o que de melhor habita em nosso íntimo, o enredo de “Harry Potter” está constantemente reforçando a ideia de que devemos apreciar as coisas mais simples da vida, como o amor, a amizade, o respeito e a empatia ao próximo. Exatamente por ter seu coração no lugar e por saber diferenciar o certo do errado, Potter jamais teve medo de aceitar os riscos de cada batalha e sempre priorizou o bem daqueles que ama em detrimento de seus próprios interesses. Digno do respeito de seus semelhantes e da incompreensão daqueles que só pensam em si mesmos, Harry é, assim como nós, levado a encarar seus maiores medos a fim de lidar com cada dificuldade que aparece em seu caminho – seja como salvador da bruxandade, seja como adolescente descobrindo seu lugar no mundo (afinal, ele não é tão diferente de qualquer outro garoto de sua idade, seja bruxo ou trouxa). Apesar de muitas vezes ficarmos apavorados pelas incertezas que o futuro nos reserva (já que não possuímos profecias ou vira-tempos capazes de predizer ou mudar o tempo), o que seria da vida sem alguns dragões, não é mesmo?!

Se você gostou deste artigo então não pode deixar de conferir os nossos “Vale a pena ler?” com “Quadribol Através dos Séculos” (aqui) e “Animais Fantásticos e Onde Habitam” (aqui). Para entender melhor nossas perspectivas pessoais sobre a obra como um todo, recomendamos a leitura de “Os decisivos reflexos de Harry Potter na minha vida e para onde tudo isso me levou” (aqui). Um obrigado à Isabel Barbosa pela consulta à sua monografia que discorre sobre a influência do nazismo nas obras de J.K. Rowling.

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#CoopGeeks: O terror em oito patas – “A Colônia”, de Ezekiel Boone

Mesmo antes de “The Walking Dead” ganhar a indústria das HQs no começo dos anos 2000 e “Resident Evil” estrear para PSOne no meio da década de 90, muito se falava, no âmbito da ficção científica, sobre a chegada de uma era pré-apocalíptica não muito distante. Já acostumados à ideia de um terrível ataque zumbi ou de uma decisiva batalha religiosa envolvendo Deus e o Diabo, não há dúvidas de que recebemos, nos últimos anos, inúmeras novidades que abordaram este tema e conquistaram tanto a TV (“The Strain”, “IZombie”) como o cinema (“Constantine”, “Zumbilândia”).

Entretanto, poucas foram as obras que decidiram inovar radicalmente, e se você, caro leitor, esteve procurando por algo que fosse capaz de tirar o seu fôlego – e, simultaneamente, lhe deixar todo arrepiado –, talvez esta resenha seja a resposta que tanto esperava. Combinando ficção estrangeira com suspense e um pouquinho de romance, você encontrará em “A Colônia”, do novato Ezekiel Boone, diversos motivos que desconstruirão essa mesmice que há muito nos persegue e descobrirá, em uma linguagem bem adulta, os segredos que circundam a sua trama do início ao fim.

O TERROR EM OITO PATAS: A COLÔNIA, DE EZEKIEL BOONE

“True”: vale a pena ler?

Após quase quatro meses de nossa primeira resenha sobre a trilogia escrita pela cantora e atriz Hilary Duff, finalmente chegamos a “True: A Verdade”, o capítulo que encerra a extraordinária saga “Elixir”. Ainda sendo auxiliada por Elise Allen (quem já havia dado as caras nos títulos anteriores e ressurge, mais uma vez, como coescritora da obra), Duff continua trazendo em seu derradeiro livro algumas novidades de tirar o fôlego e explora, como de costume, diversos detalhes que fazem de seu trabalho um verdadeiro exemplo de criatividade e espontaneidade.

Entretanto, assim como “Devoted” e diferente de “Elixir”, será inevitável que mencionemos, a seguir, alguns spoilers necessários para o bom entendimento dos principais fatos que ocorreram nos volumes anteriores (e, é claro, refletiram de alguma maneira no enredo desta sequência). Se você, caro leitor, não se importa com as pequenas revelações que serão feitas nos próximos parágrafos (frisa-se, referentes a “Elixir” e “Devoted”), siga adiante – mas fique desde já ciente que o faz por sua conta e risco.

Caso queira saber um pouco mais sobre a novela em questão e se interesse por ler os primeiros livros antes de prosseguir, fique com as nossas duas outras resenhas deste especial (clicando aqui e aqui) e pare por aí – depois de devorar tudo, não se esqueça de voltar para cá. Sem mais delongas, vamos ao que nos interessa…

Este texto contém spoilers: boa leitura!

A capa de “True: A Verdade” (você pode ler o primeiro capítulo deste livro acessando este link)

Clea Raymond vive a fase mais difícil de sua vida desde que voltou de uma viagem pela Europa e descobriu, em algumas fotografias de sua câmera, os vestígios de um misterioso homem que transcende a linha entre o tempo e o espaço. Após passar por imensos apuros que, constantemente, desafiaram toda sua capacidade de distinguir a realidade do sobrenatural, a bela fotojornalista parece finalmente ter encontrado a tão sonhada paz ao lado de Sage, sua alma gêmea de inúmeras outras reencarnações. O elixir da vida eterna fora destruído, o que, consequentemente, encerrou toda a caçada obsessiva dos Redentores da Vida Eterna e do Vingança Maldita por poder e sobrevivência – mas, de qualquer maneira, ainda havia uma questão muito mal resolvida nesta história toda: o que aconteceria agora?

Desde que perdera seu corpo e fora obrigado a assumir uma nova pele, Sage passou a agir de modo estranho e agressivo, um comportamento totalmente adverso de sua personalidade naturalmente protetora. Piorando a cada dia, o encantador príncipe encantado acaba por selar o seu destino ao libertar um lado obscuro que coloca em risco não apenas a sua própria segurança, mas também a de todos aqueles que rodeiam sua vida: principalmente Clea. Mais uma vez recorrendo a Ben e Rayna – seus dois melhores amigos –, a moça se vê pressionada contra a parede e precisa, a qualquer custo, encontrar uma cura capaz de trazer de volta aquele que jurara corresponder o seu amor de tantos e tantos séculos atrás. Isso, é claro, se o tempo não permitir que a loucura consuma Sage de dentro para fora irreversivelmente…

Encarregado de colocar um ponto final à toda jornada construída desde o primogênito “Elixir”, “True” não altera sua narrativa e permanece sendo contado em primeira pessoa pela sua grande protagonista central, Clea Raymond. Apropriadamente se amparando aos acertos de “Devoted” e repetindo a explanação intercalada da obra anterior (a qual nos é contada também por Amelia), Hilary mais uma vez estrutura os capítulos de seu terceiro livro em relatos duplos de diferentes personagens: mas desta vez, com a inserção de Rayna. Ganhando um destaque certeiro que surge para cobrir o vazio deixado por sua rápida participação nos demais títulos da franquia, de início a melhor amiga de Clea se mostra rude e pode até não chamar muito a atenção do leitor menos apaixonado. Todavia, mesmo estando coberta de razão, a garota não demora para contornar seus maiores medos com êxito e nos conquista com um amadurecimento admirável (uma evolução que, por diversas vezes, ofusca até mesmo a trama principal). Rayna é, diga-se de passagem, um acréscimo tão positivo quanto Amelia em “Devoted”.

A autora em sessão de autógrafos realizada em abril de 2013

Focando, também, um pouco mais em Sage e em suas constantes crises de personalidade, a batalha que o personagem passa a travar consigo mesmo, inevitavelmente, torna a história muito mais dramática e familiar. Sentindo-se de mãos atadas e sem ter exatamente o que fazer para solucionar o problema, Clea enfraquece na medida em que seu namorado passa a tomar sucessivas atitudes de muito mau gosto (mesmo que contra a sua própria vontade). Se em “Elixir” e “Devoted” a Srtª Raymond gastava a maior parte do tempo fazendo pesquisas de campo e aventurando-se em viagens de alto risco, em “True” sua rotina se resume em atuar como a enfermeira particular de Sage. Tentando dominar as constantes perdas de memória combinadas ao sono, fome e mau-humor intensos de seu par romântico, a perspicaz fotojornalista que havíamos conhecido anteriormente perde o seu brilho rapidamente enquanto demonstra uma fragilidade que não é própria de sua identidade.

No que se refere a Ben – ou até mesmo a outros personagens secundários, à exceção de um comeback triunfal que não daremos mais informações –, a escritora pouco avança e nada nos entrega de novo sobre o melhor amigo de Clea (o que, ao nosso ver, não soa de todo ruim, já que o conhecíamos razoavelmente bem até este momento). A descrição dos cenários é razoavelmente boa e, seguindo o que já havia nos sido introduzido antes, consegue capturar o leitor com facilidade até a onda de acontecimentos que se arrasta bem lentamente do primeiro capítulo até o sétimo. Indo direto ao ponto, a verdade é que…

…se podemos tirar uma primeira impressão de “True: A Verdade” logo quando encerramos a sua leitura é que, diferente de seus antecessores, este parece ter sido um livro desenvolvido exclusivamente para encerrar a saga “Elixir” – e nada mais que isso. Sem a mesma energia contagiante dos volumes de abertura, a obra só ganha força na sua segunda metade, quando Hilary e Elise acrescentam um pouquinho de mitologia e ocultismo para o cotidiano de seu quarteto fantástico (Clea, Sage, Ben e Rayna). Majoritariamente maçante e desmotivador, “True” piora ao deixar alguns furos na história que vêm para trazer diversas interrogações em questões importantes que haviam sido levantadas por toda a novela, como: o que aconteceu com Amelia e sua família (personagens que, neste livro, nem chegam a ser mencionados)? E quanto ao desaparecimento do pai de Clea, Grant Raymond? (esse questionamento nem chega a ser respondido explicitamente)? Qual foi o fim levado pelos Redentores da Vida Eterna e pela Vingança Maldita (obviamente que, com o fim do elixir, a VM se viu livre de sua maldição; mas, em “True” seus membros simplesmente “desaparecem do mapa”)?

Nos encaminhando para um fim bem simples, mas satisfatório, o volume final da trilogia “Elixir” é, de longe, o pior entre os três títulos veiculados ao romance original escrito por Duff e Allen. Não que o desfecho da história tenha adquirido proporções ruins, mas, a impressão é a de que alguns aspectos da trama foram deixados totalmente de lado sem receber a sua devida atenção (e conclusão) – como se tivessem sido retirados do forno antes do tempo adequado. Porém, não há motivos para tanto desânimo! Acertando na construção dos três últimos capítulos e do epílogo que são não menos que sensacionais, a jovem escritora continua nos presenteando com um trabalho que, mesmo sem os pingos nos Is, merece nossa parabenização. Claro que não podemos iniciar a leitura de “True” sem passar antes pelos seus irmãos mais velhos “Elixir” e “Devoted”, mas, isoladamente, o livro permanece sendo uma ótima dica para quem gostou de fazer parte da história de Clea Raymond e aprovou a carreira de Hilary Duff como romancista.

Lançado originalmente em abril de 2013 pela “Simon & Schuster”, “True” é coescrito por Elise Allen (a mesma de “Elixir” e “Devoted”) e teve sua redistribuição no Brasil pela “Editora iD” (a “Editora Moderna” também é creditada nas informações autorais) naquele mesmo ano. Com tradução de Yukari Fujimura (os volumes anteriores haviam sido traduzidos por Otávio Albuquerque), o título final da saga “Elixir” possui 262 páginas divididas em 18 capítulos + epílogo.

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“Devoted”: vale a pena ler?

Há pouco mais de dois meses rolou por aqui a última edição do nosso “Vale a pena ler?”, o quadro onde indicamos alguma obra literária e falamos um pouquinho mais sobre tudo que lhe é pertinente. Agora, diminuindo o tempo de uma atualização para outra e cumprindo a promessa que havia sido feita naquela oportunidade, trazemos na publicação de hoje a resenha de “Devoted: Devoção”, o segundo volume da novela criada e desenvolvida pela atriz e cantora Hilary Duff.

Todavia, diferente de quando iniciamos os primeiros debates com “Elixir” (título que marca o início desta saga), será inevitável mencionar, mais abaixo, alguns spoilers necessários para o bom entendimento dos principais fatos que ocorreram no trabalho antecessor e refletem bastante nesta sequência. Se você, caro leitor, não se importa com as pequenas revelações que serão feitas nos próximos parágrafos, siga em frente, mas fique desde já ciente que o faz por sua conta e risco.

Caso queira saber um pouco mais sobre a trilogia “Elixir” e se interesse por ler o primeiro livro antes de prosseguir, fique com a nossa primeira resenha deste especial e pare por aí (depois de devorá-lo, não se esqueça de voltar para cá). Sem mais delongas, vamos ao que nos interessa…


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Este texto contém spoilers: boa leitura!

A capa internacional de “Devoted: Devoção”, o segundo título da série “Elixir”

Depois de protagonizar a maior aventura de sua vida e até mesmo chegar a pensar que o homem misterioso que aparecia em suas fotografias era uma ameaça sobrenatural, Clea Raymond vive os piores momentos possíveis após os acontecimentos que finalizaram “Elixir”. Sem a companhia de Sage e com a incerteza de saber se sua alma gêmea está viva ou não, a fotojornalista se arrasta pelos dias vivendo por um intenso período de luto e aceitação. Recuperando-se da perda de seu pai Grant (que desde o volume anterior permanece desaparecido) e também de seu recém-namorado, tudo fica ainda pior quando a raiva toma conta da moça e a afasta de Ben, o melhor amigo que já havia dado as caras inúmeras outras vezes no debut best-seller.

Mais uma vez lutando contra o tempo, caberá à Srtª Raymond a tarefa de fazer tudo o que está ao seu alcance para reaver o grande amor de sua vida – e, ao menos, se desvencilhar das emboscadas planejadas pelos dois grandes grupos rivais que estão atrás de Sage: os Redentores da Vida Eterna e o Vingança Maldita. Aliando-se a velhos amigos e buscando a ajuda de pessoas que jamais imaginaria precisar, Clea vai aos poucos adentrando em uma trama que vai muito além da sua vida pessoal com o homem que o destino lhe escolheu e ultrapassa os limites da ganância por poder pretendida por seus arqui-inimigos. Enfrentando perigos muito maiores que os anteriormente narrados na obra inicial, desta vez não apenas a segurança de Clea estará em jogo como também a de todos aqueles que cruzarem o caminho do inestimável elixir da vida eterna.

Continuando diretamente de onde “Elixir” parou, “Devoted” já começa com o difícil processo de conformação pelo qual Clea está passando após ter sido afastada de Sage. Remoendo, a cada dia, tudo que acontecera de errado em sua última viagem até o Japão, a angústia se torna uma rotina para a protagonista e a leva a um intenso sentimento de inutilidade que a atormenta cada vez mais. Sem saber exatamente o que fazer para ter novas notícias sobre o namorado (e mesmo se vendo sem qualquer saída racional), a moça continua alimentando suas esperanças mais profundas e não deixa, um minuto sequer, de se preocupar com o homem que mudara sua vida e existência para sempre. E, é exatamente toda essa devoção dela para com seu par romântico que definirá a conclusão que a história chegará ao longo de suas muito bem estruturadas páginas de pura imprevisibilidade.

Novamente auxiliada por Elise Allen, Duff não poupa seus esforços em tentar convencer o leitor sobre o quão importante um personagem é para o outro; e, dessa forma, acrescenta ao enredo inúmeros obstáculos que, cada um à sua maneira, deverão enfrentar para que possam ficar juntos. Como verdadeiros desafios que testarão todo o amor que Clea sente por Sage e vice-versa, o casal deverá aprender a não confiar em qualquer pessoa e a separar as aparências da realidade: uma missão que se mostra muito mais complexa do que parece ser. Para isso, personagens inéditos são inseridos desde os primeiros capítulos da obra e, além de darem uma nova perspectiva para o segundo volume da trilogia, nos entrega um fôlego extra que ajudará a acompanhar tudo sem que percamos o interesse.

A autora promovendo e autografando “Devoted” na “Barnes & Noble” (Nova Iorque), em 10/10/11

Outra novidade que “Devoted” nos introduz logo em suas páginas iniciais é a segunda narrativa contada especialmente por Amelia, uma das novas personalidades que ganham destaque por este título. Dando uma quebra à visão limitada e unilateral que se fez presente por todo o “Elixir” (e que havia sido motivo de crítica em nossa última resenha), aqui a autora expande o universo que rodeia sua história de forma tão minuciosa que, assim como no lançamento anterior, faz com que originalidade seja a palavra-chave de seu trabalho. Até mesmo os novos relatos pessoais de Clea ganharam maiores proporções e, se antes os holofotes centravam-se exclusivamente na adorada protagonista da série, agora temos uma ideia aprimorada de como cada personagem desenvolve o seu papel pelo desenrolar do livro.

E isso porque ainda nem mencionamos a estratégia de explorar uma quantidade maior de capítulos (enquanto “Elixir” apresenta 13, “Devoted” inclui 28), uma tática que definitivamente funcionou bem por aqui: além de nos deixar muito mais curiosos com o que vem pela frente (você devora cada subdivisão sem nem ao menos perceber), torna a leitura infinitamente mais agradável (convenhamos que não é sempre temos disposição ou disponibilidade para ler durante muito tempo).

Mais uma vez brincando com o sobrenatural e trazendo inúmeras referências à parapsicologia, telecinésia e projeção da consciência são algumas das muitas temáticas abordadas em “Devoted” e exploradas ao lado do popular conto do elixir da vida eterna. Dando grande destaque, ainda, às duas facções que tentam, a todo custo, atingir seus próprios objetivos, os conflitos que permeiam o romance desencadeiam em uma perseguição tão alucinante que deixa a de “Elixir” parecendo uma “história para criança dormir”. Com uma reviravolta impressionante e totalmente inesperada, Hilary soube como desenvolver o gancho perfeito que nos guiará até “True: A Verdade” e superar o final pouco motivador que encerrou o título inicial.

Trazendo relações interpessoais muito mais espontâneas e intimistas, é interessante observar como a escritora aprendeu com seus próprios tropeços e corrigiu os buracos que antes, mesmo imperceptíveis, geravam um pequeno desconforto ao leitor mais detalhista. Superando em muito a sua grande estreia pelo cenário literário, “Devoted” caminha para uma direção brilhante que se mostra totalmente coerente com a multifacetada carreira de uma das maiores estrelas da última década. Basta descobrir se o capítulo final desta jornada se sairá tão bem quanto os dois primeiros – os quais, diga-se de passagem, superaram todas as nossas expectativas.

Lançado oficialmente em outubro de 2011 pela “Simon & Schuster”, “Devoted” é coescrito por Elise Allen (a mesma de “Elixir”) e teve sua redistribuição no Brasil pela “Editora iD” (a “Editora Moderna” também é creditada nas informações autorais) um ano depois, em 2012. Com tradução de Otávio Albuquerque, o segundo volume da saga “Elixir” possui 317 páginas divididas em 28 capítulos.

Em breve estará disponível aqui no Caí da Mudança o “Vale a pena ler?” com “True: A Verdade”, a obra que encerra esta trilogia. Fique de olho para mais informações.